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terça-feira, 12 de novembro de 2013

A MÁSCARA DA SANIDADE

"Os psicopatas estão sempre ao nosso redor. Em tempos de calmaria, os estudamos, mas em tempos de turbulência, eles nos governam". Ernst Kretschmer (Psiquiatra alemão que pesquisou a constituição anatomica e criou a tipologia humana)

Tudo começou em conversa via Skype, a respeito de uma série televisiva chamada “Scandal”, o que me levou a considerar que os shows de TV que mais sucesso fizeram em memória recente eram e são aqueles nos quais os psicopatas reinam soberanos, citando “Dexter”, Breaking Bad”e meu preferido, “Damages”, se não tanto pelas histórias, mas pela Glenn Close, que interpreta como ninguém psicopatas femininas - lembrem-se de “Instinto Fatal” - e pela chamada do programa que aqui reproduzo: ... “morally challenged lawyer...”, que, ao pé da letra, se traduz por “advogada moralmente desafiada”, ou advogada sem moral na linguagem não politicamente correta, assim como psicopata era o “idiota moral” no século XIX.

Infelizmente, para a maioria das pessoas, a palavra psicopatia/psicopata é igual a “serial killer” e/ou “psicótico”, o último não sendo a mesma coisa, muito antes pelo contrário, nada mais diferente.
Psicóticos são aqueles que apresentam distúrbios do pensamento (delírios) e/ou distúrbios dos sentidos (alucinações).
Psicopatas são os que absolutamente NÃO apresentam qualquer destes distúrbios. O que eles têm é o mais profundo desrespeito pelo resto, incluindo humanos e qualquer propriedade/ ideia/talento/ meta/desejo/emoções/competência etc... que não os próprios.

A mais perfeita obra a esse respeito é o livro “The Mask of Sanity”- A Máscara da Sanidade, de Hervey Cleckley, cujo PDF pode ser gratuitamente baixado aqui:CLIQUE AQUI

Infelizmente, procurei o correspondente em português, mas não achei. De qualquer forma, sei que há uma tradução do livro para a língua de Camões, pois me lembro de ter lido há muito tempo.

Pois bem, pensava eu, por que essa fascinação toda do mundo para com os psicopatas?
Tempos atrás, num outro post, creio que neste meu mesmo blog Curare, durante a pesquisa que fiz, descobri que o Charles Mason, aquele mesmo que matou a Sharon Tate, é a criatura que mais recebeu e continua recebendo cartas na prisão, de fãs incondicionais, incluindo pedidos de casamento. E assim, aqui estava escrevendo este post (sim, sou tão antiga que ando com caderninho e caneta bic, escrevendo as ideias conforme aparecem, pois as mesmas têm também a terrível mania de sumirem da minha cabeça ainda mais depressa do que surgem), assistindo a CNN para me colocar a par dos acontecimentos deste mundão de meu Deus, quando escuto a incrível notícia de que a FDA, a agência americana que regula comida e medicamentos, finalmente vai proibir o uso de gorduras trans nos citados alimentos. Descobriram (me perdoem se rio sorrisinho cínico, bem do estilo que Curzio Malaparte descreveu como deveria ter sido o sorriso de um toscano, caso houvesse algum lá na praça onde Mussolini declarou a entrada da Itália na segunda guerra, sorriso esse que, se houvesse acontecido, segundo o citado autor, teria evitado tão horrendo acontecimento), que os tais trans são responsáveis pela morte de cerca 7000 pessoas por ano, e 20.000 ataques cardíacos sem morte no mesmo período, o que causa uma perda de cerca 444 bilhões de dólares (dados do CDC) entre custos de tratamentos, hospitalizações, medicamentos e custos indiretos, que são perda de produtividade e perda de salários.

O sorriso se deve ao fato de que, desde a década de 70, a indústria alimentícia não tem poupado esforços para injetar os tais trans em tudo, coisa que também descobri escrevendo meu livreto “COMO LIDAR COM UM DIABÉTICO TEIMOSO: Perigos, Subterfúgios e Mazelas de Uma Cuidadora”, no qual relato meus espantos, descobertas, truques e outras cositas mais, aprendidas no ter que cuidar de um diabético rebelde e cabeçudo, a saber, meu marido.

E foi aí que a claridade bateu de frente!Dinheiro e poder. Sem tirar nem por. Só isso. Lembre-se que psicopata, em geral, caracteriza-se por emoções superficiais (principalmente falta de medo), alta tolerância ao stress, falta de empatia, frieza, falta de remorso, egocentrismo, superficialidade, manipulação nos relacionamentos, irresponsabilidade, impulsividade, comportamentos antissociais, tipo estilo de vida parasitário, e criminalidade.

Senão, vejamos a lista das profissões que mais atraem psicopatas e que menos atraem, compilada pelo psicólogo Kevin Dutton em seu livro “The Wisdom of Psychopaths: What Saints, Spies, and Serial Killers Can Teach Us About Success”, ou numa tradução livre de minha parte, “A sabedoria dos psicopatas: O que os Santos, Espiões e Assassinos em Série podem nos ensinar sobre sucesso”.

MAIOR PROBABILIDADE DE SER PSICOPATA – em ordem decrescente

Presidente ou Diretor Executivo de Empresa
Advogado
Celebridade de Rádio ou TV
Vendedor
Cirurgião
Jornalista
Policial
Clérigo
Cozinheiro Chefe (Chef)
Servidor Público

MENOR PROBABILIDADE DE SER PSICOPATA – Sem qualquer ordem

Assistente/Ajudante de Enfermagem
Enfermeiro
Terapeuta
Artesão
Esteticista/Estilista
Os que trabalham para caridade
Professor
Artista
Médico
Contador

Se notar, essas profissões que menos atraem psicopatas são também as que requerem empatia, capacidade de enxergar através dos olhos de outros e sentir o que estão sentindo. Também não dão muito poder e/ou dinheiro.

Assim, obviamente, numa sociedade na qual conhecemos o preço de tudo e o valor de nada, e o tal “sucesso” é visto como meta básica de vida, não é espantoso (a não ser pra mim, que adoro me espantar com quase tudo) que as características psicopáticas estejam em alta, e lembro perfeitamente do primeiro filme que deixou isso claríssimo, “Wall Street”, de 1987, do Oliver Stone (quem mais né?), com o Michael Douglas. Esse pedaço de conversa do filme descreve
perfeitamente: “O 1% mais rico do país é dono de metade da riqueza do nosso país, cinco trilhões de dólares. 1/3 disso, provém de trabalho duro, 2/3 de heranças e de juros sobre juros acumulados de viúvas e filhos idiotas, e daquilo que eu faço, de ações e especulação imobiliária. É pura merda. Você tem noventa por cento do público americano lá fora, com pouco ou nenhum patrimônio líquido. Eu não crio nada. Eu possuo. Nós fazemos as regras, colega. As notícias, guerra, paz, fome, as revoltas e revoluções , o preço do grampo de papel. Nós tiramos o coelho da cartola enquanto todo mundo fica espantado imaginando como foi que fizemos isso. Você não é tão inocente a ponto de pensar que vivemos numa democracia, né amigo? É o mercado livre. E você é parte disso. Você tem aquele instinto assassino. Fique por perto, amigo. Ainda tenho um punhado de coisas para lhe ensinar”.

E essa, minha gente, é a real mascara da sanidade. A assustadora, a que está em todo lugar. Pior ainda, vai contra tudo que a evolução nos ensinou, que fez com que a raça humana sobrevivesse: colaboração.
E então temos a epidemia de obesidade de um lado e gente morrendo de fome de outro; temos menos de 1% da população mundial possuindo tudo o que 99% carecem; florestas são destruídas porque madeira vende bem; temos pelo menos um serial killer por mês aqui nos USA, e temos morte em série em favelas e nas ruas todos os dias no Brasil.

Mas enquanto conseguirmos maquiar a realidade e vender as ilusões, tá tudo bem, né? Afinal de contas, se não houvesse a meta inalcançável de juventude eterna e felicidade sem esforço, já imaginou quantas empresas não teriam o que fazer? Cirurgia plástica seria para o que ela foi inventada, isto é, minimizar problemas sérios de desfiguração, tipo lábio leporino; comida seria para vivermos e celebrarmos datas, não para nos estufarmos e perdermos o sentido do gosto, e assim por diante.

Não liguem. Estou naquela fase de saudades de meus avôs, um anárquico e um não, mas ambos com aquelas ideias vitorianas de contenção e vida a ser vivida, do tamanho que deveria ser. Passa logo, e continuo acreditando que sucesso é aquilo que é sempre atribuído ao Emerson, mas não é dele, e pelo visto, ninguém sabe de quem é, o que, na realidade, não tem a menor importância:

“Rir bastante e amar muito; conseguir o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; ganhar a aprovação dos cidadãos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar o belo; encontrar o melhor nos outros; dar de si; deixar o mundo um pouquinho melhor por ter tido um filho saudável, ter plantado um jardim ou redimido uma condição social; ter brincado e rido com entusiasmo e cantado com exultação; saber que pelo menos uma vida respirou mais facilmente porque se viveu.”

A gente chega lá, tenho fé. Enquanto isso, vou assistir a menos e menos filmes e séries psicopatas. Meu antídoto, no momento, é “Modern Family”.

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