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quinta-feira, 20 de junho de 2013

O QUE NOS FAZ FELIZES? FREUD ESTAVA CERTO

E, ao contrário do supracitado, que morreu se perguntando “O que querem as mulheres?”, os pesquisadores de Harvard foram à luta num estudo que durou mais de 70 anos, iniciado em 1938, chamado de Estudo de Grant, e que é o mais longo estudo longitudinal sobre desenvolvimento humano.
Nele, foram seguidos 268 estudantes de Harvard (só do sexo masculino), nos quais foi medida uma assombrosa quantidade de características psicológicas, físicas e antropológicas, de tipos de personalidade a QI, de hábitos a respeito de ingestão de álcool a relacionamentos familiares, e até o tamanho dos escrotos dos meninos, numa tentativa de determinar quais são os fatores que mais contribuem para o desenvolvimento e prosperidade dos seres humanos.

George Vaillant, a interessantíssima criatura que dirigiu o estudo por mais de 30 anos, publicou “Triumphs of Experience” (Triunfo da Experiência – tradução minha, posto que não achei tradução do livro para o português), que é a somatória das ideias que o estudo produziu, entre as quais “O Alcoolismo é um distúrbio de grande poder destrutivo”.
O alcoolismo foi a causa principal de divórcio entre os participantes do estudo; esteve fortemente correlacionado com neuroses e depressões (as quais tendem a seguir o abuso de álcool e não precedê-lo, como se pensou por muito tempo), e que, junto com o habito de fumar, foi o maior contribuinte para morbidade e morte precoce.

Acima de certo limite, inteligência não faz qualquer diferença. Não houve diferença significativa na renda dos que tinham QI na faixa 110-115 e nos que tinham mais de 150,e, embora liberais (o que meu pai chamava de esquerdinhas, eu incluída) façam mais sexo que os conservadores de direita, a ideologia política não tem qualquer importância no nível de satisfação com a vida. E me perdoem os puritanos, mas esse pedaço da estatística me fez rir às lágrimas, isto é, pelo visto, quanto mais de direita, mais cedo para de fazer sexo, em geral por volta dos 65 anos, enquanto nosotros esquerdinhas pelo jeito vamos felizes até mais ou menos 85.

O Dr. Vaillant, como bom pesquisador que é, inquiriu urologistas e sexólogos a respeito do assunto, e ninguém sabe explicar, mas o que ele tem certeza, posto que está pesquisando isso desde 1960, é que há uma fortíssima correlação entre a qualidade de nossos relacionamentos e nossa saúde e felicidade na velhice.

E como estatísticas não mentem (quem pode mentir é quem as interpreta, mas os números são números), olhem só isso:
Os 58 que tiveram mais pontos nas medidas de “relacionamentos afetuosos”, ganhavam em media US$141.000 por ano (durante os anos que ganharam o máximo, tinham em geral entre 55 e 60 anos), mais do que os 31 que tiveram os pontos mais baixos, além de ter atingido tamanho sucesso profissional, que lhes garantiu a entrada no seleto clube de “Quem é Quem” na profissão escolhida.

E agora, as cinzas de Freud rodopiam de alegria: o estudo demonstrou que “o aconchego/bem estar/conforto/amparo que foi vivenciado na relação com mamãe, é de fundamental importância vida afora”.

E deixando mamãe Amália e seu dourado menino Sig a se cumprimentarem, especificamente o que apareceu no estudo foi:

Homens que tiveram relacionamentos afetuosos com suas mães durante a infância ganharam em media US$87.000 a mais por ano do que aqueles cujas mães foram indiferentes e/ou negligentes e/ou superprotetoras.
Homens, cujas relações infantis com suas mães foram deficientes, foram muito mais propensos a desenvolver demência quando velhos. (Dá-lhe Winnicott)
Homens que tiveram boas relações infantis com a mãe, mas não com o pai, acabaram por se tornar muito eficiente em suas profissões, só que já numa idade mais madura.
Por outro lado, os que tiveram relacionamentos afetuosos com o pai, na infância, tiveram muito pouca ansiedade na idade adulta, curtem férias muito mais do que todo mundo, e acham que se tornaram mais felizes depois dos 75 anos, enquanto que o relacionamento afetivo com a mãe não tem qualquer relação com felicidade na mesma idade.

E como Vaillant diz: “Os 75 anos e 20 milhões de dólares gastos no estudo Grant apontam para uma conclusão de 5 palavras: Felicidade é amor ponto final.”


Então, por todas as descobertas colaterais do estudo, que citarei em outra ocasião, a grande conclusão é que a coisa mais importante na vida são nossas conexões sociais. Não é o quanto somos inteligentes, brilhantes, nosso status social, nossa medida de “sucesso” para consumpção social. Se não tivemos essas conexões primárias, sempre há as colaterais, irmãos, tios, avós, mentores, professores e o que todo mundo já sabia, amigos, os maravilhosos amigos.

Aliás, o estudo demonstrou que dos homens felizes e contentes aos 65 anos, 93% deles haviam sido muito ligados a um irmão ou irmã na infância, e esse é um laço que simplesmente permanece gravado (Obrigadão, Juquinha).

Querem saber qual a pior coisa para a saúde física? Depressão. Dos homens diagnosticados com depressão aos 50 anos, mais de 70% morreu ou estava cronicamente doente aos 63.

Pessimistas tendem a sofrer mais fisicamente, do que otimistas, e a teorização a respeito é que isso se dá, provavelmente, porque os pessimistas são menos dados a se conectar com outros seres humanos e/ou cuidar de si mesmos.

E seguindo nessa linha, na medida em que as teorias Freudianas foram deslocadas para dar espaço ao crescimento da Psiquiatria Biológica e da Psicologia Cognitiva (coisa que achei e acho totalmente desnecessária, primeiro porque há espaço para tudo, dado que o ser humano não pode ser definido por estatísticas, e segundo porque não se ganha nada eliminando conhecimentos), o trabalho de Vailant correu o risco de se tornar obsoleto, quando, no final dos anos 90, uma coisa chamada de Psicologia Positiva, movimento que criou e continua criando enorme quantidade de relatos científicos a respeito do que é uma vida bem vivida, que era a ideia inicial do estudo Grant, deu novo alento à coisa toda e Vailant se tornou uma espécie de padrinho da mensagem dessa linha psicológica, que é o fato que a psicologia pode melhorar vidas e não só tratar doenças.

Mas, fiel a si mesmo, não ia ficar só no “gosto da ideia”, não senhor, tinha que meter seu dedinho inquisitivo na historia toda, e destarte, ano passado, em outubro, numa palestra aos estudantes do mestrado de psicologia positiva (droga que perdi essa, pois ainda não tinha começado), iniciou com o seguinte:
“Todos os livros a respeito de felicidade dizem: Tente a felicidade. Vais gostar dela muito mais do que se sentir miserável, o que é perfeitamente verdadeiro, mas então, por que é que atravessamos para o outro lado da rua para evitar alguém que nos fez um elogio no dia anterior?”

Porque emoções positivas nos tornam mais vulneráveis que as negativas, dado que são orientadas para o futuro, enquanto as negativas têm retorno imediato, nos protegendo de ataques e captando recursos em momentos de angústia.

Gratidão e alegria vão nos trazer melhor saúde e conexões mais profundas a longo prazo, mas a curto prazo nos colocam em risco, e isso porque as emoções negativas tendem a ser isolantes, enquanto as positivas nos expõe aos elementos comuns de rejeição e coração partido.


Então meninas e meninos, adultos e terceiro idadosos (o termo mais cretino, prefiro velho mesmo) do Brasil que estão indo às ruas com essa esperança toda, saibam que estarão vulneráveis, não somente à rejeição dos pessimistas isolados em suas poltronas de cima de seus saberes tacanhos, dos que têm medo de mudanças, dos que preferem “deixar como está para ver como é que fica”, mas também de coisas concretíssimas, como bombas de gás lacrimogêneo e balas, de borracha ou não.

E é essa vulnerabilidade que os irmana e os faz invencíveis.

Per aspera ad astra

Triumphs of Experience: The Men of the Harvard Grant Study, George E. Vaillant

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