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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

QUEIXA CONTINUA. QUAL A VANTAGEM?

Pois estava a por em dia minhas leituras (nada como dois dias de neve, gelo e tempo cinza para estimular a visão daqueles artigos que a gente bookmarca e esquece), quando eis que Psychology Today me apresenta uma pequena jóia, que depois que vi a data, Junho de 2012, ruborizei com certa vergonha, mais de ano e meio largado. Bem, antes tarde do que nunca (cá entre nós, quão maravilhosa desculpa para desatentos!), aqui vai tradução/comentário/sumário. Link para artigo original ao pé da página. Alguns exemplos, por serem por demais americanos, virão com versão mais latina, entre parênteses, por serem produção minha.

Uma das maiores fontes de stress e insatisfação em nossas vidas é nosso desejo contínuo de controlar tudo o que nos acontece, isto é, ter o que desejamos e nos ver livres do que não queremos. Chamo esse tipo de desejo de “estado de querer/não querer”. Vai daí que pensei que seria interessante ver o quanto de controle realmente temos sobre nossas circunstâncias, e com isso em mente, em frente, avante, comecemos a nos queixar da vida!

“Queixa”é uma boa palavra para descrever aquelas circunstâncias em nossas vidas, as quais gostaríamos que fossem diferentes, seja lá coisinhas à toa como não achar as chaves do carro na bagunça da bolsa ou por coisas mais importantes, tipo a forma com que os outros nos tratam. Mesmo quando a queixa é justificada,” sim o cachorro do vizinho late demais", continua sendo queixa, no sentido que não estamos conseguindo o que queríamos,”um cão silencioso. A meta de nos tornarmos conscientes de nossas queixas, é que isso nos ajuda a reconhecer como elas adicionam stress e insatisfação em nossas vidas, e começar a pensar e perceber como nos sentiríamos se as largássemos.

Então, vamos ao exercício: Faça uma lista de suas queixas neste momento. Aqui vai um exemplo:
1-Eu não quero envelhecer
2-Meu parceiro/parceira se queixa demais (Favor notar a ironia nesta queixa específica)
3-Taqueuspariu estou parada há 20 minutos nesta **** estrada!
4-Odeio essas dores!
5-O governo é uma máquina ineficiente e, além de tudo,joga dinheiro fora.
6-Queria que meus filhos me telefonassem mais vezes.
7-E fico na espera, sempre, todas as vezes que chamo esse desgraçado, infeliz, cartão de crédito, banco, farmácia...a escolher.
8-Impressionante a falta de educação dessa geração mais nova!

Não se julgue negativamente pelo tamanho de sua lista, ou seja não se queixe que sua lista de queixas é muito longa. Se fizer isso, vai cair de cara em pensamentos autocríticos, que vão impedir os benefícios deste exercício. É só uma lista de suas queixas, ora essa, é sua e você tem direito a ela.

Agora separa a lista em 3 colunas:
1-Circunstâncias sobre as quais não tem nenhum controle.
2-Circunstâncias sobre as quais pode ter algum controle.
3-Circunstâncias sobre as quais tem total controle.

E caso não tenha nenhuma queixa na coluna 3, bem vindo ao clube. A maioria de nós não tem mesmo.

O problema aqui não é se suas queixas são justificadas ou não, porque em qualquer dos casos, são uma fonte de insatisfação e sofrimento, porque suas queixas refletem seu (nosso, vosso, deles) desejo de que sua vida e o mundo sejam diferentes do que são.

Veja como dividi minha lista de exemplos:

SEM CONTROLE

Se fosse realmente minha lista (provavelmente não é a lista da autora, mas que, com fé gosto e vontade já cometi, muito mais do que uma vez as de número 3,4,5 e 7, isso confesso), diria que não tenho controle sobre os números 1,3,5,7 e 8, o que é muito mais que metade da liista. Estas 5 são condições em minha vida e no mundo, que não estão em meu poder mudar. O que posso fazer é mudar minha resposta a elas (e isso sim, definitivamente, vai reduzir meu sofrimento). O que não posso é mudar os fatos nus e crus dessas circunstâncias.

Minha inabilidade de controlar número 1, é auto evidente: vou envelhecer (e a única alternativa a isso é morrer jovem, o que não me parece uma idéia legal).

O número 3: Não posso controlar o fluxo do trânsito. Vai que aconteceu um acidente, coisa que acontece (e nos últimos dias aqui, com esse tal de gelo negro, acidentes aconteceram aos borbotões).Ficar enraivecida ou frustrada não vai melhorar o trânsito.

Número 5: Todos os governos gastam demasiado e/ou são ineficientes em algumas coisas, e é gastar vela boa com defunto ruim o se queixar a esse respeito. Por outro lado, se pensar sobre isso, posso achar várias maneiras pelas quais o governo funciona muito bem, principalmente se comparado a outros lugares do mundo. Por exemplo, não iria longe ao sair de minha garagem sem os serviços que o governo provê, tipo regulando a qualidade da gasolina, de formas que meu carro pega sem maiores enroscos, pavimentando as ruas, determinando limites de velocidade seguros, mantendo os semáforos em bom funcionamento e tendo policiais para assegurar que todo mundo observe as regras da estrada.
(OK, reconheço, a autora deste artigo provavelmente nunca esteve no Brasil, mas leve em consideração que é só um exemplo)

Quanto ao número 7, realmente não posso controlar o quanto tempo vão me largar esperando (e com aquela voz dizendo a intervalos de 2 minutos – sei porque um dia resolvi testar - “a sua ligação é muito importante para nós”), mas se posso ler algo enquanto espero, a experiência se torna muito, mas muito menos estressante.

E quanto ao número 8, não há quantidade suficiente de queixa que vá mudar as maneiras da geração mais nova. Aliás, qual foi a geração que não se queixou da geração seguinte? (e isso me lembra minha mãe, e eu já estava lá pelos meus 30 e qualquer coisa, quando ela, numa conversa, se saiu com o seguinte primor: “Minha filha, admiro sua geração. Vocês acabaram com a falta de educação. Agora vocês chamam a isso de assertividade.”).

Olhe para sua lista de “Sem Controle”. Dá para perceber que se agarrar às queixas sobre coisas que não têm nenhum contrôle aumenta seu sofrimento, piora o stress, ansiedade, insatisfação e infelicidade? Dá para questionar a validade de suas suposições? Se der, esse questionamento revela que a queixa pode não ser de todo justificada, tipo as maneiras dos jovens.

Há algum item em sua lista que, em vendo que não tem controle, pode largar, deixar ir? Se sim, como se sente largando o peso? Todas as vezes que uso a frase “deixar ir”, penso nas palavras do monge budista Ajahn Chah:

“Se deixar ir um pouquinho, vai ter um pouquinho de paz. Se deixar ir um montão, vai ter um montão de paz. Se largar completamente, vai ter paz e liberdades completas, pois suas batalhas com o mundo terão terminado.”

(Pelo fato que acho que de um jeito meio estranho estou me tornando quase budista, sempre me vem à mente meu primeiro contacto com zen-budismo, traumático que foi. Copa do mundo nos USA, não adianta, datas não são meu forte, desconfio que tenha sido no começo dos anos 90. Jogadores italianos em azul celeste, agora também não lembro se era Armani ou Zegna, mas tem esse colírio chamado Baggio, espanto dos espantos, o primeiro italiano, jogador de futebol, zen-budista assumido. Jogo final, Brasil e Itália, vamos aos penaltis, está pau a pau...e Baggio, o budista chuta para a lua! Juro, porque em direção ao gol, não foi. Muito traumática minha primeira experiência zen.E continuo rezando para que em finais não dê Italia/Brasil. Muito sofrimento, dos meus dois lados.)
VEJA AQUI

CONTROLE TOTAL

Não vejo nada, na lista de exemplos, sobre o qual tenho total controle.

CONTROLE PARCIAL

Sobraram 3 ítens na lista, e não tenho certeza se não caberiam melhor na lista SEM CONTROLE. Se fosse sua lista, primeiro reconheça que, no melhor dos casos, o controle é só parcial, o que deveria encorajá-lo/a a largá-los. Vamos analizar:

Número 2: Quais são as probabilidades de que, o me queixar a respeito de meu queixoso companheiro, vá faze-lo queixar-se menos?

Número 4: Minha dor vai diminuir se eu a odiar? Pelo contrário, vai aumentar, por causa da emoção e do stress que seguem raiva e ódio, pois fazem com que os músculos, ao redor do ponto doloroso se contraiam, aumentando a dor.

Numero 6: Vale a pena me sentir miserável porque os filhos, amigos, companheiros (o bispo de Tremembé) não me telefona o número de vêzes que considero adequado? Não há nenhuma maneira de controlar suas cabecinhas e dedinhos para que disquem (o antiguidade de minha parte, teclem, digitem, mais adequado aos tempos) os números que farão com que meu celular toque.

Por ter categorizado esses 3 sob “controle parcial”, vale a pena pensar a respeito de que tipo de ação ou atitude que poderia diminuir a queixa, o que, por sua vez, diminuiria o sofrimento. Primeiro, ajuda pensar que as coisas são como são: o companheiro queixoso, a presença de dor física, filhotes que não telefonam o quanto a gente acha que deveriam. Isso é pensar e não julgar, pois o não julgar nos dá uma oportunidade de resolver problemas de forma desapaixonada.

Será que poderia usar algumas estratégias, com meu companheiro, estratégias essas efetivas na redução de queixa, como validar seus sentimentos? Exemplo: ”Realmente é o cão quando o computador pifa”, ou “seu trabalho anda mesmo bem difícil”. Que tal terapia de casal?

Quanto à dor, meu médico pode me encaminnhar para uma clinica de dor. Ou praticar técnicas de atenção concentrada que realmente mitigam dores. Posso pegar no telefone e chamar quem me der na telha.

Uma vez que nos tornamos conscientes de nossa tendência a reclamar, começamos a ver que nossa paz não depende do controlar todas as circunstâncias que vivemos. Nossa paz e contentamento dependem de aprendermos como responder, de forma habilidosa, a elas.

Quando reconhecemos que não temos controle sobre a maioria das coisas das quais nos queixamos, fica mais fácil aceitar que muitos de nossos desejos não serão realizados, e muitas de nossas esperiências não serão exatamente de nosso agrado. Ao reconhecer e aceitar esse fato, podemos começar a viver tais experiências com mais calma. Quando o fizermos, vamos notar que nossa tendência à queixa, diminui e que tremendo alívio isto é.

(Sei perfeitamente que rezar para não dar Itália/Brasil em final de copa, não altera em nada as chances da coisa, mas continuo fazendo por me sentir bem, de 4 em 4 anos, me importar com minhas duas paixões).

Toni Bernhard, J.D., é ex-Professora de Direito da Universidade da California em Davis. Agora é escritora. WEB SITE
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