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terça-feira, 26 de agosto de 2014

NOSSO MUNDO É DEFINIDO POR AQUILO NO QUE PRESTAMOS ATENÇÃO

“Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é, enquanto você está pensando sobre isso”. Daniel Kahneman, psicologo, ganhador do Premio Nobel de 2002 em Ciências Econômicas

Há milhões de coisas acontecendo a todo momento, algumas boas, outras ruins, um monte pelo meio do espectro. O conflito em Gaza não termina nunca, o surto de Ebola na África Ocidental piora, a Peste Bubônica retornou na China (no momento que escrevo já tem 2 casos aqui nos USA), polícia branca mata adolescentes negros com fé, gosto e vontade, políticos xingam os oponentes sem nada trazer de novo ao discurso, facções político/religiosas decapitam jornalistas... Pois estava eu pensando no quão difícil está sendo manter a sanidade, um pouco de esperança no futuro, e bom humor no geral, quando me cai do céu (figura de linguagem, pois caiu foi no meu e mail, diretamente de PubMed), um artigo da Barbara Fredrickson, psicóloga social da Universidade da Carolina do Norte, autora cuja pesquisa em Emoções Positivas e Psicofisologia gosto imensamente.

Só para se ter uma ideia do trabalho da acima citada, em 2000 recebeu o Prêmio Templeton, da Associação Americana de Psicologia, o Prêmio de Trajetória e Carreira da Sociedade de Psicologia Social Experimental em 2008, a Medalha Christopher Peterson em 2013, e sua pesquisa é suportada por ninguém menos que o Instituto Nacional de Saúde, aqui dos USA.

Sua teoria, chamada BROADEN-AND-BUILD (Amplie e Construa), explica o mecanismo e o porquê das emoções positivas serem importantissimas para sobrevivência, pois expandem a cognição e as opções comportamentais. Baseando-se em experiências prévias que demonstraram que todas as emoções levam a tendências e/ou ações específicas, concluiu que as emoções estão moldadas de formas a causar “mudanças momentâneas nos repertórios de pensamento-ação", que são séries de ações potenciais que corpo e mente estão preparados para realizar. Assim, essa expansão da flexibilidade cognitiva, evidente durante estados emocionais positivos, resulta na construção de recursos, os quais com o passar do tempo,se tornam riquissimas fontes de engenhosidade e possibilidades. E, embora um estado emocional positivo seja passageiro, seus benefícios perduram sob a forma de tratos, ligações sociais e habilidades que constroem o futuro. Não bastasse, há também a hipótese, ainda não de todo demonstrada de que emoções positivas podem desfazer os efeitos cardiovasculares das emoções negativas. Faz o maior sentido. Vejam, quando experienciamos stress, nossa frequência cardiaca, pressão arterial, açúcar no sangue e imunosupressão aumentam, pois são ações fisiologicas ou adaptativas otimizadas para ação imediata. Se não regularizarmos essas alterações depois que o stress passou, a coisa se torna crônica, o que pode levar a problemas sérios tais como doenças coronarianas.

E alguém acha que não ia ler um artigo dessa criatura, assim, de imediato, nesse momento de horror e tristeza? Pois é. Li, e não tinha nada a ver com o assunto, é uma revisão/ correção do trabalho prévio que ela desenvolveu, o que não teve a menor importância, pois o nome da criatura me fez lembrar uma montanha de coisas boas, interessantes, e necessárias em momentos que a esperança parece não sair, mas galopar para fora da janela.
Como disse no começo, coisas acontecem, todo o tempo, mas para cada um de nós,individualmente, só acontece aquilo no que se presta atenção. Esta máxima das ciências cognitivas, aprendi cedissimo, com minha nonna Linda, que padecia de um caso raro de surdez seletiva, só escutando o que lhe convinha, e o resto, quando perguntada, não fazia a mais remota idéia. Como? Como? dizia ela. Nunca escutei tal coisa! Minha surdez está piorando a cada dia!.
Quem imaginaria, muitos anos mais tarde fui aprender que nossa capacidade em focar em algo e suprimir aquilo outro, é a chave para contrôle de nossas experiências, e, a fim e a cabo, nosso bem estar. Diria que o fato dela ter sido imortal até os 104 anos é boa evidência do acima explicado.

Como várias pesquisas demonstraram (no fim há alguns desses artigos), vencedores de loteria, a longo prazo, não são muito mais felizes que pessoas que ficaram paraplégicas depois de acidentes, pelo fato que, eventualmente, tanto o estar rico como o estar paralizado se tornou um pequeno pedaço de uma grande vida. Ou seja, pararam de prestar atenção no assunto.

O autor da citação com a qual iniciei o artigo, tem idéias interessantissimas a esse repeito:
“As pessoas acham que, se ganharem na loto, serão felizes para sempre, e óbvio, não o serão. No início, claro, por causa da novidade e por pensarem na coisa todo o tempo. Depois se adaptam e param de prestar atenção. Similarmente, as pessoas se surpreendem com o quão felizes paraplégicos podem ser mas, eles não são paraplégicos tempo integral. Eles fazem outras coisas. Eles curtem suas refeições, seus amigos, ler jornal, assistir filmes, etc… Tem a ver com alocação da atenção, e contolar a atenção pode ser a chave da felicidade. Ser capaz de controlar a atenção lhe dá poder, porque você sabe que NÃO PRECISA ficar só pensando numa emoção negativa que apareça”.

Com isso ele não está dizendo para virarmos ostras bem fechadas para o resto do mundo, sem qualquer idéia a respeito dos horrores lá fora, ou darmos uma de Maria Antonieta com “Não tem pão? Comam bolos.”(A pobre coitada nunca jamais proferiu tal frase, mas funciona como exemplo do que queria dizer, e também da força da propaganda, que faz com que, algo nunca dito, se torne uma verdade incontestável).

A idéia é o que fazer, para melhor contolar nossa atenção, num mundo cheio de noticias ruins, e mails, texts, facebooks, o escambau, tudo nos distraindo constantemente.
Pois aqui vão as dicas:

1-REAVALIE

COMO SE REAGE ÀS COISAS É MAIS IMPORTANTE DO QUE O QUE ACONTECE NA REALIDADE.

As pesquisas de Arnold e Lazarus mostram que reavaliar situações, focalizando na parte boa de acontecimentos ruins pode ser um grande passo a respeito de permanecer positivo.
Direcione sua atenção para alguns elementos da situação, para organizar as coisas de maneira menos confusa. Por exemplo, depois de uma explosão raivosa a respeito de uma partilha mais equitativa nas tarefas domésticas (frase finissima para o pensamento negro de “o FDP largou a toalha molhada em cima da cama, de novo!”), ao invés de continuar a focalizar no egoísmo e preguiça de seu parceiro, pode se concentrar no fato que, pelo menos, a fistula purulenta foi aberta, primeiro passo para cura e cicatrização da citada, solução do problema em questão e melhora de seu humor.

Já notou como, em qualquer conflito, de briga doméstica a religiosos das mais diversas estirpes destruindo patrimonio histórico uns dos outros, da discordância com um amigo a guerras terríveis, tudo se baseia no fato que nos recusamos a ver o ponto de vista do outro, e preferimos usar tudo o que temos para demonstrar o quanto esse outro é mau, culpado, horrivel, sei lá, ponha os adjetivos que quiser.

O psicologo George Bonanno, da Universidade de Columbia, acha que o desviar a atenção de uma experiência negativa, não só não é uma coisa mal adaptativa, como muitos de seus colegas consideram, mas que, pelo contrário, pode ser uma estratégia de enfrentamento fantástica. Segundo ele: “Mesmo em face de eventos terriveis, auto decepção e evasão emocional estão consistentemente relacionadas a melhor resultado. Mesmo quando a pancada é severa, como a morte de um ente querido, desviar o foco de seu sofrimento para qualquer outra coisa, pode aumentar sua capacidade de resilência.”

Assistam o filme “O Pianista”(The Pianist, 2002, Roman Polansky, baseado no livro The Pianist: The Extraordinary True Story of One Man's Survival in Warsaw, 1939-1945, de Jerzy Waldorff). Prestem bem atenção e me digam como foi que ele sobreviveu.
Para os que gostam de ler, aconselho veementemente “O homem em busca de sentido”do Vicktor Frankl.

2-COLOQUE SUA ATENÇÃO NAQUELES QUE ACREDITAM EM VOCÊ

Se você tem alguma experiência em palestras, já deve ter notado que sempre, não importa estar falando para 5 ou 500 pessoas, em Boston ou Tumbuctu, São Paulo ou Manaus, digo sempre tem aquele ser que foi lá só para mostrar ao mundo, da maneira mais desagradavel, ofensiva e chocante, o quanto suas idéias estão erradas. Suas, palestrante, não dele, chateante. Pois bem, que fazer? Como neutralizar aquela voz interna que berra “Danou-se”?

Seguindo as boas lições de politicos e vendedores, que aprendem a, seletivamente, prestar atenção aos reforçadores positivos.Para criaturas de temperamento sanguíneo, como certos politicos, empresarios e vendedores, parece ser coisa natural o direcionar a atenção para além da negatividade que recebem.Como? Simplesmente desviando de caras feias no público presente e focando em caras amigáveis, apagando assim qualquer imagem perturbadora antes que essa possa ficar armazenada na memória.

3-BUSQUE O FLUXO

Só lembrando que “fluxo”é um estado ativo de atenção, no qual se está tão interessado e/ou focado no que se está fazendo, que o resto do mundo praticamente desaparece. É o exato oposto de, por exemplo, se largar por horas a fio na frente da TV.

Num exemplo impressionante do tipo de mentalidade que destroi boas experiências diárias, a maioria das pessoas reflexivamente diz que prefeririam estar em casa do que no trabalho, ao contrário do que mostra toda a pesquisa sobre “fluxo”, a qual demonstra que, quando no trabalho, as pessoas tendem a se concentrar em atividades que exigem sua atenção, desafiam suas habilidades, tem metas claras, e conduzem a feed backs oportunos que favorecem a experiência ideal.

4-TRANSFORME AS COISAS CHATAS NUM JOGO, NUM DESAFIO.

Csíkszentmihályi, a criatura que praticamente inventou o conceito de “fluxo”, acredita que, com um pouco de esfôrço e atenção, podemos tornar mesmo a mais estupidificante das tarefas, em algo mais satisfatorio. Para mim, não existe nada mais estulto do que passar roupa. Até hoje procuro saber quem foi que inventou a coisa, para, caso houver outro mundo e lá o encontrar, estar certa e segura de lhe dizer o que penso. Mas, há muitos anos atrás, uma amiga me fez ter a maior das epifanias. Pois estávamos ambas em começo de profissão, com todas as pressões inerentes ao momento histórico, e com roupas para passar para o resto da vida, quando ela me telefona e me convida para ir passar roupa na casa dela. Achei assaz esquisito, mas era sábado e, a não ser que quisesse ir ao hospital pelada na segunda feira, não ia ter jeito. Pois lá fui. Ela tinha ganho de alguém uma garrafa de champagne, e, entre champagne, boa música e muitas gargalhadas, demos conta, numa tarde agradabilissima, da roupa toda. Não estou insinuando que nos tornemos alcoolatras para suportar coisas chatas. Estou dizendo que, muito mais do que fazemos, é como o fazemos. Agora, mudei o repertório para botar em dia filmes que não deu tempo de assistir. Basicamente, é descobrir como melhorar algo que é muito chato, em algo interessante.

5-PROGRAME DESAFIOS PARA SEU TEMPO DE LAZER

Apesar de minha imorredoura paixão pelo cérebro, também sou uma realista convicta, e sei que o danadinho é preguiçoso, assim, se o deixarmos a seu bel prazer, ele vai escolher fazer o que é mais fácil ao invéz do que possa ser mais interessante ou divertido.
Citando Csíkszentmihályi (de novo): “Se forem deixados à sua própria sorte e programação genética, e sem um estímulo externo marcante para atraí-los, a maioria das pessoas tende a entrar em um modo de processamento de informação de baixo nível, durante o qual, ou se preocupam com coisas à toa sem possibilidade de solução, ou assistem TV.”

O antídoto para o tédio do assim chamado lazer, é prestar tanta atenção ao programar uma noite ou fim de semana produtivo como o fazemos com nossa jornada de trabalho.

Exemplos:

a)Tenho duas amigas, vidas diferentes, profissões diferentes, idades diferentes, estados diferentes, que usam parte de seu ocupadissimo tempo servindo como voluntárias em Hospitais do Câncer. Já vi muita coisa triste nessa vida, mas é dificil achar algo tão avassalador como esses hospitais. Dá vontade de dobrar no chão e chorar de ódio/tristeza/revolta/dor/desespero, tudo junto, principalmente na ala infantil. Pois as duas lá estão, e fora essa característica comum, a segunda é que ambas são mulheres lindas, cheias de vida, com sorrisos de milhão de dólares, como dizem aqui, com tremendo bom humor e gosto pela vida. Estão no fluxo. Só não uso os nomes porque não pedi licença, mas elas sabem que são minhas heroinas e que quero ser igualzinha quando crescer.

b)Todo mundo já sabe do tal do desfio do balde de gelo para a campanha de doação para a Esclerose Lateral Amiotrófica ou Doença de Lou Gehrig, embora ainda tenha gente achando que o pessoal se molha todo para não pagar a doação e, em não entendendo o espírito da coisa, mostram crianças africanas tomando água em tampinha de garrafa. Pois bem, o ator Matt Damon, que além de ator é ativista social e fundou a Water.org, ONG dedicada a prover água potável e soluções sanitárias às regiões mais pobres da terra (http://www.water.org), aceitou o desafio da maneira mais brilhante possivel: usando água de seu vaso sanitário, informando que é mais limpa do que a disponível a milhões de crianças no mundo. Na mosca, duas vezes. Veja abaixo.
http://www.huffingtonpost.com/2014/08/25/matt-damon-ice-bucket-challenge_n_5710431.html?ncid=fcbklnkushpmg00000023&ir=Good+News
Basicamente, é o que Cristo disse a Lázaro: “Levanta-te e anda”, e qualquer outra hora comentarei sobre minha interpretação da morte como metáfora.

6-SABOREIE AS COISAS BOAS DA VIDA

Tal qual com comida, uma coisa é engolir um MacDonald em pé, só para encher o estômago, e outra é saborear um prato de Casoncei alla Bresciana, de preferencia no lago D’Iseo, na companhia de amigos queridos. São duas experiências sensoriais totalmente distintas, com consequencias idem. Aliás, a capacidade de “saborear”, de casoncei a um por de sol, de um livro ao sorrisão de uma criança, de uma boa piada a um bom vinho, é uma das habilidades das pessoas que se consideram felizes, como bem demonstra o seguinte experimento:
Um grupo de pessoas foi orientado a se concentrar em todas as coisas boas que poderiam encontrar, tipo o sol, as flores, gente sorridente andando pela rua, etc…..
Outro grupo era para se concentrar em coisas negativas, tipo lixo na rua, caras amarradas, sem teto, trânsito impossivel, etc, e o terceiro grupo foi instruido a andar só para exercício, procurando não prestar atenção no local. Depois de uma semana, os grupos foram testados, com os seguintes resultados:
O grupo que, deliberadamente se concentrou nas coisas boas, estava muito mais feliz que no início do experimento, o grupo que se concentrou nas coisa ruins, estava mais triste, e para os que andaram por exercício, nada mudou.

Isso demonstra que vemos apenas aquilo que estamos procurando ver, não necessáriamente o que lá está. A coisa boa é que podemos nos treinar a procurar ver as coisas boas, ao invéz de esperar passivamente para que venham até nós.
(RAPT: Attention and the Focused Life, Winifred Gallagher)

Atenção concentrada no trabalho ou no lazer, não só nos torna mais felizes momentaneamente, como também, junto com a seleção dos desafios que queremos superar, é o que nos transforma no tipo de pessoa que queremos nos tornar.

Não adianta ler todos os livros de auto ajuda existentes no mercado, se não estiver disposto ao trabalho constante, ao desafio diário, pessoal e intranferível, de ser a pessoa que você sonha encontrar.
Já não me lembro quem foi que disse isso, mas gravei essa frase numa plaquinha na minha escrivaninha:

“O QUE SOMOS, É IMUTÁVEL. QUEM SOMOS, NUNCA PARA DE MUDAR”.

PESQUISA SOBRE RELATIVIDADE DA FELICIDADE
Lottery winners and accident victims: is happiness relative? Brickman P, Coates D, Janoff-Bulman; J Pers Soc Psychol. 1978 Aug;36(8):917-27
Measuring the impact of major life events upon happiness. Ballas D, Dorling D.; Int J Epidemiol. 2007 Dec;36(6):1244-52. Epub 2007 Sep 28.

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