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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A VENDA DO DISTÚRBIO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO

Roubei o título do artigo do Alan Swarz, no NYTimes, porque não consegui pensar em nada mais apropriado. Coloco o link do artigo original, no final.

O artigo todo é a respeito da palestra do Dr. Keith Conners, psicólogo, professor emérito na Duke University e iniciador da batalha para legitimar os Distúrbios da Atenção como doença, num recente congresso em Washington sobre os já citados distúrbios. E ele não está comemorando, muito antes pelo contrário, está em franco desespero, como mostra o início de sua palestra: “Os números fazem com que pareça uma epidemia. Bem, não é. É um absurdo. É uma invenção para justificar o uso de medicamentos em níveis sem precedentes e injustificáveis”.

E concordo muito com ele. Deixa fazer uma revisão. Já na residência, nos era ensinado que o Distúrbio da Atenção, com ou sem Hiperatividade, era uma coisa que dava em crianças, sumia miraculosamente quando a criança chegava na adolescência, e pronto, era isso, sem sequelas e sem problemas, mais ou menos feito gripezinha à toa. O único senão no problema era que, crianças com déficit de atenção eram incapazes de aprendizado e/ou sucesso na vida acadêmica. E isso, falo de final da década de 70, começo da década de 80.

Quando eu era criança, ninguém pensava, sabia ou imaginava qualquer coisa a respeito. Lá pelos meus 20 anos, comecei a achar que havia algo errado comigo. Todo mundo achava muito engraçado, mas para mim, não tinha graça nenhuma. Tenho inúmeras cicatrizes corpo afora, atestando a falta de graça do assunto. Minha paixão por subir em árvores quase sempre era seguida por quedas na descida, por ficar encantada com as azaleias em flor no Ibirapuera, esquecer de continuar pedalando e cair de cara no chão, sair com um sapato de salto e outro sem e entrar em surto ao me notar mancando sem saber por que, estacionar o carro no supermercado e voltar para casa a pé, citado carro totalmente esquecido no estacionamento. O cérebro a voar em mil direções diferentes durante aulas chatíssimas, estar em festas em conversa com grupo e me ver totalmente perdida quando alguém me perguntava algo sobre a tal citada discussão sem eu ter a mais remota ideia do que estava sendo discutido. Tropeçar na própria sombra, andando pelas calçadas esburacadas de Moema,onde sempre havia algo para chamar minha atenção, e a última, um ano atrás em Chattanooga, rolar ribanceira abaixo por ter querido fotografar uma florzinha no mato e simplesmente não ver o precipício. Além do problema nas costas, quase mato de susto minha pobre cachorrinha que me acompanha em minhas andadas. Essas e outras, me fizeram visitar neurologistas, mais ou menos a cada 3 anos, a partir dos 20, geralmente seguido a alguma distração tamanho federal. E sempre com o mesmo resultado, de carinhas sorridentes, explicando que, alto QI vem acompanhado de alguns percalços. Por um lado, gostava do elogio a respeito do QI, por outro lado, tenho razoável dose de autocrítica, e sei que não sou nenhum Einstein, nem perto. A parte boa era que conseguia e consigo focalizar minha atenção feito laser, infelizmente apagando o resto do mundo. Digo parte boa, porque me ajudou muito, como médica, a estar totalmente ligada ao paciente na minha frente, mas ruim porque vivia tomando susto, isto é, se estou prestando atenção em algo e acontece de alguma pessoa falar comigo, simplesmente não escuto, o que descobri, irrita as pessoas sobremaneira, e elas acabam berrando e me sobressaltando. Finalmente, já lá pelos meus 40 anos ou mais, um dos neurologistas que encontrei num simpósio, me disse que eu tinha razão, que obviamente padecia de déficit de atenção, e veio com a pergunta: Quer começar a tomar medicação? Mandei o cidadão catar coquinho. Ora essa! passo a vida a esborrachar a cara, procuro ajuda, todo mundo ri, aprendo a fazer listas e checagens para tudo, me esforço para parecer o mais normal possível, e agora quer me dar remédio? Ora tenha a santa paciência!

Mas, para uma coisa, serviu. Passei a estudar o assunto com toda a fé. E é sério.

Em neurologia, há o quase consenso de que os Distúrbios da Atenção afetam cerca de 5% das crianças, que é um distúrbio legítimo, o qual pode seriamente atrapalhar o sucesso na escola, trabalho e vida pessoal. Também se concorda que a medicação, em muitos casos, alivia a impulsividade grave e a incapacidade de concentração, permitindo o desenvolvimento do aprendizado. E o mais importante: como em todo e qualquer problema na área médica, existem graus, e não é só por apresentar um ou outro sintoma, que a pessoa deva ser medicada de saída. Isto é verdadeiro em qualquer área. Lembro perfeitamente a quantidade de discussões e brigas que tive com as pessoas tomando antibiótico para gripe, e que nunca adiantou explicar que gripe é causada por um vírus e que antibiótico é para bactérias. Agora, infelizmente, estamos todos sofrendo as consequências disso, com o aparecimento das assim chamadas “superbactérias”, resistentes a tudo que é antibiótico conhecido.

Agora, vejam os dados do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças, que é o instituto nacional de saúde pública dos Estados Unidos -CLIQUE AQUI):

1- O Distúrbio da Atenção é o segundo mais frequente diagnóstico de longo termo, logo atrás da asma.
2- O diagnóstico foi feito em 15% das crianças em idade escolar.
3- O número de crianças em uso de medicação passou de 600.000, em 1990, para 3 e meio MILHÕES.
4- A prescrição de estimulantes quintuplicou desde 2002.

Ora, pensei eu, o aumento no número de diagnósticos pode ter acontecido devido ao fato de que agora, sabe-se onde e o que olhar, mas numa mais cuidadosa leitura, isso absolutamente não justifica a aplicação do citado a 15% da população infantil, ou seja, 10% a mais do que o esperado.
Continuando a leitura do artigo do Sawrz, comecei a recordar todo o enjoo que senti quando, a primeira coisa que notei nesta minha volta aos USA, foi a quantidade de propaganda de remédios na TV, de preferência em horário nobre. E não estou falando de uma aspirina ou um sal de frutas. Estou falando de medicação pesada, incluindo antipsicóticos. Lembro-me do susto que tomei quando vi pela primeira vez, na TV, a propaganda do Abilify, antipsicótico potente e caríssimo, e agora pasmem: para tratamento de depressão! E o artigo me informa do seguinte:

1-O aumento dos diagnósticos de déficit de atenção, e consequente prescrição de estimulantes, coincide com uma campanha de duas décadas da indústria farmacêutica, para divulgar a síndrome e promover as pílulas para médicos, educadores e pais.
2-Na já citada campanha, os gênios da propaganda incluíram comportamentos relativamente normais, como um descuido cá e lá e impaciência, como parte do problema, ao mesmo tempo em que exageraram os benefícios dos comprimidos. Anúncios na TV e em revistas populares, como People e Good Housekeeping, definiram esquecimentos e distrações comuns da infância como base para medicamentos que, entre outros benefícios, pode resultar em "trabalho escolar que corresponde à sua inteligência" e aliviar a tensão familiar.
3-Médicos, pagos pelas companhias farmacêuticas, publicaram pesquisas e deram palestras encorajando as maravilhas do fazer tal diagnóstico, com a consequência que, muita gente, incluindo médicos, passou a ver tais medicamentos como “benignos”, mais seguros que a aspirina, embora os tais tenham efeitos colaterais sérios e são regulados na mesma classe que morfina e oxicodone, por causa de seu potencial para abuso e dependência.
4-O Adderall entrou no mercado pela Richwood Pharmaceuticals, em 1993, quando houve um desaparecimento da Ritalina, o que levou milhares de pais em pânico a mudar para essa nova droga, apesar da companhia ser novíssima no mercado farmacêutico, e ser a primeira tentativa na área de um professor de primário do Kentucky, Roger Griggs. (Isto não está no artigo do Times, mas se quiserem ficar mais apavorados ainda, sigam este link CLIQUE AQUI ).

Mas, o que, a fim e a cabo, faz com que a propaganda seja tão eficaz? Segundo o Dr. Aaron Kesselheim, professor em Harvard, é porque a mesma fala e joga diretamente com os mais comuns temores dos pais a respeito de seus filhos. Todos queremos que nossas crianças tenham “sucesso”, seja lá a definição que damos ao termo, e, qualquer coisa que fuja um pouco da prescrição hollywoodiana do mesmo, nos assusta sobremaneira. Fora que, dar um comprimido é extremamente mais fácil que gastar tempo seguindo as crianças. Lembro-me de minha mãe, um dia eu lá pelos meus 10 anos, querendo saber por que ela não admitia que minhas notas fossem mais baixas que um nove. Oito e meio trazia sérios olhares reprovativos. A dita senhora parou no meio do que estava fazendo, e disse: “Senta, Patrizia.” Reconheci o perigo ali mesmo. Sou daquela geração que era chamada pelos pais por apelidos carinhosos. Quando o primeiro nome era invocado, sabia-se que havia problemas à vista. Primeiro e segundo nomes, problemão com certeza. Se a isso fosse adicionado o sobrenome, melhor correr. Sentei. E veio a primeira pergunta: “Você é retardada?”. Não fazia nenhuma ideia do que fosse um retardado, mas pela entonação, era óbvio que era algo muito ruim, terrível mesmo, ao que, obviamente respondi: “Não, claro que não.” Segunda pergunta: “Qual é seu trabalho?” Fácil essa, pensei astutamente, e respondi: “Sou criança, não tenho trabalho nenhum.” E aí ela acabou com minha astutice, dizendo: “Primeira resposta, correta. Segunda, errada. Certamente, você não é retardada, mas sim, você tem um trabalho e este é ir à escola, estudar e aprender. Por conseguinte, sendo inteligente e tendo um único trabalho, qual é o motivo pelo qual esse trabalho não possa ser desempenhado da melhor das formas?” Dez para Giuliana, zero para a astuta que vos fala. Aprendi ali, em menos de cinco minutos, o que é expectativa materna, como funciona o método Socrático, e a razão do porque mãe só tem uma. E, muitos anos depois, só posso agradecer. Déficit de Atenção ou não, fui muito bem na escola, aprendi, não tanto a gostar de estudar, mas com certeza amar aprender.

E isso tudo, para uma conclusão simples: sou médica, evidentemente adoro medicamentos que, quando bem dados, salvam vidas, às vezes de forma milagrosa. E é por isso mesmo que fico tão absurdamente apavorada quando vejo seu uso, mau uso e abuso. Não podemos nem devemos medicar a vida, e, além do mais, só o medicamento quase nunca funciona. Em qualquer situação. De Diabetes a Distúrbios da Atenção, de Depressão a Derrame, de Ataque Cardíaco a Alergia, só o comprimidinho não funciona. Há a necessidade de mudanças, às vezes radicais, no estilo de vida.

Segundo a Clinica Mayo, outra de minhas paixões, os tratamentos complementares para Distúrbios de Atenção são Yoga e/ou Meditação: O praticar as rotinas do yoga, de meditação e de técnicas de relaxamento, ajuda, não só a relaxar como a aprender disciplina, o que por sua vez, ajuda a gerir os sintomas do Distúrbio.

As dietas especiais, com eliminação de açúcar, trigo, leite, ovos, corantes artificiais e aditivos, não mostraram até o momento, qualquer relação consistente com melhora dos sintomas. Por outro lado, não se deve usar cafeína, que pode ter efeitos adversos em crianças com esse problema. Só lembrando que cafeína é encontrada não só no café, mas também em chá preto, chocolate, coca cola e todas as colas.

Vitaminas, Suplementos Minerais e Suplementos Fitoterápicos não mostraram qualquer benefício. (CLIQUE AQUI )

Então, para os pais, procurem profissionais nos quais tenham a mais absoluta confiança. Professores, vizinhos, amigos, celebridades da TV e tais, não são treinados para diagnóstico, de qualquer distúrbio.

E para meus colegas disturbados, só para dar uma lustradinha na autoestima, e como escrevi no livreto para meu neto gaulês, com o qual não codivido nenhuma genética, só alguns sintomas do Distúrbio, lembrem-se que Leonardo da Vinci, Einstein, Tomas Edson, Walt Disney, Mozart (CLIQUE AQUI) e mais um punhado de gênios, foram diagnosticados com a coisa. Outros atuais: Stephen Hawkings, Justin Timberlake, Will Smith, Michael Phelps, Sir Richard Branson, (CLIQUE AQUI).

Assistam a um filme antigo, de 1993, chamado "Strictly Ballroom".Não faço a mais remota idéia do título em português, decidi assistir por impulso, remexendo no Netflix, achando que era só a respeito de dança, coisa que adoro. É uma das mais bonitas aulas sôbre Distúrbios da Atenção, indubitavelmente melhor do que qualquer livro de texto.

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