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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

RACIOCÍNIO MOTIVADO E O FECHAMENTO DOS EUA



Este post está sendo causado pelo que estou vivendo aqui na terra de tio Sam. Palavra que tenho a impressão de estar no meio de um filme do Monty Python, sem saber como vim parar dentro do mesmo, mas para quem não vive aqui, tenho que fazer um resumo/explicação do sistema político americano e dos acontecimentos consequentes.

Primeiro, existem duas Américas. Uma é a dos Estados do Nordeste e da Costa Oeste (Califórnia), de ciência de ponta, liberdade de expressão e basicamente democrata. Outra é o resto do país, principalmente o Sul, que é também chamado de “Cinturão da Bíblia”, atrasado, tacanho, em surto de identidade, notadamente republicano. E aqui só há dois partidos políticos: os republicanos (também autodenominados de GOP – Good Old Party, ou bom velho partido), cujo símbolo é um elefante, e os democratas, cujo símbolo é um asno. E só para constar, têm os estados do meio, tipo Iowa, que são chamados de “swing states”, ou seja, podem pender para um lado ou para outro, dependendo do vento.


Naturalmente que, dentro de cada partido, há os mais de direita, mais de esquerda, mais de centro, e até aqui tudo normal, ou pelo menos, entendível.

Voltemos no tempo para o ano 2000, eleição presidencial entre George W. Bush, republicano, e Al Gore, democrata.  Al Gore ganha a eleição com 48,4% dos votos populares, e velho George vira presidente. Fiquei confusa. Como assim? Aí aprendi que há uma coisa aqui chamada de Colégio Eleitoral, que, por definição, é um grupo de eleitores eleitos pelos outros eleitores para, formalmente, elegerem o Presidente e Vice Presidente dos EUA. Absurdo? Totalmente, mas é assim que funciona. Então, o tal Colégio e a Suprema Corte deram a presidência à criatura que, em minha opinião, causou mais estragos nesse país do que a guerra de secessão. Não vou aqui repetir os acontecimentos que todos conhecemos, mas me parece importante lembrar alguns que provavelmente não foram muito publicizados mundo afora.

Outubro de 2001 – PATRIOTIC ACT, que é o acrônimo para Uniting (and) Strengthening America (by) Providing Appropriate Tools Required (to) Intercept (and) Obstruct Terrorism Act of 2001 – Unir e fortalecer a América através da provisão dos meios necessários para interceptar e obstruir terrorismo, coisa essa que permite a detenção indefinida de imigrantes, a busca de uma casa ou local de trabalho sem consentimento ou mesmo conhecimento do dono, permissão para o FBI fazer busca e apreensão em telefones, e-mails e qualquer estatuto financeiro sem necessidade de permissão por um juiz, e outras cositas mais. Está em vigor até hoje.

Desnecessário se faz citar as duas guerras sem sentido, nem os absurdos com os quais a criatura nos brindou, incluindo o se sufocar com um pretzel, tomar uma sapatada na cara numa conferência, bater a cara na porta de outra, insultar com a mesma estúlcia amigos e inimigos, e ter um vice presidente que, além de ser apelidado de “Vader”, sabe aquele mau caráter de Guerra nas Estrelas, também descarregou uma espingarda na cara de um amigo, numa caçada. Vai que o amigo tinha cara de peru.

Pois essa dupla dinâmica ganhou as eleições seguintes, amados de paixão pelos sulinos, odiados com fé ainda maior pelos nortistas. Para completar o segundo mandato, conseguiram a famosa Depressão Financeira de 2007-2008, que jogou o mundo no caos e a Europa está se danando até agora.


E ai entra Obama. Barack Hussein Obama. Negro, com um sorriso fantástico, democrata até a medula de seus ossos, e francamente decidido a mudar as coisas. Caso não se recordem, aqui vai um resuminho do que fez até agora: conserto do estrago da depressão de 2007, melhora no imposto para classe média, acabou com a coisa de não aceitarem gays nas forças armadas, e é a favor de casamento gay seja lá em que estado for. A última é o que vem sendo chamado de “Obamacare”, que é a possibilidade de seguro saúde universal, pois aqui nos EUA, é tão caro que, a não ser que a pessoa tenha um excelente emprego e o empregador pague a maior parte, não há jeito de conseguir pagá-lo. Não à toa, o índice de gente que não tem qualquer seguro é de 58% da população, desses, 68% são negros, e a maioria deles está em estados do sul, controlados por republicanos, sendo que o Texas ganha o prêmio de estado com mais pessoas sem qualquer tipo de seguro saúde. 

Pois bem, desde que Obama ganhou a primeira eleição, o número de “hate groups” ou grupos de ódio, como são chamados, que por definição são “grupos ou movimentos organizados que advogam, defendem ou praticam violência, hostilidade ou ódio contra membros de uma raça, etnia, religião, gênero, orientação sexual de determinado setor da sociedade”, aumentou em 67%, enquanto o grupo dos que se denominam “Patriotas”, que são espécies de milícias armadas, aumentou em 813%. (Dados do SPLC, grupo que monitora atividades de grupos extremistas - http://www.splcenter.org).

Só como exemplo, cito os grupos “White Nationalist – Nacionalistas Brancos”, que incluem coisinhas fofas como o Ku Klux Klan, os Neo Confederados, os Neo Nazi, os Skinhead Racistas e o Identidade Cristã, sendo o maior uma coisa chamada de “Conselho de Cidadãos Conservadores”, que é a reencarnação do Conselho de Cidadãos Brancos, formado nos anos 50 e 60 para resistir à desagregação, ou seja, o ato de escolas receberem alunos brancos e negros na mesma sala de aula.


E finalmente, dentro do partido republicano, surge o Tea Party, ou Partido do Chá, dando a impressão que foi no momento seguinte à eleição do Obama. O nome é inspirado no famosíssimo acontecimento de 1773, quando os bostonianos, cansados com os impostos da corte inglesa, jogaram todo o carregamento de chá de um navio inglês no mar. Monetariamente, é sustentado pelos irmãos Koch (donos das Indústrias Koch, o segundo maior conglomerado industrial dos USA, que engloba, entre outras, refinarias de petróleo, conglomerados agropecuários, tudo que é tipo de papel higiênico, toalhas de papel, guardanapos e tais, fertilizantes, gás natural e líquido, etc.), e dentre suas estrelas, encontramos luminares do pensamento humano (isso é sarcasmo puro!), como Sarah Palin, Michele Bachman, Marco Rubio e Ted Cruz. Segundo Al Gore, é “uma estratégia política para promover ganhos das corporações às expensas do bem comum”.


E aqui entra a definição de RACIOCINIO MOTIVADO, fenômeno estudado em ciências cognitivas e psicologia social, significando a tomada de decisões de forma tendenciosa, baseado nas emoções e crenças pessoais, sem qualquer respeito pelas evidências. Vem junto com dissonância cognitiva, que é, por exemplo, ignorar totalmente o problema do aquecimento global, preferindo acreditar em meia dúzia de assim chamados cientistas sem critério, porque se trabalha, vamos dizer assim, para uma companhia de petróleo.
Dito de outra maneira, é o processo pelo qual, ao invés de procurarmos pela razão que confirme ou não certa crença nossa, preferimos procurar por informações que confirmem aquilo no qual, de antemão, já acreditamos. Em neurologia é definido como “uma forma implícita da regulação da emoção, na qual os sistemas de julgamento cerebrais convergem para minimizar os estados afetivos negativos e maximizar os positivos, ou para realização de motivos”.

Acreditava eu até agora, e cada um que acredite no que quiser, que “meu direito termina quando o seu começa”, “não acredito numa palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-las”, e todas essas coisas lindas aprendidas com o humanismo, via meu nonno, anarquista graças a Deus.

Resisti bravamente, usando com fé o raciocínio motivado, pelo simples fato que é muito doloroso abrir mão de crenças. Cheguei a defender vigorosamente o raciocínio de um terrorista desses que pregam uma bomba no peito e se explodem para encontrar as 72 virgens no paraíso, não defendendo o ato, mas entendendo que, no nível de vida, diria sub humano, que essas criaturas nascem, crescem e vivem, é compreensível que anseiem por outro mundo onde sentarão à mesa do rei.

Confesso, errei. Não dá mais para negar evidências. Vejo que um país parou, porque alguns simplesmente não aguentam, não só um negro presidente, mas um que está fazendo mudanças sérias e tão, tão necessárias. E as consequências dessa parada são absurdamente assustadoras. 

Quando vejo as pessoas se definirem como “pró vida”, sendo favoráveis à pena de morte, ao corte de subsídios para crianças pobres, à briga contra o desenvolvimento da ciência, ao ode à violência... minha paixão pelo estilo de vida que achei que era a base dos USA, que desenvolvi da primeira vez que vim para cá, menina de interior que cresceu durante a ditadura, e que teve que pagar mil dólares para poder vir estudar...acho que desta vez cai no meio do Talibã.

E o Talibã americano se chama Tea Party, cuja função básica de seus representantes era, da primeira vez que o Obama foi eleito, simplesmente fazer com que ele fosse presidente de um termo só. Como foi reeleito, agora é impedi-lo de fazer qualquer coisa. E todo mundo que vive aqui que se dane. Viva o raciocínio motivado, ou, como disse o Ted Cruz quando lhe foi perguntado o porquê da União dar, anualmente, subsídios de 500 milhões de dólares às indústrias petrolíferas: “Eles precisam, eles precisam!”.

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