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domingo, 3 de agosto de 2014

CEM ANOS DA PRIMEIRA GUERRA, FUTILIDADE E CONSEQUÊNCIAS


“Se acha que o comportamento humano é desencorajante hoje, considere há um seculo. Um marciano podia ter dado uma olhada na Europa em 1914, e visto um continente pacífico e próspero, com uma cultura mais ou menos compartilhada. Quase todos tinham comida o suficiente. Os ingleses ouviam Wagner, os alemães saboreavam Shakespeare, os aristocratas russos imitavam os franceses, e todo mundo amava Mozart e as óperas italianas.
Daí, a Europa implodiu.
Dez dias antes do Império Austro Hungárico declarar guerra à Sérvia, em 28 de Julho de 1914, que acabou se tornando a Grande Guerra, as pessoas de todos os paises estavam comendo, trabalhando, sonhando com tudo, menos uma guerra, ou como um cientista político escreveu no jornal -The Atlantic, no ano seguinte: A guerra despencou em cima deles como um trovão.
Filósofos, especialistas e poetas, passaram os 4 anos seguintes arrancando os cabelos para encontrar explicações. Ridicularizaram a idéia de que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, foi a causa. Segundo a maioria, foi só o pretexto.
Uma teia de alianças, enredos e manobras de diplomatas e generais arrastaram nações ambivalentes numa guerra desnecessária. Esses, os fatos.
Agora, quais foram as causas profundas?
Foi a ganância dos beligerantes ricos tentando ficar mais ricos.
W.E.B. Du Bois, o escritor e ativista negro, disse que era a competição pelas colônias mais ricas em recursos na África.
Foi uma luta entre liberdade e autocracia (embora a aliança da Rússia czarista com a França e Inglaterra minem esse argumento).
Segundo o filósofo e pacifista de Bertrand Russell, foi porque os instintos morais da humanidade haviam ficado muito atrás da busca pelas riquezas materiais.
Foi a insegurança psicológica da Alemanha, desencadeada pela supremacia naval da Inglaterra e pelo medo de uma possivel ascenção da Russia.
Foi, simplesmente, a insanidade da única espécia carnívora que mata os de sua própia espécie por nenhuma razão.
Ou todas as acima.
E para isso, mais de 16 milhões de homens foram para o abate, muitos deles de formas cruéis e criativas. Em trincheiras que se estenderam ininterruptamente por 475 milhas, do Mar do Norte até a fronteira com a Suíça, os alemães construíram muros usando cadáveres, de modo que as tropas francesas que capturaram uma trincheira, penduravam suas cantinas em tornozelos salientes.Ao longo do rio Somme, no norte da França, mais de 1 milhão de homens foram mortos ou feridos em 1916, para um avanço aliado de 7 milhas.Gás venenoso preenchia ¼ de todos os projéteis de artilharia disparados na frente ocidental em 1918. Mais de um terço dos homens alemães nascidos entre 1892 e 1895 morreram no curso da guerra.A matança disseminou-se para civis, na Inglaterra, e a França foi atacada pelos zepelins alemães. A guerra não era mais nobre, embora alguns que nela batalharam, o fossem acima e além de qualquer comparação.
O mundo se tornou um lugar mais desagradável após a guerra do que antes dela.
Foi uma guerra triste, sem nenhum sentido, pela qual continuamos pagando até hoje.
Um tratado de paz de durissimo e uma economia devastada produziram uma "geração perdida" de jovens alemães e levou diretamente à ascensão de Hitler e a uma conflagração ainda mais feia. O acordo secreto de Sykes-Picot secreto entre Grã-Bretanha e França, em 1916, desenhou limites arbitrários nos dividendos do pós-guerra no Oriente Médio em torno do Iraque, por exemplo, que estão dando problemas até hoje. A derrubada da monarquia russa e o colapso do Império Austro-húngarico, criaram uma Europa balcanizada que, recentemente, com a derrubada do avião da Malaysia Airlines em cima da conturbada Ucrânia, continua a machucar.
Todas as guerras nos dizem algo sobre os instintos mais básicos da natureza humana, e a Primeira Guerra Mundial (causticamente nomeada em 1918 por um jornalista inglês, que achou que não seria a última) mais do que a maioria. Sobre a natureza da cobiça, os perigos da insegurança, a facilidade de perder o controle humano sobre os acontecimentos humanos.
Nossa espécie evoluiu? Desenvolveu?
A contraprova é dolorosamente abundante: Os fornos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Os Gulags de Stalin. Os genocídios no Camboja e em Ruanda.O retorno aos padrões de pensamento e comportamento do século VII, incitados pela revolução iraniana de 1979 e praticado por jihadistas de todo o Oriente Médio.
De fato, a evidência de que nos tornamos mais sábios desde a guerra destinada a acabar com todas as guerras, e que não fez nada do tipo, é bem pequena.
Apesar disso, se serve de consolo em meio às tragédias e desordem do mundo atual, o Homo sapiens parece ter sido mais estúpido no passado do que está sendo agora.”

The Tragic Futility of World War I-Burt Solomon

http://www.theatlantic.com/international/archive/2014/07/world-war-i-tragic-futility/375103/

Os 100 anos dessa guerra, celebrados em prosa e verso em todas as formas de mídia, me fizeram pensar num montão de coisas, desde meu avô bersagliere, que recebeu medalha no citado conflito, passando pela minha bisavó e a gozação horrivel que ela sofreu de seu neto, meu pai, quando Enrico Antonio Maria Montini, primo distante dela, tornou-se Papa Paulo VI, chegando ao artigo que traduzi acima. Artigo primoroso, do qual discordo na última frase, isto é, que o Homo Sapiens está mais esperto agora do que era no passado. Temos muito mais informação, conhecimento e tecnologia, sem a menor sombra de dúvidas. Melhoramos? Altamente discutível. O que minha bisavó e a gozação de meu pai tem a ver com isso? Conto. Um pouquinho da história da Itália que desde o primeiro Papa em Roma, esteve interligada com a história da Igreja Católica, ou como dizia o grande Indro Montanelli, “na Italia, até ateu é católico”. Católico, e anti clerical, pois os papas tinham por mania, quando alguma cidade-estado italiana lhe dava algum problema, de chamarem algum rei estrangeiro, com notada preferência pelos alemães, para descerem e matarem uns quantos problemáticos além de destruir o máximo possivel o local onde viviam. Não bastasse, também criaram a “aristocracia negra”, que é como são chamadas as familias aristocráticas que ganharam o titulo por parentagem com algum alto prelado. Assim, a gozação era em cima de, depois da familia sobreviver por centenas de anos, sem sequer um padre na mesma, catapimba, vem um e vira Papa. O consolo era que o sobrenome era diferente e que, pelo menos uma coisa o Montini tinha feito direito, que foi, no fim da segunda guerra mundial, quando nosso valente rei fugiu num navio para Portugal, esconder os netos do citado dentro do Vaticano, netos esses que haviam sido abandonados na pressa. E como covardia pouca é bobagem, a meio caminho de Portugal, declarou que a Italia não era mais aliada dos alemães. Pronto. Aliados subindo pelo sul, alemães baixando com fé pelo norte, italianos, só para variar um pouco, sanduichados no meio.

E voltemos à idéia do estarmos mais espertos. Há uma frase que todo mundo gosta de repetir e com a qual tenho profunda implicancia, que é “A história se repete”. Ora, a história é uma entidade feita e montada pela vida e ações de cada um de nós viventes em determinado momento, não pode se repetir. O que se repete são as besteiras que cometemos. Nós, primatas da espécie Homo Sapiens. Freud chamou a coisa de Compulsão à Repetição, dizendo que, quem disso sofria, caia na categoria dos neuróticos. Naturalmente que ai vem o DSM e acaba com a perfeição estética do discurso freudiano, enfiando todas as neuroses na classificação geral e insonsa de distúrbios da ansiedade.

E é aqui que a premonição do Bertrand Russell brilha como farol em noite escura: “Os instintos morais da humanidade ficaram muito atrás da busca pelas riquezas materiais”.

Quando vejo aqui, neste assim chamado primeiro mundo, políticos estimulando a população burra e ignara a assustar mais ainda as pobres das crianças que estão vindo de Honduras e Guatemala, muitas delas desacompanhadas, porque berram na televisão que estão trazendo doenças contagiosas que matarão todos os americaninhos; quando vejo os arautos do inferno a estimularem o ódio a outras crenças; quando vejo as tentativas de acobertar os problemas com os fractais na busca pelo petróleo… juro que duvido dessa esperteza.

Depois me lembro que tem o povo todo dos Médicos sem Fronteiras, a enormidade do trabalho da Fundação Melissa e Bill Gates, vacinando as crianças na Índia, África e onde mais precisar, tem aquelas criaturas que além de trabalhar o dia todo, ainda acham tempo para ajudar o vizinho doente, vão ser voluntários em hospitais, creches, asilos, vão cuidar de gente e animais abandonados, aí sou atacada por um afeto enorme pela raça à qual pertenço. Essa raça que criou os “moralmente comprometidos” aos montes, mas que criou, aos milhares e milhões esses heróis de todos os dias, que batalham, acima e além de qualquer fé, pressuposto político ou recompensa. Pensa só, num pai ou numa mãe, a criarem filhos decentes para o mundo.

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