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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CARO NETINHO, MEMORIZE.

É início de ano e esse foi um presente que recebi de um amigo na Bahia. Não me lembro se comentei com ele minha paixão pelo Umberto Eco, o que não tem a mais remota importância, no frigir dos ovos. Decidi traduzir, porque é uma lição para todos nós, e não somente o netinho do citado. Neste artigo que saiu na revista ESPRESSO, o semiólogo e escritor manda uma carta ao netinho, com uma reflexão sobre a tecnologia e um conselho para o futuro: memorize, desde rimas infantis, à formação de seu time de futebol, ao nome dos empregados dos 3 Mosqueteiros, porque a Internet não pode substituir o conhecimento, nem o computador nosso cérebro.

“Caro netinho meu,
Não quero que essa missiva natalina pareça por demais deamicisiana, e exibisse conselhos a respeito de amor por nossos semelhantes, pela pátria, pelo mundo, ou coisas do gênero. Você não me daria atenção e, no momento de colocar tudo em prática (você adulto e eu ultrapassado), o sistema de valores estará tão modificado que, provavelmente minhas recomendações pareceriam datadas. Assim, quero ficar numa única recomendação, que podes colocar em prática desde já enquanto navegas no teu IPad, nem cometerei o erro de te aconselhar a não fazê-lo, nem tanto porque pareceria um avô chato, mas pelo simples fato que faço a mesma coisa. Posso apenas te recomendar que, se por acaso caires em algum site pornô que mostra o relacionamento entre dois seres humanos, ou entre um ser humano e um animal, de mil maneiras diferentes, tente não acreditar que aquilo seja sexo, entre outras coisas, muito monótono, porque na realidade é um show para te obrigar a não sair de casa e olhar para meninas de verdade. Parto do princípio que sejas heterossexual, caso não o sejas, adapta minhas recomendações a seu caso, mas olha para as meninas, na escola ou onde vais brincar, porque são muito melhores do que aquelas televisivas, e um dia, te darão satisfações maiores que aquelas on line. Acredita em quem tem mais experiência do que tens (se eu tivesse olhado só para sexo no computador, teu pai nunca teria nascido, e tu, quem sabe onde estarias, melhor dizendo, não serias coisa nenhuma).

Mas não era disso que queria te falar, mas sim de uma doença que atacou sua geração e mesmo a de gente mais velha, que provavelmente já está na faculdade: a perda de memória.

Verdade que se te der na telha de saber quem raios foi Carlos Magno
ou onde fica Kuala Lampur, é só apertar alguns botões que a Internet te responde no ato. Faça quando necessário, mas depois que o fizer, tente lembrar o que leu, para não ser obrigado a procurar de novo, caso aparecesse a necessidade, digamos, uma pesquisa na escola. O risco é que, como pensas que teu computador possa te responder o que quiser a todo instante, tu percas o gosto de meter as coisas em tua cabeça. Seria mais ou menos como, em tendo aprendido que, para ir da Rua X à Rua Y existe o ônibus ou o metrô, que permite que nos movimentemos sem esforço (o que é extremamente cômodo, portanto use sempre que estiver com pressa), venha a pensar que não tenha mais a necessidade de andar. Mas, se não caminhar o suficiente, vais te tornar “diferentemente habilitado”, como se diz hoje para os que são obrigados a andar em cadeira de rodas.Tá certo, sei que praticas esportes e portanto, sabes como movimentar teu corpo. Mas voltemos a teu cérebro.

A memória é um músculo, feito o das tuas pernas, e se não o exercitas, se atrofia e tu te tornas (do ponto de vista mental) “diversamente habilitado”, isto é (vamos falar claro), um idiota. E, além disso, desde que, para todos existe o risco de, quando envelhecemos nos apareça o Alzheimer, uma das maneiras de evitar tão desagradável incidente é exercitando a memória, sempre.

Assim, aqui vai minha dieta. A cada manhã, aprende algum verso, uma poesia breve, ou como fizeram com minha geração, “La cavallina storna” ou “Il sabato nel villagio”. E quem sabe, invente competições com os amigos para ver quem lembra melhor. Se não gostas de poesia, faça o mesmo com a formação dos jogadores de futebol. Mas não vale apenas saber quem são, hoje, os jogadores de seu time predileto, mas também os de outros times, e quem sabe, times do passado (imagina que lembro a formação do Torino quando o avião deles se arrebentou em Superga, com todos os jogadores a bordo: Bacigalupo, Ballarin, Maroso, etc.). Faça competições de memória, quem sabe sobre os livros que leu (quem estava a bordo da Hispaniola na busca da ilha do tesouro?
Lord Trelawney, Capitão Smollet, o doutor Livesey, Long John Silver, Jim…). Veja se seus amigos se lembram quem eram os empregados dos 3 Mosqueteiros e do D’Artagnan (Grimaud, Bazin, Mousqueton e Planchet). E se não quiser ler ‘Os três Mosqueteiros” (e não sabes o que estarás perdendo), faz com qualquer outra história que tenhas lido.

Parece uma brincadeira (e o é), mas verás como tua cabeça se encherá de personagens, histórias, lembranças de todos os tipos. Tenho certeza que já se perguntou porque, antigamente,os computadores eram chamados de cérebros eletrônicos: é porque foram concebidos no modelo de teu (nosso) cérebro, mas, nosso cérebro tem muito mais conexões do que qualquer computador, na realidade é uma espécie de computador que carregas entre tuas orelhas e que cresce e se fortalece com exercício, enquanto que o computador que tens na mesa à tua frente, quanto mais o usas, mais velocidade perde, e depois de poucos anos, tens que muda-lo. Ao invés disso, teu cérebro pode durar até os 90 e, aos 90 anos, se o mantiveste exercitado, vai lembrar de mais coisas do que lembra hoje. E de graça.

Também tem a memória histórica, aquela que não diz respeito aos fatos de tua vida, ou às coisas que leste, mas àquilo que aconteceu antes de teu nascimento.
Hoje, se vais ao cinema, tens que entrar em horário pré determinado, quando o filme começa, e assim que começa, alguém, vamos dizer assim, te pega pela mão e te diz o que está acontecendo. No meu tempo, podíamos entrar no cinema a qualquer hora, até mesmo na metade do filme, e procurávamos entender o que tinha acontecido antes (daí, quando o filme recomeçava, a gente via se tinha entendido tudo direitinho, além do fato que, se gostássemos do filme, podíamos ver e rever o que já tínhamos visto). Pois é, a vida é como um filme dos meus tempos. Entramos nela quando muitas coisas já aconteceram, há milhares de anos, e é importante aprender o que aconteceu antes que nascêssemos; serve para entender melhor o porquê, hoje, acontece tantas coisas novas.

Pois bem, a escola (assim como tuas leituras pessoais), deveria te ensinar a memorizar aquilo que aconteceu antes de teu nascimento, mas pelo visto não estão fazendo um bom trabalho a esse respeito, desde que várias pesquisas nos mostram que os jovens de hoje, mesmo aqueles já na faculdade, se, por acaso nasceram em 1990, não sabem (e talvez nem queiram saber) o que aconteceu em 1980 (e nem falemos do que aconteceu há 50 anos). As estatísticas nos informam que, se perguntas quem foi Aldo Moro, respondem que era o chefe das Brigadas Vermelhas, quando na realidade, ele foi morto por elas.

Mas não falemos das Brigadas Vermelhas, que continuam a ser um mistério para muitos, embora estivessem muito presentes há apenas 30 anos. Eu nasci em 1932, dez anos depois da tomada do poder pelos fascistas, e sabia até quem havia sido o primeiro ministro nos tempos da “marcha sobre Roma” (que é isso?). Talvez, a escola fascista o tenha ensinado para me explicar como era estúpido e mau o citado ministro (o imbecil Facta), que os fascistas tinham substituído. Certo, mas pelo menos, sabia. E, além da escola, um jovem hoje não sabe quem eram as atrizes do cinema de há 20 anos, enquanto eu sabia quem era Francesca Bertini,
atriz do cinema mudo, 20 anos antes de meu nascimento. Talvez porque folheava revistas velhas guardadas no sótão lá de casa, mas esse é o ponto, te convido a folhear revistas velhas, que é uma maneira de aprender o que aconteceu antes de teu nascimento.

Mas, porque é tão importante saber o que aconteceu antes? Porque, muitas vezes, o que aconteceu antes explica a razão de coisas que estão acontecendo agora, e de qualquer maneira, como para a formação dos jogadores, é um jeito de enriquecer a memória.

Atente que isso tudo, o podes fazer, não só com livros e revistas, porque é perfeitamente possível, via Internet, a qual é para ser usada, não só para trocar mensagens com amigos, mas também para trocar mensagens com a história do mundo. Quem eram os ititas? E os camisardos? Como se chamavam as 3 caravelas de Colombo?
Quando foi que os dinossauros desapareceram? A Arca de Noé tinha timão? Como se chamava o ancestral do boi? Havia mais tigres há cem anos do que hoje? O que era o Império de Mali? E quem falava do Império do Mal? Quem foi o segundo papa da história? Quando apareceu o Mickey?

Poderia continuar infinitamente, e seriam todas belas aventuras de pesquisa. E tudo para se lembrar. Chegará o dia em que estarás velho e estará se sentindo como se tivesse vivido mil vidas, porque será como se estivesses estado presente na Batalha de Waterloo,
tivesse assistido o assassinato de Júlio César e tivesses passado a pouca distância do local onde, Bertoldo o Negro,
em misturando substâncias para descobrir um jeito de fabricar ouro, por engano descobriu a pólvora e explodiu-se (e muito bem feito para ele).

Outros amigos teus, que não cultivaram a memória, terão vivido apenas uma vida, a deles mesmos, que deve ter sido muito melancólica e pobre em emoções.

Então, cultive a memória, e a partir de amanhã, memorize “La Vispa Teresa”.”

O que de melhor posso desejar a todos no ano que se inicia, do que viver mil vidas e mil aventuras? Avanti popolo!

http://espresso.repubblica.it/visioni/2014/01/03/news/umberto-eco-caro-nipote-studia-a-memoria-1.147715?ref=fbpe

La Vispa Teresa, de Luigi Salier, poeta completamente desconhecido, cuja única obra que todas as crianças italianas conhece, é essa (1850)

La vispa Teresa
avéa tra l’erbetta
a volo sorpresa
gentil farfalletta, e tutta giuliva
stringendola viva
gridava a distesa:
“L’ho presa, l’ho presa!”
A lei, supplicando,
l’afflitta gridò:
“Vivendo volando
che male ti fò?
Tu si mi fai male
stringendomi l’ale.
Dhe, lasciami! Anch’io
son figlia di Dio”!
Confusa, pentita,
Teresa arrossì,
dischiuse le dita
e quella fuggì!



Em 1917, Carlo Alberto Salustri, conhecido como Trilussa, continua a poesia de forma irônica, e é essa a versão que aprendi com meu tio Gino:

Se questa è la storia,
che sanno a memoria
i bimbi di un anno,
pochissimi sanno
che cosa le avvenne
quand’era ventenne!
Un giorno di festa,
uscendo di Chiesa
la vispa Teresa
alzava la vesta
per farsi vedere
le calze sciffonne,
che a tutte le donne
fan tanto piacere.
Armando, il pittore,
vedendola bella,
le chiese il favore
di far da modella.
“Verrete?” “Verrò,
ma badi però…!”
“Parola d’onore!”
rispose il pittore.
Il giorno seguente,
Armando, l’artista,
stringendo furente
la nuova conquista,
gridava a distesa:
“L’ho presa, l’ho presa!”
“Così mi fai male
la spina dorsale!
Mi lasci ! Che anch’io
son figlia di Dio!
Se ha il suo programma
ne parli a la mamma!”
A quella minaccia
Armando tremò,
dischiuse le braccia,
ma quella restò!
Perduto l’onore,
sfumata la stima,
la vispa Teresa
più vispa di prima,
per niente pentita,
per niente confusa,
pensò che l’onore
non è che una scusa.
Per circa tre lustri
Fu cara a parecchi,
fra giovani e vecchi,
fra oscuri ed illustri.
La vispa Teresa
fu presa e ripresa.
Contenta e giuliva
Soffriva e s’offriva!
(la donna che soffre
se apostrofa l’esse
ha tutto interesse
di dire che s’offre!)
Ma giunta ai cinquanta,
con l’anima affranta,
col viso un po’ tinto,
col resto un po’ finto
per trarsi d’impàccio
dai prossimi acciacchi,
apriva uno Spaccio
di Sale e Tabacchi.
Un giorno, un cliente,
chiedendo un “toscano”
le tese la mano,
così…casualmente.
Teresa la prese,
la strinse e gli chiese:
“Mi vuole sposare?
Farebbe un affare!”
Ma lui, di rimando,
rispose: “No, No!
Vivendo fumando
che male le fò?”
Confusa e pentita
Teresa arrossi,
dischiuse le dita,
e quello fuggì!
Ed ora Teresa,
pentita davvero,
non ha che un pensiero
d’andarsene in Chiesa.
Con l’anima stracca
Si siede e stabacca,
offrendo al Signore
gli avanzi di un cuore
che batte la fiacca.
Ma spesso guardando
con l’occhio smarrito
la polvere gialla
che resta nel dito,
le sembra il detrito
di quella farfalla
che un giorno ghermiva
stringendola viva.
Così, come allora,
Teresa risente
la voce innocente
che prega ed implora:
“Dhe, lasciami! Anch’io
son figlia di Dio!
Fu proprio un bel caso”
sospira Teresa,
fiutando la presa
che sale nel naso.
“Se qui non son lesta
mi scappa anche questa!”
E fiùta e rifiùta,
tossisce e sternùta,
il naso è una tromba
che squilla e rimbònba
e pare che l’eco
si butti allo spreco!
Fra un fiòtto e un rimpianto,
tra un sòffio e un eccì,
la vispa Teresa…
…lasciàmola lì!

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