Google+ Badge

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O MOVIMENTO ANTIPSIQUIÁTRICO E NOSSA RESPONSABILIDADE.


Seguindo a série de terrores acontecidos aqui nos USA, e a briga entre a NRA (National Rifle Association - Associação Nacional de Armas), que propõe que se armem os professores nas escolas, e os que defendem um discurso mais aberto sobre doenças mentais, entro de cabeça no pampeiro, talvez como forma de tanto fazer um "Mea Culpa", quanto poder ajudar a arrumar o mal feito.

Primeiro, quero dizer o que penso sobre distúrbios mentais:

1 - Acontecem em pessoas que não pediram para tê-los, não gostam de tê-los, não foram causados por escolhas estapafúrdias de vida, tipo muitos casos de diabetes tipo II em obesos ou câncer de pulmão em fumantes. Mesmo assim, diabéticos e fumantes não sofrem, nem jamais sofreram, o estigma que sofrem os que têm doenças mentais.

2 - Todo mundo e seu vizinho se dão ao direito de dar palpites sobre o assunto, desconhecendo por completo anatomia, fisiologia e patologia de um órgão chamado cérebro, que faz tanto parte de nosso corpo quanto o coração, pulmões, pâncreas, enfim, todos os outros. Ninguém que tenha um problema cardíaco escolhe seu cardiologista por este ter tido um infarto, pois é a única maneira de "entender" o paciente, muito antes pelo contrário, procuramos por qualificações claras que nos mostrem que a criatura tem o treino necessário para cuidar do assunto. Da mesma forma que não procuramos por um oftalmologista cego. Mas, quando se trata de um problema no cérebro, ou "mental", como queiram, aí não. No caso, vai-se de pai de santo, padre, "holísticos” generalizados, qualquer coisa para não encarar a seriedade do problema, porque, lá no fundinho de nós mesmos, continuamos, tal qual na Idade Média, a morrer de medo do desconhecido, e o cérebro permanece sendo a última fronteira. E, ao invés de adquirir conhecimento, que é a única forma de dissipar medos arcanos, vamos alegremente em frente, fazendo estragos enormes por pura e simples falta de conhecer.

3 - Qualquer um, que tenha vivido perto de alguém com algum problema mental, percebe que, tirando o mesmo, são pessoas como todas as outras, com contas para pagar, trabalho a fazer, filhos prá criar, enfim, tal qual você e eu, e mais outros bilhões de viventes neste grande supermercado de meu Deus. Então, estes de nós, que tivemos a imensa sorte de não termos tido o problema, precisamos entender a complexidade do mesmo, paremos de julgar e comecemos a fazer algo para aliviar o sofrimento, até mesmo por um ponto de vista de autopreservação, pois, considerando os dados da ONU, uma em cada duas pessoas é afetada por algum tipo de problema mental em algum momento de sua vida, de formas que amanhã posso ser eu ou você.

Não vou aqui escrever de novo toda a história da psiquiatria, e, se quiser um imenso resumo, procura no blog, que foi um dos primeiros posts que fiz. Neste, vou começar com o movimento antipsiquiátrico, o qual, no começo de minha carreira, engoli com isca, anzol e linha, daí o "Mea Culpa", e suas consequências, boas e péssimas.

O citado movimento já entrou na meia idade, desde que foi iniciado há cerca de 50 anos atrás, baseado numa crise de autoconcepção entre a psiquiatria biológica e psicanalítica, numa década caracterizada por outros movimentos radicais, e foi disseminado pelo trabalho de 4 pensadores, a saber: Michel Foucault, na França, R. D. Laing, na Inglaterra, Franco Basaglia, na Italia, e Thomas Szasz, nos USA. Eles defendiam o conceito de que a realidade e a liberdade pessoal são independentes de qualquer definição de normalidade que a psiquiatria clássica quisesse impor. Fazia muito sentido, pois até lá, qualquer pessoa, que se supusesse poder ser um perigo para si mesmo ou outrem, ou tivesse qualquer problema que o/a impedisse de viver independentemente, era institucionalizada, geralmente para o resto da vida.

Eu mesma, no início da década de 80, trabalhei num hospital psiquiátrico em São Paulo, com 500 leitos, no qual, a grande maioria dos pacientes nem recebia visitas de familiares. Era o princípio paternalista de nossa sociedade, onde, quem podia mais decidia os destinos dos que podiam menos.

Os 4 pensadores acima citados, como se diz, chutaram o pau da barraca, denunciando a situação e provocando mudanças radicais no sistema, com desenvolvimento de atitudes mais éticas e aumento dos direitos dos paciente. Isso foi muito bom, e todos nós ganhamos.

Os grandes "depósitos" de insanos foram fechados e mudamos o foco para tratamentos baseados na comunidade. Tenho a honra de ter sido colega de turma dos fundadores do primeiro Hospital Dia para psicóticos em São Paulo, A Casa, dos doutores Nelson Carrozzo e Moisés Rodrigues da Silva Jr.

A idéia, totalmente brilhante, foi de criar hospitais dia, casas de passagem, ambulatórios, enfim, toda uma infra estrutura necessária para tratar quem precisasse, e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade, liberdade e independência dos tratados, o máximo possível.

O plano, fantástico. A execução do mesmo, lamentável.

Foi muito mais fácil fechar instituições do que aparecer com o capital necessário para criar e manter serviços comunitários, os quais, na maioria dos países que conheço, nunca foram nem suficientes, nem adequados, e assim a consequência foi, e é, o de deixar milhões de pessoas que necessitam de assistência, ao Deus dará.

Os dados que se seguem são do CDC (Centro de Controle de Doenças) daqui dos USA, pois procurei seriamente e não encontrei estatísticas brasileiras na área.

_ 40% dos "sem teto” daqui, isto é, pessoas que vivem na rua, têm algum tipo de distúrbio mental, principalmente na área das psicoses, especialmente esquizofrenia.

_ 70% dos presos têm algum tipo de doença mental.

Ou seja, a grande maioria dos que foram previamente institucionalizados está agora na rua ou na cadeia. Esta foi a liberdade que lhe foi dada.

Não estou aqui sugerindo que se volte ao passado. Estou sugerindo que nos importemos com o problema.

Estou sugerindo que realmente desistigmatizemos as doenças mentais, isto é, paremos de confundir direitos dos doentes mentais com a noção estapafúrdia de que doença mental não existe, é só um constructo de psiquiatras e companhias farmacêuticas, num complô universal para...bom, para que, não sei - minha imaginação, por mais vivida que seja, não chega lá. Para isso, precisaria do talento do Preston ou do Child, e é por isso mesmo que gosto tanto dos livros deles.

Precisamos reconsiderar o equilíbrio entre a necessidade de, adequadamente, avaliar, tratar e fornecer serviços para as pessoas com doenças mentais, e os direitos e liberdades de todos os indivíduos.


Precisamos começar a usar esse maravilhoso órgão que temos entre as orelhas, para pensar em coisas como evidências biológicas das doenças mentais. Será possível que todos os cientistas, mundo afora, do Japão à Europa, da Rússia aos EUA, em todos os continentes, estão unidos na mesma conspiração, quando dizem que, com os avanços da neuroimagem, podemos fazer diagnósticos de doenças mentais, tal qual se faz o diagnóstico com marcadores biológicos para câncer?

De onde saiu a idéia de que tomar medicação para problemas psiquiátricos equivale a uma lobotomia química? Se você tem pressão alta, vai parar de tomar sua medicação porque, como qualquer outra, pode ter efeitos colaterais?

Concordo que, com o bombardeio de todos os tipos de mídia a respeito de "doenças famosas”, tipo distúrbio bipolar ligado ao ser artista, e com um bom punhado de artistas vindo a público falar de seu problema; distúrbios da ansiedade, com outras tantas pessoas famosas a falar disso, e consequente venda de benzodiazepínicos mais do que pãozinho quente; depressão e antidepressivos, com o pai de todos, o Prozac, sendo chamado de "pílula da felicidade"; qualquer pessoa de bom senso ficaria ressabiada.

O que a mídia não conta é que a maioria dos benzodiazepínicos, ansiolíticos e antidepressivos, é receitada por todo mundo na área médica, clínicos gerais, cardiologistas, ginecologistas, menos psiquiatras.

O que a mídia não conta é que a medicação ainda mais usada para o distúrbio bipolar é o velho Lítium, remédio que, por estar no mercado há tanto tempo, tem centenas de genéricos, é baratíssimo e a indústria farmacêutica não faz qualquer propaganda da coisa, por esse mesmo motivo.

O que a mídia não fala é na velha Esquizofrenia e Distúrbios Psicóticos em geral, porque não têm "status", porque os que padecem desse distúrbio continuam sem voz, pois é chique ser bipolar como a Catherina Zeta-Jones, mas é feio ser esquizofrênico.

E assim, de um jeito mais moderno, continuamos tão avestruzes quanto os mineiros do século XIX, que construíam nas casas um cômodo sem janelas, onde ficava o "maluco” da família, lá escondidinho das visitas. E quem não me crê, leia as crônicas do Fernando Sabino e do Dr. Hélio Pellegrino.

O problema é que o delírio do esquizofrênico segue a cultura onde vive.

Não vemos mais Napoleões, Sílfides, Elfos, Moisés ou Jeovás. Temos o Coringa, com acesso a armamentos automáticos, e temos as famílias, que continuam com a mesma vergonha e segredo da idade das trevas.

Enquanto isso não mudar, continuaremos a ver horrores, não porque o número de insanos aumentou, mas simplesmente porque nossa possibilidade para compaixão e compreensão diminuiu.

Michel Foucault


R. D. Laing

Franco Basaglia



Thomas Szasz




1 comentários:

Postar um comentário