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terça-feira, 30 de outubro de 2012

PSICOLOGIA POSITIVA - AS BASES


“Boa saúde, felicidade familiar, paz para todos, dependem do controle e disciplina de nossa mente. Se pudermos controlar nossa mente, podemos encontrar o caminho para a Iluminação, e a sabedoria e virtude virão naturalmente.” Buda

A primeira vez que ouvi falar na coisa foi em 2002, em mais um curso oferecido aos trabalhadores do MHMRTC (a tradução fica ridícula, mas lá vai: Saúde e Retardo Mental do Condado de Tarrant), em Fort Worth, TX. Curiosa para saber que diabos os americanos tinham inventado desta vez, posto que, em minha cabeça crítica, psicologia não pode ser positiva ou negativa, sendo simplesmente o estudo do funcionamento da mente, lá me fui. E fui fisgada, engoli a isca com anzol, linha e tudo.
Para alguém que passou a maior parte de sua vida adulta trabalhando e estudando o pior do que o cérebro pode produzir, falo de esquizofrenia, dependências, distúrbios de personalidade e afins, a proposta desse novo ramo é um alento. Vão entender porque, ao lerem.
Martin Seligman e Mihaly Czikszentmihalhy (e nem tento pronunciar esse nome), os pais desse novo conceito, em 1998, sumarizaram a coisa da seguinte forma: "Acreditamos que uma psicologia positiva do funcionamento humano possa desenvolver intervenções científicas eficazes para construir pessoas, famílias e comunidades mais prósperas, produtivas e pacíficas”. E isso para mim, é bom demais.
Os seguidores da psicologia positiva têm como função “procurar, encontrar e cultivar gênio e talento, tornando a vida de todos os dias mais gratificante, ao invés de apenas tratar doenças mentais”.
E se isso não se chama PREVENÇÃO da mais alta qualidade, então não sei o que é.
Este ramo da psicologia pretende complementar, e não ignorar todo o resto. Não quer ignorar o porquê as coisas não funcionam ou funcionam mal, o que quer é usar o método científico para determinar como as coisas podem funcionar bem, e como cada um de nós pode treinar ou retreinar seu cérebro para o melhor funcionamento possível, dentro de diferentes circunstâncias. E, falou em treinamento do cérebro, tô lá na fila do gargarejo, querendo saber como.
Os pesquisadores da área analisam coisas como estados de prazer ou de fluxo, valores, pontos fortes, virtudes, talentos, assim como as formas pelas quais todas elas podem ser promovidas por sistemas e instituições sociais.
O campo se constrói em cima de 4 alicerces:
1-Experiências Positivas
2-Traços Psicológicos Persistentes
3-Relações Positivas
4-Instituições Positivas
Na realidade, as ideias condensadas na psicologia positiva vem sendo comentadas, em diferentes campos, desde há centenas e centenas de anos, e a base vem da psicologia humanista, de Maslow, Roger e Fromm.
Histórica e religiosamente, felicidade é um tema constante, e vou dar só alguns exemplos:
O Judaísmo e Cristianismo têm uma teoria da ordem divina para sermos felizes, onde felicidade é alcançada, ou vivida, se vividos forem os mandamentos do divino.
O Cristianismo, na idade das trevas (que não à toa tem esse nome), introduziu o conceito de que a verdadeira felicidade só poderia ser alcançada na outra vida, a que vem após a morte (na minha opinião, brilhante, embora cruel, forma de manipulação das massas). Por outro lado, os 7 Pecados Capitais são uma descrição fantástica de auto indulgência e narcisismo, e as 4 Virtudes Cardeais são o que, teoricamente, nos salvam do pecado ou infelicidade (pois é, uma garota pode sair do Colégio Bom Conselho, mas obviamente o Bom Conselho não sai dela).
Já os filósofos gregos, e Sócrates foi o pai dessa ideia, debatiam que felicidade é consequência do autoconhecimento (lembrem-se da inscrição no Templo de Delfos, e que Freud retomou: “Conhece-te a ti mesmo”).
Os epicureus achavam que felicidade é a curtição dos prazeres simples.
Os estoicos acreditavam que felicidade é o ser objetivo e razoável, e descreveram muitos "exercícios espirituais", que podem ser comparados com os exercícios psicológicos empregados em Terapia Comportamental Cognitiva e Psicologia Positiva.
Na Renascença e Iluminismo, o individualismo passou a ser valorizado, pois os indivíduos criativos começaram a ganhar prestígio, sendo considerados artistas, não apenas artesãos.
Filósofos, como John Stuart Mill, acreditavam que ações morais são aquelas que maximizam a felicidade para o maior número de pessoas, sugerindo que uma ciência empírica da felicidade deveria ser usada para determinar quais ações são morais (ciência da moral). Foi com base nessa filosofia que meu nonno me explicou, nos meus confusos 7 anos de idade, que diabos era pecado: “Tudo de ruim que você fizer contra você mesma, as pessoas e animais em geral, e o mundo onde você vive”.

Thomas Jefferson e outros proponentes da democracia acreditavam que “A Vida, A Liberdade e a Busca da Felicidade” são direitos inalienáveis, e que a supressão de qualquer um deles justifica a derrubada de um governo.
Os românticos valorizaram a expressão emocional individual, procurando pelo "verdadeiro eu", que achavam era impedido pelas normas sociais. Foi quando o amor e a intimidade se tornaram as principais motivações para o casamento (isso discutiria por dias, mas aqui não é o momento).
Há muitos outros autores que mereceriam serem citados, mas como este não é um tratado de filosofia, até mesmo porque me falta o conhecimento na área, vamos em frente.
Como vimos, “felicidade” abrange muitos e diferentes fenômenos mentais, e pelo visto, cada um de nós tem sua própria definição. Mais ou menos todos os que se propuseram a fazer escalas para medir o grau de felicidade pessoal ou de uma sociedade receberam críticas enormes de todos os lados, devido ao empirismo de base. Mas, como quem espera sempre alcança, pelo menos era o que dizia minha avó, eis que os avanços das neurociências vêm em nosso auxílio, e, através da neuroimagem e outras técnicas, têm demonstrado as diferenças entre cérebros “felizes” e “tristes”.
Erick Kandel descreveu como a depressão pode ser precisamente diagnosticada, só olhando para exames cerebrais de ressonância magnética funcional. A ideia é que, através da identificação de correlatos neurais para as emoções, num futuro muito próximo, seremos capazes de também descobrir como funcionam os “cérebros felizes”.
A psicologia evolutiva oferece uma abordagem alternativa para entender o que é felicidade e o que vem a ser “qualidade de vida”, pesquisando os funcionamentos cerebrais que nos permitem distinguir entre estados mentais positivos e negativos, e como essas funções melhoram nossa capacidade de sobrevivência e reprodução. A meta é entender exatamente o que vem a ser felicidade e, consequentemente, melhorar as capacidades cerebrais que nos permitam vivenciá-la. Esta perspectiva é formalmente apresentada no livro “Darwinian Happines” (Felicidade Darwiniana), do biólogo evolucionário Bjørn Grinde.
Os achados mais interessantes até o momento foram, por tópico:

Idade
Com exceção da crise de meia idade (entre 40 e 50 anos), as pessoas se tornam mais felizes à medida que envelhecem, pois:
- Emoções de raiva e stress tendem a declinar depois dos 40..
- A preocupação diminui depois dos 50, enquanto o prazer pelas pequenas coisas tende a subir.
(A palavra operativa é “tende”)

As razões para essas tendências vão desde uma maior consciência de nós mesmos e nossas preferências; uma maior capacidade de controlar desejos e manter expectativas mais realistas (a proximidade da morte pode motivar a busca de novas metas); e melhores habilidades sociais, como o perdão, levam anos para serem desenvolvidas. Fato é que as pessoas mais felizes vivem mais tempo, e, embora idosos tenham mais problemas de saúde, têm menos problemas de forma geral.
Adultos jovens tendem a apresentar mais raiva, ansiedade, depressão, problemas financeiros, problemas de relacionamentos e estresse relacionado à carreira.
Os pesquisadores sugerem que depressão nos idosos está geralmente relacionada à passividade e inação, portanto é altamente recomendado que as pessoas continuem fazendo o que gostam de fazer, mesmo na mais avançada das idades.

Dinheiro

Dinheiro faz uma diferença enorme para os pobres (sendo definido como “pobre” qualquer pessoa que não tenha ainda alcançado o preenchimento de suas necessidades básicas, que são: comida, água, abrigo, vestuário, educação e saúde básicas, mas sua influência diminui drasticamente uma vez que a “classe média” é alcançada (Paradoxo de Easterlin).
A riqueza de uma nação está fortemente correlacionada com satisfação com a vida de seus habitantes, mas a correlação entre dinheiro e bem estar emocional é fraca. Prova disso está na lista dos países considerados mais felizes – Dados da OMS - (10 - Suécia, 9 - Canada, 8 - Austrália, 7 -Finlândia, 6 - Israel, 5 - Áustria, 4 - Suíça, 3 - Holanda, 2 - Noruega ,1 - Dinamarca), os quais, como se sabe, são países altamente socializados, onde a disparidade econômica entre seus cidadão é muito pequena, em concordância com as pesquisas que vêm demonstrando que as nações são mais felizes quando as necessidades das pessoas são atendidas.
Já no campo individual, parece que as pessoas se sentem mais felizes quando gastam dinheiro em experiências, tipo viagens, ajuda a outros, do que quando compram coisas.


Educação e Inteligência.

As pesquisas sugerem que uma boa educação é o que aumenta a felicidade, e não um QI elevado.
Martin Seligman disse: “Como professor, não gosto da ideia, mas parece que as virtudes cerebrais – curiosidade, amor pelo aprendizado, são menos ligadas à felicidade do que as virtudes intrapessoais de gratidão, bondade e capacidade para o amor”.

“Felicidade é quando o que você pensa, diz e faz estão em harmonia.” Gandhi

Nesta primeira parte, fizemos um enorme resumo das teorias da felicidade na filosofia, religião e sociologia, e suas conexões com nossa vida do dia a dia. Nos próximos, veremos outras correlações, e as possibilidades de felicidade ser ensinada e aprendida, como forma de Prevenção.

NA

7 pecados capitais: Ganância – Gula - Inveja – Ira – Luxúria – Orgulho - Preguiça.

Virtudes Cardeais: Fortitude ou Coragem - Justiça – Prudência – Temperança.

Abraham Harold Maslow (1 Abril 1908 – 8 Junho 1970). Psicólogo Americano, criador da Hierarquia das Necessidades, que é uma teoria de autoatualização. Achava que era mais importante focar nas qualidades positivas das pessoas, do que tratá-las como “um pacote de sintomas”.

Bjørn Grinde,(3 Julho 1952)biólogo, professor da Universidade de Oslo. Trabalha com genética e evolução, e tem como meta usar a psicologia evolucionaria para melhorar saúde e qualidade de vida no planeta.

Carl Ransom Rogers (8 Janeiro 1902 – 4 Fevereiro1987). Psicólogo Americano, um dos fundadores da abordagem humanista da psicologia (abordagem centrada na pessoa), e é também considerado pioneiro da pesquisa em psicoterapia.

Erich Seligmann Fromm (23 Março1900 – 18 Março 1980) Psicólogo, psicanalista, sociólogo, filósofo humanista, associado à Escola de Frankfurt de teoria crítica.

Eric Richard Kandel (7 Novembro 1929) neuropisquiátra, vencedor do Nobel 2000 em Fisiologia e Medicina, pelas suas pesquisas sobre o armazenamento da memória em neurônios. É professor de bioquímica e biofísica no Colégio de Medicina da Universidade de Columbia.

John Stuart Mill (20 Maio 1806 – 8 Maio1873) filósofo e economista inglês. É considerado o filósofo mais influente do séc.XIX, com suas concepções sobre liberdade. Um dos grandes propositores do Utilitarismo, teoria da ética proposta por Jeremy Bentham.

Paradoxo de Easterlin: Um dos conceitos básicos na Teoria da Felicidade em Economia, proposta pelo professor de economia da USC, Richard Easterlin, que discutiu os fatores que contribuem para a felicidade no artigo: “O desenvolvimento econômico melhora a vida dos humanos? Algumas evidências empíricas”, no qual, pela primeira vez foi discutida a correlação entre riqueza, necessidades básicas e felicidade.

Thomas Jefferson (13 Abril 1743 – 4 Julho 1826) foi o principal autor da Declaração da Independência dos americanos (1776) e o terceiro presidente dos EUA (1801-1809).

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