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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O OPOSTO DE DROGADEPENDÊNCIA NÃO É SOBRIEDADE.

Este ano faz 100 anos desde que as drogas (algumas) foram oficialmente banidas e vimos o desenvolvimento de teorias e práticas de todos os tipos, para se lidar com o problema. Os USA instituiu a “guerra às drogas” e aprendemos ou ouvimos histórias sobre dependências e dependentes, a dependência como doença e os milhares de tratamentos e/ou intervenções que parecem crescer como fungos por toda a parte. Tendo passado a maior parte de minha vida profissional trabalhando exatamente na área, aprendi umas coisas e tive que desaprender outras tantas. Algumas das coisas que me incomodavam profundamente no discurso do “nós bonzinhos que lutamos contra as drogas”,foram:

1-Nunca me senti lutando ou quis lutar contra drogas, pelos seguintes motivos:
a)Como médica, uso “drogas”, que em medicina são chamadas de medicamentos, para aliviar sintomas e promover tratamentos. De que maneira vou querer um mundo sem drogas? Quero sentir a dor de ser cortada feito galinha assada quando e se necessitar de uma cirurgia, porque, dentre as coisas usadas em anestesia, estão os derivados da heroína? Nem morta, Joana! Além de que, e ainda como médica, trato de gente, não de substâncias, as quais aprendi a usar conforme necessário.
b)Drogas são substâncias que não tem vida própria. Ela não vem voando e se insere em nosso organismo. Há que ter um ato volitivo de, buscar a substância e dela fazer uso, o que se chama de comportamento, e, para que um comportamento ocorra, há que existir uma motivação para o mesmo. Substâncias são como ferramentas. Se uso um martelo para, ao invés de pregar um prego na parede, promover uma fratura na minha testa, é culpa do martelo?
c)Quanto mais trabalhava na área, mais evidente ficava que há muito mais coisas sobre as quais é quase que proibido falar sobre o assunto; que a discussão a respeito não é livre, leve e solta como deveria, mas organizada por estruturas político/sociais que comandam a mídia e por conseguinte, a opinião pública. Senão, vejamos a história desde o início, e vou falar da história das drogas aqui nos USA, que é onde consigo material e estatísticas, não disponíveis, por exemplo, no Brasil.

2-Pelo fato de trabalhar com Drogadependentes, e por acreditar que, ao escutar o paciente, de uma forma ou outra ele/ela vai lhe explicar direitinho qual é o problema e a melhor forma de enfrenta-lo, após o que, o que tinha que fazer era transformar a coisa para o medicalês, e, junto com o paciente, desenvolver um plano para enfrenta-lo, tenho um certo horror a modelos “prontos e arrumados”, tipo assim roupa tamanho único, pois embora a ideia seja de que serve para todo mundo, na realidade não cai bem em ninguém.

3-Sou daquelas médicas antigas, que curtiu muito o aprendizado na faculdade (e, parodiando agora esqueci quem, detesto estudar, mas adoro aprender), trago comigo algumas noções básicas que continuam orientando meu pensamento. Uma delas é o conceito do que é e porque acontece uma doença num organismo:
“Doença é um conjunto de sinais e sintomas específicos que afetam um ser vivo, alterando seu estado de equilíbrio. O vocábulo é de origem latina, em que “dolentia” significa “dor, padecimento”. Para que uma doença se desenvolva (sempre que causada por agente externo, como, teoricamente é o caso das drogas dependências), há que se levar em conta: a) Virulência do agente patogênico; b) Estado do hospedeiro; c) Ambiente. Isto significa que, só o agente patogênico (o causador da doença) é apenas 1/3 da equação, ou seja, se o hospedeiro estiver em bom estado e viver num ambiente saudável e propício ao desenvolvimento, os efeitos do agente não serão sentidos ou as consequências serão muito menos sérias. Que o digam os sobreviventes da gripe espanhola, que nem na Espanha começou, que matou 1/3 dos europeus. Sobraram 2/3, incluindo minha vó Linda, que a teve mas sobreviveu, e bem, vindo a falecer com a provecta idade de 104 anos. E que o digam os milhões de jovens que fazem ou fizeram uso de alguma droga e nunca se tornaram dependentes. Ou aqueles que sofreram alguma fratura ou problema de dor, usaram derivados da morfina ou heroína por tempos e, resolvido o problema ou saídos do hospital, nunca mais usaram a coisa.

Isto posto, vamos ao ponto.

Drogas são um tremendo problema e um tremendo bom negócio na vida cá das Américas. Não são sequer problema novo, pois fazem parte da história desde o primeiro dia em que Cristóvão Colombo botou os pés no Novo Mundo, e os índios Taino o presentearam com tabaco. E, em existindo uma droga, existe uma solução para algo e um problema associado e tentativas de resolver o problema. Colombo não fazia a mais remota ideia do que fazer com as folhas recebidas, e conta a lenda que as jogou no mar, mas os marinheiros aprenderam com os índios as delicias do fumar, carregando o hábito de volta para a Europa, e logo esta se tornou um continente de dependentes de nicotina (as más línguas dizem que continua até hoje). Cem anos depois, o tabaco resgatou a primeira colônia inglesa na América (Jamestown, na Virgínia, fundada em 1607), que estava à beira do colapso. Em 1612, John Rolfe (mais conhecido como marido da Pocahontas), plantou tabaco, que foi vendido em Londres com imenso lucro. Daí o povo lá de Jamestown só plantou tabaco, o que os salvou da ruina financeira. Não fosse ele, quem sabe o que teria sido dos USA, ou se teria havido tal país.
Caso isso não bastasse, em 1619, a população masculina de Jamestown recebeu com enorme entusiasmo a chegada ao porto de um navio Inglês carregado de jovens mocinhas, compradas a preço de 120 libras de tabaco cada (mais ou menos 54 Kg), para se tornarem esposas. No mesmo ano, os virginianos também introduziram a escravidão, através da compra de 20 negros de um navio mercante holandês. Pelos 240 anos seguintes, escravidão e tabaco dominariam a sociedade da Virginia. O trabalho escravo ajudou os virginianos expandir, e rapidinho, a produção de tabaco, a partir de £ 60.000, em 1622, a 500.000 libras em 1627, para 1,5 milhões de libras em 1.630. E se pensarmos um pouquinho, não é lá muito diferente do trabalho dos plantadores atuais da planta da coca.

E, falando no citado, aqui o tabaco é um dos chamados 3 GRANDES. Os outros dois são o álcool e a nicotina. Chocado? Provavelmente porque essas 3 drogas são tão largamente usadas em nossa sociedade, que nem os usuários, nem ninguém mais definiria como “dependente”, dentro das fantasias que temos sobre os tais, pessoas que como eu vão feito um zumbi fazer o primeiro café da manhã, no minuto seguinte a rolar fora da cama. O fato é que as diferenças entre as 3 GRANDES, drogas que são legais, e suas primas ilegais é muito mais uma questão histórico cultural do que as qualidades intrínsecas das drogas. Cafeína é mais aditiva do que maconha. Álcool é mais intoxicante que cocaína. Tabaco estraga a saúde do usuário muito mais do que ecstasy. Tal qual qualquer outra droga, álcool, cafeína e tabaco são usados de forma recreacional, sem propósitos médicos, pelo simples fato que fazem os usuários se sentirem melhor (ou para os “oficialmente “dependentes, para não ter os sintomas de abstinência, que os fazem se sentir muito mal).

E a definição de dependência é exatamente essa: a necessidade compulsiva de uso de uma substância.

Com isso não quero dizer ou sequer insinuar que drogas são uma coisa boa ou inerentemente má, porque na realidade, como qualquer coisa, não são nem uma coisa, nem outra, tudo dependendo do uso que fazemos delas. Legais ou ilegais. Heroína, quando usada em anestesia, é um santo achado. Quando usada como droga de rua, é tremenda desgraça.O que quero dizer é que as usamos, quando não por imposição médica, simplesmente porque gostamos, desde a primeira criatura que, mastigando seu cogumelinho ou pedaço de cactos, descobriu que alterava a consciência. Pela sua ação, as drogas alteram a química cerebral e podem, temporariamente, fazer com que gente triste fique alegre e saltitante, doentes se sentirem melhor, cansados reencontrarem energia, tímidos se tornarem bravos, insones acharem seu sono, fracos se sentirem fortes, ansiosos relaxarem e gente muito feia se sentir sexy. Na realidade, as drogas não resolvem nenhum desses problemas, mas os mascaram bem pelo tempo que durar sua ação. E isso é suficiente para fazer com que se continue usando.

Isso, e o fato que são um tremendo negócio, pois os dependentes pagam qualquer coisa para conseguir seu objeto de desejo. O café é hoje o segundo produto mais valioso do mercado, perdendo só para o petróleo, e como essa estatística é anterior à despencada de preço do assim chamado “ouro negro”, vai que de repente virou o primeiro. Uma única companhia, a Starbucks, vende mais de 8 bilhões de dólares, sim, bilhões com bi, de cafezinhos por ano. Os americanos gastam mais de 50 bilhões por ano com cigarros e 100 bilhões com álcool. Comparativamente, o mercado das ilegais é muito menor, mas, exatamente por serem mais difíceis, são muito mais “preciosas”. Cocaína é mais valiosa que ouro, pois 1 grama é vendida a 100 dólares, enquanto que uma grama de ouro está a 25. A maconha é o produto agrícola mais valioso dos USA, produzindo 36 bilhões de dólares por ano, enquanto o milho, segundo colocado, só 26.

Hoje quero falar do tremendo enrosco no qual nos encontramos, porque simplesmente não queremos passar pela dificuldade que é encarar de frente o problema. Como fazemos para reinserir no convívio, milhares, melhor dizendo, milhões de jovens perdidos? Queremos que retornem e tenham vidas plenas ou queremos simplesmente impor nossas crenças? Porque é que eu posso, e uso com gosto, minha droga de escolha, a cafeína, que é mais aditiva que maconha, mas critico seriamente o hippie saudoso que dá sua tragadinha no conforto de seu lar? Pior, também tomo meu bom vinho. É álcool. Intoxica. Cada um de nós tem uma ideia preconcebida do que vem a ser o droga dependente e de como trata-lo ou tratar a situação.

Fomos ensinados a pensar que, o que causa a dependência é a droga. Essa teoria foi concebida em cima de experimentação com ratos, na década de 60, e espalhada por uma organização chamada Partnership for a Drug-free América. Todo o mundo e seu primo, sabe do experimento e/ou viu as fotos. Simples. Bota-se o ratinho numa caixa, sozinho, com duas tijelinhas. Uma é água pura e a outra é água com heroína ou cocaína, e o ratinho fica obcecado com a água drogada. Pronto. Provado que drogas tem o efeito de fazer até o ratinho abrir mão de coisa tão necessária quanto água, para ficar só se drogando.

Acontece que um professor de psicologia, em Vancouver, lá no início dos anos 70, Bruce Alexander, achou a coisa muito esquisita, pensando o seguinte: “Bom, o rato está na gaiola sozinho, sem nada para fazer, deixa ver o que acontece se fizer o experimento um pouco diferente”. E fez o famoso experimento do “Rat Park”, que, resumidamente é o seguinte:
1-A teoria do Alexander era que, as drogas, de per si, não causam dependência, a qual ele atribuía às condições de vida. Numa palestra ao senado canadense, em 2001, disse: “As experiências anteriores, nas quais ratos de laboratório foram mantidos isolados em gaiolas de metal apertadas, amarrados a um aparelho de auto injeção, mostram apenas que " animais severamente afligidos, assim como pessoas com graves dificuldades, vão aliviar sua angústia farmacologicamente, se puderem."
2-O “Rat Park “era uma colônia de casinhas de 8,8m2 (200 vezes o tamanho de uma gaiola padrão de laboratório), na qual foram colocados entre 16 e 20 ratos de ambos os sexos, com abundância de alimentos, rodas e bolas para brincar, e espaço suficiente para acasalamento. Ratos que haviam sido forçados a consumir morfina por 57 dias consecutivos, foram trazidos para a colônia e lhes era dada a escolha entre tomar água pura e água com morfina. A maior parte deles, escolheu a água pura, tão logo tiveram a oportunidade de se misturar com os outros ratinhos.

Apesar disso, é interessante notar que as principais revistas cientificas (Science e Nature), recusaram-se a publicar o experimento que só saiu na revista Psychopharmacology em 1978. A publicação não obteve qualquer resposta e a Universidade (Simon Fraser) retirou os fundos de financiamento.

Um bom paralelo à teoria de Alexandre, foi a guerra do Vietnã, durante a qual, 20% dos soldados americanos se tornou dependente de heroína, causando um pavor generalizado na assim chamada “puritana América”, do que fazer com tantas “falhas morais “quando os pobres coitados retornassem à pátria mãe gentil. O que aconteceu foi que 95% dos soldados dependentes (segundo estudo publicado no Archives of General Psychiatry), simplesmente parou de usar. Muito poucos foram a clínicas de recuperação. Saíram da “gaiola “horrenda e voltaram para a colônia. Não precisavam mais da droga.

Outro, seria a dependência ao jogo, e podem acreditar, é tão destrutiva como qualquer droga, e no caso, ninguém se injetou um maço de cartas de baralho ou chips de roleta. Uma de minhas memórias do que chamo de “visões do inferno”, é a da primeira (e única vez) que fui a Las Vegas e vi, em todo lugar, aquele mundo de velhos em frente às maquininhas de jogo, com um balde de moedas ao lado. Horas jogando, sem conversarem ou trocarem uma palavra com quem estava ao lado. Repetição mecânica de movimentos e rituais.

Todos concordam que tabagismo é uma das coisas mais viciantes que existem, sendo que o “gancho químico “do vício é causado por uma droga chamada nicotina. Vai daí que quando os adesivos de nicotina foram desenvolvidos na década de 1990, houve uma explosão de otimismo, pois o dependente poderia receber todos os “ganchos químicos”, sem os efeitos colaterais, fedidos e mortais, do tabagismo. Eles seriam libertados de seus grilhões! E ai veio o balde de água fria do Gabinete do Cirurgião geral, informando que, apenas 17,7% dos fumantes, eram capazes de abandonar o vício com uso de tais adesivos. Muito, mas muito pouco mesmo, o que, mais uma vez demonstra que, apesar da história dos “ganchos químicos “ser real, é apenas pequena parte de muito maior problema.

Vamos ver algumas estatísticas a respeito da “Guerra às drogas”:

3 em 4 americanos acham que a “guerra às drogas “é uma tremenda falha. (Zogby/Inter-American Dialogue Survey: Public Views Clash with U.S. Policy on Cuba, Immigration, and Drugs. http://www.zogby.com/news/ReadNews.cfm?ID=1568))

Pesquisa com a Associação Nacional dos Chefes de Polícia, mostrou que, 82% deles acha que tal guerra foi e é uma falha (18th Annual National Survey Results of Police Chiefs & Sheriffs.http://www.aphf.org/surveyresults.pdf)

Gastos com Controle de Drogas através de estratégias duras de fiscalização aumentaram em 69,7% nos últimos 9 anos, enquanto gastos com Tratamentos e Prevenção cresceram só 13,9%. Recursos federais para redução de oferta (encarceramento, punição e erradicação) são o dobro dos programas redutivos (prevenção e tratamento). (U.S. Office of National Drug Control Policy. (February 2010). National Drug Control Strategy: FY 2011 Budget Summary. p. 17, Table 3. http://www.whitehousedrugpolicy.gov/publications/policy/11budget/fy11budget.pdf)

Apesar dos USA serem o local de nascimento da “Guerra às Drogas” e de terem algumas das mais duras penalidades a respeito das mesmas, também tem as maiores taxas de consumo de maconha e cocaína do mundo (Degenhardt L, Chiu W-T, Sampson N, Kessler RC, Anthony JC, et al. (July 2008). Toward a Global View of Alcohol, Tobacco, Cannabis, and Cocaine Use: Findings from the WHO World Mental Health Surveys. PLoS Medicine. http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0050141

Nos últimos 40 anos, a Guerra às drogas custou mais de 1 trilhão de dólares, o número de gente encarcerada aumentou 705%, e embora pretos e brancos usem drogas em proporções mais ou menos iguais, tem 10 vezes mais negros presos do que brancos. (http://www.thehouseilivein.org/get-involved/drug-war-today/)

O governo federal dos USA gastou, em 2010, 15 bilhões de dólares na “Guerra às drogas”, ou seja, cerca de 500 dólares por segundo (Jeffrey A. Miron & Kathrine Waldock: "The Budgetary Impact of Drug Prohibition," 2010.)

Embora moradores de bairros desfavorecidos, de bairros com altas concentrações de minorias e de bairros com altas densidades populacionais relataram níveis mais elevados de vendas de drogas, também relataram níveis apenas ligeiramente mais altos de consumo das mesmas, juntamente com níveis mais elevados de dependência. Este resultado indica que misturando a venda de drogas com o uso, de modo que as áreas pobres e de minorias sejam vistas como foco do problema, é completamente errado. A descoberta é baseada em dados coletados em 41 locais, incluindo a cidade e áreas suburbanas (mas não rurais) em todas as regiões dos USA. (http://www.drugsense.org/cms/wodclock)

Ao longo das últimas quatro décadas, os governos (federal e estadual) dos USA, despejaram US $ 1 trilhão em gastos na guerra às drogas, conta paga pelos contribuintes. Infelizmente, esses dólares de impostos foram para o lixo. Em 1980, os Estados Unidos tinham 50.000 pessoas atrás das grades por violações das leis de drogas - agora temos mais de meio milhão. Os EUA são hoje o maior carcereiro do mundo, as drogas continuam a ser amplamente disponíveis e os recursos para prevenção e tratamento são escassos. Não só milhares de milhões de dólares de impostos foram desperdiçados, como também os gastos da guerra às drogas resultaram numa ampla retirada do dinheiro de outros serviços importantes. Dinheiro canalizados para a repressão às drogas significou menos financiamento para crimes mais graves, e que deixou a educação fundamental, saúde, serviços sociais e programas de segurança pública a lutar para operar com financiamentos insuficientes. Estamos trabalhando para mudar as mesmas políticas fracassadas de sempre e investir em programas de tratamento e educação eficazes. Estamos liderando o movimento para acabar com este dreno de nossa economia e para proteger os seus dólares de impostos do desperdício da guerra às drogas. (http://www.drugpolicy.org/wasted-tax-dollars)

Com sua teoria (a qual esposo), Bruce Alexander conseguiu se fazer odiar pelos dois lados da política: pela direita, que acha que dependência é uma falha moral, devido à falta de chinelada, falta de disciplina, puro hedonismo, excesso de festas, e coisas do gênero (se não me creem, procurem se informar de um grupo chamado Tough Love – Amor Exigente, sobre o que, no momento, me recuso a falar, e por isso coloquei um artigo do Washington Post a respeito, no final), e pela esquerda liberal que gosta de achar que a dependência é algo que acontece num cérebro sequestrado pela droga, a qual faz tudo sozinha, independentemente de qualquer outra condição. É perfeitamente contrária à teoria sobre a qual se baseia a tal “Guerra às drogas”, que funciona (apesar de todas as evidências em contrário) em cima do pressuposto que há que se erradicar uma montanha de substâncias químicas porque elas sequestram o cérebro das pessoas e causam dependência.

O problema é que as drogas, de per si, não são o que causa a dependência. Se fossem, não existiria dependência a jogo. Não existiriam dependências emocionais a relacionamentos que fazem tão mal a algumas pessoas. A única coisa que a tal da “guerra às drogas “conseguiu, com exceção de queimar dinheiro e recursos, foi aumentar todos os outros fatores que causam dependências, incluindo, e principalmente, a desconexão de indivíduos a seu grupo e seu ambiente. E quando falo em “desconexão”, falo por exemplo do isolamento sentido, e muitas vezes vivido pelos que sofrem de alguma doença mental (não é à toa que o maior consumo de drogas de toda espécie, de cigarro a heroína, está entre doentes mentais), onde a única maneira que encontram para alívio de seu sofrer, é a auto medicação com seja lá o que acharem. Falo do crescer em extrema pobreza, sem esperanças e sem recursos. Falo da falta de educação para a vida. Falo do não se sentir pertencendo ou fazendo parte. Falo do ser maltratado e desprezado. Falo de crianças que sofreram privações tão severas, que o cérebro “encolheu”.

Cuidar de um dependente (de qualquer coisa) ou alguém com algum distúrbio mental é muito mas muito difícil. É mais simples seguir os conselhos de “amores exigentes” ou de shows televisivos tipo “intervenção” e dizer ao dependente que ou ele/ela tome tento ou cai fora. E isso só piora a dependência. Aliás isso só piora qualquer coisa.

Nós humanos, necessitamos de ligações. Precisamos nos sentir conectados, fazendo parte, tendo turma, trocando toques, ideias, emoções e sonhos. Em gaiolas, solitários e abandonados, não importando se a situação seja real ou imaginária, vamos fazer besteira. E quanto maiores forem os castigos, as ameaças e os abandonos, pior a besteira.

Então, temos que mudar muita coisa, começando com nossas próprias cabeças e corações. O oposto de dependência não é sobriedade, mas sim, conexão.

Na próxima semana vou contar de esperanças que se tornaram belas realidades e como estão funcionando.

LAW ENFORCEMENT AGAINST DRUG PROHIBITION: http://www.leap.cc/

O EXPERIMENTO “RAT PARK” EM QUADRINHOS http://www.stuartmcmillen.com/comics_en/rat-park/#page-1

THE CULT OF PHARMACHOLOGY: HOW AMERICA BECAME THE WORLD’S MOST TROUBLE DRUG CULTURE, Richard DeGranpre, Duke University Press, 2008

THE TROUBLE WITH TOUGH LOVE http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/01/28/AR2006012800062.html

THE WAR WE ARE LOSING, Milton Friedman http://druglibrary.org/special/friedman/war_we_are_losing.htm



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