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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

RELAÇÕES TOXICAS - PADRÕES - Parte I de IV

Toxic relationships

O amor que se torna tóxico não é nem saudável nem genuíno, apesar das melhores intenções dos envolvidos.

Uma parceria pode ser descrita como tóxica quando, devido às intensas reações emocionais e padrões de interação do tipo defensivo, deixa de promover bem estar e crescimento dos parceiros e passa a prejudicar as áreas emocionais, mentais e físicas de cada um.

A relação se torna cada vez mais desequilibrada, fator que afeta e é afetado pela sensação interna de cada parceiro quanto a seu próprio equilíbrio, saúde e segurança.

Por outro lado, amor genuíno é uma conexão empática que reconhece ao outro e a si mesmo como seres separados e únicos, e encoraja a individualidade de cada um como essencial para que se forme uma intimidade saudável na relação.

Estudos neurológicos da última década têm demonstrado que já viemos ao mundo preparados para desenvolver comportamentos protetivos precocemente na vida, os quais se tornam respostas automaticamente ativadas mais tarde, na maior parte das vezes de forma totalmente inconsciente.

Experiências emocionais intensas durante a infância podem alterar a estrutura do cérebro, com efeitos duradores na idade adulta.

A parte do cérebro que controla nossos hábitos, também conhecida como inconsciente, não larga mão facilmente de velhos padrões neurais, principalmente aqueles bordados no tecido cerebral durante experiências relacionadas com medo, sobrevivência, rejeição ou abandono na infância.

Sua prevalência faz sentido. Quem de nós jamais se sentiu rejeitado, inadequado ou abandonado na infância?

Talvez não haja nenhuma outra situação na qual a toxicidade dessa respostas pré-determinadas seja mais evidente do que na relação de casal.

As tentativas equivocadas de cada parceiro são impulsionadas, inconscientemente, por padrões neuronais de comando emocional (primeiros mapas para amor/ sobrevivência), os quais automaticamente são ativados para que cada parceiro possa se proteger do outro, em padrões extremamente similares aos que desenvolveram na primeira infância.

Padrões Neurais Tóxicos - Funções no Roteiro

Num relacionamento tóxico, relacionar-se significa perder o equilíbrio.
Ambos os parceiros "conspiram"  inadvertidamente, em processos subconscientes, para ficar presos em um ou mais padrões de interação tóxicos.
Embora os padrões individuais de cada casal sejam tão únicos quanto os parceiros individuais, os padrões de conluio tóxico tendem a cair em um ou mais dos seguintes roteiros :

1- Perseguidor X Evitador  ou  Raiva Expressa X Raiva Internalizada

Neste roteiro, um dos parceiros procura a cooperação do outro de forma aberta, usualmente descrevendo ações específicas que devem ocorrer para que se sintam seguros e amados pela outra pessoa.

O outro parceiro parece concordar com as demandas, e em alguns caso até compromete seu próprio sistema de valores para agradar ao outro.

Porém, com o tempo, quando o parceiro que previamente tentou concordar com tudo percebe que seus esforços não são sequer percebidos, ou não apreciados, começa a resistir às demandas, geralmente usando subterfugios, ao invés de claramente dizer as coisas.

Exemplo:

Parceiro Perseguidor, acha que certas atividades são extremamente importantes e urgentes, como discutir alguma coisa ou fazer coisas juntos, tipo terem mais sexo, ou seja lá o que for, e procura engajar o Parceiro Evitador em seus planos.

Nisto, Evitador, que parecia concordar com Perseguidor no início do  relacionamento, começa a fazer malabarismos para, por um lado, resistir às demandas do parceiro, e por outro, procurar evitar perturbar ou irritar o mesmo.

Enquanto  Perseguidor  não tem nenhum problema em expressar sua raiva, até mesmo admitindo  ter um temperamento explosivo (pode até  considerar isto  como um de seus pontos fortes) , Evitador  internaliza a raiva, procura esconder ou negar  essa emoção, tanto  de si mesmo como  dos outros, e mesmo quando ocasionalmente, explode,  considera o acontecido como raro ou  o descreve como "frustração" em vez de raiva.

2- Culpante X Culpado ou Frustração Expressa  X Frustração Internalizada


Neste padrão de interação, um dos parceiros culpa o outro por sua própria infelicidade ou por ações que magoam o parceiro "Culpante", queixando-se continuamente pela falta de apreciação ou respeito do já citado Culpado.

Por seu lado, o parceiro Culpado, como o próprio nome diz, culpa a si mesmo e passa a vida morrendo de medo de desapontar seu parceiro, enquanto sente-se desapontado consigo mesmo por ser incapaz de fazer com que o parceiro se sinta seguro o suficiente para parar de ficar irritado, e, ao mesmo tempo, fica desapontado com o parceiro Culpante, pois parece missão impossível  agradá-lo.

Exemplo:

O parceiro Culpante  lida com seu stress relembrando compulsivamente ao parceiro Culpado que tem que parar de preocupá-lo e fazê-lo ficar zangado, fazendo uma longa lista das formas pelas quais suas expectativas ou demandas não foram satisfeitas.

No geral, parceiro Culpante  culpa parceiro Culpado, e pode dramaticamente exibir seu desapontamento quando demandas específicas ou expectativas não forem atendidas. (Este é um comportamento comum em situações de violência doméstica.É sério , é feio e pode ser mortal).
Enquanto isso, parceiro Culpado aceita a culpa, sente-se responsável  por causar o mal estar no outro, e lida com o stress através de contínuos pedidos de desculpas, tentativas de apaziguamento e promessas de melhorar no futuro.
Interessante é que ninguém responsabiliza o Culpante  pela forma como trata os outros e pela falta de equilibrio com suas própias emoções.

Esse tipo de pessoa tem pouca ou nenhuma compreensão de seu papel na exacerbação da intensidade dos problemas, e todos esperam que Culpado  ajeite as coisas para manter a paz, sentindo-se totalmente responsável pela gangorra emocional do Culpante.

Na realidade, os Culpados, de forma  geral, sentem-se orgulhosos de serem capazes de apagar a fogueira emocional dos Culpantes, ou de agirem como mediadores, suavizando os pepinos entre citado Culpante e outros membros da família.

3- O que faz X O que sente - Desvalorização Expressa X Desvalorização Internalizada

Neste cenário, uma pessoa está conectada com o que quer e o que não quer, e o que fazer para obter resultados rápidos.

Esta pessoa faz,  soluciona problemas, gosta de fazer as coisas e logo,de tomar decisões e, em se comparando a seu parceiro, queixa-se da relativa indiferença, inabilidade ou falta de iniciativa do outro.

Exemplo: 

O parceiro Faz quer que o parceiro Sente complete uma lista de coisas e produza resultados especificos, avaliando a "atuação"do Sente  em relação a certos parâmetros.

Na realidade, Faz simplesmente não confia na capacidade de Sente, e tem toda a certeza de que este o decepcionará. Enquanto isso, Sente  fica na ansiosa expectativa de, em trabalhando duro  para fazer Faz feliz, qualquer hora este irá apreciar os esforços e mostrar amor, carinho, aceitação, admiração etc... 

Sente procura corrigir ou controlar os estados emocionais de Faz, mais especificamente para impedi-lo de ficar chateado ou com raiva, no entanto tem pouco ou nenhum interesse em "fazer as coisas."

Como Faz tem pouca capacidade de expressar  emoções, cada vez mais parceiro Sente passa a duvidar  de sua capacidade de "consertar"os sentimentos de  Faz em relação a ele (Sente), e começa a não se esforçar mais tanto para agradar.

Por seu lado, Faz fica cada vez mais frustrado com a "resistência" de Sente em escutá-lo, e interpreta isso como falta de respeito ou apreciação, sentindo-se cada vez mais ansioso e inadequado a respeito de sua inabilidade “de controlar ou fazer com que Sente lhe de o que ele acha que precisa para ser feliz.

Sente fica emocionalmente "sobrecarregado" ou " desliga" ao primeiro sinal de desaprovação e raiva, ao mesmo tempo que fica  preocupado com o futuro de seu relacionamento, família, etc, se não cumprir com as expectativas de Faz.

Faz também, fica cada vez mais frustrado  por que Sente não  fala sobre seus desejos ou toma  a iniciativa  para fazer  coisas

Sente  confessa não ter "quereres", e seu foco em Faz  como uma forma essencial da expressão de seu amor e do que entende como sentir-se "valorizado" no relacionamento.

4- Responsável X Negligente  - Desdém Expresso X Desdém Internalizado

Neste roteiro, um dos parceiros na relação toma para si o papel de juiz e júri do outro parceiro, e faz acusações e demandas, dizendo ao outro o que fazer, como se vestir, o que pensar, etc.

Exemplo:
Responso sente-se a parte "responsável", com o dever de agir de acordo com elevados padrões morais na área da família, filhos ou trabalho, etc, e pode desprezar Negli como pessoa incapaz de lidar com determinadas situações, tais como finanças ou crianças.

Sente que é sua responsabilidade "educar"o parceiro, e pode fazê-lo com doses regulares de repreensão, acusações, provas de falhas no desempenho, etc.

Sentindo-se dependente da aprovação de seu parceiro, pelo menos exteriormente, Negli  procura agradar,  apaziguar ou evitar conflitos,  e nega  qualquer indicação de que as coisas não estão indo bem em seu relacionamento ou família.

O que mais teme é não conseguir preencher as expectativas do parceiro, e mesmo assim, quanto mais tenta fazê-lo, mais falha em suas tentativas.

Pode chegar ao ponto de não fazer absolutamente nada para não arriscar falhar.

Enquanto Responso  desconsidera o valor de  Negli, este expressa cada vez mais seu ressentimento ou desprezo dos sentimentos do parceiro, com resistência.

Por um lado, Negli nada mais quer do que conquistar a admiração de Responso, por outro, cada vez mais o despreza  pela maneira com que este ignora ou maltrata o parceiro e outros, como por exemplo os filhos.

5- Moral X Imoral - Desprezo Expresso X Desprezo Internalizado

Roteiro bastante similar ao anterior, no qual uma pessoa atua como moralmente superior à(s) outra(s).

O primeiro se coloca em posição de julgar o outro com demonstrações de indignação,  justo desprezo ou intimidação, o que  acredita ser necessário para melhorar ou beneficiar o outro.

Por outro lado, o outro, externamente aceita  o ter padrões morais  mais baixos em comparação, e, além de tentativas ocasionais de  apaziguamento, interiormente saboreia o resistir ao que  vêem como códigos morais desnecessariamente restritivos. 

Exemplo

Parceiro Mora tem altos padrões morais, ou tradições ou códigos de ética em casa, na igreja, etc., e é obcecado com a idéia de fazer com que parceiro Imor também siga essas regras de conduta, tipo ir à igreja ou se vestir de forma mais apropriada, etc., sentindo ser sua responsabilidade a conversão de Imor, salvá-lo de si mesmo.

Enquanto isso, Imor  parece não dar muita bola para as "admoestações" , e faz pouca ou nenhuma tentativa de mudança, além de, externamente, acompanhar Mora de vez em quando ,para manter a paz.

Mora pode, regularmente, expressar seus sentimentos de desprezo (superioridade moral) para o Imor, por  "não ser a pessoa" que Mora acreditava que fosse, enquanto Imor, fingindo humildade, pode interiormente sentir-se  superior, saboreando sua capacidade de bloquear as tentativas de Mora de tentar mudá-lo.

Em algum momento, usando caminhos ocultos ou secretosImor  pode expressar ou atuar seus crescentes sentimentos de desprezo para o que ele vê como uma postura dura e hipócrita de Mora para controlá-los.

A  NATUREZA AUTO-DESTRUTIVA DOS CONLUIOS TÓXICOS

Naturalmente, a coisa toda nunca funciona. 

A relação tóxica é a que está fora de equilíbrio, resultado que afeta e é afetado pelo equilíbrio interno de cada parceiro.

Os papéis nos roteiros de cada parceiro nos padrões tóxicos descritos acima são projetados para se opor diametralmente uns dos outros nos esforços para formar uma sensação  de segurança no relacionamento.

Não é de se surpreender que os problemas de base que um casal enfrenta no início da relação tendem a permanecer como tema consistente durante todo o curso da  mesma.

Apesar de ocasionais mudanças dramáticas e troca de roteiros, talvez em diferentes áreas ou estágios no curso de uma vida em comum, cada parceiro fica "travado" em padrões de interação,  inconscientemente convencidos de que sua felicidade e auto-estima futuras dependem  de mais, e não menos, confiança em suas próprias estratégias de proteção, apesar da ampla evidência em contrário.

O que mantém os parceiros e sua relação fora de equilíbrio?

Circuitos emocionais de comando, que ativam padrões neuronais de proteção précondicionados . 

Na segunda parte veremos como esses padrões tóxicos desestabilizam a segurança emocional dos parceiros e da relação.
Nas partes 3 e 4, o que os parceiros podem fazer para se libertar dos citados padrões.
 
 Dra. Athena Staik é terapeuta de familia e casal, consultora de relacionamentos e autora.

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