Google+ Badge

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A QUE PONTO CHEGAMOS!

Ou DE COMO A INDÚSTRIA FARMACEUTICA VEM ALTERANDO PESQUISAS E RESULTADOS

Primeiro, a tradução do artigo, cujo original aqui pode ser visto http://www.scientificamerican.com/article/many-antidepressant-studies-found-tainted-by-pharma-company-influence/

"Depois de muitas ações judiciais e de uma resolução, em 2012, do Departamento de Justiça dos EUA, no mês passado uma revisão independente descobriu que o antidepressivo Paroxetina, não é seguro para os adolescentes. A descoberta contradiz as conclusões do julgamento da droga, que começou em 2001, que o fabricante GlaxoSmithKline tinha financiado, e em seguida, utilizado os resultados para vender a Paroxetina como sendo segura para adolescentes.

O julgamento original, conhecido como Estudo 329, é apenas um exemplo do alto nível de influência da indústria farmacêutica na investigação científica, incluindo ensaios clínicos da Food and Drug Administration, que exige financiamento das em presas farmacêuticas para avaliar seus produtos. Por essa razão, as pessoas que lêem artigos científicos como parte de seus trabalhos,têm contado com meta-análises, que são, em tese, revisões completas que resumem as provas,a partir de vários ensaios, em vez de confiar em estudos individuais.

Mas uma nova análise lançou dúvidas sobre essa prática, descobrindo que a grande maioria das meta-análises de antidepressivos têm alguma ligação com a indústria farmaceutica, com a correspondente supressão de resultados negativos. O mais recente estudo, publicado no Journal of Clinical Epidemiology, que avaliou 185 meta-análises, constatou que 1/3 delas foram escritas por funcionários da indústria farmacêutica. "Sabíamos que a indústria iria financiar estudos para promover seus produtos, mas é muito diferente financiar meta-análises, as quais têm sido, tradicionalmente, um baluarte da medicina baseada em evidências", diz John Ioannidis, epidemiologista na Escola de Medicina da Universidade de Stanford e co-autor do estudo.

Quase 80% das meta-análises na avaliação, tinham algum tipo de ligação com a indústria, seja através de patrocínio, que os autores definem como o financiamento direto, ou conflitos de interesse, definido como qualquer situação em que um ou mais autores trabalham ou trabalharam na indústria ou pesquisadores independentes que recebem qualquer tipo de apoio (incluindo honorários de palestras e bolsas de investigação). Especialmente preocupante, foi que o estudo mostrou que cerca de 7% dos investigadores tiveram conflitos de interesse não revelados. "Há uma certa hierarquia de papéis, que não estava associado com a pesquisa. As meta-análises estão no topo da pirâmide de evidência. Estou muito preocupado com os resultados, mas não os acho surpreendentes. A influência da indústria é apenas enorme. O que é realmente novo é o nível de atenção as pessoas estão dando agora ", diz Erick Turner, professor de psiquiatria da Oregon Health & Science University.

Os pesquisadores consideraram todas as meta-análises de ensaios clínicos randomizados para todos os antidepressivos aprovados, incluindo inibidores selectivos da recaptação da serotonina, inibidores seletivos de recaptação de serotonina e noradrenalina, antidepressivos atípicos, inibidores da monoamino oxidase e outros, publicados entre 2007 e Março de 2014.

Se os autores não relataram qualquer conflito de interesses, como é normalmente necessário, os pesquisadores examinam amostras aleatórias de artigos publicados pelo autor no mesmo ano, por declarações relevantes dos conflitos. Dois investigadores, que não conhecem os autores ou qualquer conflito potencial, daí avaliam se a meta-análise incluiu quaisquer declaração negativas ou advertência sobre a droga no sumário ou na conclusão do artigo.

Embora 1/3 dos estudos tenham sido escritos por funcionários da indústria, a maioria dos autores, 60%, foi de pesquisadores afiliados a universidades, independentes e mesmo assim, com conflitos de interesse. Para as 53 meta-análises onde o autor não era um empregado da indústria e não relatou quaisquer conflitos de interesse, 25% tinham conflitos de interesse não declarados, e que os pesquisadores identificaram em sua busca e incluiram na avaliação. As meta-análises que têm ligação com a indústria são muito diferentes daquelas que não têm. Aquelas ligadas à indústria dão cobertura muito mais favorável e tem menos ressalvas. Naquelas não ligadas à indústria, quase 50% tem ressalvas.

Meta-análises por empregados da indústria eram 22 vezes menos propensas a ter declarações negativas sobre a droga do que as dirigidas por pesquisadores independentes. A taxa de influência nos resultados é semelhante a um estudo de 2006 que examinou o impacto da indústria em ensaios clínicos de medicamentos psiquiátricos, o qual constatou que estudos patrocinados pela indústria relataram resultados favoráveis em 78%, em comparação com 48% em ensaios independentes.

Ioannidis acredita que as empresas farmacêuticas devem ser impedidas de financiar meta-análises, a fim de salvaguardar a objetividade. “Elas podem é muito bem financiar outros tipos de pesquisa, mas não quando se trata da avaliação final sobre se os pacientes devem tomar ou não um medicamento", diz ele.

Por definição, uma meta-análise deveria ser "a forma de avaliação mais abrangente possível, pois os médicos são bombardeados por informações todo o tempo e não conseguem, assim, fazer uma avaliação crítica completa por si mesmos. Meta análise passou a significar 'atalho” para toneladas de evidências”, diz Andrea Cipriani, professor de psiquiatria na Universidade de Oxford, que não estava envolvido neste estudo.

Cipriani concorda que é importante salientar a manipulação de meta-análises pela indústria farmacêutica. "Precisamos de destacar que este tipo de meta-análises se tornaram mais uma ferramenta de marketing do que uma ciência", diz ele. Mas Cipriani, que teve 7 artigos sinalizados na revisão, para conflitos de interesse relatados, pensa que é uma simplificação condenar todos os estudos com ligação com a indústria . Em vez disso, defende a transparência e diz que o principal problema é a falta de divulgação. Para seu crédito, mesmo com conflitos de interesse presente, todos os estudos de Cipriani incluíram advertências na conclusão ou resumo. Infelizmente, foi um dos poucos pesquisadores com conflitos declarados a fazê-lo.

Mas, as revistas científicas, muitas vezes, têm seus próprios conflitos de interesse, algo que Cipriani reconhece. Ioannidis e seus colegas originalmente tentaram publicar seu mais recente estudo em revistas de psiquiatria, onde achavam que seria mais pertinente, mas a recepção foi fria. "Algumas pessoas ficaram bastante irritadas com isso ,pois muitos de seus editores têm fortes laços com a indústria.", diz Ioannidis.

O preconceito também se mostra nas publicações científicas, que mostram uma preferência por novos resultados, positivos e estimulantes ao invés da replicação de estudos passados, replicação essa que é parte essencial do processo científico. Essa tendência existe, independentemente da fonte de financiamento ou tratamentos avaliados. Em um estudo, também publicado no mês passado, Turner encontrou influência na publicação e resultados inflacionados em vários estudos sobre Psicoterapias (não medicamentosas), financiados por vários Institutos Nacionais de Saúde.

Os antidepressivos são um dos maiores mercados farmacêuticos, com faturamento de US $ 9,4 bilhões, só nos EUA (2013). Cipriani e Ioannidis acreditam que o problema se estende a outros medicamentos com alto valor de mercado, tais como medicamentos cardíacos e para o câncer.

"O campo inteiro precisa de um exame de consciência", diz Ioannidis."

E eu não poderia concordar mais. Colocaria também que está mais do que na hora de termos sanções ralmente sérias a respeito do assunto.

Só para sublinhar a seriedade da situação, recordemos Andrew Jeremy Wakefield, pesquisador e cirurgião inglês, que em 1998 escreveu e publicou estudos fraudulentos , mostrando a ligação entre autismo e a vacina tríplice. Embora outros pesquisadores não conseguissem reproduzir seus resultados, foi só em 2004 que Brian Deer, reporter do Sunday Times, identificou o conflito de interesses, nunca revelados, de Wakefield, o qual, junto com seus colaboradores, submeteu crianças autistas a testes totalmente desnecessários, como colonoscopias e punções lombares. Mas foi só em 2010 que o Conselho Médico Britânico tirou a licença médica da criatura. Levaram 12 anos! E nesse ínterim, a vacinação para crianças diminuiu muito, dando base a esse movimento anti vacinação que está ai até hoje.

Lembro perfeitamente quando a indústria farmacêutica, pelo menos na área da psiquiatria, passou, de colaboradora no trato do paciente, a gerente de médicos. Creio que o ano foi 1989, sou ruim para datas, mas o fato é que era uma segunda feira, cheguei no consultório, e minha secretária, normalmente um poço de tranquilidade e temperança, encontrva-se totalmente histérica. Pelo menos 50 telefonemas de pacientes, o que era um marco absolutamente inédito, mesmo para uma segunda.Segunda era o dia de chegar 2 horas antes do inicio de minhas consltas, para poder organizar a semana, responder a telefonemas e todas essas coisas. Então começamos, por ordem de chamada. Para fazer uma longa história curta, a Veja havia feito uma enorme reportagem, que eu não tinha lido, sobre o Prozac, ou como foi chamada, a pílula da felicidade. Aqui tenho que fazer um parêntese explicativo. O Prozac (fluoxetina), foi o primeiro dos antidepressivos chamados de Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina. É claro que antes dela, havia outros antidepressivos, que, em termos de resultados funcionavam tão bem ou melhor que os recaptadores. O problema era que, seus efeitos colaterais eram horrendos, no sentido mais lato da palavra. Lembro de toda a classe ter ficado chocada quando uma paciente, em uso de IMAO, comeu carpaccio, a pressão dela foi aos céus, teve um derrame e morreu. Costumávamos fornecer aos pacientes listas de alimentos proibidos enquanto no uso das citadas medicações.Então, de repente, o Prozac veio como uma alternativa salvadora, e, embora não livre de efeitos colaterais, pois nada o é, com certeza não matava pacientes se comessem carne vermelha.E até aí, tudo bem, tudo certo.

O problema foi que, a indústria farmaceutica descobriu que a mídia, em sua ânsia pela "noticia", podia e foi usada como propaganda. Vai daí que meus pacientes queriam saber porquê não estavam usando Prozac. Notar que, na época, a maioria de meus pacientes era de esquizofrênicos e/ou dependentes químicos, com muito poucos depressivos de permeio, a metade deles usando Prozac, os quais queriam aumentar a dose para ficar "felizes e contentes".

Levei uma semana, sem atender a nenhum caso novo, para rever, no consultorio, todos os casos e explicar a diferença, entre um artigo na mídia leiga, e um tratamento médico. Claro que fui ler o artigo, e quis matar, não só o jornalista que o escreveu, como também todo o corpo editorial e os médicos que tinham dado seu testemunho.Mas foi um marco importantissimo.

Por sorte, e para desespero de minha secretária, sempre usei o tempo necessário para fazer contratos com pacientes, isto é, explicar a eles a doença que tinham, como tal doença costumava funcionar, o que eu podia fazer, o que ele tinha que fazer, o que o remédio ia ou não ia fazer, como, quando e de que jeito, fora os possiveis efeitos colaterais mais importantes.

Tenho plena consciência que fui muito sortuda, desenvolvendo minha profissão do jeito que quis e do melhor jeito que pude. Nunca trabalhei em serviço público, nem com convênios, acertando meus honorários dependendo das possibilidades dos paciente. A maioria não pode fazer isso, estando limitada pelos desejos/demandas de seus convênios, que, cá entre nós, são simplesmente a maior praga da medicina.

E, a partir daí, deu no que deu. Isto não quer dizer, em absoluto, que não possamos tomar vergonha na cara, e retomar o que é nosso, isto é, o trato do paciente.

E, só de birra, releiam o juramento que fizemos:

"Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência.

Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra.

Nunca me servirei da minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu para sempre a minha vida e a minha arte com boa reputação entre os homens; se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o contrário."

0 comentários:

Postar um comentário