terça-feira, 6 de novembro de 2018

O TRAÇO DE PERSONALIDADE QUE ESTÁ DESTRUINDO A AMÉRICA (E O MUNDO)

Traduzi quase ao pé da letra. Já, as montagens de fotos são minhas, e o autor não tem culpa alguma.

“Primeiro, houve a" Me Generation "e depois" Generation Me ". Agora temos evidências empíricas de que vivemos no que se tornará conhecido como" Asshole Age " (Era do Idiota), também conhecido como Era do Twitter ..." Brent Roberts, psicologo da personalidade, no Twitter.

“Nosso movimento é substituir um establishment político falido e corrupto por um novo governo controlado por você, o povo americano. ... O establishment político, que está tentando nos impedir, é o mesmo grupo responsável por nossos acordos comerciais desastrosos, imigração ilegal maciça e políticas econômicas e externas que sangraram nosso país ... A única coisa que pode impedir essa máquina corrupta é você. "- Argumento de Donald Trump para a América

Agora, há muitas divisões no mundo. Mas há uma divisão, profundamente enraizada no núcleo da natureza humana, que ajuda a explicar muitas outras divisões. Estou me referindo a uma fonte de variação da personalidade humana que é construída diretamente em nosso DNA: o antagonismo. Ao realmente ampliar esse traço e compreender como o antagonismo interage com o condicionamento ambiental e com as mensagens recebidas, podemos obter uma compreensão maior de uma das divisões mais proeminentes do mundo atual: o populismo.

A CIÊNCIA DO ANTAGONISMO

A dimensão chamada de antagonismo-afabilidade é uma das cinco principais dimensões da personalidade. Como as outras grandes dimensões da mesma, esse traço é normalmente distribuído na população. Quanto mais duas pessoas diferem nessa dimensão fundamental, mais incompreensível o comportamento da outra pessoa pode parecer, especialmente quando se trata de aderir às normas sociais e ao comportamento altruísta.

A amabilidade (polo oposto do antagonismo), consiste em dois aspectos principais: polidez e compaixão. A educação reflete a tendência de se conformar às normas sociais e de refrear a beligerância e a exploração dos outros, enquanto a compaixão reflete a tendência de se preocupar com os outros, emocionalmente. As pessoas que têm um alto nível de educação estão preocupadas com a justiça, enquanto aquelas que têm uma alta compaixão estão mais preocupadas em ajudar os outros, especialmente aqueles que mais precisam.

No outro extremo, pessoas com baixos níveis de polidez (pessoas antagônicas) tendem a pontuar alto em medidas de agressão, enquanto que aquelas com baixos níveis de compaixão tendem a pontuar mal em medidas de empatia. Embora polidez e compaixão possam ser alteradas, por exemplo, uma pessoa pode ter uma alta compaixão, mas pouca educação, polidez e compaixão estão fortemente correlacionadas na população em geral e ambos os aspectos compõem o domínio pessoal geral da agradabilidade.

Como todas as outras variações de personalidade, as diferenças na dimensão antagonismo-afabilidade, são refletidas no cérebro. Neurologicamente, aqueles que pontuam alto em agradabilidade tendem a mostrar uma ativação maior da rede cerebral do modo padrão, a qual está associada à capacidade de simular estados mentais de outros e à integração de alto nível de diferentes tipos de informação necessária para entender e compartilhar as experiências emocionais dos outros.

A amabilidade também está associada à capacidade de regulação emocional, particularmente à supressão de impulsos agressivos e outras emoções socialmente perturbadoras. Do ponto de vista neuroquímico, a agradabilidade envolve os neurotransmissores testosterona (relacionada ao oposto da polidez e ao antagonismo) e a ocitocina (relacionada à tendência à compaixão e ao vínculo social).
A dimensão antagonismo-afabilidade, tem alto valor preditivo no mundo real e não apenas no laboratório. Pessoas antagônicas são mais propensas a responder agressivamente e retaliar quando tratadas injustamente (real ou imaginado), embora tendam a se importar muito menos com o fato de outras pessoas serem tratadas injustamente. No trabalho, as pessoas antagônicas têm um desempenho melhor do que as pessoas altamente agradáveis, depois de receberem um esporro de seu chefe, pois isso as incita, enquanto pessoas altamente agradáveis tendem a melhorar quando o chefe elogia seu desempenho.

Há também implicações profundas dessa dimensão da personalidade para a política. Políticos que são mais antagônicos obtêm mais atenção da mídia e são mais freqüentemente eleitos do que políticos mais agradáveis. Na população em geral, pessoas antagônicas são mais propensas a desconfiar da política em geral, a acreditar em teorias da conspiração e a apoiar movimentos secessionistas.
O antagonismo não é absolutamente bom ou ruim. Daniel Nettle especulou que, todos os traços de personalidade evoluíram para ter vantagens, e é por isso que existe variação na personalidade. Do ponto de vista evolucionário, a agradabilidade tem os benefícios (atenção aos estados mentais dos outros; relacionamentos interpessoais harmoniosos, parcerias de coalizão valorizadas) e os custos (sujeito a fraude e exploração social; falha em maximizar a vantagem egoísta). No entanto, por causa da existência de uma variação tão ampla nessa característica, líderes altamente antagônicos podem despertar e influenciar grandes faixas de pessoas que têm uma pontuação alta nessa característica, por meio de sua retórica e mensagens.

ANTAGONISMO E RESSONÂNCIA COM O POPULISMO

Tem havido crescente reconhecimento na psicologia, de que os traços de personalidade interagem com as mensagens dos líderes. "Uma habilidade crucial para os políticos é ... falar a 'linguagem da personalidade' ... identificando e transmitindo as características individuais que são mais atraentes num determinado momento para um determinado eleitorado" (Gian Caprara e Philip Zimbardo). Eles descobriram que os eleitores escolhem políticos cujas características combinam com sua própria personalidade.

Em linhas similares, Patti Valkenburg e Jochen Peter introduziram seu "Modelo de Suscetibilidade Diferencial ao Efeitos de Mídia (DSMM)", onde argumentam que a retórica e enquadramento de uma mensagem tem mais impacto cognitivo e emocional nas pessoas que compartilham disposições particulares do que com outras pessoas. Por exemplo, a mensagem de esperança pode ser mais atraente para aqueles que são mais propensos a experimentar afeto positivo e entusiasmo, enquanto a mensagem de mudança pode ser mais atraente entre aqueles dispostos a correr riscos.

Talvez a interação mais importante no mundo hoje, no entanto, seja entre o antagonismo e o populismo. A característica central do populismo é uma mensagem anti-establishment e um foco na importância central do povo. A mensagem anti-establishment retrata a elite política como corrupta e má, e desinteressada nos interesses do "povo puro". De acordo com John Judis e Ruy Teixeira, a divisão essencial entre os populistas é "o povo versus o poderoso"

Em uma recente série de estudos, o professor de comunicação política Bert Bakker e cols., conduziram a maior e mais sistemática investigação sobre a questão: o que acontece quando cidadãos antagônicos recebem uma mensagem anti-establishment? Encontraram evidências incontestes para a noção de que a mensagem anti-establishment dos populistas ressoa mais com pessoas altamente antagônicas. Esta descoberta foi confirmada em sete países em três continentes diferentes. Antagonismo previu apoio a populistas tanto de direita (Trump, UKIP, Partido do Povo Dinamarquês, Parte de Freedon, SVP) quanto de populistas de esquerda (Podemos, Chávez).

Pelo uso de medidas fisiológicas, também foram capazes de estabelecer os processos emocionais mais profundos, subjacentes a esse elo. Empregando uma medida de condutância da pele (que captura a atividade do sistema nervoso simpático), os pesquisadores descobriram um aumento na excitação em resposta a mensagens políticas que eram congruentes com a personalidade da criatura, ou seja, pessoas antagônicas assanhavam-se com mensagens contra o establishment, enquanto para pessoas altamente agradáveis, o assanho era com mensagens pró-establishment.

Isso é importante porque as emoções desempenham papel importante na determinação de como a comunicação política nos afeta. Aqueles que são mais estimulados por uma mensagem em particular, estarão mais propensos a lembrá-la e a buscar a mesma mensagem novamente, a longo prazo. Essas descobertas sugerem que os políticos podem exercer influência substancial sobre os eleitores ao fornecer uma mensagem que ressoa emocionalmente com a personalidade do eleitor.

Eles também analisaram o autoritarismo. O autoritarismo encapsula uma preferência por ordem social, estrutura e obediência. Pesquisas anteriores mostraram que os autoritários expressam menos tolerância para com gente for a de seu grupo, e apoiam partidos populistas com uma ideologia de direita. Coerente com isso, Bakker e seus colegas descobriram que, embora o autoritarismo não tenha previsto uma mensagem anti-establishment, previu o apoio a Trump e UKIP, bem como a qualquer candidato com forte posição antiimigração. Essas descobertas sugerem um segundo caminho para o populismo, através da ideologia particular, associada ao populismo de direita.

IMPLICAÇÕES DO DIVISOR ANTAGONISMO-AGRADABILIDADE

Parece haver algo diferente no ar nos dias de hoje. Dependendo da sua perspectiva (e personalidade), as coisas são mais "sinistras" ou mais "revolucionárias". Mas acho que todos podemos concordar que a paisagem política e o discurso mudaram dramaticamente nos últimos anos. Sempre houve divisões partidárias, mas parece haver proeminência de um tipo diferente de divisão entre as pessoas e os políticos. Como nota o cientista político holandês Cas Mudde, "hoje o discurso populista tornou-se dominante na política das democracias ocidentais".

É importante enfatizar que o populismo é uma ideologia que transcende o liberalismo e o conservadorismo. A pesquisa mostra que, tanto liberais quanto conservadores, são agradáveis, mas são agradáveis de diferentes maneiras: o aspecto polidez da afabilidade está associado a uma perspectiva conservadora e a valores morais mais tradicionais, enquanto o aspecto compaixão da afabilidade está associado ao liberalismo e ao igualitarismo. O conservadorismo e o liberalismo podem se complementar mutuamente, pois a sociedade precisa, por parte de quem está no poder, que se preocupe profundamente com a justiça para todos e com a estabilidade da sociedade, bem como daqueles que estão mais exclusivamente preocupados com o sofrimento dos necessitados.

Também é importante reconhecer que o populismo não é necessariamente perigoso. Uma democracia saudável inclui aqueles que desafiam o governo e são críticos dos que estão no poder. O que é particularmente problemático é quando um líder altamente antagônico usa a retórica que desperta as emoções de outros antagônicos e as mobiliza para apoiar uma ideologia em particular, que é perniciosa. Isso pode levar a uma situação em que uma alta proporção de pessoas no poder são aquelas que não têm empatia, nem a perspectiva e o autocontrole necessários para frear os impulsos agressivos e disruptivos.

É claro que nem todas as pessoas que apóiam o populismo são pessoas antagônicas. Há várias razões pelas quais as pessoas apóiam os populistas. A socióloga Arlie Russell Hochschild fez um tremendo trabalho tentando entender o que muitos eleitores de Trump estavam pensando quando votaram. As razões incluem "vidas dilaceradas por salários estagnados, perda de laços afetivos, um elusivo sonho americano e escolhas políticas e pontos de vista que fazem sentido no contexto de suas vidas".

No entanto, há uma crescente proeminência de pessoas antagônicas nas mídias sociais, YouTube e em meios de comunicação alternativos que acreditam ter respostas melhores do que a "elite" do governo, e são fortalecidas e estimuladas pelas mensagens populistas do Trump, e alcançaram mais influência do que nunca. Ao invés de fatores socioeconômicos serem a explicação mais proeminente para o apelo do populismo (Bakker e seus colegas controlaram o status socioeconômico em seus estudos), uma razão crítica pela qual as pessoas se tornaram mais receptivas ao populismo é que as pessoas se tornam mais instruídas e mais livres expor suas opiniões em público. De fato, o apelo do populismo se deve, em parte, ao aumento do igualitarismo dos anos 1960, uma conseqüência sendo que os cidadãos hoje esperam mais dos políticos e se sentem mais competentes para julgar suas ações.

No geral, isso é bom. No entanto, como Cas Mudde aponta, mais e mais cidadãos pensam que têm uma boa compreensão do que os políticos fazem, e acham que podem fazer melhor, enquanto, ao mesmo tempo, menos pessoas realmente querem fazer melhor pela participando ativa nos várias aspectos da vida política. O teórico político Robert Dahl colocou bem quando escreveu: "Quase meio século de pesquisas fornece evidências esmagadoras de que os cidadãos não valorizam muito a participação na vida política".

Curiosamente, os defensores populistas não querem realmente ser liderados pela "pessoa comum"; ao contrário, eles querem seus próprios valores e desejam ser representados por um "grande" líder. Mudde descobriu que a maioria dos líderes populistas é na verdade "elite de fora"; eles são altamente ligados às elites, mas não fazem parte das elites. Defensores do populismo simplesmente não querem ser governados por uma elite "estrangeira", cujas políticas não satisfazem diretamente seus próprios desejos e preocupações.
É importante ter em mente essa pesquisa, pois parece que o uso da retórica populista a serviço de promulgar políticas mais radicais não desaparecerá tão cedo. Como Mudde observa, devido a uma série de fatores, "o populismo será uma característica mais regular da futura política democrática, surgindo sempre que seções significativas da 'maioria silenciosa' sintam que 'a elite' não as representa mais".

Entender as diferenças de personalidade pode não ser o único fator envolvido na compreensão do apelo do populismo, mas, para o bem do país e do mundo, é importante considerá-lo.

Scott Barry Kaufman é psicologo no Barnard College, Columbia University.

Artigo original CLIQUE AQUI

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