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quinta-feira, 8 de maio de 2014

OS 5 ESTÁGIOS DO LUTO E OUTRAS MENTIRAS QUE NÃO AJUDAM NINGUÉM

Me considero uma sortuda. Tive professores fantásticos e um avô que me ensinaram a questionar. Sempre. Minha mãe passou a vida dizendo a quem quisesse ouvir, que a filha dela havia entrado na fase do “por que”, um pouco antes do que seria esperado, mas o único problema era que jamais havia saído, e quanto mais velha fico, mais tendo a concordar.

Foi assim que, há mais de 30 anos, quando Elisabeth Kubler-Ross publicou o livro “Sobre a morte e o morrer”,li,como o resto do universo psi,e fiquei intrigada. Muito.A supracitada senhora, depois de passar anos escutando e observando pessoas em fases terminais de doenças, delineou 5 claras etapas pelas quais as pessoas passam, no luto, sendo elas: Negação, Raiva, Negociação, Depressão e Aceitação, quando então, na última fase, o luto está completo, acabou a história. Meu intrigamento deveu-se à minha total incapacidade de aceitar classificações definidas em pedra, em tudo o que se relaciona ao sermos humanos.

Sem sombras de dúvida, é uma organização interessante, tanto quanto foi a idéia do DSM, de classificar diagnósticos de maneira compreensível. E, do mesmo jeito que o DSM, virou uma espécie de “Bíblia”,que todo mundo leu. E digo todo mundo, numa generalização que, embora errônea como todas as generalizações, não está muito longe da realidade, pois os tais estágios aparecem em qualquer lugar desde Psicologia pop, a estudos científicos, a aulas de Faculdade, em conversas, em sussuros de comadres, enfim, dá para ter uma idéia.

Isto quer dizer que, de psicologos e psiquiatras a padres e pai de santo, de PhD a professora de prézinho, há a ideia compartilhada da existência de um jeito certo e um jeito errado de se lamentar, de se enlutar, de passar por uma perda. Há que se passar pelos estágios, de forma linear e certinha, senão nunca que vamos superar a tragédia.

E aqui mora o perigo. Já tive pacientes com Diagnóstico de Esquizofrenia que, em tendo lido o DSM, achavam que não estavam sendo “esquizofrenicos corretos”, pois ou não tinham algumas das caracteristicas, ou tinham coisas que não estávam bem lá na classificação. Já tive pacientes que, em superposição ao luto que experimentavam, também passavam pelo desespero de estar fazendo a coisa de modo errado. Passei pelas minhas própias perdas, e sei, na pele, que a coisa não funciona, de jeito nenhum, nessa linearidade. Vai que, por ser italiana, a coisa comigo foi muito confusa, indo desde tudo junto, numa explosão de raiva, negação e depressão, sem qualquer negociação, a breves períodos de aceitação, a raiva tudo de novo, a depressão negra.

Até o presente momento, nunca passei pela fase de negociação, e embora tenha aceitado os acontecimentos, cá e lá a dor volta, claro que muito amenizada, claro que não de forma explosiva, e claro que não de depressão negra, mas volta. Principalmente naqueles momentos em que algo sai errado, e aí lembro daquela pessoa especial para a qual me voltava nos momentos difíceis, e dá vontade de sapatear de raiva pelo abandono que foi a morte dessa pessoa. Minha estratégia é conversar (quieta, dentro de minha cabeça, que posso ser meio rebelde mas não sou de todo tapada), com o defunto em questão, deixando-o saber o que penso da covardia de ter me abandonado. E isso vale desde avô a gente muito mais recente.

Mas, como disse no início, sou uma sortuda que aprendeu com os já citados fantásticos professores, que cada um de nós é um universo, de formas que todas as teorias aprendidas foram aplicadas com, em mente, essa singularidade.

Imaginem então minha alegria, quando li o artigo da Megan Devine, psicoterapeuta, do qual roubei o título para este post. No artigo, diz ela: “Apesar do que muitos "especialistas" dizem, não há fases do luto. Em seus últimos anos, Elisabeth Kubler-Ross se arrependeu de escrever as etapas da maneira que fez, que as pessoas confundiram tudo, achando que as experiências eram lineares e universais. Com base no que observou ao trabalhar com pacientes terminais, ela identificou cinco experiências COMUNS, e não cinco experiências NECESSÁRIAS. Seus estágios, quer aplicados aos moribundos ou aos que ficaram vivos, foram feitos para normalizar e validar o que alguém pode experimentar no redemoinho da loucura que é a perda, a morte e a tristeza. A morte e suas conseqüências são tão dolorosas e desorientadoras, que entendo o porquê as pessoas quererem algum tipo de roteiro, um conjunto claramente definido de passos ou etapas que irão garantir um final bem-sucedido para a dor do luto. A verdade é que a dor é tão individual como o amor: cada vida, cada caminho, é único. Não existe um padrão previsível, e nenhuma progressão linear. As fases do luto não foram feitas para dizer o que se sente, o que se deve sentir, e quando exatamente há que se sentir.Não foram feitas para ditar se está sentindo sua dor "corretamente" ou não. Foram feitas para normalizar um momento profundamente não-normal. Foram feitas para dar conforto. O trabalho de Ross foi concebido como uma oferta caridosa, e não uma jaula. Não importa o quanto a autora lamentou o uso indevido de suas etapas, o fato é que elas estão firmemente enraizados em nossas idéias culturais a respeito das maneiras certas e erradas para se lamentar. Os estágios são usados como uma censura corretiva, o processo de luto se transformou numa disputa: os estágios em si não são feitos para para passarmos seja lá qual for nosso tempo neles. Se alguém é identificado como estando em um estágio (especialmente um bagunçado como a raiva), a pessoa precisa "passar por isso" o mais rápido possível para que possa alcançar o objetivo final, que é aceitação. Por outro lado, independentemente da fase em que alguém se encontre, há que lá permanecer até resolver, caso contrário, seu trabalho de luto vai complicar. Para o seu bem, e para o bem daqueles que o cercam, você deve fazer o seu luto de forma rápida, correta e eficaz. O único problema é que não é assim que funciona" Megan Devine

O luto é uma experiência tão individual quanto qualquer outro sentimento e até mesmo quanto a qualquer diagnóstico médico. É a resposta natural quando seu coração está sendo esmagado e cortado em ripas, feito alcatra; quando a realidade, como se conhece, desaparece e o chão sai debaixo dos pés. Não liga a mínima para ordem ou estágios, que são mais ou menos como querer tapar o sol com uma peneira. Não há padrão universal, e nem mesmo individual, e cada um de nós vai ter que aprender, de uma forma ou de outra, a lidar com a raiva, a vergonha proveniente de sentir raiva do defunto, o medo de se sentir abandonado, a alegria de ter podido viver com a pessoa e a depressão consequente à falta dela. A coisa vai e vem como ondas no mar, não tem uma igual a outra, ora bravia, ora calminha. E de repente, um tsunami. E principalmente, não tem “pronto, fim, acabou”, como se fosse um livro do qual se tivesse lido a última linha do último capítulo. Nossos amores e nossas perdas são muito maiores do que qualquer estágio, e a única forma de contê-los é deixando-os livres.

E é por essas e outras que sou grata. A avô e professores pela permissão de questionar e duvidar, e aos amigos que me mostraram o que é “aguentar” o luto de outrem. Tenho exemplos fantásticos. O primeiro, de amiga psicóloga, que, baixando em casa do nada, num momento que estava fazendo molho de tomate (tinha acabado de ver minha mãe tentando engolir sua aliança de casamento, escondido a peça e agoniada com a rapidez da progressão do mal de Alzheimer dela), daí fui cozinhar, que é meu jeito de me acalmar. Ela entra, senta e me diz: “Pode chorar, berrar e uivar. Trouxe duas caixas de lenços de papel.”
Um amigo que me apareceu em casa, durante um temporal horrível em São Paulo, dizendo: “Vim chorar com você a morte de nosso querido.”
E finalmente, não porque meus exemplos acabaram, mas só porque não quero fazer este post mais longo que “Guerra e Paz”, um outro que, logo após o falecimento de minha mãe, quando estava apavorada com Alzheimer e genética, e pela manhã, ao fazer café, esqueci de colocar a cafeteira na máquina, espalhando café pela cozinha toda, em contando o fato, perguntei: “Você acha que estou desenvolvendo velho Al precocemente?” Ele, calmo feito um pepino, me responde: “A não ser que você seja o único caso não descrito nos anais médicos, de Alzheimer desde o nascimento, acho que você está sendo você mesma sob stress.”

E se fosse religiosa, diria que, mais do que sortuda, sou abençoada.


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