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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

PENSAR POR NÓS MESMOS, OU DÁ-LHE, JOCASTA!



“Não podemos resolver nossos problemas com o mesmo tipo de pensamento que usamos para criá-los”. Albert Einstein

Desde priscas eras, nós humanos indagamos o que é pensar (ato de) e em que consiste o pensamento (consequência do verbo antes citado).

Não é meu objetivo aqui descrever todas as escolas de pensamento em psicologia e filosofia, tanto por falta de conhecimento, quanto por este blog não ter como meta o se tornar uma enciclopédia,de forma que falarei brevemente sobre aquelas que tenho estudado, para poder chegar ao cerne da questão proposta.

Pensamento geralmente se refere a qualquer atividade mental ou intelectual envolvendo a consciência subjetiva de um indivíduo.

Pode ser tanto o ato de pensar, quanto as ideias ou arranjos de ideias resultante do ato.

Por estar subjacente a quase todas as ações e interações humanas, tem sido uma meta de várias disciplinas, incluindo, entre outras, biologia, filosofia, psicologia, sociologia, neurologia, etc.

Pensar nos permite fazer sentido ou modelar o mundo de maneiras diferentes, e representar ou interpretar a nós mesmos, aos outros e ao mundo ao nosso redor, de forma que estas representações nos sejam significativas, ou que estejam de acordo com nossas necessidades, anseios, objetivos, planos, compromissos, finalidades e desejos.

Psicólogos e neurocientistas tem se concentrado no pensar como “um esforço intelectual que visa encontrar uma resposta a uma pergunta ou uma solução a um problema”.

Jean Piaget, o pioneiro da psicologia do desenvolvimento, estudou a formação do pensamento, desde o nascimento até a maturidade, e, em sua teoria, define que este se baseia em ações sobre o meio ambiente.

Segundo ele, o ambiente é compreendido através de assimilações de objetos em esquemas de ação disponíveis, e estes esquemas, por sua vez, acomodam os objetos na medida em que deles necessitam.

Como resultado da interação entre assimilação e acomodação, o pensamento se desenvolve através de uma sequência de etapas qualitativamente distintas quanto a seu modo de representação, complexidade, inferência e compreensão.

Assim o pensamento evolui de sua base em percepções e ações na fase sensório-motora dos dois primeiros anos de vida até as representações internas na primeira infância.

Posteriormente, as representações são gradualmente organizadas em estruturas lógicas, as quais inicialmente atuam na realidade concreta (estágio de operações concretas), e em seguida passam a formar princípios abstratos que se organizam a partir da fase anterior (estágio das operações formais).

Assim, pensamento é um processo, no qual é necessária uma base de desenvolvimento, como em qualquer outro processo.


Entra Freud e seu modelo do “aparato psíquico” de 3 partes - Id, Ego e Superego -, onde o Id contém “nossas tendências instintivas e desordenadas”, o Ego é a “parte realista da psiquê”, e o Superego tem sua “função moralista e crítica”.

Agora vem a parte brilhante do danado, isto é, definir o inconsciente como “uma FORÇA senciente da vontade, influenciada pelo desejo humano e operando bem abaixo da mente perceptiva consciente”.

Não bastasse, vai em frente informando que, o inconsciente é “o depósito dos desejos instintivos, necessidades e tendências psíquicas”, e enquanto reminiscências e necessidades possam ficar escondidas ou inacessíveis à consciência, são elas que, na realidade, dirigem os pensamentos e sentimentos do indivíduo a partir desse domínio.

Para ele, o inconsciente não inclui tudo aquilo que não é consciente, mas apenas o que é ativamente reprimido do pensamento consciente, ou o que não queremos saber conscientemente.

Esta visão coloca o indivíduo numa briga contínua com seu inconsciente para manter oculto o que lá está, ou seja, o inconsciente acaba sendo um enorme depósito para idéias ou desejos socialmente inaceitáveis, memórias traumáticas e emoções dolorosas, e o mecanismo que faz isso funcionar chama-se REPRESSÃO.

Resumindo, o inconsciente é uma força que só pode ser reconhecida pelos seus efeitos, isto é, os sintomas.

Para complicar o meio de campo, vem Jung com sua ideia de “inconsciente coletivo” de uma sociedade, grupo ou toda a humanidade, o qual, segundo ele, “é um sistema interconectado, que por sua vez é o produto das experiências comuns, contendo os conceitos de ciência, religião e moralidade, ou seja, o reservatório de experiências de nossa espécie”.

Infelizmente para mim, inconsciente coletivo me lembra um peixe que comi num restaurante chiquésimo, na época, na Oscar Freire, em São Paulo. Lá veio esse “peixe”, quadrado, com gosto de mais ou menos coisa alguma, e que tive que declarar (em alto e bom som, para a vergonha do amigo que estava comigo), que jamais tinha pensado em comer o inconsciente coletivo dos peixes.

E assim, numa simples frase, não só disse o que pensava a respeito da teoria, como também, seguindo a lei da economia de energia, deixei evidente a quem ouviu, o que pensava de ter que pagar um preço absurdo por um absurdo incomível. E viva os atos falhos e os lapsos de linguagem!

Seja lá que teoria você prefira, os fatos são:

a) Pensar é um processo
b) O processo é aprendido
c) O “pensar por si mesmo” é um processo de contínuo aprendizado e revisão, e que depende de (surpresa! surpresa!) como foi que aprendemos ou fomos ensinados a respeito de pensar, o que, para maioria dos seres humanos remonta à figura mítica de mamãe.

Caso vocês não se lembrem da história de Édipo, faço aqui um resuminho.


Édipo é a figura trágica e principal, na famosa peça de Sófocles, Édipo Rei, e representa o tema de base das tragédias gregas: a natureza imperfeita da humanidade e a impotência do indivíduo contra o curso do destino. Mais tarde, Freud fará uma festa com a história.

Mas voltando, havia esse rei de Tebas, Laio, casado com sua rainha, Jocasta.
O oráculo de Delfos havia predito que, se Laio tivesse um filho, este o mataria e se casaria com a viúva, ou seja, sua própria mãe. Assim, quando Jocasta deu a luz ao filho, embrulharam o bebê e o entregaram a um caçador para que o matasse.
O caçador, não tendo coragem de matar o bebezinho, fez algo de uma caridade ímpar: pregou os dois pés do pimpolho no tronco de uma árvore e se foi.

Eis que por ali passaram alegremente Polibus e sua esposa Merope, reis de Corinto, que, ao ouvirem os uivos do pobre pregado, foram lá, o despregaram da árvore e o criaram como filho.
E assim cresceu Édipo, que quer dizer “aquele que anda com os pés tortos”, alegrinho pensando que era filho deles.
Um belo dia, lá vai ele consultar o oráculo de Delfos, e fica sabendo da profecia, quando, apavorado, pensando que era filho de Polibus, achou por bem fugir para não matá-lo.

(Favor notar que não pensou nem um segundinho em ir falar com Polibus e Merope, e tentar esclarecer a situação).

Vai daí que, deprimido e com raiva de seu destino, está lá ele andando distraído, quando quase é atropelado por uma carruagem que vinha no sentido oposto, dirigida por um velhinho, com o qual naturalmente briga e acaba por matar.

Continua andando em direção a Tebas e, em lá chegando, fica sabendo que o rei tinha morrido e a cidade está sob o domínio da Esfinge. Impávido colosso, lá vai ele e responde acertadamente ao enigma proposto pela mesma (sim, sim, é a mesma esfinge do “decifra-me ou te devoro”, não tem tantas delas dando sopa por aí!), e como recompensa da cidade agradecida, ganha a mão (e o resto) de Jocasta, a rainha, em matrimônio.

Vão em frente e tem dois meninos, Eteocle e Polinicio, que não cheiram nem fedem na história, e duas meninas, Antígona e Ismênia, essas sim vão remexer as águas.

Como Édipo não tinha só os pés tortos, mas, em minha opinião, muitas ideias também, ele quer porque quer saber quem raios matou Laio, e como quem procura acha, descobre que foi ele mesmo.

Jocasta, a inocente, se dá conta então que casou, não só com o assassino de seu marido, como também seu próprio filho, e, chocada, se enforca.

Édipo, então, agarra um broche da roupa dela e enfia em seus olhos, cegando-se (avisei que ele tinha ideias estranhas). Não bastando, é exilado, e lá vai ele, cego e torto, guiado por suas duas filhas, até encontrar refúgio e finalmente morrer em Colonus, pertinho de Atenas.

Freud usou essa tragédia para cunhar o famoso “Complexo de Édipo”, no qual, segundo ele, o menino, ansiando pelo amor exclusivo da mãe, tem inveja do pai e deseja que este desapareça.

E é aqui que discordo do mestre, metida que sou, e acho que é mais um complexo de Jocasta, como tão bem demonstrado pela própria mãe do Freud, dona Amália.

É a mãe que absolutamente interage com o bebê. É a mãe que vai ensinar ao bebê as primeiras experiências e passar a ele (bebê) sua visão de mundo. É a mãe que vai ou não permitir que o bebê cresça e se separe (psicologicamente falando).

E é ela que vai ensinar ao infante como pensar, em que pensar e porque pensar, ou não.

Então, pensar por si mesmo, equivale à superação desse complexo, equivale a crescer, equivale a questionar tudo, inclusive a si mesmo, para não andar pelo mundo cego, torto e cometendo despautérios.

Equivale a questionar as profecias que nos são enfiadas goela abaixo desde o nascimento:

“Joãozinho saiu ao tio Romualdo, um avoado...”
“Mariazinha saiu à vó Mariquita, tão linda, vai ter todos os homens a seus pés...”
“Chiquinho é tão inteligente, vai ser o gênio da família”

Na maioria das vezes, equivale a questionar a esfinge, perguntando à mesma quem lhe deu o poder do questionamento.

Quando não questionamos, somos presas do destino, individual ou coletivo (só pra agradar meus amigos sociólogos e junguianos), o que se reflete em como vivemos nossa vida na sociedade à qual nos sentimos pertencer.

E como, embora os gregos tenham inventado o Édipo, nós, os italianos, o elevamos à categoria de arte, o próximo post será sobre pensamento criativo e suas consequências.

"Só porque gostei de algo em algum momento no tempo, não quer dizer que sempre vou gostar, ou que tenha que ter gostado da mesma coisa em todos os momentos, como um ato impensado de lealdade para com quem sou como pessoa, baseado unicamente em quem eu era. Ser fiel a mim mesmo é me permitir crescer e mudar, e desafiar quem eu sou e o que eu penso. A única coisa que eu sou com certeza é inseguro, e isso significa que estou crescendo, e não estagnado ou encolhendo.“ Jarod Kintz

NA:Citando Freud, de novo, disse ele que, todas as vezes que se aventurava por novo caminho, os poetas lá tinham estado antes. Como concordo, vejam essas duas maravilhas sobre o poder do pensamento.
A primeira é o "Vá pensiero", do Nabuco de Verdi, ao som da qual os italianos primeiro se rebelaram contra o Império Austro-Hungárico, e muito mais recentemente, se livraram do Berlusconi - Escute até o fim, depois dos aplausos  clique aqui
E a segunda, é sobre o mesmo tema, no jeitinho inimitável brasileiro, Pensamento, clique aqui


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