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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A PROPAGANDA DO BOCA A BOCA

No milênio passado, escrevi um livrinho, para a Associação Paulista de Medicina, chamado “Drogas: Uso, Mau Uso e Abuso”, e vinha lá (sim, achei no Google, quem postou não faço ideia, muito menos por onde anda minha cópia):

Uma droga é qualquer substância, exceto a comida, que tem determinados efeitos sobre qualquer sistema ou órgão do corpo, efeitos esses que podem ser benéficos ou maléficos.
Uma "droga"- como o álcool - não é necessariamente destrutiva, e medicação nem sempre é saudável. Uma diferenciação similar pode ser feita entre o uso prescrito de vitaminas e sais minerais e o abuso não supervisionado de tais substâncias.
É muito importante lembrar que as drogas mudam a química do organismo e que os indivíduos reagem de formas diferentes à mesma droga. Uma medicação que é saudável para alguém pode ser prejudicial ou até fatal para outros.
A - DEFINIÇÕES
Uso de droga: referindo-se a substâncias legais como o álcool e remédios prescritos, foi definido como tomar uma substância com um propósito determinado e nas doses e frequências apropriadas.
Distúrbio no uso de drogas: é tomar uma substância adequada para o propósito, mas não na dose e frequência apropriada.
Abuso de drogas: é o uso deliberado de uma substância não para seu propósito original, mas de forma a resultar em dano para a saúde ou habilidade funcional.
Por exemplo: foi receitado pelo médico um calmante para ser tomado na dosagem X. Se a pessoa sentir como "agradáveis" os efeitos do medicamento e passar a tomar 2 X, por sua conta e risco, isso passa a ser distúrbio no uso, porque está tomando uma droga para um determinado propósito, mas de forma inadequada.
Só se torna abuso quando o medicamento passa a ser usado em tal excesso que:
1-Os efeitos colaterais da medicação (no caso de um calmante, alteração dos reflexos, sonolência, etc.) passam a ser mais importantes que a própria medicação, trazendo consequências na habilidade funcional. Se alguém dirigir um carro sob os efeitos de qualquer droga que diminua os reflexos, a probabilidade de acidentes aumentará na proporção direta da diminuição da capacidade reflexa de reagir.
2-Comprometimento da saúde devido aos efeitos diretos e indiretos da droga. Exemplo: tomar antibióticos para gripe. Antibiótico como o próprio nome diz, é contra bactérias. A gripe é causada por vírus. Assim, não obtemos o efeito desejado (livrar-nos do sintoma), mas podemos provocar, pelo uso indiscriminado, uma diminuição da resistência do organismo às bactérias, de maneira a ficarmos vulneráveis a qualquer ataque das mesmas. O uso contínuo de alguma droga pode levar a tolerância, que consiste no organismo criar resistência aos efeitos da droga, sendo necessárias doses cada vez maiores para a obtenção do mesmo resultado.
Tolerância cruzada: é a relação entre diferentes drogas da mesma classificação. Uma pessoa que desenvolve tolerância aos efeitos do álcool, por exemplo, será mais resistente aos efeitos dos barbitúricos, os quais são classificados como sedativos.
Adição: refere-se ao abuso crônico de substâncias legais ou ilegais. Muitos especialistas atualmente preferem o termo "dependência da droga". A Organização Mundial de Saúde (OMS) define "dependência" como um estado onde drogas auto administradas produzem dano ao indivíduo e à sociedade.
Dependência física :é descrita como um estado no qual o organismo se ajustou à presença da droga. Quando a droga é retirada, surgem claros sintomas físicos de abstinência, geralmente envolvendo desconforto e dor. Em casos extremos, os efeitos de uma retirada súbita podem ameaçar a vida porque o organismo tornou-se dependente da droga.
Sintomas de abstinência tendem a ser o oposto dos efeitos da droga propriamente dita. No Brasil, Masur e Carlini no livro "Drogas - subsídios para uma discussão" definem dependência como o quanto a droga interfere na vida das pessoas, passando a ser o seu maior valor, e reservando o termo "Síndrome de Abstinência" como característica da dependência física.
Dependência psicológica: é definida como um estado caracterizado pela preocupação emocional e mental com os efeitos da droga e por uma busca persistente da mesma. A dependência psicológica não deve ser subestimada. Pode ser tão ou mais destrutiva que a dependência física.
Na realidade, dependência física e psicológica em geral funcionam concomitantemente, e não sabemos ainda qual das duas se instala antes, não sendo fácil separar os efeitos psicológicos dos físicos.


E por aí vai. O interessante, ao rever isso tantos anos depois, é descobrir que as definições continuam tão válidas quanto eram, e as mudanças foram:

a)Atualmente, o abuso de drogas prescritas, superou o de drogas ilícitas. A organização Trust for America’s Health informa que, aqui nos USA, cerca de 6 milhões de pessoas abusam de medicação prescrita por médicos, e que as mortes, devidas a esse abuso, no mínimo dobraram em 29 dos estados americanos. Em 10 deles, triplicaram e em 4, quadruplicaram, tornando-se assim a segunda causa acidental de morte, só atrás de desastres de carro.
b)Ao invés de diminuir, com toda a informação que temos, o numero de uso de drogas “off label”ou indicadas por parentes, amigos ou porque viu na TV, aumentou 4 vezes, e é desse caso que vou falar aqui. Só um adendo: “off label”significa também o uso de uma droga, recomendada para uma coisa, ser usada em outra. Por exemplo, o ácido valpróico, excelente anti convulsivante, tem sido usado rotineiramente, nos últimos 20 anos, para tratar, e devo dizer, com muito sucesso, cefaléias persistentes. Também se refere ao uso de medicamentos sem supervisão médica, como no caso são as vitaminas, suplementos, medicação homeopática, aurivédica e outras, assim como usar medicamentos de outra pessoa.

Desde que me lembro por gente, escuto o famoso “O que??? Seu médico mandou tomar isso???? Que absurdo gente!...A filha da prima do marido da Conchita, caso igualzinho ao seu, sem tirar nem por, tomou (seja lá qual for o nome da coisa) e ficou boa num átimo...”
“Dor nas costas? Mas menina, por que tomar essas coisas todas? Não viu que esses remédios vão fazer mal para seu (fígado, intestino, coração, pulmões, a escolher)? O amigo do tio da avó de minha manicure morreu tomando isso! Mas olha, tomando isso aqui (vitaminas, sais minerais, homeopatia, auryvedopatia, qualquer patia), é tiro e queda”.
“Para com isso, criatura! Toma isso aqui que é muito melhor!”
“É o que dá confiar nesses médicos, que vi na (TV, rádio, jornal, revista) que todos eles ganham da Indústria Farmacêutica, para ficar lhe empurrando essas coisas. Eu não, só uso coisas naturais. Nada de química neste corpo que é o templo do Senhor!” (E nesses casos tenho cócegas na língua para perguntar do que a criatura acha que seu corpinho é constituído, se não de química, mas depois que passei dos 40, tenho me controlado muito melhor).

Fato é que essa coisa do receitar fora de consultório médico ou hospital, continua viva e altiva, e quero crer que, ao contrário do que era quando criança, isto é, a informação era pouca, como também era difícil o acesso a médicos e hospitais, e o “cházinho da vovó” funcionavam na maioria dos casos, até porque, durante uma gripe, nada mais confortante do que o caldo que revivia até defunto, de minha nonna Linda (faço até hoje, o caldo, não a ressureição dos mortos), a informação hoje é tão facilmente alcançável que fica fácil a todos nós nos sentirmos um “Dr. House” .

É fato que a Indústria farmacêutica visa lucro, e é capaz de fazer coisas pouco éticas? Sem sombra de dúvida. É fato que alguns médicos escorregam pela ladeira do lucro fácil, ao lado da indústria farmacêutica? Sim, é.
Quero só lembrar que laranjas podres, infelizmente, existem em qualquer profissão, como padres pedófilos, advogados passando a mão nos ganhos de seus clientes e coisas no gênero. Isto posto, lembro que também, a maioria dos padres não é pedófila, nem advogado um mau caráter por princípio.

Lembro perfeitamente do quase infarto que padeci quando, ao voltar inesperadamente para casa, vejo minha mãe distribuindo minhas amostras grátis (na época, ganhava-se montanhas de amostras, ainda na faculdade, e eu as juntava para levar para asilos) para uma fila de gente na porta do sítio. O infarto deveu-se a duas coisas: primeira, eu achei que ela estava passando as coisas assim, tipo dando consulta gratuita, sem ser médica; segunda, que minha cabeça não só foi inundada de todos os horrores que poderiam acontecer por remédios errados, como também pela visão de minha mãe sendo presa por exercício ilegal da profissão. Acalmei-me um pouco quando vi que as pessoas entregavam a ela um papelzinho com o nome do remédio escrito, e ela ia nas caixas, pegar a coisa ou dizer que não tinha.
Depois que a fiz me prometer me passar as receitas das pessoas que eu tentaria conseguir os remédios, ficou com tempo livre, de forma que foi ler meus livros do Freud e analisar meu pai. Menos mal. O único que se deu mal foi o já citado pai, que não só tinha passado estoicamente pelo estudo de anatomia da filha (costumava estudar os ossos nele e em meu irmão, magros esqueléticos que eram), como estava passando pela tortura de ser neurologicamente testado com martelinhos para reflexos e exames sem fim de fundo de olho. Todo o acima, pensava ele, era medicina, quando cunhou a frase: “Não faça de sua filha uma médica. A próxima vítima pode ser você”, em cima de uma propaganda famosa na época. Mas psicanálise não! Era demais.

Ainda na faculdade, lembro do horror da epidemia de meningite, durante a qual, evidentemente, estava passando por estágio no Hospital Emílio Ribas. O horror não se deveu só à montanha de mortes, incluindo de médicos trabalhando na área, o fato de pacientes ficarem no chão porque não havia mais leitos, ou quando, até as luvas acabaram e lavávamos as mãos no álcool iodado e íamos em frente. Era também o horror de usar quantidades cavalares de antibióticos, e mesmo assim, o paciente morrer por resistência aos mesmos. Agora, temos a invasão das “super bactérias”, e tudo por causa do abuso que fizemos da medicação.

Temos a tendência de nos deixar levar por “testemunhos” e não ligar a mínima para evidências. Devo dizer que faz sentido. No geral, testemunhos são emocionalmente ricos, e mais interessantes do que evidência fria, plana, sem emocional. Adoramos o “milagre”, tipo a criatura que foi curada de câncer pelo bicarbonato do tal médico italiano, que naturalmente está sendo perseguido pela instituição da medicina e da Indústria Farmacêutica, e espalhamos o e mail a torto e a direito, sem nos preocuparmos em checar fatos, como por exemplo que, o acima citado nunca participou de congressos da Sociedade Americana de Cancerologia, onde, segundo o email foi ovacionado em pé, nem sequer ofereceu RX, tomografias ou qualquer testes que comprovasse os tumores que ele mesmo tinha diagnosticado, nem se dignado a juntar os casos para publicação e revisão. Tudo o que fez foi fazer uma página na net, onde qualquer um de nós escreve ou coloca o que bem lhe dá na telha. Tem um site, que adoro visitar porque as histórias me divertem demais, onde os escritores colocam todos os “fatos” de pessoas falecidas, como Elvis Presley , JFK e Marlyn Monroe, que na realidade não morreram, estão vivos e vivendo bem em lugares como a Micronésia. Tem fotos e tudo.

Ano passado, fiquei doente de tristeza, quando um parente inglês me pediu para achar o endereço de um médico aqui em Houston, que estava fazendo maravilhas no tratamento de câncer para crianças. No início fiquei surpresa, posto que nosso MD Anderson daqui é referência mundial para tratamento de câncer e nunca tinha ouvido o nome da criatura. Mas também, pensei, isso é uma enormidade, impossível conhecer todo mundo. E fui à procura. Descobri que, não só existe, como tem um pequeno hospital e um laboratório, onde fabrica o “famoso” soro para as crianças. Descobri também que as crianças, em estado terminal, vão morrer na pediatria do MD, na clínica dele, ninguém morre. Como tudo é particular e ele não recebe um tostão do governo, municipal, estadual ou federal, não há supervisão. Até o momento, nenhum familiar entrou com nenhuma ação contra ele porque: a) assinam uma enorme papelada na qual abrem mão de qualquer ação possível, por ser o tratamento “experimental”; b) Pais de crianças com esse tipo de diagnóstico fazem qualquer coisa só para ter um pouco de esperança, e com certeza eu também faria; c) a grande maioria dos pacientes vem da Europa ou do México; d) Nunca entrou com nenhum pedido para o FDA aprovar seu soro. Em suma, um salafrário que encontrou um campo fértil.

Passei o endereço com todas as informações. Vieram, fizeram o tratamento. Voltaram. A menina morreu. Os pais estão seguros que fizeram todo o possível, o que realmente fizeram, mas ele bem que avisou que provavelmente, era tarde demais.

E encerro, jurando que chega, não falo mais de propaganda médica, a favor ou contra. Continuo tendo dores de estomago todas as vezes que lembro o caso acima, e também já aprendi que só entendemos o que queremos ou podemos entender, ninguém convence ninguém de nada.
É o que considero o lado negro das neurociências. Sei que é assim, porque evidências e estudos assim o demonstram, mas continua aquele fiozinho de esperança, como o que ficou preso na caixa de Pandora.
Burro do Epimeteu que não escutou o que o irmão lhe disse.

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