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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

DEMÔNIOS NOSSOS DE CADA DIA, OU A HISTERIA EM MASSA

"O mundo é a experiência do homem como lhe parece, moldada por seu ego. É a vida menos que abundante, vivida de acordo com os ditames do eu isolado. É da natureza desnaturada pelos espetáculos de distorção de nossos apetites e repulsas. É o finito divorciado do Eterno. É multiplicidade de forma isolada a partir da sua base não-dual. É tempo apreendido como uma coisa maldita depois da outra. É um sistema de categorias verbais tomando o lugar dos inacreditavelmente belos e misteriosos elementos que constituem a realidade. É uma noção rotulada de "Deus". É o Universo equiparado com as palavras de nosso vocabulário utilitarista ". Aldous Huxley-Os Demônios de Loudun.

Sim. Adoro Aldous Huxley. Tudo. Mas, “Os Demônios de Loudun” transformaram minha visão de mundo, tornando o fenômeno de histeria de massas uma de minhas grandes fascinações. Uso o termo fascinação, num sentido bem solto, desde que há coisas que me fascinam não exatamente por gostar delas, também quando não as entendo, ou me horrorizam, ou fazem coceiras em minha curiosidade.

Deixa dar uma espanada no conceito, esquecendo um pouquinho a versão lavada em cândida do DSM, que não só juntou a coisa, ao mesmo tempo, aos Distúrbios de Personalidade como também aos Distúrbios da Ansiedade Generalizada, descaracterizando tudo.

Embora aqui nos USA “histeria” não seja mais usada como diagnóstico, na Europa continua firme e forte, e seu significado tornou-se bastante distinto daquele descrito por Charcot e Freud. Primeiro, porque “histeria” vem da palavra grega que significa útero, e é mais do que óbvio que não há necessidade nenhuma do mesmo para desenvolver os sintomas, e segundo porque, devido à variedade de seus sintomas, apresenta-se mais como uma Síndrome, tal qual a Esquizofrenia tem sido vista.
Mas, meu objetivo hoje, não é falar sobre a citada indivídualmente, mas sim quando aparece e/ou se espalha num grupo.

Em psicologia e sociologia, histeria em massa ou de massa ou histeria coletiva, ou histeria em grupo ou comportamento obsessivo coletivo, é um fenômeno de ilusões coletivas a respeito de ameaças, reais ou imaginárias, que se espalha numa população, como resultado de rumores e medo.

A dita cuja pode acontecer em qualquer lugar, desde que haja um grupo de pessoas dispostas a tomar parte em uma ilusão coletiva, e, embora pareça surgir do nada, sempre há um clarissimo porquê atrás da coisa toda.

Embora seja fácil olhar para trás, em retrospectiva, e rir do acontecido, a histeria em massa é muito parecida com um desastre natural, ou seja, é devastadora e depois dela sobra uma desordem que às vezes fica muito dificil de arrumar.

Abaixo vão alguns exemplos que escolhi a dedo, pois há uma quantidade enorme dos mesmos, assim se estiverem curiosos, no final há material bibliografico fácilmente acessivel.
Por que escolhi esses exemplos? Porque acho que estamos re-vivendo tal fenômeno, e em meu caso, em dose dupla, Brasil e USA.
Ou como disse o grande Indro Montanelli, em seu livro sobre a historia da Grécia:
“Como sempre acontece em crises semelhantes, quando uma comunidade perde o seu sentido de missão e o controle de seu destino, o egoismo individual e do grupo se torna violento e desenfreado. O vocabulário, em Atenas, foi então enriquecido com 3 novas palavras: pleonexia, que significa encanto/desejo pelo supérfluo; crematistike, que significa febre do ouro; e neoplutoi, o que corresponde aos nossos assim chamados "tubarões", ou seja os donos do poder/dinheiro.”
Por ordem temporal, comecemos com o que deu origem ao livro:

AS POSSESSÕES DE LOUDUN – 1632
Um dos casos mais famosos de possessão em massa da história da França aconteceu em um convento de freiras Ursulinas, que afirmaram que seu pároco e diretor religioso, Urbano Grandier, havia ordenado a demônios que as possuissem, a fim de torná-las mais flexível para suas propostas sexuais (suas dele, Grandier). Os exorcismos resultantes das freiras e o julgamento de Grandier tornaram-se tão sensacionais que milhares de pessoas foram assistir. Também atraiu a atenção do rei Luís XIII e do Cardeal Richelieu. Dois anos mais tarde, Grandier foi considerado culpado e condenado à morte na fogueira. Teoricamente, tudo resolvido, certo? Pois ledo engano.
Na verdade, as tais possessões foram consequencia de bem tramado golpe para derrubar Grandier, pois o citado, além de ser bem apanhado fisicamente, era arrogante, tinha um estilo de vida um quanto libertino, de formas que angariou bom número de inimigos, entre eles, outros padres e bispos, que viram no acontecimento inicial, com uma freira que se achou possuida, a oportunidade perfeita para desacreditar Grandier. A madre superiora, Jeanne des Anges, também aproveitou a atenção para promover sua própria carreira no convento. As possessões continuaram até 1637, trazendo beneficios economicos para o convento e a cidade. Interessante que isso sempre me recorda certos cultos tão atuais.

OS JULGAMENTOS DAS BRUXAS DE SALEM -1692
Um dos melhores exemplos definidores do caráter americano, foi este ataque coletivo dos colonos puritanos do Novo Mundo pela crença histérica do satanismo no meio deles. Algumas meninas pré-adolescentes começaram a ter "visões", e foram "tomadas pelo Diabo", o qual foi convocado para mexer com elas por “um povo que não gostavam.” Essas pessoas foram então "julgadas", torturadas e, geralmente, queimadas na fogueira. Notar que tais pessoas foram um escravo caribenho, Tituba e duas mulheres, uma Sarah Good, pedinte e a outra, Sarah Osborn, velha e pobre. Foi uma inquisição americana, que preparou o caminho para muitos movimentos que vieram depois.

O GRANDE PÂNICO DO INÍCIO DA REVOLUÇÃO FRANCESA -1789
No início da Revolução Francesa, um pânico geral atingiu camponeses depois de terem ouvido rumores de um plano da aristocracia, a respeito da mesma vir a usar bandidos para saquear suas aldeias e campos. Paranoia encheu o ar como fumaça, e vagrantes e até mesmo animais foram confundidos com bandidos. Para se protegerem, os moradores formaram milícias armadas, movimento que só exacerbou o problema. As próprias milícias eram muitas vezes confundidas com bandidos por aldeias vizinhas, e outras ainda aumentaram o caos, atacando e incendiando casas e campos pertencentes aos nobres. Só quando ficou claro que não havia tal conspiração aristocrática foi que os camponeses se acalmaram. Todo o episódio deixou a classe dominante com tanto medo, que apressadamente promulgaram uma série de reformas para apaziguá-los. Com efeito, o Grande Pânico tornou-se o catalisador que aboliu a velha ordem, e as sequelas foram sentidas no mundo todo. Deixo a cada um o prazer de fazer as próprias analogias.

LINCHAMENTOS NOS USA :1860 a 1960
Os estados confederados, depois de perder a guerra civil, receberam o que, para eles, foi a indignidade final: A Reconstrução, que deu aos libertos (antigos escravos) o direito de serem seres humanos. Isso não foi bem recebido no Sul (até hoje), e por cerca de 100 anos, qualquer pessoa negra, no Sul, acusada e não condenada por qualquer crime de: olhar para uma mulher branca, assobiar para uma mulher branca, tocar uma mulher branca, falar com uma pessoa branca, recusar-se a ir para a sarjeta quando uma pessoa branca passasse na calçada, ou de alguma forma perturbar de qualquer forma, real ou imaginada, qualquer branco, estava susceptível a ser arrancada de sua casa ou prisão por uma multidão, mutilada de forma medonha, enforcada numa árvore, e depois queimada . Todos os governos, estadual ou federal e suas agências (como a polícia) simplesmente ignoraram a coisa toda. Até mais ou menos os anos 70, se podia comprar cartões-postais de comerciantes locais, orgulhosos dos notáveis linchamentos na área

O PÂNICO DO MOSQUITO BEIJADOR DE 1899
Em 1899, nos USA, o reporter James McElhone, do Washington Post, culpou o “mosquito beijador” como causador de mordidas de insetos nos lábios de algumas pessoas. Escreveu uma historia sensacional sobre o assunto, descrevendo como terrivelmente as pessoas tinham sido envenenadas e como os tais mosquitos estavam iniciando uma nova epidemia pior que a peste negra. Desnecessario se faz dizer que a historia desencadeou pânico atroz na nação, e uma senhora até descreveu seu ataque muito mais parecido com o ataque de um vampiro do que um mosquito. Pedintes começaram a cobrir o rosto com bandagens para aumentar seus proveitos e vários espertinhos pediram assistencia financeira governamental, pois clamavam ter perdido seus empregos devido ao tal mosquitão. Curiosamente, nunca que foi um mosquito pego no ato e os entomologistas, eventualmente, classificaram a coisa como “epidemia jornalistica”.

O FENÔMENO DOS CAÇADORES DE CABEÇAS – MALASIA – 1937
Nessa data, em algumas remotas regiões da Malasia e Indonésia, o povo começou a acreditar que o governo tinha espalhado caçadores de cabeças para conseguir as mesmas, que serviriam como base de construção de novos prédios e pontes. Pânico alcançava seu pico todas as vezes que uma nova estrutura começasse a ser contruida, e a coisa paralizou a cidade de Banda, onde as pessoas se barricaram dentro de casa. Historias de sons e visões estranhas só aumentaram a nóia, e alguns bons contadores de historias fizeram pequenas fortunas contando de seus encontros com e de como tinham escapado dos tais caçadores. A coisa se repetiu, agora em Bornéu, onde os moradores ficaram paranoicos após os rumores de que o governo estava raptando pessoas para reenforçar a estrutura de uma ponte próxima. Foi imposto toque de recolher, as escolas foram fechadas, e, surpresa, surpresa, milicias e patrulhas foram formadas. Para os especialistas que analisaram estes casos, os sustos/mitos dos caçadores de cabeça são essencialmente um boato que aparece de tempos em tempos e reflete a relação ideológica desconfortável entre tribos e seu governo.

INTERNAÇÃO DOS JAPONESES/AMERICANOS EM CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO – 1942- SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Depois de Pearl Harbor, xenofobia em relação a tudo o que fosse oriental, se espalhou pelos EUA, levando à construção de uma série de campos de concentração para o confinamento de milhares de Japones e nipo-americanos que viviam na costa oeste dos EUA. Sem julgamento, essas pessoas tinham os seus negócios e bens confiscados e seus lares roubados (permanentemente), enquanto eles foram transferidos para assentamentos a centenas e até milhares de milhas de distância de suas casas. Isso sem contar os que foram mortos ou sériamente lesados por milicias patrióticas, bem ao estilo dos Nazis contra judeus.

O PAVOR VERMELHO – 1940 – FINAL DOS ANOS 50 – McCARTISMO
Uma das formas verdadeiramente selvagens (e modernas) de histeria política manufaturada, foi o surgimento de um senador alcoólatra chamado Joseph McCarthy após o fim da Segunda Guerra Mundial. Há que se fazer um resumão de longuissima história, que aqui vai: O Partido Republicano (GOP) estava se tornando insignificante após Franklin Delano Roosvelt (FDR) e os democratas conseguirem tirar o país da Grande Depressão e, em seguida, projetar a vitória dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. O que fazer? Joe McCarthy e suas nunca, jamais, nem uma única vez verificadas acusações de que o governo dos EUA tinha sido completamente infiltrado por comunistas, conseguiu mergulhar o país em uma fossa de paranóia e fascismo que os republicanos exploraram ao máximo. Milhares de pessoas, professores, funcionários públicos, artistas, perderam seus empregos porque ou não quiseram assinar "juramentos de lealdade", ou porque não "informaram" sobre os seus amigos e vizinhos, ou porque alguém os viu lendo algum livro que parecia suspeito, ou foram ouvidos dizendo algo que parecesse anti Americano, enfim, dá para ter uma idéia. Há centenas de bons relatos no you tube, é só clicar McCartism ou McCartney. A coisa foi tão feia, que foi cunhado o termo MACCARTISMO, que é a prática de fazer acusações de subversão ou traição sem qualquer cuidado com evidências. Também significa a pratica de fazer alegações injustas usando técnicas investigativas injustas (o que inclui qualquer tipo de tortura), especialmente a fim de restringir discordância ou crítica política. Desnecessário se faz lembrar de como o McCartismo foi reinventado durante os anos Bush nesta terra dos livres e fortes, e continua, mais forte do que nunca, com a ascenção de Donald Trump, após 8 anos nos quais, Barack Obama, negro, democrata, absolutamente brilhante, tirou os USA da Depressão de 2009, ganhou o Nobel, aumentou o numero de empregos nesta terra, recusou-se, com uma classe que pouca gente possui, a baixar o nivel de seu discurso, ou como bem disse Michelle Obama na convenção democrata:
“Quando eles baixam o nivel, nós ascendemos.”

HISTERIA DE ABUSO EM CRECHES– 1980-90
Ou o caso McMartin, que se tornou um dos processos mais caros e sem sentido da historia Americana. E foi só a pontinha do iceberg do que viria a ser chamado de “histeria de ritual de abuso de creches”, e que durou quase duas décadas. No caso, trabalhadores de creches foram acusados de colocar as criancinhas em rituais de abuso satânicos. Afirmações fantásticas incluiram crianças serem forçadas a presenciar execuções (embora nunca se achou um defunto), estupros, torturas, e assim por diante. Todos, e digo todos os acusados, foram mais tarde exonerados, mas não antes de passar um bom tempo na cadeia e terem suas vidas total e completamente arruinadas. O que foi que causou a coisa toda? A resposta pode ser encontrada nos próprios pais. Como tornou-se mais comum para ambos, marido e mulher, trabalhar fora de casa, eles tinham que confiar seus filhos a creches, o que provavelmente muito aumentou ansiedade e culpa, e os que trabalhavam nas tais creches, se tornaram o bode expiatório perfeito para as angústias dos pais, ajudando-os a ignorar suas próprias falhas e problemas. Acrescente a isso os falsos testemunhos, vergonhosamente coagidos das crianças por psicologos interrogadores com pouco ou nenhum treino na situação, mais a vontade de escrever artigos inéditos (e os tiveram aos montes), e presto, lá se tem a receita perfeita para o equivalente do século 20 à caça às bruxas medieval.

O SUSTO DA COCA COLA CONTAMINADA DE 1999
A ameaça mais séria ao virtual monopólio da Coca-Cola na Europa começou em junho de 1999, quando mais de 100 estudantes na Bélgica “adoeceram” depois de bebe-la. A investigação, acoplada a PR inepto, custou à empresa $ 200 milhões de dólares e uma proibição de venda por vários dias em outros países europeus.
Embora o exame dos lotes contaminados tenha mostrado contaminação (foram encontrados "mau" dióxido de carbono e fenol), dois cientistas belgas especularam que os produtos contaminados tinham uma quantidade pequena demais para causar danos reais; para eles, o incidente foi principalmente "um caso de histeria em massa", alimentado, em parte, pelo pavor da doença da vaca louca e de produtos animais contaminados com dioxinas. A investigação separada do Conselho Superior de Higiene da Bélgica, em março de 2000, corroborou essas alegações e afirmou que a maioria das vítimas sofreu uma "doença psicogênica de massa." Sempre tive a desconfiança que teve o dedinho da Pepsi na coisa. Admito, adoro uma teoriazinha conspiratoria.

A COCEIRA DE BIN LADEN- Outubro 2001 a Junho 2002
Milhares de crianças de escolas primarias apresentaram erupções cutâneas que apareceram a troco de coisa alguma, e duravam de poucas horas a 2 semanas, desaparecendo tão misteriosamente como tinham aparecido. Todo mundo surtou: frente aos ataques de 9/11 e o susto do antrax, seria essa uma forma de bioterrorismo? A resposta é sim e não. Embora erupções cutâneas tenham sido e continuem sendo uma endemia em escolas, as crianças começaram a prestar mais atenção, e as enfermeiras das escolas começaram a reportar maior numero de casos que o costumeiro. Investigadores do CDC (Centro para Contrôle das Doenças -Atlanta-GA) descobriram que alguns estudantes, deliberadamente, esfregavam papel de lixa na pele, numa tentativa de fechar as escolas. Daí que, embora inexistente, a “coceira de Bin Laden foi ótima para espalhar histeria de massa. Aliás um caso há algumas semanas, trouxe à tona a coisa: Um avião foi atrasado horas, porque um senhora, vendo um italiano, professor de economia em Harvard, sentado ao lado dela e escrevendo muito concentrado, suas equações, apavorou-se e achou que era um terrorista árabe, fazendo coisas estranhas. Por um lado, ela estava certa, os números que usamos são arabicos. O tal professor está fazendo piadas homéricas com a coisa toda.

OS ATAQUES ALIENIGENAS NA ÍNDIA EM 2002
Conhecido como "muhnochwa", ou "arranhador de rosto," o ser apareceu no estado indiano de Uttar Pradesh, e deixava queimaduras ou marcas de arranhões no rosto e extremidades de suas vítimas. Ele também, supostamente, causou a morte de meia dúzia de pessoas, o que levou os moradores do lugar a formar grupos de vigilantes e a uma revolta contra o que acreditavam ser a falta de proteção policial. A agitação tornou-se tão difundida que o governo nacional teve de intervir e enviar agentes para investigar o caso.
Antes da investigação, havia teorias bizarras sobre as origens do muhnochwa. Uma delas era uma crença de que a coisa era um inseto zumbi gigantesco, usado por agentes paquistaneses para espionagem. Finalmente, os cientistas que investigaram o caso explicaram que o tal muhnochwa nada mais era do que um raio em bola, fenômeno natural que ocorre costumeiramente durante longos períodos de seca e pode queimar em contacto com a pele humana.
E nem vou comentar a histeria das armas de destruição em massa, que o Hussein nunca teve, mas que levou à Guerra mais longa que os USA já entraram, assim como à desestabilização de toda a região e ao aparecimento do tão comentado ISIS.

E chegamos ao que vou chamar de “O GRANDE ENROSCO CONFUSO”.
Aqui nos USA, Donald Trump ganhou as primárias para concorrer à Presidência, pelo Partido Republicano (GOP) e no Brasil, Bolsonaro está cotadissimo para o mesmo posto. O que tem os dois em comum?
Me perdoem se falo mais sobre os USA do que sobre o Brasil. No primeiro, vivo, tendo então experiência na pele. No Brasil, vivi, sendo que agora, embora avidamente leia as notícias, em jornais e através de relatos de amigos e dos posts no Facebook, não é a mesma coisa do estar aí todos os dias.
Então, vamos a alguns fatos interessantes:
Hitler admirava o genocidio perpetrado contra os índios Americanos, assim como as politicas de segregação do regime de Jim Crow no Sul dos USA, tanto que as Leis de Raça de Nuremberg foram moldadas em cima das mesmas. Segundo Ernst Hanfstaengl, Hitler estava “apaixonadamente interessado” na KKK. E falando no mal citado, ele também era bom conhecedor e manipulador, tanto da histeria, como das massas.

“Se você conta uma mentira grande o suficiente e a repete com frequência, será acreditada.”
“Use a emoção para as massas, e a razão para poucos”
“A receptividade das massas é muito limitada, sua inteligencia pouca, mas seu poder de esquecimento é enorme. Como consequência de todos esses fatos, toda propaganda eficaz deve ser limitada a poucos pontos, e há que martelar esses pontos ou slogans até que o ultimo membro do público entenda o que você quer que ele entenda atravéz dos seus slogans.”
“O primeiro e essencial ponto para o sucesso é o emprego regular da violência.”
“Humanitarismo é a expressão de estupidez e covardia.”
“Escolas seculares não devem ser toleradas, porque tal escola não tem intrução religiosa, e qualquer instrução moral sem religião é contruida no ar, consequentemente, todo o treinamento do carater e religião tem que ser derivados da fé…precisamos de pessoas crentes.”
“A nossa força consiste em nossa velocidade e na nossa brutalidade. Genghis Khan levou milhões de mulheres e crianças para o abate, com premeditação e um coração feliz. A História vê nele apenas o fundador de um Estado. Me é indiferente o que uma fraca civilização europeia ocidental vai dizer a meu respeito. Emiti o comando e, se alguém proferir uma palavra de crítica, será executado por um pelotão de fuzilamento, pois nosso objectivo que é a Guerra, não consiste em permanecer dentro de certas linhas, mas na destruição física do inimigo. Assim, define minhas ordens, para que enviem à morte sem dó e sem piedade, homens, mulheres e crianças de derivação e linguagem polaca. Só assim vamos ganhar o espaço de vida (Lebensraum) que precisamos. Quem, afinal, continua falando da aniquilação dos armênios?”
“Não importa o tamanho do talento empregado na organização de propaganda, pois não terá resultado se não for levado em conta este principio fundamental: Propaganda deve ser limitada a alguns temas simples e estes devem ser repetidos sempre. Aqui, como em inúmeros outros casos, a perseverança é a primeira e mais importante condição para o sucesso.”
“A função principal da propaganda é convencer as massas, cuja lentidão de entendimento é grande e precisa de tempo para que possa absorver a informação; e só a repetição constante finalmente conseguirá gravar uma ideia na memória da multidão.”
“Paralela à formação do corpo uma luta contra o envenenamento da alma deve começar. Toda a nossa vida pública de hoje é como uma estufa para idéias sexuais e simulações. Basta olhar para o cardápio servido em nossos filmes, vaudeville e teatros, e você dificilmente será capaz de negar que este não é o tipo certo de alimentos, particularmente para os jovens ... Teatro, arte, literatura, cinema, imprensa, posters, e cultura devem ser limpos de todas as manifestações do nosso mundo podre e voltar a ser colocadas a serviço de uma idéia moral, política e cultural.”

E os exemplos da criatura não acabam, mas a idéia é trazer à tona o quanto as idéias do Hitler continuam firmes, fortes e funcionando, no âmago de nossas vivências. Para os estudiosos do fascismo, não apenas como fenômeno historico, mas como um fenômeno vivo que sempre se manteve numa espécie de meia-vida, nas franjas da direita de qualquer nação, tipo assim como um virus, que está em suspensão e passa a viver e se reproduzir tão logo consiga penetrar na célula de um animal. É um fenômeno ao mesmo tempo simples e complexo: em certo sentido, se assemelha à patologia psicológica humana, que é composta de uma complexa constelação de traços que estão interligados e cuja presença aumenta ou diminui de importância de acordo com os estágios de desenvolvimento que atravessa; e em outro, pode, em muitos aspectos, ser inserida, de cima para baixo, pela imposição cru, quase selvagem, da vontade violenta organizada de um ID humano irritado e dominado pelo medo de suas própias inseguranças.

E é nesse ponto que indivíduos como Trump, Bolsonaro, Maduro, Chavez, Fidel, Stalin (que infelicidade o ter que citar só alguns porque a lista é muito longa), se sobressaem. E não venham me fazer a distinção de que Maduro, Fidel, Stalin eram ou são de esquerda. São e foram tão fascistas quanto Hitler, Mussolini, Hussein, e quantos outros quiserem colocar, pois dominaram milhões de pessoas através do medo, força, destruicão, morte e propaganda, portanto farinha do mesmo saco.

Robert O. Paxton, em “The Anatomy of Fascism” (Anatomia do Fascismo), escreve:

“Fascismo pode ser definido como uma forma de comportamento político marcado pela preocupação obsessiva com o declínio da comunidade, humilhação ou vitimização e por cultos compensatórios de unidade, energia e pureza, em que uma parte é a base de massas de militantes nacionalistas comprometidas, que trabalham na desconfortável mas eficaz colaboração com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e persegue com violência redentora e sem ética ou restrições legais, os objetivos de limpeza interna e expansão externa.”

E continua, descrevendo suas “Nove Paixões Mobilizadoras”:
1-Uma sensação de crise esmagadora e fora do alcance de todas as soluções tradicionais.
2-A primazia do grupo, para o qual a pessoa tem deveres superiores a qualquer direito, seja universal ou individual, e a subordinação do indivíduo a citado grupo.
3-A crença de que o grupo é vítima, sentimento este que justifica qualquer ação, sem limites legais ou morais, contra os inimigos do grupo, tanto internos como externos.
4-O medo de declínio do grupo sob o efeito corrosivo do liberalismo individualista, do conflito de classes, e/ou de influências alienígenas.
5-A necessidade de integração de uma comunidade mais pura, por consentimento se possível, ou pela violência excludente, se necessário.
6-A necessidade de autoridade por líderes naturais (sempre do sexo masculino), culminando com um chefe nacional, que é o único capaz de encarnar o destino do grupo.
7-A superioridade dos instintos do líder sobre a razão abstrata e universal
8-A beleza da violência e a eficácia da vontade, sempre e quando dedicadas ao sucesso do grupo.
9-O direito do povo escolhido de dominar os outros sem restrições de qualquer tipo de lei, humana ou divina, direito a ser decidido pelo único critério de bravura do grupo (lei do mais forte, e não, Darwin nunca disse isso).

Em muitos aspectos, a campanha presidencial de Trump preenche muitos dos componentes dessa complexa constelação de características que define o fascismo, somado ao aparecimento do líder carismático em torno do qual as tropas podem se juntar, aquele que exprime as suas frustrações e seduz seus seguidores. E é isso que o torna tão perigoso.
Porque a histeria tem como base a sedução. Longe dos fatos, longe da lógica, baseia-se em “sentimentos”, “sensações” e percepções. E quando o líder carismatico sabe como controlar esse caldeirão em ebulição, dignificando os mais baixos sentimentos e aspirações, que todos nós temos, a maioria de nós tentando manter sob controle, a quimica é perfeita.

Vejamos quais foram e são os pontos básicos da campanha do Trump:

Eliminação e Purificação da Raça: Mandar todos os mexicanos ilegais de volta para o México (são 11 milhões de pessoas, a logistica envolvida nisso é incompreensivel), porque são todos ladrões, criminosos, assassinos e estupradores, retorica classica para demonizar uma classe inteira de gente, reduzindo-os a objetos que só servem para ser eliminados. Não vamos nos esquecer de também devolver todos os Mussulmanos.

Ultranacionalismo Palingenético, definido pelos seus slogans de campanha: “Fazer a América grandiosa de novo”, “Tomar o país de volta”, ou seja o mito do renascimento da Fênix, a partir das cinzas, de uma sociedade toda inteira, para um utópico “tempo bom”, num passado que provavelmente nunca existiu.

Profundo desprezo tanto pelo liberalismo quanto pelo conservadorismo estabelecido.

Proclamação consistente e retumbante do “estado de crise” da America e da mesma ter se tornado motivo de riso do resto do mundo, por causa dos liberais, principalmente o mais negro e liberal de todos, que acontece ser o Presidente da Nação.

Personifica a insistência fascista da liderança masculina por ser “um homem do destino”, assim como sua recusa em reconhecer a evidência factual da falsidade de muitas das suas proclamações e comentários incorporando a noção fascista que os instintos do líder são mais importantes que a razão e os fatos.

Desprezo por “fraquezas”, que vão desde dizer que quem é capturado numa guerra é uma besta, a escárnio de um repórter do New York Times com deficiência física.

Os exemplos são tantos que não há qualquer possibilidade de colocá-los todos num post de blog.

O ponto é o seguinte: fascismo só funciona em cima da perfeita organização da histeria de massa. E nisso, culpo a mídia, falada, escrita e de qualquer outra forma, que prefere o interessante aos fatos e está sendo incapaz de promover pensamento critico, que alias é o único antidoto para a já citada.

E é tão simples: Pense. Pense sobre você mesmo e suas crenças. Por que as tem? De onde vieram? Elas defendem seus direitos ou suas singularidades? Consegue debater sem insultar? Consegue diferenciar coisas pelas quais morreria, daquelas pelas quais vive?

"Os direitos humanos" são uma coisa boa, mas como podemos ter a certeza de que nossos direitos não se expandem à custa dos direitos dos outros? Uma sociedade com direitos ilimitados é incapaz de enfrentar a adversidade. Se não desejarmos ser governados por uma autoridade coercitiva, então cada um de nós deve controlar-se. A sociedade estável não é alcançada através do equilíbrio entre forças opostas, mas pela consciência da auto-limitação, pelo princípio de que estamos sempre obrigados a defender o senso de justiça moral. "
Aleksandr Solzhenitsyn, Rebuilding Russia: Reflections and Tentative Proposals (Reconstruindo a Russia: Reflexões e Propostas, tradução livre)

BIBLIOGRAFIA
Mass Hysteria & Moral Panic: Definitions, Causes & Examples CLIQUE AQUI

Mass Delusions and Hysterias: Highlights from the Past Millennium CLIQUE AQUI

MEIN KAMPF, Adolph Hitler CLIQUE AQUI

Nazi Germany: Confronting the Myths: Catherine A. Epstein, John Wiley and sons, 2015

Rebuilding Russia: Reflections and Tentative Proposals, Aleksandr Solzhenitsyn ,Harvil Press, 1991

Salem Witch Trials CLIQUE AQUI

Strange Cases of Mass Hysteria CLIQUE AQUI

Storia dei Greci, Indro Montanelli, RCS Rizzoli Libri, Milano, 1979

The Anatomy of Fascism, Robert O Paxton   CLIQUE AQUI



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