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sábado, 26 de outubro de 2013

O PROBLEMA DA IMAGEM DA PSICOTERAPIA

Estava eu em alegre conversa telefônica com velha amiga cá do Texas, psicóloga de 4 costados, o que, aqui nos USA significa que tem PhD em Psicologia, porque se não tiver PhD, não pode se apresentar como psicólogo, só como “counselor”, ou seja, conselheiro. Não vou chateá-los com as estórias do que passamos juntas, estrangeiras que éramos, eu, “alien”do Brazil com z mesmo, ela “foreign”, de cidade grande, no caso Nova Yorque, na minúscula cidade de Mineral Wells, interior do Texas, mas vale a pena contar que nos agarramos uma à outra como se agarra em qualquer coisa que boie em mar aberto o desavisado que caiu do navio. Pois então, conversávamos sobre o sério problema da “venda”do profissional, como qualquer outro produto, e ambas concordávamos sobre nossa enorme dificuldade de fazermos exatamente isso, antigas que somos, quando tudo o que bastava era um Curriculum Vitae de peso. Como nossas conversas costumam ser demoradas, e como acho que só ficar com o telefone na orelha chato, antes do computador costumava fazer deseinhos em qualquer papel, agora, surfo os jornais na net. E surfando estava quando achei o artigo do Tim Lahan, no NY Times, e que dá o nome a este post.

Logo de cara, tomo um susto, ao saber que, entre 1998 e 2007, o número de pacientes externos em institutos de saúde mental e em psicoterapia, caiu em 34%, enquanto que os que recebem medicação (e tão somente medicação) aumentou em 23%. Ora, sou médica, penso que medicação, psiquiátrica ou não, bem usada, faz milagres. Mas também sou aquele antiquíssimo tipo de profissional que acredita, do fundo de seu coração, que é dever do médico proporcionar a melhor terapêutica possível ao ser que sofre. E, como profissional que segue as pesquisas de ponta, também sei que só com medicação, pelo menos na área neuropsi, a probabilidade de recaída é de cerca 89%, isto é, inaceitável.

Pior, essa queda não reflete falta de interesse por parte dos pacientes, pois uma análise de 33 estudos a esse respeito demonstrou que os mesmos preferem psicoterapia à medicação, numa média de 3 para 1.
Aliás, simplesmente concordam com as linhas mestras de Tratamento do Instituto Nacional de Doenças Mentais, isto é, que nas condições mais comuns, tipo Depressão e Ansiedade, psicoterapia deveria ser a primeira escolha, e medicação, por causa de seus potenciais efeitos colaterais, deveria ser usada só no caso da psicoterapia não funcionar ou do paciente não querer fazer.

Então, como é que se explica a lacuna entre o que as pessoas querem e o que estão recebendo?

A resposta do autor do artigo é a seguinte: “A resposta é que a psicoterapia tem um problema de imagem. Clínicos e médicos, em geral, o povo dos seguros saúde, os que fazem as regras das instituições, muitos psicoterapeutas e o público em geral, não fazem ideia da quantidade de pesquisa de alto nível que suporta o exercício das psicoterapias. A situação é exacerbada pela suposição de que há maior rigor científico nas práticas da indústria farmacêutica, a qual, não acidentalmente é quem tem o dinheiro para fazer, não só propaganda agressiva, como também lobby. Para o bem dos pacientes e do próprio sistema de saúde, a psicoterapia tem de reformular a sua imagem, de forma mais agressiva, formalizando e promovendo seus métodos.”

Também há um segundo problema, que merece ser pensado: no mundo todo, bom, digamos a parte que conheço, pois no resto não sei, os termos “terapeuta” e “holístico” abriram um enorme território para mais ou menos qualquer coisa baseada muito mais em fé do que qualquer presunção de ciência, cujos artigos são baseados em “testemunhos” e não estatísticas. E para quem não me acredita, é só ler qualquer jornal e ver, por exemplo, que um padre de uma igreja evangélica cujo nome não lembro mais, inventou a “liposucção divina”, onde o povo é pesado na igreja, e, ao chegar em casa e notar que ganhou todos os quilos perdidos meia hora antes, justifica o fato como “não tendo tido suficiente fé no milagre”. E viva o raciocínio motivado!

Não bastasse, muitos psicoterapeutas contribuem para o problema, por se recusarem a reconhecer, e usar, terapias baseadas em evidência, deixando de ver o que funciona e onde, e agarrando-se a conceitos que, embora teoricamente magníficos (como a teoria freudiana, que amo de paixão), não são mais aplicáveis. Em muitos casos, o próprio Freud já informou que não funcionava, a saber, nas psicoses, dependências e o que hoje se chama distúrbios da personalidade. Atualmente, por questões de mudanças de costumes ou evolução dos mesmos, a coisa continua sem funcionar. Quem tem o tempo, dinheiro e luxo para ir ao analista pelo menos 5 vezes por semana, a não ser que esteja fazendo formação em psicanálise?

Tal qual minha amiga e eu, a psicoterapia tem um grande trabalho pela frente para se colocar em coerência com os tempos que vivemos. Precisamos aprender a escrever um, como chamam aqui, resumè, que é, de forma curta e precisa, dizer exatamente quem você é, o que faz, a que veio, e porque é melhor que a concorrência. Resumè, para minha amiga e eu, e diretrizes, para a psicoterapia. E que as associações comecem a fazer valer seu peso.

A revista Clinical Psychology Review publicou recentemente (novembro do ano passado), uma série de artigos definindo quais são as psicoterapias que têm maior embasamento científico de suporte, e que são: terapias cognitivo comportamentais, terapia de atenção concentrada, terapias interpessoais, terapias familiares e terapias psicodinâmicas breves (20 sessões).

Em curto prazo, essas terapias são quase tão eficazes para reduzir sintomas de depressão clínica e distúrbios da ansiedade, quanto as medicações. A longo prazo, têm melhores resultados, tanto para os pacientes quanto para seus familiares, porque, na grande maioria das vezes, melhoram o funcionamento social e de trabalho da pessoa, coisa que nenhum medicamento é capaz de fazer e, mais ainda, dada a natureza crônica da maioria das condições psiquiátricas, os efeitos benéficos das terapias poderiam reduzir os custos médicos e as taxas de incapacidade funcional, que tem sido significativamente afetado pelo enorme aumento da prescrição de medicações psicotrópicas nas últimas décadas.

Para piorar tudo, aqui nos USA, 75% da prescrição de medicação psiquiátrica, não, repito, não está na mão de psiquiatras, e, pelos meus muitos anos de Brasil, como daí não tenho estatísticas, deduzo que, se não é a mesma coisa, é superior.

Então, todos nós temos um trabalho enorme pela frente, o qual começa informando à população que a solução imediata, pelo menos na área psi, raramente é a melhor. E é bom começarmos logo, porque a morte de cerca 2900-3100 pessoas por mês por consumo de drogas perfeitamente legais, não é nenhuma brincadeira.

Quanto à minha amiga e eu, começaremos nossa atualização terapêutica em duas semanas, com jantar marcado. Ambas acreditamos no poder curativo da amizade, do riso solto e da boa mesa. Regime, a gente pensa depois.

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