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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

EM DEFESA DO ESCULACHO

“Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”. Erasmo de Rotterdam

E lá se foi uma semana da tragédia em Paris. Saldo: 22 mortos (12 do Charles, 3 policiais, 4 pobres coitados que, pecado dos pecados, faziam compras num mercado, os 2 atiradores da revista e um assecla.). Concomitantemente, em Baga, na Nigéria, o Boko Haram, grupo islâmico extremista, fuzilou cerca de 2000 pessoas, em sua maioria velhos, mulheres e crianças, que “não conseguiram correr a tempo” (http://jezebel.com/boko-haram-massacre-kills-up-to-2-000-mostly-women-ch-1678541680 ), e uma menina de 10 anos, embrulhada em explosivos, foi explodida num mercado em Maiduguri, também na Nigéria, matando uns 20 e ferindo cerca de 50. E, cerejinha no bolo, a fantástica demonstração de “Je suis Charlie”, nas ruas de Paris, em nome da liberdade de expressão, tendo à frente os seguintes campeões da anteriormente citada: Presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, onde aconteceu o maior número de jornalistas presos, nos anos de 2012 e 13, Presidente Ali Bongo do Gabão, pais onde as críticas ao governo são francamente desencorajadas, via leis anti libelo e ataques físicos aos jornalistas, ministros do Egito, Algéria e Emirados Árabes, que como se sabe, são um primor na liberdade de expressão. O embaixador da Arábia Saudita, onde um blogger foi sentenciado a 1000 chibatadas por blasfêmia, os cabeças do conflito Palestina/Israel e o Putin, na terra do qual, acabou de passar uma lei, proibindo que pessoas transexuais tirem carta de motorista. E nem comento da fúria ressurgente da extrema direita na França, com Le Pen, nem das manifestações anti islâmicas na Alemanha, após comentário da Merkel, há cerca de um ano que “a experiência multicultural obviamente não funcionou”.

E o verdadeiro grande herói dessa história toda, Lassana Bathily, 24 anos, negro, muçulmano, imigrante, carregador de mercadorias num mercado kosher, salvou um bando de gente, enfiando-os no freezer. Cadê as honras?

E os artigos. Ah! Os artigos, os comentários em todas as mídias, preciosidades desde liberdade absoluta, incluindo irresponsabilidade pessoal, de poder mijar em porta de prédios, a comparar bullying e insultos pessoais a sátira, aos “somos contra assassinar mas... (ai vem a variedade: não se insulta fé, religião, religiosos, etc., etc., etc.,) a os totalmente delirantes feito o twitter do Rupert Murdoch (dono da Fox News entre outros meios midiáticos) “Talvez muitos Muçulmanos sejam pacíficos, mas enquanto eles não reconhecerem e destruírem seu próprio câncer jihadista, eles precisam ser responsabilizados”, twitter que foi mais do que brilhantemente esculachado por J.K. Rowling, que mandou: “Eu nasci cristã. Se isso faz com que Rupert Murdoch seja minha responsabilidade, eu me auto excomungarei.”; e Aziz Ansari, que escreveu: “Rups, será que podemos ter um guia passo a passo? Como poderiam meus pais, de 60 anos, morando em NC, ajudar a destruir grupos terroristas? Por favor ensine.” E continuou em outro twitter: ‘Você está se responsabilizando por toda a diabólica shit que os cristãos fizeram ou só por aquela que você mesmo faz?”

E é esse o poder, a beleza e a força do humor, da sátira, que foi o que modificou o mundo, desde seus primórdios, gostássemos ou não (como é meu caso), dos do Charlie. Porque a gargalhada escrachada, o sorrisinho torto, a língua solta, o pensamento desenfreado, além de nos meterem em problemas, também nos libertam de grilhões.

Freud explicou o humor, como a coisa que acontece quando o consciente permite a expressão de pensamentos que a sociedade, no geral, suprime ou nega.Um superego benevolente permite um tipo de humor leve e reconfortante, enquanto um superego duro cria o humor sarcástico e amargo. Já um superego duríssimo, suprime totalmente qualquer possibilidade de humor. Alguém já viu alguma foto de Hitler, Stalin, Mao, Pinochet, Mugabe, Kim-Jong, Idi Amin Dada, Lenin, Sadam Hussein, Yahya Khan, Garrastazu Médici, o famoso triunvirato argentino da guerra das Malvinas, só para falar dos que me lembro, assim de cabeça, rindo às gargalhadas de si mesmos?

Aliás a guerra ao riso e à liberdade de pensamento, não é fenômeno moderno. A mitologia grega nos traz “Prometeu acorrentado”, que é o relato do castigo infligido por Zeus a Prometeu, cujo grande pecado foi roubar o “fogo do conhecimento” do Olimpo, e dá-lo aos homens. No Cristianismo, temos Eva sendo punida por ter comido o fruto da árvore do conhecimento (e cá na minha modesta opinião, Adão inventando a desculpa besta: “Senhor, foi a mulher quem me tentou!”).

Na Igreja Católica, temos o Index Librorum Prohibitorum, oficialmente nascido em 1559, para elencar os livros cuja leitura é aos católicos proibida, e que, embora oficialmente abolido em 1966 pelo papa Paulo VI, sobreviveu ao Concilio Vaticano II, sob forma de “guia bibliográfico”, aos cuidados do Opus Dei. Mas, muito antes disso, o primeiro Concilio de Niceia, em 325, proibiu a difusão das ideias de Ario, cujas obras foram queimadas, dando início a longa tradição, que até hoje perdura. A coisa mais irônica nessa história, é que Ario e os Arianos seus seguidores, acabaram sendo conhecidos pela insanidade nazista, como os loiros de olhos azuis, a raça perfeita em nome da qual se mataram, das formas mais perversas, 6 milhões de criaturas, em sua maioria judeus, mas também ciganos, qualquer um com deficiências físicas e/ou mentais, e, é claro, gays. Na realidade, Ario era um teólogo egípcio (consequentemente mais pro moreno do que loiro), que foi excomungado como herético, porque acreditava na não divindade de Jesus. Acreditava ele que o Cristo havia sido “adotado” por Deus Pai, e desta forma, dotado de poderes divinos para salvar a humanidade. A primeira lista de livros “heréticos”, se deve ao papa Gelásio I (o mesmo que eliminou a festa romana do amor pagão -14 de Fevereiro-e a substituiu por um santo, santificado naquele momento: são Valentim, e até hoje, na Europa e aqui nos USA, é o dia dos namorados), em 494.E a coisa foi ficando tão feia, que até a Bíblia foi proibida, quer as escritas em “línguas vulgares”, quer para aqueles que não fossem eclesiásticos. Para atarraxar mais ainda, que provavelmente o até aqui não bastava, eis que vem Alexandre VI (ele mesmo, Rodrigo Borgia, um dos mais senão o mais corrupto dos papas, com uma multidão de filhos ilegítimos, obcecado por sexo e vinganças, e que vendeu centenas de títulos cardinalícios porque simplesmente gostava de dinheiro. Depois dele foi instituída a castidade para padres) e institui o Imprimatur, isto é a autorização oficial a qualquer material escrito (Nihil obstat quominus imprimatur), que nada mais era do que censura preventiva.

Só para dar um gostinho, dentre os autores no Índex estão:
Alexandre Dumas (os dois, pai e filho), Anatol France, Curzio Malaparte, Dante Alighieri, Darwin,Descartes,Erasmo de Rotterdam,Francis Bacon,Freud,Galileo Galilei, La Fontaine ,Madame de Staël, Montesquieu, Nicolau Copérnico, Nicoló Machiavelli, Pascal, Pierre Larousse (esse mesmo, o do dicionário),Simone de Beauvoir, Stendhal,Voltaire,Victor Hugo (e, por uma questão de espaço, só coloquei aqui meus preferidos, tem bem mais do que isso).

E, já que estamos a falar de censura, que tal lembrar da Inquisição? A ideia da coisa foi para combater heresias. Começou no séc.12, na França, onde se acabou com os Cátaros, Valdenses, Hussitas, Beguines e Franciscanos Espirituais. No início, os Inquisidores eram escolhidos da Ordem dos Dominicanos, depois que se espalhou pela Europa toda, ficaram mais democratas, incluindo outras ordens. De Portugal e Espanha, espalhou-se pela América centra e latina, Ásia e África. Piorou muito no fim da Idade Média, como resposta à reforma Protestante, e com exceção dos estados papalinos, foi abolida no início do século 19, depois das guerras napoleônicas na Europa. Subsistiu como parte da cúria romana até 1904, quando ganhou o nome de Suprema Congregação Sagrada do Santo Ofício, e em 1965 tornou-se Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo agora papa emérito Benedito XVI, quando ainda se chamava cardeal Joseph Aloisius Ratzinger.

Pergunto eu, o que tem a ver a fé pessoal com a Instituição Religiosa, qualquer que seja essa? Jamais me ocorreria, melhor dizendo, pode até me ocorrer, mas não cometeria o ato de insultar a fé de qualquer pessoa, embora me reserve o direito de aplaudir em pé Dante Alighieri, quando coloca os papas Nicolas III e Bonifácio VIII no nono círculo do Inferno, sob o pecado de simonia, que é o abuso de privilégios, principalmente os clericais. Segundo bom Dante, isso equivale a prostituição espiritual, fornicação e estupro ((Inf. 19.1-4; 55-7; 106-11), pois é a perversão do sagrado matrimônio entre Cristo e sua Igreja. Ou como Erasmo de Rotterdan crítica, com muito humor, os excessos, tanto da Igreja Católica à qual sempre pertenceu, quanto os da reforma Luterana, apesar de ser amigo e admirador de Martin Lutero.

“A sátira é um gênero de literatura, artes gráficas e espetáculo, em que vícios, loucuras, abusos, e deficiências são tornadas ridículas com a intenção de humilhar corporações, governo ou a própria sociedade, em busca de melhoras. Embora seja geralmente concebida para ser bem-humorada, seu propósito maior é a crítica social, utilizando inteligência como arma e como ferramenta para chamar a atenção para problemas específicos e mais amplos de uma sociedade” (Elliot, Robert C.: "The nature of satire", Enciclopédia Britânica, 2004).

Historicamente, a sátira satisfez a necessidade popular de desmascarar e ridicularizar as principais figuras da política, economia, religião e outros reinos proeminentes de poder, pois confronta o discurso público, desafiando líderes e autoridades, expondo problemas e contradições. Por sua natureza e função social, tem desfrutado em muitas sociedades uma licença especial para zombar de indivíduos e instituições de destaque (na Alemanha e na Itália, há leis específicas para isso). O impulso satírico e suas expressões ritualizadas, tem a função de resolver tensões sociais, representando uma válvula de escape, que restabelece o equilíbrio e a saúde no imaginário coletivo, os quais são postos em perigo pelos aspectos repressivos da sociedade.

“Na história de nossa cultura, a sátira realizou o sonho popular de ridiculariza e profanar os gigantes político/econômicos/culturais, cuja reações punitivas certamente não foram condicionadas pela crítica estética, mas sim pela tolerância ou intolerância caracterizadas, naquele momento histórico, pela sociedade e seus governantes.”( Bevere, Antonio e Cerri, Augusto (2006) Il Diritto di informazione e i diritti della persona ).

E, devido a todo o acima citado, os que satirizam sempre tiveram problemas ao se contenderem com a falta de humor dos satirizados, que poder não acha graça ao se olhar no espelho.

E já que estamos falando de cultura islâmica, vamos recordar que, no século 9, Al-Jahiz introduziu a sátira (hija) na literatura árabe, iniciando com a ironização da preferência humana por grandes pênis, escrevendo: “Se o tamanho do pênis fosse um sinal de honra, a mula faria parte da honorável tribo de Quaraysh”. No século 14, Ubayd Zakani introduziu a sátira na literatura persa. Ele foi famoso por seus versos obscenos, relacionados a práticas homossexuais.

Então, enquanto a Europa estava mergulhada nas trevas da Idade Média, o que chamamos de Islam desenvolvia-se culturalmente, com invenções como a matemática, medicina e sátira a rodo, e seu declínio iniciou-se exatamente quando foi posto um mulá, em cada sala de aula, para se certificarem de que o que fosse ensinado estaria exatamente de acordo com os escritos do profeta.

Infelizmente, pelo que tenho visto aqui nos USA, parece que queremos seguir pelo mesmo caminho do eterno retorno, expurgando autores como Mark Twain, porque fala sobre escravidão, expurgando livros de história quando os fatos históricos não se conformam com a visão do extremismo religioso, dando espaço enorme a esse mesmo extremismo na arena política, em detrimento do livre pensar.

Então, sim, Je suis Charlie e os milhares de muçulmanos mortos pelos próprios extremistas (aliás, a grande maioria dos assassinados) e todos aqueles que sofreram qualquer ataque por ter idéias diferentes do momento histórico/cultural no qual viviam, incluindo a estatística horrenda que aprendi recentemente, a respeito do Brasil, isto é, 87 jovens são assassinados por dia, e 77% são negros).

“Sempre pedi a Deus uma única coisa: Senhor, faça com que meus inimigos sejam ridículos. E Ele me atendeu.” Voltaire

“Charlie Hebdo não é uma revista “islamofaba, pela simples razão de que é ridículo acusar quem faz sátira, de fazê-lo por uma “persistente e irracional medo do islam”, ou quem faz uma piada sobre o Papa, de fazê-lo porque é “cristãofóbico”. Charlie hebdo é parte de uma grande tradição: a libertária, desbocada e anticlerical ironia que sempre esteve a tapas com os dogmas e conservadorismo endêmicos nas religiões. Todo leigo deve defender o direito de rir, comentar e criticar ideologias e sistemas de pensamento de todos os tipos sejam eles seculares ou religiosos. Arreliar idéias é o que fazemos todos os dias, com aqueles que votaram num partido diferente do nosso ou professam doutrinas que não compartilhamos. É a própria raiz da sátira. E é completamente diferente de uma pessoa insultando ou ironizando uma característica inata de outra, como a cor da pele ou etnia: na verdade, é o oposto do racismo.” (Giovanni Fontana –Piccolo Dizionario al contrario sulla strage di Parigi – Limes- revista italiana di geopolítica- http://temi.repubblica.it/limes/piccolo-dizionario-al-contrario-sulla-strage-di-parigi/67594?printpage=undefined)

Abaixo, livros que podem ser baixados gratuitamente. Farei isso, sempre que possível, com os pertinentes ao assunto em questão.

CÂNDIDO http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/candido.html

O ELOGIO DA LOUCURA http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/erasmo.html


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