segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

TEMOS OS MEIOS MAS A VONTADE É FRACA

E lá vamos nós de novo. Só estamos na metade de fevereiro, e já temos 19 tiroteios em massa. Desta vez, na Marjory Stoneman Douglas High School, onde Nikolas Cruz, 19 anos, armado com um rifle semi automático AR-15, matou 17 e feriu seriamente outros tantos. (Pelas medidas de Everytown’s, esse ano tivemos um tiroteio a cada dois dias e meio. Segundo medidas mais estritas, só tivemos 7 em um mes e meio, o que só dá cerca de um e meio por semana-Washington Post)

O que se sabe sobre o rapaz:

Adotado por Lydia Cruz, que morreu em Novembro de 2017
Expulso de 2 escolas particulares, por genéricos problemas de “comportamento”
Oficiais de policia do condado, foram chamados, na casa do rapaz, 39 vezes, desde 2010
Um vizinho reportou que o rapaz não só tinha armas em casa, como regularmente praticava tiro ao alvo na vizinhança.
Esteve em algum tipo de tratamento psiquiatrico, mas ninguém sabe bem por quanto tempo ou por que.
Na mídia social, postou no Instagram fotos de um rifle e várias ármas em cima da cama, na casa da família onde foi morar depois da morte da mãe adotiva.
Além disso, escreveu post tão assustadores, que foi reportado ao FBI
Na mesma mídia, além de postar insultos contra muçulmanos e negros, tinha ligações com grupos de supremacistas brancos, e deixou claro que queria se tornar um “atirador de escolas professional”, além de atestar que “iria atirar nas pessoas com seu AR-15, principalmente policiais e grupos anti-fascismo.

Embora imaterial, nessa altura do campeonato, poderiamos perguntar se este foi um pedido de ajuda ou o ato de um "psicopata nato".

O fato é que, aos 19 anos de idade, enquanto para ele fosse proibido comprar uma latinha de cerveja, e apesar de toda a turbulência, tristeza e confusão em sua vida, pode, legalmente, comprar uma arma de alto caliber,projetada para a guerra.

Este é um fracasso em vários níveis, mas primeiro, temos que responder a duas questões fundamentais;

1-Como podemos evitar mais mortes sem sentido?

2-Qual a relação entre violência e doença mental? Que tipo de doença mental deixa a pessoa mais vulnerável às sugestões de grupos violentos e extremistas?

Em 1996, foi votada aqui uma emenda, chamada de Emenda Dickey, que especificamente proibe o CDC e qualquer outra entidade governamental de pesquisa, de pesquisar sobre violência armada. Ponto. Acabou toda a pesquisa na área. O lógico no momento, seria apagar tal emenda, e permitir a pesquisa, porque, sem dados confiaveis, nunca que vamos entender a base do problema, e portanto, desenhar uma solução. Mark L. Rosenberg, diretor fundador do Centro Nacional de Prevenção e Controle de Ferimentos do CDC, advertiu que "estamos pedindo aos legisladores que tomem decisões sem dados, precisamos encontrar coisas que funcionem tanto para reduzir a violência por armas, tanto quanto para proteger os direitos das mesmas. O CDC abriga a maior coleção de profissionais de prevenção de violência de qualquer lugar do mundo. A pesquisa de segurança automobilística salvou mais de 1/3 de milhão de vidas , sem proibir carros, e os investimentos em pesquisa de prevenção de violência com armas de fogo através do CDC podem produzir resultados que são tão ou mais impressionantes".

Sem uma avaliação sóbria sobre os fenômenos de assassinatos em massa dos EUA, a reação reflexa habitual sempre apontará para a "saúde mental" como a principal causa dessa atrocidade.

A saúde mental contribui para esta tragédia muito menos do que o que poderia ser considerada a raiz do problema. Seja qual fosse o estado de espírito no momento da atrocidade, as vítimas estariam vivas hoje, se Cruz não tivesse acesso a uma arma de fogo.

Por definição, saúde mental é uma condição que descreve o bem-estar psicológico e emocional das pessoas. Este enorme campo possui muitas variáveis quase impossíveis de definir.

Toda decisão, cada ação de cada pessoa no mundo está associada à "saúde mental" de cada um de nós.
Todos nós somos afetados.
É um reflexo dos desenvolvimentos físicos, sociais, culturais, educacionais e genéticos pelos quais todos nós navegamos ao longo de nossas vidas.
Isso afeta nossa propensão para lidar com os estresses da vida, as decisões que tomamos ... e as que não . É quem somos e o que somos.

Verificações completas de antecedentes?
Sem dúvida alguma ... mas essas verificações devem incluir uma avaliação do estado mental de todos os candidatos .

Felizmente, esse teste de avaliação foi desenvolvido nos Estados Unidos há quase um século.
Conhecido como o MMPI (Minnesota Multiphasic Personality Inventory), esta avaliação mostraria os traços de personalidade dos candidatos à possessão de uma arma, mostrando a possibilidade de tê-la, ou não.
(Veja o que é o MMPI no final)

2. Qual é a relação entre violência e doença mental? Que tipo de doença mental torna a pessoa mais vulnerável às sugestões, propaganda e desinformação de grupos violentos e extremistas?

Os doentes mentais são mais propensos a se tornarem vítimas de violência e não agressores. Além disso, também são propensos a sucumbir a qualquer tipo de radicalização, ou seita que os faça sentir "pertencendo" ... que é uma das necessidades humanas básicas.
Se alguém se sente mal colocado na vida, particularmente se for adolescente, ele ou ela encontrará uma organização radical que os fará sentir em casa.
Nossas emoções, nosso julgamento, instintos; nossas habilidades de tomada de decisão e nossa percepção de consequências a longo prazo não estão totalmente desenvolvidas em adolescentes e adultos jovens.

E é por isso que nosso ambiente, cultura e educação são tão importantes, particularmente durante os nossos anos formativos.
É por isso que a desinformação, propaganda e mentiras difundidas publicamente e usadas sob o disfarce de "liberdade de expressão" são tão perigosas.
A violência na sociedade reflete uma cultura violenta.

Na firme convicção que, se tenho que me submeter a vários testes para provar que posso dirigir um automóvel, então certamente preciso fazer exames para determinar minha adequação para carregar uma arma.

MMPI Explicado
10 ESCALAS SUBCLINICAS:
1-Hipocondria (Hs): Mostra grande variedade de queixas vagas e inespecíficas sobre o funcionamento corporal, que tendem a se concentrar no abdômen e nas costas, e persistem apesar de testes médicos negativos. Contém 32 itens.
2-Depressão (D): Mede a depressão clínica, caracterizada por moral baixa, falta de esperança no futuro e uma insatisfação geral com a vida. Ccontém 57 itens.
3-Histeria (Hy): Mede principalmente cinco components: má saúde física, timidez, cinismo, dores de cabeça e neuroticismo. Contém 60 itens.
4-Desvio Psicopata (Pd): Mede o desajuste social geral e a ausência de experiências fortemente agradáveis. Os itens desta escala abordam queixas sobre figuras familiares e de autoridade em geral, alienação pessoal, alienação social e tédio. Contém 50 itens.
5-Masculinidade / Feminilidade (Mf): Mede interesses em vocações e passatempos, preferências estéticas, atividade-passividade e sensibilidade pessoal. Também mede, num sentido geral, o quão rígida é uma pessoa em conformidade com papéis masculinos ou femininos estereotipados. Contém 56 itens.
6-Paranóia (Pa) : Mede principalmente a sensibilidade interpessoal, auto-justiça moral e suspeita. Alguns dos itens usados para marcar esta escala definem critérios de psicose, onde há pensamentos paranóicos e delirantes. Tem 40 itens.
7-Psychasthenia (Pt) - Destina-se a medir a incapacidade de uma pessoa de resistir a ações ou pensamentos específicos, independentemente de sua natureza inadaptada. A "psicastenia" é um termo antigo usado para descrever o que chamamos transtorno obsessivo compulsivo (TOC), ou o ter pensamentos e comportamentos obsessivo compulsivos. Também abrange os medos anormais, as autocríticas, as dificuldades de concentração e os sentimentos de culpa. Contém 48 itens.
8-Esquizofrenia (Sc): Mede pensamentos estranhos, percepções peculiares, alienação social, relações familiares precárias, dificuldades de concentração e controle de impulsos, falta de interesses profundos, questões perturbadoras de auto-estima e auto-identidade e dificuldades sexuais . Tem 78 itens (é a maior das escalas no teste)
9-Hipomania (Ma) : Mede graus de excitação mais leves, caracterizados por um humor exaltado, instável, alterações psicomotoras (por exemplo, mãos trêmulas) e vôo de idéias (por exemplo, saltar de uma idéia a outra sem completer nenhuma). Também mede hiperatividade ( tanto comportamental quanto cognitivamente) grandiosidade, irritabilidade e egocentrismo. Contém 46 itens.
10-Introversão social (Si) : Mede a introversão e extroversão social.de Uma pessoa que é introvertida socialmente, sente-se inconfortavel em interações sociais e normalmente se retira de tais interações sempre que possível. Eles podem ter habilidades sociais limitadas, ou simplesmente preferem estar sozinhos ou com um pequeno grupo de amigos. Tem 69 itens.

AS 4 ESCALAS DE VALIDADE
1-Mentira (L): Destina-se a identificar indivíduos que deliberadamente tentam evitar responder ao teste honestamente e de forma franca. Mede atitudes e práticas culturalmente louváveis, mas raramente encontradas na maioria das pessoas, ou seja, os que as pessoas criam esses itens estão muitas vezes tentando parecer melhores do que realmente são (ou que alguém é). Contém 15 itens.
2-F :destina-se a detectar formas incomuns ou atípicas de responder aos itens de teste. Se uma pessoa responde incorretamente a muitos itens de escala F e Fb, isso invalida todo o teste. Ao contrário de algumas descrições da escala, os itens da escala F são espalhados durante todo o teste. Contém 60 itens
3-Retorno F (Fb): Mede os mesmos problemas que a escala F, mas somente durante a última metade do teste. Tem 40 itens.
4-K :Projetada para identificar psicopatologia em pessoas que, de outra forma, teriam perfis dentro do intervalo normal. Mede o autocontrole, e as relações familiares e interpessoais, e as pessoas que tem alto índice nesta escala são muitas vezes vistas como defensivas. Contém 30 itens.

WE HAVE THE MEANS, BUT THE WILL IS WEAK.

And here we go again… Six weeks into a new year, ‘Business Insider’ referencing the nonprofit, “Gun Violence Archive' reports that we’ve already suffered 30 mass shootings in our nation since the 1st of the year, adding to over 1,800 deaths associated with gun violence in 2018. (By Everytown’s standard, there has been a shooting every 2.5 days this year. Using a stricter standard, there have been at least seven school shootings in 2018 — more than one each week- Washington Post)

Approximately 33,000 Americans will die from gunshot wounds this year, as they do every year.

Marjory Stoneman Douglas High School is the most recent mass shooting event, where Nikolas Cruz, 19, armed with an AR15 semi-automatic rifle, killed 17 people and seriously injured just as many more.
And yet again, as if to cloud the root cause and tragedy of the event the discussion of mental health immediately jumped into the media and political spotlight.

What we know about Nikolas Cruz:

•Adopted by Lydia Cruz, who died in November 2017.
•Expelled from 2 private schools for generic problems of "behavior"
•County police officers had been called to the Nikolas Cruz home 39 times since 2010.
•A neighbor reported that Nikolas not only had guns at home but regularly practiced target shooting in the neighborhood.
•People within his orbit believed that Nikolas had received some sort of psychiatric treatment, but no one knew for sure for how long or for what reason.
•On social media, he'd posted photos of a rifle and various other weapons laying on his bed in the home of the family where he lived following the recent death of his adoptive mother.
•Additionally, insulting posts targeting Blacks and Muslims; Connections with groups of apparent white supremacists made it clear he wanted to become a "’professional school shooter’, openly broadcasting his intent to target police and anti-fascist groups with his AR-15 rifle.
•He’d written such telling posts so worry-some that the FIB had been alerted.

While immaterial, people may ask if this was a cry for help or the act of a ‘natural born psychopath’.

The fact is, that at 19 years of age, while he wasn’t allowed to buy alcohol, and despite all the turmoil, upset and confusion recorded in this young man’s life, he was allowed to legally purchase a killing weapon designed for warfare.

This is a failure on many levels, but first, we should ask two fundamental questions;

1.Can we avoid more senseless deaths?

The answer is yes.

Following intensive lobby by the NRA in 1996, a constitutional amendment was passed by the then Congress, called the Dickey Amendment. This amendment specifically prohibits the CDC, (Center for Disease Control) or any other governmental research entity from using government funds for any purpose associated with the advocacy of gun control.
This amendment effectively stopped all research on this subject.

This amendment must be erased to allow meaningful research into the effects of civilians having access to weaponry designed for mass killing and war.

In support of CDC research into gun safety, Mark L. Rosenberg, founding director of the CDC's National Center for Injury Prevention and Control, commented that if the CDC can save hundreds of thousands of American lives through the introduction of meaningful automobile safety changes, then similarly striking results can be achieved through common sense gun safety.

Without sober assessment into the phenomena of US mass killings, the usual knee-jerk reaction will always point to ‘mental health’ as the primary cause of this atrocity.

Mental health contributes to this tragedy much less than what might be considered root cause. Whatever his state of mind at the time of the atrocity, the victims would be alive today had Cruz not had access to a firearm.

By definition Mental health is a condition describing a person psychological and emotional well being. This enormous field has many variables that are almost impossible to define.

Every decision, every action by every person in the world is associated with the ‘mental health' of each and every one of us.

We’re all affected. it’s a reflection of the physical, social, cultural, educational and genetic developments we all navigate throughout our lifetimes.

It affects our propensity to deal with life’s stresses, the decisions we make.. and the ones we don’t. It’s who we are.
Comprehensive background checks?

Absolutely… but such checks must include an evaluation of all applicants mental state.
Fortunately, such an assessment test was developed in the United States almost a century ago.
Known as the MMPI, (Minnesota Multiphasic Personality Inventory) this assessment would highlight a gun applicants personality traits, psychopathology, and highlight the applicants' suitability to bear arms.

(See what the MMPI assessment test covers at the end of this post)

2.What is the relationship between violence and mental illness? What kind of mental illness makes a person more vulnerable to the suggestions, propaganda, and misinformation of violent and extremist groups?

Mentally ill people are more prone to become the victim of violence rather than the perpetrator. In addition, mentally ill people are also prone to succumb to any kind of radicalization or sect that makes them feel like they ‘belong'… which is one of the basic human needs.
If somebody feels misplaced in life, particularly if as a teenager, he or she will find some radical organization that will make them feel at home.

Our emotions, our judgment, instincts; Our decision-making abilities and our awareness of long-term consequence are not fully developed in teenagers and young adults.

It’s why our environment, our culture, and our education is so important, particularly during our formative years.

It’s why misinformation, propaganda and lies publically broadcast and used under the guise of ‘free speech' are so dangerous.

Violence in society mirrors a violent culture.

In the firm belief, that if I must undergo several tests to prove that I can drive an automobile, then I surely need to undergo tests to determine my suitability to carry a weapon of war.

We're not forfeiting our freedoms, simply ensuring that our freedoms cannot be weaponized against us.

MMPI (Explained)

It’s mainly intended to test people suspected of having any mental health problems.
It’s designed with 10 clinical scales that evaluate 10 major categories of abnormal human behavior and four validity scales, which assess the person's overall attitude and whether they answered the items in the test truthfully and accurately.
In summary, it works like this:

10 SUBCLINICAL SCALES:


1- Hypochondria (Hs): Shows a wide variety of vague and nonspecific complaints about bodily functioning, which tend to focus on the abdomen and back, and persist despite negative medical tests.
2- Depression (D): Measures clinical depression, characterized by low morale, lack of hope in the future, and general dissatisfaction with life. Contains 57 items.
3- Hysteria (Hy): It mainly measures five components: poor physical health, shyness, cynicism, headaches, and neuroticism.
4- Deviation Psychopath (Pd): It measures the general social maladjustment and the absence of strongly pleasant experiences. The items on this scale address complaints about family figures and authority in general, personal alienation, social alienation, and boredom.
5- Masculinity / Femininity (Mf): Measures interests in vocations and hobbies, aesthetic preferences, activity-passivity and personal sensitivity. It also measures, in a general sense, how rigid a person is in accordance with stereotyped masculine or feminine roles.
6- Paranoia (Pa): It mainly measures interpersonal sensitivity, moral self-righteousness, and suspicion. Some of the items used to mark this scale define criteria for psychosis, where there are paranoid and delusional thoughts.
7- Psychasthenia (Pt): It is intended to measure a person's inability to resist specific actions or thoughts, regardless of their maladaptive nature. "Psychasthenia" is an old term used to describe what we call obsessive-compulsive disorder (OCD), or to have obsessive-compulsive thoughts and behaviors. It also covers abnormal fears, self-criticisms, concentration difficulties, and feelings of guilt.
8 - Schizophrenia (Sc): Measures strange thoughts, peculiar perceptions, social alienation, precarious family relations, difficulties of concentration and control of impulses, lack of deep interests, disturbing questions of self-esteem and self-identity and sexual difficulties.
9 - Hypomania (Ma): Measures milder degrees of arousal, characterized by exalted mood, unstable mood, psychomotor changes (e.g. trembling hands) and flight of ideas (e.g. jumping from one idea to another without complete any one). It also measures hyperactivity (both behaviorally and cognitively) grandiosity, irritability, and egocentricity.
10- Social Introversion (Si): Measures introversion and social extroversion. A person who is socially introverted feels uncomfortable in social interactions and usually withdraws from such interaction whenever possible. They may have limited social skills, or simply prefer to be alone or with a small group of friends.

THE 4 VALIDITY SCALES

1- Lie (L): It is intended to identify individuals who deliberately try to avoid responding to the test honestly and frankly. It measures culturally laudable attitudes and practices, but rarely found in most people, that is, people who create these items are often trying to look better than they really are (or who they are).
2- F: is intended to detect unusual or atypical ways of responding to test items. If a person incorrectly responds to many F and Fb scale items, this invalidates the entire test. Unlike some descriptions of the scale, the F-scale items are scattered throughout the test.
3- Return F (Fb): Measures the same problems as the F-scale, but only during the last half of the test.
4- K: Designed to identify psychopathology in people who otherwise would have profiles within the normal range. It measures self-control, and family and interpersonal relationships, and people who have high scores on this scale are often seen as defensive.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

PORQUE A DEFINIÇÃO DE DROGADEPENDÊNCIA CAUSA MAIS MALEFÍCIOS DO QUE BENEFÍCIOS



Interessante e propícia avaliação das dependências. Artigo original abaixo.

ARTIGO ORIGINAL CLIQUE AQUI

"Ao longo do ano passado, a Scientific American publicou uma série de artigos argumentando que vício não é uma doença, que as drogas não são a causa do vício e que fatores sociais e familiares são contribuintes fundamentais para o vício de opióides em geral e a crise de overdoses em particular. A visão dominante, de que o vício é uma doença resultante do uso de drogas, está sendo gradualmente corroída por essas e outras críticas incisivas. No entanto, o modelo de doença e seus corolários ainda prevalecem nos domínios da pesquisa, da definição de políticas, na disseminação do conhecimento e nas formas tratamento, mais nos Estados Unidos do que em qualquer outro lugar do mundo desenvolvido.

Você pode se perguntar: o que estamos esperando?

O modelo de doença continua dominante nos EUA por causa de seus acionistas (partes interessadas). Em primeiro lugar, a indústria de reabilitação, com um valor estimado de US $ 35 bilhões por ano, usa a nomenclatura da doença na grande maioria de seus anúncios e slogans. Apesar de taxas de sucesso consistentemente baixas, não é provável que isso mude, porque é o que puxa o dinheiro.
Em segundo lugar, desde que o vício seja rotulado como uma doença, os provedores de seguro médico são obrigados a pagar por isso.
É claro que o fazem da forma mais barata possível, em detrimento da qualidade do serviço, mas, pelo menos, salvam os governos dos verdadeiros custos de lidar com o vício através da educação, apoio social, iniciativas de emprego e mecanismos contra a pobreza.
Em terceiro lugar, o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (NIDA), parte dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), que financia aproximadamente 90% das pesquisas de dependência, é um financiador e orientador de políticas, assim como a American Society of Addiction Medicine e outros corpos semelhantes.

Para essas organizações, confessar que o vício não é realmente uma doença equivaleria a admitir que não estão em condições de enfrentá-la, o que seria uma forma de suicídio institucional. E, finalmente, existem as famílias dos adictos, muitas das quais gostam da idéia de que o vício é uma doença porque isso implica que seus entes queridos não são pessoas ruins, afinal.

O meu próprio papel na controvérsia foi manter uma série de argumentos contra o modelo de dependência, em livros, na imprensa e na internet, principalmente por motivos científicos.
Como neurocientista, sou capaz de mostrar por que a mudança do cérebro, seja em geral, seja especificamente no núcleo estriado (o núcleo motivacional),não é igual a patologia ou doença.
E, como psicólogo do desenvolvimento (meu outro lado), destaquei o papel da aprendizagem na mudança cerebral (ou neuroplasticidade) e reinterpretei as descobertas do NIDA em termos de hábitos de pensamento e ação, profundamente arraigados.
Ambos os argumentos são apresentados com algum detalhe aqui.

Mas por que a definição de dependência é importante? Não é apenas um jogo de palavras?

As definições nos apontam para estratégias de investigação, incluindo pesquisas formais, pesquisa de pesquisa, estudos de caso e assim por diante. Se o vício é uma doença, então devemos olhar para mecanismos celulares, exames de ressonância magnética e outras técnicas de imagens cerebrais, e esta é exatamente a política que NIDA seguiu há anos. Na verdade, é a política que o NIH implementou em sua abordagem para todos os problemas psiquiátricos e psicológicos.
Cerca de 10 anos atrás, os requerentes de concessão do NIH foram informados de que eles deveriam incluir métodos neuroscientíficos em suas propostas se quisessem algum dinheiro.
Não que tenha algo contra a neurociência, que foi o foco principal da minha carreira de pesquisa há anos. Mas,os pesquisadores que não estão na neurociência foram ignorados, e isso não é bom.
Como recentemente dito por Eiko Fried, "apesar de muitas décadas de consideráveis esforços de pesquisa para descobrir mecanismos biológicos subjacentes, não identificamos marcadores específicos e confiáveis para muitos dos transtornos mentais mais prevalentes".
Assim, a tendência atual de rotular os problemas psiquiátricos como problemas cerebrais obstruiu outros canais de investigação que poderiam ser extremamente valiosos. Isso tem sido particularmente infeliz para os pesquisadores de vícios que querem investigar as raízes sociais, psicológicas e sociais do mesmo. Apesar dos sinais claramente apontarem para a importância desses determinantes, tais pesquisas não são financiadas, ou são fracamente sub financiadas, e assim, permanecemos distantes de um entendimento abrangente.

Definições não são apenas estratégias diretas para aquisição de conhecimento, como também são ricas de implicações e conotações.
Como mencionei, famílias de adictos (bem como alguma proporção de viciados em si) recebem a definição da doença porque parece absolver os viciados de culpa.
De fato, o NIDA promoveu consistentemente a definição da doença como uma benção para os adictos que, historicamente, foram retratados como deficientes morais. Se eles têm uma doença, seus comportamentos viciantes não são culpa deles e não devem ser estigmatizados. Todos sabem que a vergonha, a alienação e o castigo agravam a necessidade de alívio, que muitas vezes equivale a um uso adicional de drogas. Portanto, é importante perguntar se o rótulo da doença reduziu com sucesso a estigmatização.

Na verdade, a definição da doença substitui um tipo de estigmatização por outra. O movimento de antipsiquiatria há muito argumentou que o idioma da "doença mental" dói mais do que ajuda aqueles com problemas emocionais, porque alimenta a discriminação e a alienação. Se o vício é uma doença, os adictos são, por definição, doentes mentais.
E, de fato, os estudiosos do vício apontam que a definição da doença promove uma divisão entre "nós" e "eles".
Em contraste, uma maneira mais humanista de conceituar o vício destaca a conexão com os outros como um componente crucial da recuperação.
Assim, o estigma da "doença" pode ser letal. De fato, o estigma moral do vício pode ser revertido por abstinência ou pelo menos, por seu uso controlado, o que mostra que o problema foi superado,de uma maneira ou de outra. O estigma de ter tido a doença do vício implica que não se deve confiar, agora ou nunca, em alguém que se drogou. Infelizmente, este ethos ainda justifica a forma como benefícios governamentais, benefícios médicos e oportunidades de emprego são muitas vezes negados a qualquer pessoa que tenha sido rotulada de viciada.

Ver o vício como patologia tem outros detrimentos mais diretos. Se achamos que o vício é resultado de uma patologia subjacente, como é implícito no modelo de doença cerebral, e se essa patologia é crônica, como ressalta tanto o NIDA como o movimento de 12 passos, então se estará menos propenso a acreditar que alguém pode se livrar da coisa, ou que a recuperação possa resultar de seus próprios esforços.
Esta caracterização do vício vai na contamão do que mostram as pesquisas, as quais indicam que uma grande maioria dos adictos a qualquer substância ou comportamento, de fato, se recupera, e a maioria dos que se recuperam faz isso sem cuidados profissionais.
Também contesta a percepção de muitos adictos de que, uma vez superado o vício, dele estão livres e não precisam mais se identificar como "em recuperação" ou, em termos médicos mais convencionais, temporariamente em remissão.
Conforme concluído por uma meta-análise recente, "explicações biogenéticas para problemas psicológicos induzem pessimismo quanto ao prognóstico e estereótipos negativos em relação à sua periculosidade". Em outras palavras, a própria fé dos viciados em sua recuperação e a confiança daqueles ao seu redor são prejudicadas pela definição da doença.

É importante reconhecer que a dependência de drogas é uma questão médica, como enfatizou Maia Szalavitz no Scientific American e em outros lugares. Mas a maioria dos vícios não induzem dependência de drogas, enquanto muitos medicamentos prescritos o fazem. Assim, a retirada (ou manutenção) de antidepressivos, beta bloqueadores e opiáceos requer atenção médica. A cessação de cocaína, metanfetamina, pornografia, jogos de azar e excessos não.

Se pararmos de confundir vício com patologia, podemos focar muito mais claramente nas necessidades específicas de indivíduos específicos. Isso é uma grande vantagem a respeito de enfiar tudo num modelo único, que acaba por não caber em ninguém."

Marc Lewis é neurocientista e professor emérito de psicologia do desenvolvimento na Universidade de Toronto, atualmente escrevendo e falando sobre a ciência e a experiência do vício. Seu último livro é The Biology of Desire: Why Addiction is Not a Disease(A biologia do desejo: Por que o vício não é uma doença)