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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

THANKSGIVING – O DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS

Quando cheguei aqui nos USA, me entusiasmei com duas coisas: o Halloween e o Thanksgiving. Adoro uma celebraçãozinha, principalmente pela primeira festa de Halloween, na Universidade da Florida, há milênios atrás, festa a fantasia, onde vi um rapaz, cujo nome nunca soube, nem nunca mais vi, fantasiado de “Mont Blanc”, isto é, ele, pelado, escultural, negro, com um ovo na cabeça. Provavelmente nunca mais vi, por três motivos básicos: as luzes estroboscópicas da festa, por não ter prestado muita atenção na cara e por, com certeza, parecer diferente quando vestido. Mudou muito o Halloween...

Já o tal do Thanksgiving, passei na casa de um dos professores da Universidade, com as coisas típicas: peru, ao qual não sou por demais chegada, purê de batatas, green beans casserole (guisado de vagens), stuffing (uma farofa embolada com pedaços de maçã), cranberry sauce (molho de cranberry que chequei no google e é uma coisa chamada de uva do monte) e torta de abóbora. Decididamente não minhas comidas prediletas. Mas a festa é interessante, tipo nosso Natal, família se junta com as confusões típicas de tais eventos, todo mundo come de se empanturrar, e depois assiste a jogo de futebol americano pela TV. E esse evento não mudou nada. Dia seguinte, sexta feira, é chamada de Black Friday, onde o povo sai de madrugada para invadir lojas, onde, teoricamente, os preços são rebaixadíssimos. Fui uma vez, nunca mais volto, nem sob tortura. Aliás, ri muito, ano passado, ao ler que o costume chegou ao Brasil, onde tudo estava “pela metade do dobro”.

Naturalmente, como sou fascinada por história, fui ler a respeito do evento. Pelo visto, o primeiro foi em 1621, entre os índios americanos (tribo de Wampanoag) e os peregrinos, para celebrar o fato de que os índios tinham ensinado aos peregrinos, que estavam a morrer de fome, a comer peru e plantar e comer milho. Depois disso, os já citados peregrinos, foram em frente, e dizimaram os índios, e pelo visto este costume dos brancos de acabarem com as populações nativas vem de longa data. O Thanksgiving continua, e a destruição idem.

Anos, muitíssimos anos depois, já no Texas, meu chefe supremo no MHMRTC, médico psiquiatra, que não só vinha da mesma Duke University, o que nos proporcionou amizade ao primeiro encontro, mas também louco por história, me informou de como os Puritanos e Peregrinos vieram parar nessa terra, e a historia é bem diferente do que contam nos livros, isto é, que os tais fugiram da Inglaterra por serem perseguidos por sua fé religiosa.

Num enorme resumo, foi assim:

Primeiro, é bom saber que eram grupos distintos, desde o início, e foram os que colonizaram o que agora são os estados de Maine, New Hampshire, Vermont, Massachusetts, Rhode Island, e Connecticut. Peregrinos e Puritanos são divergências da mesma base, que foi a Reforma Inglesa, no século 16, quando Henrique VIII, católico, em querendo se divorciar da primeira mulher para casar com a Ana Bolena, desafiou o Papa Clemente VII, em 1533, e, ao contrário do que se aprende na escola, ele não rejeitou a Igreja Católica, simplesmente se colocou como chefe da Igreja Católica na Inglaterra. É por isso que, na Igreja Anglicana, os ritos e tudo o mais são iguaizinhos à Igreja Católica, só que os padres podem casar. Quando morreu, ao trono subiu seu filho, Eduardo VI, protestante convicto, que perseguiu os Católicos com fé, gosto e vontade. Suas reformas foram revertidas quando subiu ao trono sua meia irmã, Maria I, católica fervorosa, que passou a assar protestantes com tanta fé quanto o irmão tinha decapitado católicos. Pelo visto um pouco mais, pois ficou conhecida como “Bloody Mary”, ou Maria Sanguinolenta, que hoje é um coquetel feito com vodka, suco de tomate, tabasco e pimenta, que meu chefe da Neurologia em Gainesville jurava que era o melhor remédio para ressaca já inventado. Assim, embora muitos protestantes alegremente tenham ido ao martírio, outros tantos se mandaram, pensando em voltar logo, pois a Maria era velha e doente, e tiveram razão, pois ao trono foi sua meia irmã Elizabeth, novinha, popular e protestante.
A meta dos tais fujões, e que voltaram em massa em 1558, quando da morte de Maria, era se livrar dos católicos que tinham sobrado, e dessa forma melhorar a religião e o reino, apagando pobreza, analfabetismo e vícios, purificando assim a Igreja e o Império. Por isso ganharam o apelido de “Puritanos”, e vocês verão que, mutatis mutandi, estamos no mesmo pé 500 anos depois. Acreditavam piamente que, a recusa dos ingleses de reformar sua igreja e sua sociedade estava trazendo a ira divina para cima do reino. Segundo eles, o Apocalipse estava chegando, e só havia duas possibilidades: ou o mundo mudava segundo seus desejos, ou eles tinham que sair da Inglaterra para evitar a tal cólera divina. E se decidiram perseguidos de novo.
E aí, surge outro grupo, que foi chamado de “Separatistas”, e que no século 19 ganhou o romântico apelido de “Peregrinos”, que rejeitaram totalmente a Igreja Anglicana. Como na época isso era considerado traição, se mandaram para a Holanda, de onde também foram expulsos, e, não tendo mais para onde ir, embarcaram no Mayflower e vieram para a América, ou na conclusão do já citado chefe supremo, “isso lhe mostra bem que tipo de criaturas somos nós americanos, um bando de extremistas cabeçudos”. Conclusão dele, não minha, mas, quanto mais vivo por aqui, mais tendo a concordar.

E fiz essa introdução toda para chegar ao ponto em questão. Este ano, a comemoração do Thanksgiving vem logo depois da celebração dos 50 anos da morte do John Kennedy, celebração essa em grande estilo, não só com a revisão “ad nauseam” na TV do famoso tiro, mas principalmente de dois documentários que assisti, muitíssimo bem feitos, principalmente um chamado “A bala que mudou a história”, o qual traz considerações fascinantes sobre a mudança cultural que ocorreu no país depois da morte do JFK. Este ano, esta época está sendo, para mim, extremamente cheia de significados.

Primeiro, me dou conta que MEIO SÉCULO, em maiúsculas mesmo, se passou, desde o dia que meu pai foi me pegar na saída do colégio, estranhamente não conversou com a freira que estava no portão, me levou até o carro abraçando meus ombros, e, espanto dos espantos, fumou dirigindo. Papai foi fumante desde sempre, segundo ele, mas dirigindo, nunca. Dizia ele que quando se dirige, se dirige, não dá para ficar fazendo besteira. À minha pergunta do que estava acontecendo, só sacudidas de cabeça e resposta padrão: “Sua mãe te explica”. Ao chegar em casa, segundo espanto: mãe, vó, tia avó e bisavó, em volta da TV, que, absurdo!, ligada estava no meio da tarde. E todas chorando. Finalmente, não sei qual delas, acho que todas juntas, me contaram que o John Kennedy havia sido assassinado.

Segundo, via Facebook, descubro que minha turma está se encontrando para celebrar os 37 anos de formatura da Faculdade de Medicina. Como assim? Me formei semana passada!
E aí vieram as fotos, e não tinha jeito, revisão, memórias, flashbacks e tudo a que se tem direito nessas ocasiões.

Como espanto pouco é bobagem, tal qual miséria, parece que este ano o ensandecimento tem sido maior do que o costume. Aqui nos USA, pelo menos duas vezes por semana, temos matanças sem sentido e sem razão. Semana passada, um rapaz de vinte e poucos anos, suicidou-se com um tiro na cabeça, após esfaquear o pai, isso depois de ter ido a um hospital psiquiátrico e ter sido mandado embora por falta de vagas. Ontem, aqui no TX, uma enfermeira foi esfaqueada e morta, dentro do hospital onde trabalhava, pois foi defender os pacientes de um rapaz armado, e, obviamente, enlouquecido. Mês passado, os republicanos simplesmente paralisaram o governo porque são contra essa lei, chamada de Obamacare, que dá a possibilidade a todos, de terem um seguro saúde. A deputada republicana
Michele Bachmann, sobre a qual não darei opinião, pois considero total falta de ética soltar diagnósticos psiquiátricos,sem ser solicitada e por qualquer mídia, informa ao mundo que o Obama quer seguro saúde para todos os Americanos, porque espera que todos fiquem dependentes de cocaina e crack, e não, não estou inventando, não tenho tanta imaginação assim, por isso, clique aqui e leia na integra, http://www.huffingtonpost.com/2013/09/30/michele-bachmann-obama_n_4017567.html

Everest Wilhelmen, líder de uma coisa chamada Christian American Patriots Militia (Milícia dos Cristãos e Patriotas Americanos), postou em sua página no Facebook: “Agora temos a autoridade para atirar no Obama, isto é, de matá-lo”. Nada tão cristão como um tiro na cara. A Wikipédia me informa que, mesmo antes de virar presidente, o Obama já recebia proteção do serviço secreto, e que, ao virar presidente, até o momento teve mais ameaças que os 5 presidentes antes dele, somados.

E, para completar, a notícia de que a direita americana está enfurecida com o Papa. Só para dar o gostinho, traduzo algumas declarações:

Senador Ted Cruz, republicano pelo Texas, e pai do congelamento do governo: “Como ele se atreve a dizer isso? Nosso amado Ronald Regan, que sempre foi mais religioso que qualquer papa, disse que, se dermos mais dinheiro aos ricos, eventualmente, todo mundo terá mais dinheiro. Só temos que esperar um pouco mais para que isso funcione”.

Senador Paul Ryan, católico devoto: “Obviamente ele (o Papa), está lendo a parte errada do livro. Riqueza é um conceito bíblico mais antigo que o próprio Jesus”.

Sarah Palin, a que não é nada, mas é ex- muitas coisas: “Não consigo entender o que este líder, supostamente uma pessoa religiosa, está querendo fazer”.

Quinta feira, estarei dando graças, comendo peru e pensando com meus botões que aquela bala não só mudou a história, mas fez com que voltasse 500 anos. Mas, que a fim e a cabo, embora vivendo a maldição chinesa de “tomara que você viva em tempos interessantes”, tenho muitas graças. Uma delas, neste momento, é me lembrar, com óculos cor de rosa, dos tempos de faculdade. É sim. Estou francamente saudosa, provavelmente, mais do que a faculdade em si, da minha juventude, quando as coisas eram claras, os maus eram os militares e a mantenedora da faculdade, e cantavamos “the answer my friend, is blowing in the wind...”e “Imagine”. Pois é...

E acabo de saber que, a única coisa que o vento soprou, foi a cobertura do Itaquerão, matando 3. Tempos interessantes.

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