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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

REVERTIDA PERDA DE MEMÓRIA ASSOCIADA COM ALZHEIMER

Infelizmente, nesta altura da vida, a maioria de nós conhece alguém com o Mal de Alzheimer, e se conhece, também sabe a sensação de Dante às portas do Inferno, quando todas as esperanças foram perdidas. Mal as palavras são pronunciadas, e uma capa de chumbo desce sobre nós. Nada adianta, nada vai resolver, pronto, acabou. Também se sabe que a expectativa altera o resultado de um experimento, tendendo a conclusão a bater com a expectativa inicial, de forma que acabamos por nos comportarmos,(tanto pacientes como cuidadores), de forma desesperançada, piorando tudo. Há razões para o pessimismo, se levarmos em conta que o Alzheimer afeta cerca de 5,4 milhões de americanos e 30 milhões de pessoas no mundo, e ainda não há prevenção e/ou tratamentos eficazes, e as estimativas apontam que, em 2050,160 milhões de pessoas em todo o mundo terão a doença. Ao contrário de várias outras doenças crônicas, a doença de Alzheimer está em alta, tendo-se tornado a terceira principal causa de morte nos Estados Unidos, logo depois de doenças cardiovasculares e câncer.

É por essas e outras, incluindo meu próprio pavor de vir a ter a malfadada, que sai cantando uma musiquinha besta e antiga da Wanderléia, cuja única frase que me recordo é: “Já chegou, já chegou, novamente a esperança. Todo mal já passou, já voltou a bonança...” ou algo muito parecido, quando recebi o artigo que traduzo abaixo. Pode não ser a solução total, pode demorar um pouco mais, mas está aí. Estamos abrindo novas possibilidades. Isso, e a alegria de constatar que, devagarzinho, quase que sussurrando, nós médicos estamos voltando a encarar a profissão como aquela coisa linda, que aprendemos nos primeiros anos da faculdade: “A ciência e artes médicas são o conjunto de cuidados que temos não com a doença, mas com os seres que delas sofrem.” Evviva!

Estudo conjunto do UCLA Centro de Pesquisa para Mal de Alzheimer Mary S. Easton, UCLA e do Instituto Buck de Pesquisa do Envelhecimento, é o primeiro a sugerir que a perda de memória em pacientes pode ser invertida, e a melhora sustentada, usando um programa terapêutico de 36 pontos, que envolve mudanças abrangentes na dieta, estimulação cerebral, exercício, otimização do sono, medicamentos e vitaminas específicas, além de vários passos adicionais que afetam a química do cérebro.
Para se ter ideia da importância desse estudo, temos que lembrar que no caso do Mal de Alzheimer, não há nenhum medicamento que impeça ou mesmo retarde a progressão da doença, e as drogas desenvolvidas tiveram apenas efeitos modestos sobre os sintomas. Só na última década, centenas de ensaios clínicos foram conduzidos, a um custo total de mais de um bilhão de dólares, sem sucesso.

Outras doenças crônicas, como as cardiovasculares, câncer e HIV, foram melhoradas através do uso de combinações terapêuticas.
No entanto, no caso de outras perturbações da memória e do Mal de Alzheimer, terapias de combinação abrangentes não foram exploradas, mesmo que, nas últimas décadas, as pesquisas em genética e bioquímica tenham mostrado uma extensa rede de interações moleculares envolvidas na patogênese do Alzheimer, o que sugere que, uma abordagem terapêutica mais alargada, ao invés de uma única droga que tenha como objetivo um único alvo, possa ser possível e potencialmente mais eficaz para o tratamento do declínio cognitivo devido à doença de Alzheimer. (Dale Bredesen, Professor de Neurologia e diretor do Centro de Easton na UCLA, professor do Instituto Buck e autor do artigo publicado na revista Aging).
Essa falha constante na eficácia de drogas contra Alzheimer, estimulou o autor acima citado a pesquisar sobre a natureza fundamental da doença.
Seu laboratório encontrou evidências de que a doença de Alzheimer resulta de um desequilíbrio na sinalização dos neurônios: no cérebro normal, sinais específicos promovem conexões nervosas e assim “fabricam” memórias, enquanto outros sinais promovem a perda das mesmas, permitindo que a informação relevante seja esquecida. Mas, na doença de Alzheimer, o saldo destes sinais opostos é perturbado, conexões nervosas são reprimidas, e as memórias são perdidas.
O modelo de múltiplos alvos e um desequilíbrio na sinalização é contrário ao dogma popular que a doença de Alzheimer é uma doença de toxicidade, causada pelo acúmulo de placas pegajosas no cérebro. Esse grupo de pesquisadores acredita que o peptídeo beta-amiloide, que é a fonte das placas, tenha uma função normal no cérebro, como parte de um conjunto maior de moléculas e que promove sinais que fazem com que as ligações nervosas não só envelheçam, mas também “caduquem”. Assim, o aumento do peptídeo desloca o equilíbrio cerebral entre “fazer memórias “e “perder memórias”, para o lado da perda. (Levem em consideração que, uma das funções da memória é o esquecer).
Considerando tudo isso, Bredesen pensou que, ao invés de um único agente alvo, o mais logico seria uma abordagem sistemática, como as abordadas em outras doenças crônicas, isto é, um sistema de múltiplos componentes. E dá um exemplo: "As drogas existentes para o mal de Alzheimer, atingem um único alvo, mas a doença é muito mais complexa. Imagine ter um telhado com 36 buracos, e sua droga só consegue remendar um deles. Muito bom para aquele buraco, mas continuam 35 goteiras, e por isso o processo subjacente não é muito afetado."
A abordagem da Bredesen é personalizada para o paciente, com base em extensos testes para determinar o que está afetando a via de sinalização e a plasticidade do cérebro.
Como exemplo, o caso da paciente com um trabalho exigente, e que estava esquecendo o caminho de casa. Seu programa terapêutico consistiu de alguns, mas não todos os componentes envolvidos com programa terapêutico de Bredesen, que incluem:

1-Eliminação de todos os carboidratos simples, o que a fez perder 40 K.
2-Eliminação de glúten e alimentos processados, aumentando ingesta de vegetais, frutas e peixes (os pescados em seu ambiente natural, não os produzidos em tanques)
3-Fazer ioga como método de baixar o stress
4-Meditação por 20 minutos, duas vezes ao dia, como forma complementar de baixar o stress
5-Uso de melatonina, todas as noites (Melatonina, também conhecida como N-acetyl-5-methoxytryptamine, é um hormônio encontrado em animais, plantas e micróbios. Nos animais, seus níveis circulantes variam em ciclos diários – ciclos circadianos – que determinam nosso sono/estado de alerta, e tem importante papel na proteção do DNA nuclear e mitocondrial.)
6-Aumento das horas de sono de 4 a 5 por noite, para 7 a 8
7-Uso diário de metil cobalamina (é o equivalente fisiológico da Vitamina B12, usado em tratamento de anemia perniciosa, neuropatia diabética, neuropatia periférica e como tratamento preliminar da Esclerose Lateral Amiotrófica)
8-Uso diário de Vitamina D3
9-Uso diário de óleo de peixe (Omega3)
10-Uso diário de CoQ10
11-Otimização da higiene oral pelo uso de escova de dentes e fio dental elétricos
12-Seguindo discussão com seu médico de família, recomeçou reposição hormonal que havia interrompido.
13-Jejum de pelo menos 12 hs entre jantar e café da manhã, e por pelo menos 3 hs entre jantar e ir para a cama.
14-Exercício físico por pelo menos 30 minutos, 4 a 6 vezes por semana

Os resultados conseguidos em 9 dos 10 pacientes sugerem que sim, a perda de memória pode ser revertida, embora ainda haja necessidade de estudos com número bem maior de pacientes, tanto para realmente estudar as melhoras quanto para se saber por quanto tempo e se as melhoras podem ser mantidas e qual é o ponto de “não retorno, isto é, quão tarde é tarde demais e o programa não consegue fazer mais efeito.

O lado difícil do programa é que é complexo e o peso todo cai sobre o paciente e seu cuidador, e nenhum dos pacientes foi capaz de seguir totalmente o protocolo, sendo as queixas mais comuns, o problema da mudança radical em dieta e estilo de vida, assim como a enorme quantidade de pílulas a serem tomadas todos os dias.

Por outro lado, a boa notícia é que, os efeitos colaterais desse programa, ao contrário do uso de toda e qualquer droga, foram uma melhora geral na saúde e uma otimização do BMI.

Fonte: University of California, Los Angeles (UCLA), Health Sciences

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