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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AGNOTOLOGIA: O LADO NEGRO DAS NEUROCIÊNCIAS OU O ESTUDO PARA ESPALHAR IGNORÂNCIA

"A ignorância não é apenas o ainda-não-conhecido, também é uma manobra política, uma criação deliberada por agentes poderosos que querem que não se saiba" Robert Proctor

Faz tempo que tenho um caso de paixão/ódio com a agnotologia. Por um lado, me fascina a mecânica da coisa, por outro, tenho um pavor horroroso das consequências, com pleonasmo e tudo.

Por definição, agnotologia é o estudo da ignorância ou dúvida culturalmente induzida, em especial a publicação de dados científicos falsos ou enganosos.
A palavra foi cunhada por Robert N. Proctor, professor de historia da ciência e tecnologia em Stanford, juntando as palavras gregas “agnosis-não conhecer” e “logia-estudo de”.
Vem a ser o exato oposto de epistemologia, que é a teoria do conhecimento. É o estudo de atos voluntários para espalhar confusão e/ou engano, geralmente para vender um produto ou ganhar um favor.

O primeirissimo uso americano bem conhecido da agnotologia como deliberada produção de ignorância, segundo Proctor, foi a conspiração da indústria do tabaco a respeito dos riscos de seu uso. Usando o jargão científico, as companhias de cigarros produziram pesquisas a respeito de tudo, menos os problemas sérios de saúde consequentes ao uso, como forma de explorar e aumentar a confusão do público.
Em 1979, um memorando secreto da indústria do tabaco foi revelado ao público. Chamado de “Fumar, uma Proposta de Saúde”, e escrito uma década antes pela empresa de tabaco Brown & Williamson, revelou muitas das táticas empregadas pelas indústrias do tabaco para combater as "forças anti-tabaco".
Uma das partes mais reveladoras do memorando, é a do foco em como comercializar cigarros para o público : "A dúvida é o nosso produto, uma vez que é o melhor meio de competir com os fatos que existem na mente do público em geral . É também o melhor meio de criar polêmica. "

Isso chamou muito a atenção do Robert Proctor, que começou a estudar como é que essas companhias estavam negando, atrapalhando e /ou escondendo a relação do fumar com câncer, descobrindo não só os bilhões gastos por citadas companhias, como também cunhando o novo têrmo.

A Agnotologia também se concentra em como e por quais formas o conhecimento não acontece, ou é ignorado ou adiado. Por exemplo, o conhecimento sobre as placas tectônicas foi censurado e adiado por pelo menos uma década, porque algumas evidências foram classificadas como informação militar, relacionadas à Guerra Submarina.

Algumas das causas de ignorância culturalmente induzida são a negligência da mídia, o sigilo e supressão corporativa ou governamental, a destruição de documentos e uma miríade de formas de seletividade culturopolítica, além de nossa própria desatenção, memória curta e o raio do pensamento motivado, como tão bem explicou Dan Kahan, da Faculdade de Direito de Yale, no artigo “Motivated Numeracy and Enlightened Self-Government”(Motivação dos Números e Autonomia Iluminada - tradução livre minha, citado no post “A mais deprimente descoberta sobre o cérebro, no Blog Curare Dolorem Opus divinum Est CLIQUE AQUI).

Uma das consequências é simplesmente o retorno de doenças sérias e que estavam quase que erradicadas, devido ao movimento anti-vacinação. Vejamos:
Em 1998, o pesquisador Andrew Wakefield publicou um estudo na prestigiosa revista médica Lancet, clamando que havia uma conexão entre a vacina tríplice e autismo. Sua teoria era que a vacina contém vírus vivo, o qual, em crianças susceptiveis, causaria um sarampo crônico, o que por sua vez causaria disturbios gastrointestinais, inclusive o que êle chamou de “síndrome do intestino solto”, o que permitiria que certas toxinas e substâncias químicas, como por exemplo as encontradas no pão e laticínios, e que são digeridas no intestino, entrassem na corrente sanguínea, de onde iriam ao cérebro, lesando-o. A mídia desceu com tudo, espalhando o artigo, e como consequência, o índice de vacinação no reino Unido caiu, resultando num enorme aumento de doenças passiveis de prevenção.
E de nada adiantaram todos os artigos subsequentes demonstrando não haver qualquer relação entre vacina e autismo, nem o fato que o autismo continuou aparecendo no Japão, mesmo depois que eles retiraram a vacina, nem o fato da Lancet retirar seu aval do estudo, nem a demonstração, pelo jornalista investigativo Brian Deer, de que Wakefield havia colocado aplicações para uma vacina de sua invenção, nem o quanto estava ganhando de uma indústria farmaceutica para fazer testes infames nas crianças, além de estar sendo pago também por advogados para testemunhar contra as indústrias produtoras das vacinas numa ação de classe de pais de crianças autistas. E também ninguém ligou que o Conselho Médico Britânico lhe retirou a licença para praticar medicina.
Muito antes pelo contrário, os crentes do movimento anti vacina, transformaram o homem numa espécie de mártir, simplesmente negando qualquer evidência de sua ganância e conduta anti ética, e acreditando numa conspiração contra ele, projetada para esconder a verdadeira causa do autismo do público.
Caso esteja interessado na história toda, LEIA AQUI


Em 2004, Londa Schiebinger explicou que a epistemologia se pergunta como sabemos, e por que não sabemos, enquanto a agnotologia se pergunta como fazer para que não se saiba. Diz ela: “... a ignorância é muitas vezes não meramente a ausência de conhecimento, mas um resultado da luta cultural e política"

Seu uso como uma descrição crítica da economia política, foi expandido por Michael Betancourt em um artigo de 2010 intitulado " Immaterial Value and Scarcity in Digital Capitalism - Valor Imaterial e escassez no capitalismo digital." Sua análise focou-se na bolha imobiliária, de 1980 a 2008, aqui nos USA, e nós todos sabemos e vivemos as consequências da explosão de citada bolha. Betancourt argumenta que esta economia política deve ser chamada de capitalismo agnotologico porque “a produção sistêmica e manutenção da ignorância é um grande recurso que permite que a economia funcione, uma vez que permite a criação de uma "economia de bolha".
E continua, explicando “A criação de incógnitas sistêmicas onde qualquer "fato" potencial está sempre contrariado por uma alternativa de aparentemente igual peso e valor torna o envolvimento com as condições da realidade uma fonte de confusão, refletida pela incapacidade dos participantes das bolhas de se tornarem cientes do colapso iminente, e só enxergá-lo depois de ter acontecido.”

Agnotologia é tão importante hoje como quando Proctor estudou a ofuscação de fatos sobre câncer e tabagismo, pela indústria do tabaco. Por exemplo, a dúvida politicamente motivada sobre a nacionalidade do presidente dos EUA, Barack Obama, foi semeada durante muitos meses por adversários, até que ele revelou a sua certidão de nascimento em 2011, o que de nada adiantou porque quem acreditava que ele era mussulmano e nascido no Quênia, acreditando continuou. Em outro caso, alguns comentaristas políticos na Austrália, tentaram atiçar o pânico, comparando a classificação de crédito do país com a Grécia, apesar de todas as informações públicas disponíveis das agências de classificação, que mostram que as duas economias são muito diferentes. No Brasil, a direita insiste em mostrar quão maravilhosa foi a ditadura para a economia, embora seja conhecimento comum, e caso não seja, um minuto no Google mostraria dados e fatos do desastre. No mesmo paragrafo, a insistência da esquerda na negação dos rombos econômicos causados por simples ganância. E está aí o vale do ex-Rio Doce, que não me deixa mentir. Idem uso do Google.

Proctor explica que a ignorância muitas vezes pode ser propagada sob o pretexto de debate equilibrado. Por exemplo, a idéia comum de que haverá sempre duas visões opostas nem sempre resulta em uma conclusão racional, como bem mostrou a história das empresas de tabaco, usando a ciência para tornar seus produtos inofensivos. Hoje, vem sendo usada por negadores da mudança climática para argumentar contra a evidência científica. Pior, quem na realidade vemos argumentando é em geral um cientista, contra meia dúzia de “celebridades” de diversos matizes, com o cientista levando a pior, posto que o/a coitado tem as restrições causadas pelo conhecimento, enquanto os célebres não tem qualquer restrição no uso de sua ignorância, além de serem muito, mas muito mais estridentes.

Esta “rotina de equilíbrio" permitiu que os homens do cigarro e os negadores do clima de hoje, alegarem de que há sempre dois lados para cada história, que "os especialistas discordam” criando uma falsa imagem da verdade, portanto, a ignorância.
Notem que as frases são sempre vagas, sem dizer quem são os especialistas que discordam, como, em que e porque discordam.

Um exemplo disso que tenho claro na memória, foi, no século passado, a disputa política entre Lula e
Fernando Collor de Melo, na qual o último foi apresentado como “o caçador de marajás”, sem que, em nenhum momento fosse dito o nome de um só marajazinho caçado. O resto da história todo mundo conhece, incluindo a atual amizade entre os dois citados inimigos figadais.

Já Proctor,dá outro exemplo: muitos dos estudos que ligaram agentes cancerígenos ao uso de tabaco, foram realizados inicialmente em ratinhos, e a indústria do tabaco respondeu dizendo que os estudos em ratos não significavam que as pessoas estivessem em risco, apesar dos resultados adversos óbvios na saúde de muitos fumantes.
Hoje, escuto como explicação para a negação da evolução é que nunca ninguém viu um macaco virar gente, isso é claro que sem a menor preocupação de dar uma lidinha no que é, exatamente, a teoria da evolução, que nunca, jamais em tempo algum disse que macaco virava gente.

"Vivemos em um mundo de ignorância radical,e embora o conhecimento seja facilmente acessível, não significa que ele seja acessado. E pior, para as grandes questões de importância política e filosófica, o conhecimento das pessoas vem, muitas das vezes, de sua fé ou tradição, ou propaganda, mais do que qualquer outra coisa”, diz Proctor.

Ele também descobriu que a ignorância se espalha quando:1) muitas pessoas não entendem um conceito ou fato e 2) quando grupos de interesses especiais - como uma empresa ou grupo político trabalham duro para criar confusão sobre um problema.

Uma sociedade cientificamente analfabeta, provavelmente vai ser mais suscetível às táticas usadas por aqueles que desejam confundir e obscurecer a verdade.

E Proctor continua: "A luta não é apenas sobre a existência de alterações climáticas, é sobre se Deus criou a Terra para que nós a explorassemos, se o governo tem o direito de regular a indústria, se os ambientalistas deveriam ser habilitados, e assim por diante. Não é apenas sobre os fatos, é sobre o que é imaginado a partir de e para tais fatos ".

Outro estudante da ignorância é David Dunning, da Universidade de Cornell, o qual adverte que a internet está ajudando a propagar a ignorância, pois é um lugar onde todo mundo tem a chance de ser seu próprio perito, o que torna as pessoas presas fáceis de interesses poderosos que desejam espalhar deliberadamente a ignorância.

"Enquanto algumas pessoas inteligentes vão lucrar com todas as informações, agora apenas a um clique de distância, muitos serão enganados por uma falsa sensação de especialização. Minha preocupação não é que estamos perdendo a capacidade de fazer as nossas próprias mentes, mas que está se tornando muito fácil de fazê-lo. Nós devemos nos consultar uns com os outros muito mais do que imaginamos. Outras pessoas podem ser imperfeitas, tal como nós, mas muitas vezes as suas opiniões cobrem um longo caminho para corrigir nossas próprias imperfeições, como a nossa própria experiência imperfeita ajuda a corrigir os seus erros ", diz Dunning.

E concordar mais não poderia. Vamos dar uma olhadinha na nossa página do Facebook. Quantos posts você recebe por dia a respeito de curas milagrosas, superalimentos, notícias totalmente infundadas, mas colocadas tipo “olha agora porque isso é tão importante que logo será apagado” e coisas do gênero? Pois bem, agora me diga quantos post você recebe, e lê, de cabo a rabo, de sites com certa idoniedade, tipo BBC e Reuters? E quando recebe um post desse de “lê ou vai ficar sem saber para todo o sempre”, quanto tempo usa para checar a veracidade do mesmo, antes de passar para a frente?

Dunning e Proctor também alertam que a disseminação intencional da ignorância é galopante ao longo das primárias presidenciais dos EUA em ambos os lados do espectro político.
Só cá? Pergunto eu.

"Donald Trump é o exemplo óbvio, sugerindo soluções fáceis que ou são ou impraticáveis ou inconstitucionais", diz Dunning.

Assim, enquanto agnotologia pode ter tido suas origens no auge da indústria do tabaco, agora a necessidade conhecê-la é mais importante do que nunca.

Uma novissima disciplina, que tem conexão com a Agnotologia, é a Cognitronica, que tem como objetivos: 1) explicar as distorções na percepção do mundo causadas pela sociedade da informação e globalização e 2) lidar com essas distorções em diferentes campos.
A Cognitronica está estudando e procurando maneiras de melhorar os mecanismos cognitivos de processamento de informações e por conseguinte melhorar a esfera emocional da personalidade, desenvolvendo a capacidade de simbolizar, os mecanismos linguisticos, as capacidades de associação e raciocínio crítico, para ampliar as perspectivas mentais, que é pré condição importante para todas as esferas de atividade profissional na sociedade de informação.

A idéia é contrabalançar uma situação chamada “Dissonância Cognitiva”, que é o stress mental ou desconforto que sentimos quando temos que lidar com duas ou mais crenças, valores ou idéias contraditorias, ou quando somos confrontados por informação nova que entra em conflito com nossas crenças, idéias ou valores.

A Teoria da Dissonância Cognitiva (Leon Festinger), se baseia no pressuposto de que os indivíduos buscam a coerência entre suas expectativas e sua realidade. Devido a isso, as pessoas se envolvem em um processo chamado de redução de dissonância para trazer suas cognições e ações em sintonia, o que leva à diminuição da tensão psicológica e da angústia.

Velho Freud já havia explicitado que “só mudamos quando a dor do viver ultrapassa a dor do mudar”, e isso porque nosso cérebro funciona no mecanismo de buscar prazer e evitar a dor.

Vejamos um exemplo: Nós todos queremos uma real mudança no estado de política no Brasil, queremos mesmo, não importando se de direita, esquerda, meio ou pontas. Quantos de nós usamos o voto como real arma? Quantos de nós vamos a todos os meios, realmente simples, à distância de meia duzia de cliques, e pesquisamos a vida e feitos de nossos politicos, para daí decidir nosso voto? Provavelmente bem poucos, porque pode acontecer que de repente, encontramos um político de uma tendência diferente da nossa, mas com excelente ficha corrida, enquanto do nosso lado, os que se apresentam são terríveis.

Então usamos os seguintes mecanismos, para diminuir nosso desconforto:
1-Mudamos nosso comportamento ou cognição: “Onde encontro pesquisa séria?”
2-Justificamos o comportamento ou cognição, mudando a cognição conflitiva: “Alguém acredita em pesquisa séria neste país?”
3-Justificamos comportamento ou cognição adicionando novas cognições (reais ou imaginárias) “O blog do Fulano, Beltrano, Sicrano já informou que essas pesquisas são furadas”.
4-Ignoramos ou Negamos qualquer informação que entre em conflito com crenças pré existentes: “Bobagem pura”

E aí, a não ser que se use a numero 1, caso no qual ampliamos nosso conhecimento e podemos usar o pensamento crítico, somos presa fácil da Agnotologia, que simplesmente joga com nossa fraqueza muito humana de querermos estar certos, a qualquer custo e qualquer preço.

E que venha a Cognitronica!

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