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domingo, 7 de julho de 2013

MUDANÇAS E NOSSO LADO ESCURO, MUITO, MUITO ESCURO

Seguindo que estou as manifestações aí no Brasil, passei de espanto (Como? Esqueceram o futebol?) para ufanismo desvairado (Gente, estão fazendo! Maravilha, estão fazendo!). Segui tudo que pude pela BBC e CNN, li interpretações dos mais variados lados, opiniões, piadas, enfim, facebook funcionando a toda. No momento, decidi ajudar como posso, nessa mudança incrível que está ocorrendo, que ainda não entendi direito qual é e o que pretende. Mas, como dizia minha mãe, dando uma de Cassandra (sim aquela que avisou os troianos que o cavalo era uma furada, ninguém acreditou nela, e o resultado todo mundo sabe), estou trazendo 5 experimentos em psicologia social que demonstram de forma muito clara que nós humanos, em grupo, temos uma certa tendência a fazer besteira. Séria, horrenda besteira.

Para os que já acharam que estou criticando as manifestações, muito, mas muitíssimo antes pelo contrário. Acredito firmemente que a única maneira de nos fortalecermos, como indivíduos e como grupo, é conhecendo nosso lado escuro e domando-o, porque ele está lá, prontinho para dar as caras, principalmente quando não estamos prestando atenção, ou como disse JFK: “O preço da paz é a eterna vigilância”.

1 - Conformidade/Conformismo – Os experimentos de Asch (1953)

Durante os anos 50 (século passado, meu povo), Solomon Asch conduziu e publicou uma série de experimentos demonstrando o grau no qual as opiniões de um indivíduo são influenciadas pelas do grupo. Estudantes universitários do sexo masculino participaram de uma simples tarefa "perceptual". Na realidade, todos, exceto um dos participantes eram atores, e o verdadeiro foco do estudo era sobre como o aluno restante (ou seja, o participante real) reagiria ao comportamento dos atores, os quais foram treinados para dar certas respostas previamente selecionadas. Foi feita cuidadosa construção experimental, colocando quantidade variável de pressão dos pares sobre o indivíduo.
Foi pedido a cada participante para responder uma série de perguntas, tipo, num gráfico qual era a linha mais comprida. No início, os atores começaram a responder corretamente, para não levantar suspeitas, mas aos poucos, foram adicionando respostas incorretas.
O estudo, que foi repetido “ad nauseam” com diferentes sujeitos, demonstrou que, quando cercados de pessoas dando respostas incorretas, pelo menos 75% dos estudados deram respostas incorretas após certo tempo, ou seja, pressão dos pares causa conformidade, fazendo com que as pessoas não acreditem na evidência que estão vendo com os próprios olhos.
O experimento todo foi feito com figuras geométricas, de formas que estas são universalmente conhecidas, isto é um circulo é um circulo aqui ou na China, de maneira a não haver introdução de variáveis de interpretação, coisa que muito acontece com palavras. Exemplo: No Brasil, pessoas condenadas pelo tribunal exercem cargos públicos. Você acha isso: Certo Errado

2. Ajudar – O experimento do Bom Samaritano (1973)

Os psicólogos John Darley e C. Daniel Batson queriam descobrir se religião tinha algum efeito no comportamento atencioso, aquele que oferece e dá ajuda.
Só recordando, o Bom Samaritano é uma história da Bíblia, na qual um Samaritano para e ajuda um homem ferido, enquanto hipócritas presunçosos passam direto, sem nem olhar (bom, sem nem olhar é interpretação minha, assim como “hipócritas presunçosos”, de cuja tradução mais ao pé da letra seria “beato fingido”, que tem muito menos tempero).
Os pesquisadores tinham 3 hipóteses:
a) Pessoas que se pensam religiosas teriam o mesmo comportamento de oferecer ajuda quanto os que não se pensavam assim.
b) Pessoas com pressa teriam menos probabilidade de oferecer ajuda que os sem pressa.
c) Pessoas que são religiosas por causa daquilo que a religião pode lhes oferecer, provavelmente dariam menos ajuda do que aqueles que são religiosos ou espirituais só porque gostam ou porque estão procurando algum sentido na vida.
Isto posto, recrutaram estudantes de seminários para um estudo sobre educação religiosa e fizeram questionários a respeito das religiões dos recrutados (para avaliar a hipótese c). Depois, começaram os procedimentos experimentais em um prédio e disseram aos pesquisados que teriam que ir a outro prédio para continuarem o experimento. No caminho, as criaturas encontraram um homem caído num beco (a condição da vítima era desconhecida: estará machucado ou bêbado?).
Os pesquisadores deram instruções diferentes quanto ao nível de urgência da chegada no outro prédio e quanto às tarefas a serem desempenhadas em lá chegando. Uma das tarefas foi a de preparar uma palestra a respeito de empregos no seminário, e outra, uma palestra a respeito do Bom Samaritano. Para alguns, disseram que já estavam atrasados, enquanto outros foram informados que chegariam a tempo se fossem rapidinho.
A “vítima” que os aguardava no beco, tinha que dar umas tossidas quando passassem (exatamente 2), e fizeram a seguinte graduação para a ajuda prestada:
0 = Não percebeu as necessidades da “vítima”
1 = Percebeu, mas não prestou ajuda
2 = Não parou, mas ajudou indiretamente (informou às pessoas que o esperavam no outro prédio)
3 = Parou e perguntou se a vítima precisava de ajuda
4 = Parou e levou a vítima até o prédio, deixando-a aos cuidados dos lá estacionados
5 = Recusou-se a deixar a vítima ou insistiu em levá-la até onde pudesse receber cuidados.
Depois da chegada dos estudantes no segundo prédio, cada um desempenhou a palestra que lhe havia sido pedida, após o que, responderam um questionário a respeito de “comportamento de auxílio”.
Descobriram que a quantidade de “pressa” colocada no sujeito influiu muito no comportamento de auxílio, enquanto o tema da palestra (trabalho no seminário e/ou bom samaritano) não influiu nada.
O que acharam, foi o seguinte:
No geral, 40% ofereceram algum tipo de ajuda à vítima; os em situação de pouca pressa, 63% ajudaram, pressa media 45% e muita pressa só 10%.
A conclusão foi que não há qualquer correlação entre prestar ajuda e religiosidade, sendo a única correlação a pressa que o indivíduo sente, mesmo quando o cidadão está apressado para palestrar sobre a parábola do Bom Samaritano. Parece então que a velha frase “A ética se torna um luxo na medida em que a velocidade de nossas vidas diárias aumenta” é fato, ou como disse Juca Chaves: “quem tem pressa come cru”, o que nem sempre é uma boa ideia, mesmo para os que, como eu, amam carpaccio.
Acho que isso se relaciona perfeitamente bem com o que está acontecendo no Egito, onde apressadamente elegeram um presidente, que no momento parece ter sido deposto, Deus sabe onde está e tem gente morrendo e matando nas ruas. Decididamente, péssima ideia.

3. Difusão de Responsabilidade - Experiência da Apatia do Observador (1968).

O efeito observador foi primeiramente demonstrado em laboratório por John Darley e Bibb Latané, depois que os dois se interessaram muito pela morte de Kitty Genovese, em 1964, e lançaram uma série de experimentos que resultaram num dos mais fortes e replicáveis efeitos em psicologia social.
No experimento padrão, o sujeito está sozinho ou em grupo com outros participantes. Aí é encenada uma situação de emergência, e os pesquisadores medem quanto tempo demora para os espectadores agirem, e se eles interveem ou não na situação. Esses experimentos demonstraram que, costumeiramente, a presença de outras pessoas inibe o ajudar.
Em 1969, Bill Bibb Latané e Judith Rodin encenaram o experimento com uma mulher em perigo: 70% das pessoas, quando sozinhas, foram ajudar a vítima, mas quando havia outras pessoas ao redor, só 40% foi prestar ajuda.
É o principio de “com tanta gente lá, certamente não precisam de mim”, que é o que, no geral, faz com que a vítima não receba qualquer ajuda, ou no caso presente dos movimentos e manifestações que estamos discutindo, eles morram antes de concluírem o objetivo desejado.

4. A Experiência da Prisão de Stanford (1971)

Este foi um estudo sobre os efeitos psicológicos de se tornar prisioneiro ou guarda de presídio, feito na Universidade de Stanford, sendo o mesmo chefiado pelo professor de psicologia Dr. Philip Zimbardo.
Dele participaram 24 estudantes do sexo masculino, aos quais foi aleatoriamente designado o papel de guarda ou prisioneiro, numa prisão fictícia no porão do prédio da psicologia, e os participantes se adaptaram a seus papéis muito além das expectativas do Dr. Zimbardo, posto que os “guardas” começaram a impor medidas cada vez mais autoritárias e, finalmente, submeteram alguns dos prisioneiros à tortura psicológica.
Muitos dos prisioneiros aceitaram passivamente o abuso psicológico e, a pedido dos guardas, imediatamente assediavam outros prisioneiros que tentavam impedir o abuso. O experimento afetou o próprio Dr. Zimbardo, que, em seu papel de supervisor, permitiu que o abuso continuasse. Dois dos prisioneiros abandonaram o experimento logo no início, e a pesquisa toda foi fechada 6 dias depois de começar.
Os resultados demonstraram a impressionabilidade e obediência das pessoas quando dispõem de uma ideologia que consideram legítima e a mesma tem apoio social e institucional. Tem sido usado desde então para ilustrar a teoria da dissonância cognitiva e o poder da assim chamada “autoridade”.
O triste fato é que o estudo demonstra que é a “situação” e não a personalidade do indivíduo que causa o comportamento.
Concorda, de modo científico, com o livro “As flores do Mal” de Baudelaire, livro que causou um peri cruzado de minha mãe, quando o pai dela, meu avô , me deu para ler e discutir com ele, lá pelos meus 16 inocentes aninhos, e é retomado lindamente por um estudo de um psiquiatra Chileno, comentando os anos e os fatos da era Pinochet no Chile. O estudo chama-se “La futilidad del mal”, e o nome do psiquiatra esqueci totalmente, pois li na era AG (antes do Google) e por mais que “google”, não acho, pelo que peço encarecidamente se alguém conhecer, tiver ou souber o nome do autor, por favor me informe.
O fato, triste demais, é que qualquer um de nós pode passar para o “lado escuro da força” só por estar numa situação que possibilite esse uso. Nem preciso dar exemplos, temos estampados em todo lugar gente de decência ilibada, virando ladrões de dinheiro público. Lembro da frase de Bill Clinton, em seu ultimo livro, quando lhe foi perguntado o porquê do caso com a Monica, e ele respondeu: “Porque podia”.

5. Autoridade - O Experimento de Milgram (1961)

Experiências em obediência a figuras de autoridade numa série de experimentos de psicologia social realizados na Yale University, pelo psicólogo Stanley Milgram, que medem a disposição dos participantes do estudo em obedecer a uma figura de autoridade que os mandou praticar atos que conflitavam com a consciência pessoal .
Este experimento começou em Julho de 1961, 3 meses depois do inicio do julgamento de Adolf Eichmann (nazista criminoso de guerra) em Jerusalém, devido à pergunta que Milgram propôs:
Será que Eichmann e seus cúmplices no Holocausto tiveram intenção mútua, pelo menos no que diz respeito aos objetivos do Holocausto?”, ou em outras palavras: “Será que havia um senso de moralidade entre os envolvidos no Holocausto?
E certo e seguro como dois e dois são quatro, as conclusões demonstraram que os milhões de cúmplices do horror, o foram apenas por seguir ordens, apesar destas violarem as mais profundas convicções morais individuais.
Esses experimentos têm sido repetidos inúmeras vezes, com resultados constantes em diferentes sociedades.
Os participantes deste experimento foram 40 homens, recrutados via anuncio de jornal e aos quais foi pago US$ 4,50.
Funcionou assim: O Milgram montou um enorme aparelho que, teoricamente produzia choques, começando com 30 volts e aumentando em 15 volts até chegar em 450. Os interruptores eram etiquetados com “choque leve”, “choque moderado” e “perigo, choque severo”. Os dois últimos tinha marcado apenas “XXX”.
Cada um dos 40 homens assumiu o papel de “professor”, que dava o choque num aluno todas as vezes que o mesmo desse uma resposta incorreta. Os “professores” pensavam que o choque era real, enquanto os alunos eram atores que tinham que representar o estar tomando um choque.
Na medida em que o experimento progredia, os “professores” ouviram os “alunos” pedir para serem liberados ou se queixarem de terem problemas cardíacos, e quando foi alcançado o nível de 300 volts, os “alunos” começaram as esmurrar as paredes e pedirem para ser liberados. Depois disso, recusaram-se a responder às perguntas. Aí os pesquisadores instruíram os “professores” a considerar o silencio como resposta errada e dar mais choque.
Muitos dos “professores” perguntaram ao pesquisador se não seria melhor encerrar o experimento, quando então o pesquisador deu uma série de comandos para incitar os “professores”.
“Por favor, continue”
“O experimento requer que você continue”
“É absolutamente essencial que você continue”
“Você não tem escolha e precisa continuar”
Como medida de obediência, foi usado o nível do choque que o “professor” estava disposto a dar.
Chocados deveríamos ficar todos nós ao saber que 65% dos tais professores deram o choque máximo. É importante saber que, embora a maioria dos “professores” tenha ficado extremamente agitada e raivosa em relação ao pesquisador, continuaram a seguir as ordens sem falhar, até o fim.

Então, a grande pergunta a ser feita e respondida por cada um de nós, honestamente, é a seguinte: “Será que somos capazes de, nas mesmas condições, agir diferentemente dos sujeitos do estudo?”
Gostaria muito de quem lesse esse artigo, me mandasse respostas a essa pergunta, quer no blog ou na página do FB. Manda anônimo, não estou interessada em nomes, só idade e gênero.

Catherine Susan "Kitty" Genovese
(7/7/193 - 13/03/1964). Foi esfaqueada até a morte, perto de sua casa. As circunstâncias de seu assassinato e a falta de reação dos vários vizinhos que assistiram a cena foi o que deu origem à pesquisa do que é chamado de “Fenômeno da Apatia do Observador” ou “Difusão de Responsabilidade”.

Otto Adolf Eichmann (19/03/1906 – 31/05 1962) Tenente coronel da SS Alemã e um dos maiores organizadores do Holocausto. Organizado que era, foi encarregado de toda logística do manejo da deportação em massa dos judeus, tanto para os guetos quanto para os campos de extermínio. Depois da queda de Berlin, fugiu para a Argentina, onde viveu e trabalhou até 1960, quando foi encontrado por agentes do Mossad e deportado para Israel, onde foi julgado, culpado e enforcado.

Teoria da Dissonância Cognitiva: É o desconforto sentido quando há, ao mesmo tempo, 2 ou mais cognições conflitantes, sejam elas ideias, crenças ou reações emocionais. O termo foi cunhado por Leon Festinger, em seu livro “When Prophecy Fails” (1956 – Quando as Profecias Falham), onde descreve o que acontece com um grupo de crentes em OVNI quando a realidade bate de frente com as ferventes crenças das criaturas no apocalipse já. No ano seguinte, publicou o livro “A Theory of Cognitive Dissonance” (A teoria da dissonância cognitiva), que continua sendo a mais estudada e influencial teoria da psicologia social.

Se algo ficou obscuro, espero esclarecer no próximo post, quando falaremos de percepção e relatividade, ou como os fatos são divorciados de nossa percepção dos mesmos.

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