segunda-feira, 3 de setembro de 2018

POR ISSO EU SOU VINGATIVA…LÁ LÁ LÁ

E a música das Frenéticas virou estudo científico.

Não sei se devido aos tempos polarizados e estranhos em que vivemos, mas o fato é que estudos a respeito de vingança e perdão abundam nas áreas das neurociências. Quem nunca perdeu uns minutos de vida, ruminando sobre o que gostaria de fazer a um desafeto? De minha parte, tenho uma longa lista de atitudes que adoraria colocar em prática com certos indivíduos inominados, quando enjaulam crianças ou estimulam violência, ou espalham desinformação descarada. E não, nenhuma delas implica em violência física, morte ou destruição, já que acho que isso é coisa de gente sem imaginação. Pensando bem, acho que sou mais imaginativamente perversa.

Mas, vamos ao que interessa. O que acontece em nosso cérebro para que essa vontade de castigar algo ou alguém nos ataca?

Começa por termos, em nossa personalidade, uma coisa chamada “sensibilidade à justiça”, que vem a ser o como nossa consciência reage a injustiças (reais ou apenas percebidas),já que nosso cérebro não faz a menor diferença, ou como tão bem Freud explicou: “Não faz a menor diferença quando, ao ouvir um som à noite, há ou não um intruso na casa.O susto é o mesmo”. Em outras palavras, é como as nossas antenas estão sintonizadas com coisas como corrupção, desigualdade, injustiça, ou problemas no geral.

Por definição, há 4 tipos de Sensibilidade à Justiça:

1. Sensibilidade à justiça das vítima
s: é o que nos faz ficar constantemente atentos, para garantir que não nos ferremos. Essa vigilância geralmente acompanha a raiva e a tendência à vingança. É o chamado “olho por olho, dente por dente”, muito mal interpretado da lei Judaica, mas que faz com que se retribua, sem qualquer pensamento lógico, injustiças recebidas ou percebidas. Teve um caso aqui de um vizinho derramando uma pick up toda inteira de esterco no jardim da frente da casa de outro vizinho, pois o cão do vizinho estrumeado, volta e meia fazia suas necessidades no jardim do vizinho estrumeante.

2. Justiça do observador: é aquela coisa que nos faz ficar indignados ao observar outras pessoas sendo tratadas injustamente, sem estar diretamente envolvido. Um exemplo recente disso foi o clamor de protestos contra o governo americano em nome das famílias imigrantes que estavam sendo separadas na fronteira.

3. Justiça do perpetrador: é a tendência a se punir comportamentos injustos a fim de mitigar a culpa ou corrigir o problema. É o que fazemos, como sociedade, quando colocamos na cadeia os culpados de algum crime.

4. Sensibilidade de justiça beneficiária:
Quando beneficiamos outrém através de comportamentos aversivos, e o melhor exemplo que tenho é do Benedict Cumberbatch que anunciou que só vai participar de projetos nos quais suas colegas de trabalho recebam salários iguais ao seu.

A diferença importante entre todos esses tipos de sensibilidade é que, o primeiro, sensibilidade da vítima, está focado no eu, enquanto os outros tipos estão focados nos outros e, embora isso ressoe mais ou menos em diferentes pessoas, todos nós a temos. É traço inato.

Para ilustrar o inato senso de Justiça , a Universidade de Washington (artigo original na bibliografia: Fairness Expectations and Altruistic Sharing in 15-Month-Old Human Infants), usando tecnologia de rastreamento ocular, estudou crianças de 15 meses de idade, mostrando a elas um vídeo no qual duas pessoas recebiam uma distribuição desigual de leite e biscoitos, e um vídeo no qual as pessoas recebiam porções iguais . E os bebês olhar por bem mais tempo o video da distribuição desigual.A avaliação de quanto tempo os bebês se fixam em uma cena é um método comprovado para trabalhar com participantes de estudos, quando estes ainda não sabem falar. Eles olham mais quando as coisas são inesperadas, sem sentido, ou quando os eventos violam as regras da igualdade.

Mas,o senso de justiça das crianças é ainda mais complexo. Acontece que as crianças também estão sintonizadas com o conceito de salário igual para trabalho igual. Um estudo publicado na revista Psychological Science mostrou que crianças de 21 meses, ao assistirem uma cena ao vivo, na qual dois assistentes de laboratório são informados: “Se você colocar os brinquedos na caixa, ganhaum adesivo!” Aí há duas cenas: Ambos os assistentes botam o mesmo numero de brinquedos na caixa e cada um ganha um adesivo, exemplo claro de recompensa proporcional; ou, um coloca os brinquedos enquanto o outro se afasta e continua a brincar,mas,uma vez que os brinquedos são guardados, cada um recebe um adesivo, exemplo claro de recompensa desigual. Os garotos de 21 meses pareciam significativamente irritados com a recompensa desigual, descoberta que os pesquisadores interpretaram como significando que as crianças não estavam de acôrdo com o preguiçoso sendo recompensado.

Quer isso signifique que um senso de justiça já vem tatuado em nosso cérebro ou que aprendemos as regras da sociedade antes de nossos segundo aniversário, mesmo antes possamos explicar o que nos incomoda, o fato é que criancinhas podem detectar quando alguém está levando uma vantage desmerecida.

E, se isso é fato, como é que saimos do inato senso de justiça infantil e procuramos vingança?

De acordo com um estudo no Boletim de Personalidade e Psicologia Social, aqueles que buscam vingança tendem a ser menos complacentes e a refletir mais sobre a ofensa. Isso faz sentido, e tem sido descrito em prosa e verso em livros, filmes, peças de teatro e óperas, e o exemplo mais claro é Hamlet, do cara que sabia como escrever sobre sangue e vingança, velho Shakespeare.

Mas. a fixação em faltas e rejeições é desagradável e ocupa muito espaço emocional, por isso, aqueles que buscam vingança, também tendem a ter menor satisfação com a vida, o que significa que não há muita coisa boa que eles percebam estar acontecendo em suas vidas para que possam amortecer e/ou absorver o golpe de uma ofensa.

Mas tem mais. Aqueles que obtêm satisfação com vingança, tendem a sentir a ofensa muito mais negative do que garante a realidade, ou seja, já se sentem, de antemão, magoados e irritados. Esta parte é importante porque as pessoas tendem a se vingar como uma tentativa de reparar seu humor, ou seja, para se sentirem melhor. Como dá para imaginar, esse plano funciona de maneira mais eficaz naqueles que já têm uma pitada de sadismo. Para melhor ou pior, a vingança parece melhor quando o indivíduo já sente certo prazer em infligir dor e humilhação.

Mas o que fazem os que não são sádicos? Uma versão mais leve de vingança é a criação do bode expiatório, ou a escolha de uma pessoa ou grupo para culpar por uma culpa não merecida.

O bode expiatório pode acontecer em nome da justiça. Por exemplo, um estudo da Universidade do Kansas pediu aos participantes, todos identificados como de classe média, que lessem uma notícia falsa intitulada “A situação dos americanos da classe trabalhadora”.
Havia duas versões do artigo. Metade dos participantes leu uma versão, onde a culpa foi colocada na classe média, concluindo: "... a busca de negócios mais baratos beneficiou os bolsos dos americanos de classe média, levando ao desemprego severo e à paralisação e estagnação salarial dos americanos da classe trabalhadora. " Na segunda versão, o artigo era exatamente o mesmo, mas culpava a classe alta.
Em seguida, todos os participantes leram um segundo artigo intitulado "Imigrantes Ilegais são bem sucedidos quando há uma queda econômica" ou "Imigrantes Ilegais Sofrem na Queda Econômica".
Daí, quando os participantes pensavam que outros, como os idiotas da classe alta, eram responsáveis pela injustiça enfrentada pelos americanos da classe trabalhadora, havia menos indignação moral com os imigrantes ilegais, quer fossem ou não retratados como bem-sucedidos.

Mas, quando os participantes pensavam que seu próprio grupo de classe média era culpado pela injustiça e os imigrantes ilegais eram retratados como bem-sucedidos, eles expressaram mais indignação moral em relação aos imigrantes.

Os participantes se sentiram indignados com a injustiça enfrentada pela classe trabalhadora, mas não necessariamente acharam que tinham que fazer algo para restaurar a justiça, mas, o culpar os imigrantes os ajudou a aliviar a culpa e fortalecer sua auto-imagem moral.

Exemplos disso sobram no FB, em qualquer língua, e puxando por qualquer partido ou tendência política ou religiosa. A indignação é alta, a disputa por quem fez isso ou aquilo é enorme, e os fatos contam pouco ou nada, ninguém para para analisar se o que foi exposto tem base factual. É a explosão do bode expiatório a nível universal.

Então, resumindo, a vingança vale a pena? Vamos nos sentir melhor?

Provavelmente não, a não ser que haja o elemento sádico acima descrito, e a melhora é por pouco tempo, depois virá a necessidade urgente da percepção de novo insulto, para que o ciclo recomece.

O que podemos fazer, é medir a temperatura de nossa indignação moral para ver se é uma preocupação genuína ou, como o experimento da classe média, mais uma maneira de nos sentir menos culpados e reforçar nossa visão de nós mesmos como gente de bem.

Finalmente, é um problema sentir indignação moral ou isso significa apenas que estamos bem sintonizados com a justiça?

Simples: ser mais sensível a ofensas pessoais, pode ser visto como egoísta e, ao extremo, até mesmo anti-social, mas a indignação em nome de outras pessoas está ligada à cooperação e respeito a outro seres humanos.

Então vá em frente e se enfureça contra a sociedade/partido/religião/atos e desacatos, desde que seja em nome dos outros.

E para este último, tenho o exemplo da Graça Craidy, mestra das letras e dos pincéis, que santamente enfurecida com a situação do femininicidio no Brasil, fez uma série de pinturas e exposições com o título “Até que a morte nos separe”.
A foto é da citada exposição.







Bibliografia

Fairness Expectations and Altruistic Sharing in 15-Month-Old Human Infants CLIQUE AQUI

Psychology of Justice CLIQUE AQUI

The Good, the Bad, and the Just: Justice Sensitivity Predicts Neural Response during Moral Evaluation of Actions Performed by Others CLIQUE AQUI

Toddlers Have a Sense of Justice https://www.livescience.com/51261-toddlers-have-restorative-justice.html

The Justice Sensitivity Inventory: Factorial Validity, Location in the Personality Facet Space, Demographic Pattern, and Normative Data CLIQUE AQUI

Why and when justice sensitivity leads to pro- and antisocial behavior CLIQUE AQUI