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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O significado de "RECUPERAÇÃO” foi mudado e você não foi informado

the meaning- Recovery-has-changed-you-just-dont-know-it


(Como costuma acontecer, posto que tratamentos também seguem modismos, o problema do uso e abuso de drogas entrou de novo em foco após a morte de Michael Jackson, tomou proporções de tornado com a morte da Amy Whinehouse e virou circo com o recente falecimento da Whitney Houston. Em qualquer canal de TV, pelo menos aqui na terra de Tio Sam, não há um dia sem algum "esperto"- calma que estou fazendo uma brincadeira com a palavra inglesa "expert”, que significa especialista. Chamo de "esperto” porque são ótimos em fazer a propaganda do próprio negócio, trazendo pouquíssima informação digna de nota. Devo dizer que os aprecio imensamente, pois são capazes de me afastar do que chamo "meu ponto de morte eminente", que será quando perderei a curiosidade e a capacidade de ironizar as coisas que vejo e ouço nessa vida, caindo naquele buraco negro do "vi tudo, sei tudo, nada mais me espanta, emociona ou me faz gargalhar à tripa forra”, também chamado de depressão horrenda. Isto posto, volto ao tema "dependências". Tendo trabalhado na área por boa parte de minha vida adulta e em diferentes países, também consegui brigar e ficar enfurecida em pelo menos duas línguas. Nessa jornada, também conheci coisas e pessoas absolutamente fantásticas, grande parte delas sendo assim chamados "pacientes” e algumas outras que trabalham na mesma área. Dentre elas, destaco Stanton Peele, o autor do artigo abaixo, psicólogo, advogado e grande especialista, de fama mundial, no campo das dependências. Desnecessário se faz dizer que rezo pela mesma cartilha ou missal? Não importa, e que fiquei felicíssima ao receber a nova definição de "recuperação", cunhada pelo SAMHAS e logo em seguida este artigo dele. Está mais do que na hora de se organizar o campo de tratamento das dependências químicas, ou a "terra de ninguém” da psiquiatria, onde qualquer um ou qualquer coisa vale. Nesses anos na área, vi de tudo um pouco, desde bons tratamentos a uso de enemas para "desintoxicação", passando por anestesias do paciente, esbofeteamento de pessoas em algumas assim chamadas igrejas, uso de trabalhos forçados, encarceramento, uso de dieta líquida para "limpeza", reza brava, enfim, de um tudo. E o problema crescendo e se espalhando. As pessoas culpando as drogas, num medo genérico e espalhado. As famosas baboseiras dos anos 70 e 80, de que sendo natural não faz mal, é a química que estraga tudo, esquecendo que somos feitos de química e que a definição de droga é "qualquer substância que, entrando pelo corpo, provoca reações químicas", de forma que, droga vai de aspirina a heroína, passando pela composição de cada célula de nosso corpo. As pessoas também esquecem que petróleo é um produto absolutamente natural, e que, mesmo assim, não ocorre a ninguém tomar uma colherada pela manhã para regular o intestino. Também não levam em consideração que nunca, jamais em tempo algum, alguém se tornou dependente de brócolis, por que será isso?
A culpa é das drogas! Malditas, malvadas, e não ocorre a ninguém que as ingerimos por escolha, que a mim nunca aconteceu de, ao estar alegremente andando pelas ruas, uma garrafa de Chablis tenha vindo voando e se inserido em minha boca, contra minha vontade, muito antes pelo contrário, todas as vezes que tomei, tive que escolher quando, como e onde, e ainda por cima pagar pela coisa.
Assim, minha crença a respeito de dependentes é que, em não tendo desenvolvido adequados mecanismos de adaptação, os indivíduos se "automedicam” com qualquer coisa, de álcool a heroína, que não é à toa que a maior parte dos dependentes é constituída por pessoas que também apresentam outro distúrbio mental, desde distúrbios da ansiedade a esquizofrenia, e que é básico no tratamento, ensinar mecanismos apropriados para lidar com situações de vida que sejam frustrantes ou difíceis. Então imaginem minha alegria ao ver esse passo gigantesco dado pelo SAMHAS, e que faço questão de compartilhar- para não falar naquele demoniozinho interno que está a uivar: eu sabia! Eu sabia!)  

Todos os dias os americanos são informados a respeito do significado de Recuperação: celebridades viajam pelo país descrevendo sua miraculosa redenção fornecida pela reabilitação dos 12 passos; colunistas instruem os leitores com problemas de álcool a atender reuniões do AA e escolas oferecem palestras e mais palestras com a mensagem de recuperação dos AA.

Eu, por outro lado, alerto os americanos para a idéia de que nosso sistema de tratamento/recuperação faz mais mal do que bem, e que necessitamos uma nova abordagem a respeito de dependências.

Faço esta afirmação porque penso que  a abordagem  tradicional dos 12 passos polui a experiência de jovens  que normalmente superam o abuso de substâncias por conta própria; que desvia a atenção de tratamentos  muito mais eficazes; e - uma vez que esconde a realidade, isto é, que pouquíssimas pessoas vão do uso, vício ou problema  para total abstinência - acaba sendo uma fantasia moralista ao invés de uma abordagem realista.

Por isso, é um desenvolvimento notável que SAMHAS (Substance Abuse and Mental Health Administration Services- Serviços de Administração de Saúde mental e Abuso de Substâncias), agência governamental encarregada de formular políticas quanto a formulação e  tratamento do abuso de álcool e outras drogas, após  o levantamento dos principais especialistas no campo, criou a "Definição de Recuperação - Uma definição unificada de trabalho e conjunto de princípios"

E  SAMHAS acaba por definir  meu ponto de vista  a respeito de recuperação -e  não AA - como  "Um processo de mudança através do qual as pessoas melhoram  sua saúde e bem-estar, passam a viver uma vida auto-dirigida, e se esforçam para atingir seu pleno potencial."

SAMHAS emitiu um comunicado de imprensa  em 22 de dezembro/2011, intitulado "Nova Definição de Trabalho na Recuperação de Transtornos Mentais e Abuso de Substâncias."  (Cuja tradução pode ser encontrada neste blog, primeira parte postada na última segunda feira, segunda parte a ser postada na próxima segunda).

A primeira coisa a ser notada é a unificação dos distúrbios de substâncias e os mentais.
Tal simetria tem sido um anátema para os defensores da recuperação, que veem o alcoolismo e outras dependências como tendo seu próprio domínio, não ligado ao resto da área psi. (Considere, por exemplo, que os serviços de saúde mental não são liderados por pessoas mentalmente doentes  e em recuperação, mas em geral por profissionais treinados na área, como psiquiatras, enquanto centros de recuperação de drogas o são por dependentes em recuperação ).

A definição do processo é o produto de um ano de estudos do SAMHAS e ampla gama de parceiros na comunidade de saúde comportamental e outras áreas para desenvolver uma definição do trabalho de recuperação, definição esta que pudesse captar  o essencial, as experiências comuns dos que estão se recuperando de transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias, juntamente com os grandes princípios orientadores que suportam a definição de recuperação.

DEFINIÇÃO DO TRABALHO DE RECUPERAÇÃO

A recuperação é um processo de mudança pelo qual os indivíduos trabalham para melhorar sua própria saúde e bem-estar e se tornam aptos a viver uma vida significativa na comunidade que escolherem,  enquanto se esforçam  para alcançar seu pleno potencial.

PRINCÍPIOS DA RECUPERAÇÃO

Centrado na pessoa
Ocorre através de diferentes caminhos (Significa que não há panacéia universal)
É holístico (Aqui quero fazer mais uma interjeição, talvez devido a ter vivido a década de 80, onde qualquer um que quisesse escapar das duras penas de ir para a faculdade e se formar em medicina ou psicologia podia virar "terapeuta holístico", que englobava qualquer coisa, literalmente. A definição de Holístico é a seguinte: Totalidade. Considerar o todo levando em consideração as partes e suas inter-relações. Não significa, em absoluto, qualquer coisa vale.)
É apoiado por colegas
É apoiado pelos relacionamentos
É tanto baseado quanto influenciado pela cultura à qual os indivíduos pertencem.
É suportado por endereçar os  traumas vividos pela pessoa em questão.
Tem seus pontos fortes no envolvimento de  família, individuos e comunidade
Baseia-se em responsabilidades e respeito.
Emerge da esperança.

AS 4 DIMENSÕES DA RECUPERAÇÃO

Saúde: vencer ou administrar uma doença (s), bem como viver de maneira saudável, física e emocionalmente

Lar:um lugar estável e seguro para se viver e que suporta a recuperação

Objetivo: atividades diárias significativas, tais como emprego, escola, família, trabalho voluntário, cuidados pessoas e cuidados com outros, esforços criativos, e a independência, renda e recursos para participar em uma sociedade.

Comunidade: redes sociais de relações humanas que fornecem apoio, amizade, amor e esperança.
O que dizer a respeito dessa definição? Primeiro, ela enfatiza funcionalidade acima de tudo, isto é, quão bem e de que forma a pessoa lida com sua vida e o ambiente onde vive, ao invés de se concentrar no uso de substância e na exigência de  abstinência.
Em segundo lugar, indica que não há um único caminho para a recuperação:. "A recuperação ocorre por meio de muitos caminhos, pois os indivíduos são únicos, com necessidades distintas,diferentes pontos fortes, preferências, objetivos, cultura e origens, incluindo experiências de trauma, que afetam e determinam sua(s) via(s) para a recuperação. "

 Observe especialmente o reconhecimento da cultura e dos valores pessoais: "A recuperação é culturalmente baseada e influenciada.  Cultura e fundo cultural, em todas as suas diversas representações - incluindo  valores, tradições e crenças -, são pontos chave na determinação  da jornada de uma pessoa e seu caminho pessoal para a recuperação. "

A definição nunca menciona "impotência".

Na verdade,  aponta na direção completamente oposta:
"A recuperação é conduzida pela pessoa que se recupera. 

Auto-determinação e auto-suficiência são as bases para a recuperação, dependendo de como os indivíduos definem seus próprios objetivos de vida e criam  seu(s) caminho(s) único(s) para alcançar esses objetivos."

E também: "A recuperação é construída sobre as múltiplas capacidades, forças, talentos, habilidades de enfrentamento, recursos e valor inerente de cada indivíduo. Vias de recuperação são altamente personalizadas."

Enquanto isso, a definição identifica PROPÓSITO  como um dos pilares da recuperação.
A nova definição/abordagem do problema, juntamente com a construção da capacidade do indivíduo e da identificação de propósito como crucial para tratamento, fala da integração da pessoa em recuperação no seio da família e da comunidade - em oposição à criação de grupos e comunidades separadas para "recuperação".

A recuperação envolve família, individuo,  responsabilidade e forças da comunidade: Os indivíduos, famílias e comunidades têm os pontos fortes e os recursos que servem de base para a recuperação. Além disso, os indivíduos têm uma responsabilidade pessoal para se cuidarem e pela própia jornada de recuperação.

No lugar de impotência, esta nova abordagem destaca a crença no indivíduo. Essa visão está na base dos dois princípios fundamentais entre os 10 listados na nova definição: "baseia-se no respeito", e "surge da esperança."

Imagino que os grupos de 12 passos irão correr para afirmar que subscrevem exatamente nesses princípios. Mas basta ler dois dos 12 passos - os dois primeiros:

Passo 1 - Admitimos que somos impotentes perante a nossa adição - que nossas vidas  se tornaram incontroláveis.

Passo 2 - Acreditar que um Poder superior a nós mesmos pode nos devolver a  sanidade.

Uma diferença de ênfase, para dizer o mínimo, concorda?


Alguns famosos que usaram e abusaram
 
Chet Baker    1929–1988  Cantor e guitarrista. Queda de janela . Cocaina e Heroina  
John Belushi   1949–1982 Ator . Overdose aciedntal de Cocaina e Heroina
Richard Burton  1925–1984 –Ator- Alcool
Truman Capote  1924–1984- Escritor – Alcool e quase todas as otras drogas
Kurt Cobain  1967–1994- Musico (Nirvana) – Suicidio com arma de fogo sob influencia de doses potencialmente letais de heroina e diazepan
Whitney Houston  1963–2012 – Cantora, atriz- Mistura de Xanax e alcool. Uso de cocaina e crack
Michael Jackson   1958–2009 – Cantor – Propofol, Lorazepan, Diazepan e Midazolan
Janis Joplin  1943–1970 – Cantora – Heroina
Elvis Presley  1935–1977 – Cantor – Metaqualone, Codeina, e varios barbituricos.
Elis Regina  1945–1982 Cantora- Cocaina, alcool e temazepan
Amy Winehouse  1983–2011 – Cantora- Alcool, cocaina.

LISTAGEM COMPLETA

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