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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

DIVERSIDADE CULTURAL


Nesta altura do campeonato, considero-me uma imigrante profissionaI.
Este assunto costumava vir à minha cabeça raramente quando criança, de quando em vez na adolescência, bastante na idade adulta, e o tempo todo quando baixei no grande estado do Texas.

Pois vejamos: quando da mudança da Itália para o Brasil, foi mais ou menos assim: minha mãe informou, mostrou fotos ou desenhos, já não lembro, de frutas fantásticas das quais nunca tinha ouvido falar, subimos no navio em Genova, descemos em Santos e a vida continuou mais ou menos como de costume, adicionados que foram dois problemas: o da banana e o das pocinhas de lama.

O primeiro, deveu-se a uma revisão médica sui generis: quando na Itália, a fruta a ser comida, a maravilha, o portento, era a banana, provavelmente porque, na Itália do pós-guerra, meados dos anos 50, banana era uma raridade. No Brasil, a fruta foi mudada para maçã, naturalmente fruta rara no Brasil daquela época. Minha mãe recusou-se a fazer a troca, e assim pude crescer alegrinha comendo minhas bananas, das quais, a preferida era/foi/continua sendo, mesmo que seja difícil de achar, aquela bananinha mel, vendida em cachos no trecho final da Piaçaguera...ai que saudades.

O segundo foi a paixão imediata de meu irmão, na época com cerca de dois anos, por pocinhas de lama. Era só ver uma, e la ia ele, morto de alegria, sentar dentro...e como tinha pocinha!

Até aí não teria sido um desastre, não fosse a certeza de minha mãe que o pimpolho seria atacado por uma legião de germes tropicais, naturalmente muito mais horrendos e mortais que germes itálicos, tendo então que banhar e trocar completamente o desavisado, numa média de 6 vezes por dia, a depender das condições atmosféricas. E isso numa época que roupa se lavava no tanque, à mão.

E esses foram os grandes problemas que me lembro, o resto, pelo menos em minha opinião, foi interessantissimo. Mamãe discordou a respeito dessa minha visão por toda a vida.

Meu primeiro choque cultural ocorreu na Copa do Mundo, 1970, final Brasil/Itália, quando me descobri em total pânico sem saber pra quem torcer, naquela situação de nem a favor, nem contra, muito antes pelo contrário.Sufoco total. Acalmei-me pensando que, afinal de contas, Copa é de 4 em 4 anos, e as chances de toda final ser Itália/Brasil seriam poucas.
Certa estava, pois outra final entre ambos seria só em 94 quando o bestão do Baggio, o único jogador de futebol zen-budista na história da humanidade, chutou a bola pra lua, Itália vice, de novo.

O segundo choque foi alguns anos mais tarde, quando um grande amigo, que tinha crescido lá em casa, confessou que passou anos apavorado, até entender que, o que ele considerava a prévia de combate mortal, era apenas a família discutindo assuntos corriqueiros. Pensei na época... uai...e que eles não conversam? Também não pensei muito mais no assunto.

O terceiro foi mortal, abalando minhas mais profundas crenças sobre vida, relações, percepções e decepções, e veio após o já citado amigo ter assistido o “La Nave vá”do Fellini, quando me informou que finalmente havia entendido que, em tendo sido criada num ambiente como o descrito no filme, certamente havia perdido qualquer oportunidade de me tornar “normal”.

Como assim não sou normal? O que há de errado se, ao invés de usarem armas, o povo se digladia por poder, cantando? Vai me dizer que, jamais em momento algum se sentiu como que perdido num barquinho, no meio do oceano, e a dúvida como metáfora, sendo um enorme hipopótamo bem sentado à sua frente???
Aquilo doeu.

Mas, a vida anda, o tempo passa, há coisas a serem feitas, novidades a serem apreendidas, viagens, novos mundos a serem descobertos, crianças nascem, idosos morrem nessa incrível máquina de reciclar que é o mundo.
E assim, num belo dia, eis que me encontro no Texas. E sou chamada de “Alien”. E descubro que o green card é cor de rosa, e sou elevada à categoria de especialista em “Diversidade Cultural”.

Pensava eu, errôneamente pelo visto, que minha função era ensinar psicofarmacologia e distúrbios mentais, e nervosíssima me tornei com essa nova atribuição. Fui à luta.Muitas horas de sono perdidas depois, uma inteira floresta destruída de tanto papel que usei imprimindo artigos do santo Google, minha tábua de salvação no oceano revolto onde o hipopótamo era bem real, só me faltou o barquinho e o coro ao fundo cantando “Vá Pensiero”, eis que o momento “Eureka” veio quando, funcionando como tradutora para uma senhora mexicana e seu psiquiatra indú (cujo inglês era horrendo, embora tivesse vivido nos EUA desde os 3 anos de idade), a luz se fez.

Naquele cubículo com uma senhora baixinha, gordinha de trança pelo meio das costas, a se queixar em espanhol para um indú alto, magérrimo, marrom e de turbante, imóvel em sua cadeira aguardando a tradução feita por uma italo-brasileira de meia idade,branquela e sardenta, o óbvio ululante do Nelson Rodrigues materializou-se e o hipopótamo virou borboleta: quem foi que disse que somos feitos iguais?

Orgulhosamente informo que, tantos anos depois, as apresentações, aulas e apostilas no assunto, desta que voz fala, continuam a ser usadas naquele local. E a camiseta que usei na primeira aula pras turmas novas, amplamente reproduzida., e dizia o seguinte:

NO PARAÍSO DA COMUNIDADE EUROPEIA
Os cozinheiros são franceses
Os policiais são ingleses
Os amantes são italianos
Os dançarinos são espanhóis
E tudo é organizado por alemães.

NO INFERNO DA COMUNIDADE EUROPEIA
Os cozinheiros são ingleses
Os policiais são franceses
Os amantes são alemães
Os dançarinos são suíços
Os banqueiros são espanhóis
E tudo é organizado pelos italianos.

E vive la différènce!

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