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quarta-feira, 15 de maio de 2013

MOTIVAÇÃO OU AQUELA COISA QUE SEMPRE SOME QUANDO MAIS NECESSÁRIA



Por definição, é o processo que inicia, dirige e mantém comportamentos voltados a metas. É o que nos faz agir, desde tirando o posterior do sofá para ir buscar um copo de água no intervalo da novela, até estudar por anos a fio para se formar em medicina. E, só no exemplo acima, já aparecem problemas, como, o que é que nos faz valorizar uma coisa ao invés da outra? De onde vem essa valorização?

Na primeira parte, isto é, ir buscar um copo de água para matar a sede, é simples, relacionado diretamente com sobrevivência do indivíduo. Já 3 anos de colégio, mais 6 de faculdade, mais uns 4 de residência, absolutamente não está diretamente relacionado à sobrevivência primária, e, mesmo assim, todo o tempo, em todo o mundo, tem alguns que escolhem esse caminho, ou sei lá eu quantos anos para um PhD em física experimental, ou seja lá qual for a meta a longo prazo.

A neurociência da motivação humana tem sérias implicações em quase todas as áreas, de filosofia a autoajuda, de ética a economia, de psicologia a matemática, de aprendizado a repetição de padrões sem pensamento subjacente, e, até uns 15 anos atrás, o conceito era usadíssimo em todos os cursos dados em empresas para liderança ou motivação de empregados, mas bem pouco estudado em neurologia.

Os estudos pioneiros de Schultz, em 1998, com o sistema de recompensa dos neurônios do mesencéfalo, neurônios esses formadores de dopamina, abriu o campo para o estudo do comportamento motivado para obtenção de recompensa e o evitar consequências negativas. Tudo bem e tudo certo com animais de laboratório, bebês e adictos de todas as espécies, que ainda estão usando mecanismos primários para obtenção de prazer, e funciona assim:

Há um percurso no cérebro, que é chamado de circuito de recompensa. É assim chamado porque foi estudado e observado (é o que em ciência se chama evidência) que, quando se implanta um eletrodo num rato nessa área e se mostra ao mesmo que, se apertar uma certa alavanca ele vai se injetar com cocaína ou heroína, o ratinho fica apertando a citada alavanca até morrer de exaustão, recusando a apertar as alavancas que lhe dariam água e alimentos. Essa habilidade de se treinar de forma rapidíssima em comportamentos autoestimulantes sugeriu que essas áreas do cérebro estariam envolvidas no aprendizado de recompensa.
Veja o diagrama do circuito de recompensa:



Também era sabido que, se provocarmos lesões no circuito de recompensa dos ratos, removia-se o comportamento de busca de recompensa e prevenia-se a adição/dependência de drogas no animal, e até aí, tudo bem. O problema era: acontece o mesmo com humanos? Não se sabia nem se podia experimentar, até que o seguinte caso clínico foi relatado no American Journal of Psychiatry (Revista Americana de Psiquiatria):

"Paciente masculino, 34 anos, com longa história de uso de drogas é levado ao PS depois de ter se comportado de maneira muito estranha numa festa. Carrega consigo uma grande quantidade de comprimidos de metadona (opiáceo parecido com heroína), os quais começa a ingerir para evitar detecção dos mesmos, e faz uma overdose."

Aqui se faz necessária uma explicação: No cérebro há áreas chamadas de "mananciais”, que são as regiões onde as bordas de duas artérias se sobrepõem e onde há mais sangue, e é muito comum, em overdoses, acontecer um acidente vascular cerebral, hemorrágico ou isquêmico (popular derrame) nessas regiões. Acontece que uma área do circuito de recompensa vista acima, chamada de Globo Pálido, é exatamente uma dessas áreas, e o paciente que estamos descrevendo teve um derrame bilateral exatamente ali. Veja a Imagem de Ressonância Magnética mostrando:



E agora vem a parte interessantíssima: quando o cidadão volta a si, ele aparece com algo chamado Anedônia, que é a incapacidade de sentir alegria ou prazer, e é um dos sintomas da depressão. Além disso, perdeu sua dependência a drogas. Totalmente. "Depois da já citada overdose, o paciente tornou-se agudamente deprimido: anedônia, baixa energia, dificuldade de concentração e de memória, sentimentos de desespero e culpa, baixa autoestima, isolamento social, aumento do sono, e ganho de 20 Kg no ano seguinte ao derrame" (o que, em minha opinião causou o uso de drogas, que mascarou o quadro). Também desapareceram por completo as "fissuras" pelas drogas, todas, incluindo álcool, e ficou totalmente abstinente, como demonstrado por testes de urina mensais. E assim ficou provado que o sistema de recompensa, em nós humanos, funciona igualzinho ao dos ratos.

Agora calma, que não estou propondo que se façam ablações de globo pálido para curar dependentes, mas proponho sim o ensino às crianças da possibilidade de escolha entre se comportar como um rato com eletrodos implantados ou como seres humanos capazes de escolha, mas esse é um assunto para vários outros blogs. Aqui só usamos o exemplo para descrever o sistema de recompensa em humanos.

Então, motivação básica funciona por recompensa/castigo no circuito acima mostrado, e esse circuito por sua vez depende de Memória e de Aprendizado.

Como já vimos em posts anteriores, nosso cérebro é extremamente plástico, aliás, é o único órgão de nosso corpo que se modifica pela experiência. O lado escuro é que o danado é também muito preguiçoso, tendo a tendência a ficar usando ad infinitum os mesmos circuitos, se não for treinado desde cedo a fazer novas conexões. Funciona mais ou menos como uma pessoa andando em círculos, preocupada, olhando para o círculo sem ver saída, esperando um resultado diferente, fazendo as coisas iguais (o que Einstein chamou de insanidade).



Neuroanatômica e funcionalmente, a(s) memória(s), o aprendizado e os sistemas de atenção interagem com a motivação para determinar o comportamento, e, embora em geral sejam vistos como entidades separadas, na realidade são interdependentes e definem os 3 componentes da motivação que são: ATIVAÇÃO, PERSISTÊNCIA E INTENSIDADE.

ATIVAÇÃO: É a decisão de iniciar um comportamento, como, por exemplo, fazer a inscrição para o vestibular ou sair para comprar drogas.

PERSISTÊNCIA: É o esforço contínuo em direção à meta, apesar dos obstáculos. Continuando com o exemplo anterior, no caso do vestibular os obstáculos seriam o número de outros candidatos e passar muitas horas estudando, enquanto o resto do mundo está se divertindo. No caso das drogas, os obstáculos seriam a chance de ser pego pela polícia, só por falar em um.

INTENSIDADE: É a concentração e vigor colocados na busca da meta. Só observem um vestibulando estudando e um adicto buscando sua droga e entenderão no ato o tamanho da concentração e vigor de ambos.

Teorias da motivação há aos montes, então vamos relatar apenas as mais conhecidas, começando com sempre citado Platão, o qual em seu livro "A República", define sua ideia tripartida de ALMA, a qual consistiria de RAZÃO, ESPIRITO e APETITES, sendo que os últimos determinam basicamente o que Razão e Espírito vão fazer. Macchiavelli não poderia faltar com sua ideia de que o que motiva os seres humanos, acima e além de qualquer outra coisa, é dinheiro, poder e status, e se prestarmos atenção nas noticias mundo afora, fica difícil refutar o velho toscano.

Mais modernamente, veio a teoria motivacional dos instintos, isto é, que já chegamos a esse mundo com alguma programação nessa área, e o exemplo usado é o das aves, que, em chegando determinada estação do ano, migram sem ninguém ter ensinado. Já Freud estipulou que a maioria de nossas motivações é inconsciente, e tenho cá comigo que quando ele falou da "inveja do pênis", não estava falando exatamente do órgão, mas do poder que a este vinha associado, desde que, na época, mulheres eram complemento do masculino. E isso é tão verdadeiro que, aqui nos USA, no estado da Geórgia, mulheres só começaram a poder ter suas contas bancárias autonomamente, sem associação com pai ou marido, no finzinho dos anos 60 (sim, 1960).

E finalmente, a teoria Racional da Motivação, que postula que, em sendo os humanos entes racionais, seu comportamento e motivação para o mesmo é sempre racional. Informo que essa teoria está mais do que minada pela própria observação do comportamento humano, embora continue sendo usada, principalmente em economia, com os conceitos de "homos economicus" e "perfeita racionalidade" (vide definição no glossário).

Psicologicamente falando, a Motivação pode ser Intrínseca e/ou Extrínseca.

É INTRÍNSECA quando impulsionada por um interesse ou prazer na tarefa em si, em vez de depender de pressões externas ou um desejo de recompensa. Pessoas intrinsecamente motivadas são mais propensas a se envolver na tarefa de bom grado, bem como trabalhar para melhorar suas habilidades, o que irá aumentar as suas capacidades. Somos intrinsecamente motivados se e quando:

Atribuímos nossos resultados a fatores que estão sob nosso controle, o que é também chamado de AUTONOMIA.

Acreditamos ter as habilidades necessárias para alcançar nossos objetivos, o que é chamado de CRENÇA DE AUTOEFICÁCIA.

Estamos interessados em dominar um assunto ou tarefa e não apenas em tirar boas notas ou o pagamento no fim do mês.

É EXTRÍNSECA quando fazemos algo para alcançar um resultado, e vem do exterior do indivíduo. Motivações extrínsecas comuns são recompensas (por exemplo, dinheiro ou notas na escola). Pode ser também para mostrar o comportamento desejado, e ganhar um elogio ou para evitar punição (um exemplo típico é parar no farol vermelho - não paramos porque achamos que é a coisa certa a fazer, mas para evitar uma multa ou uma trombada. Aliás, a grande maioria de nosso comportamento social é derivada de motivação extrínseca, à qual chamamos de educação, e sobre o que Freud escreveu um livro inteiro, chamado de "O mal estar na civilização"). A competição é um motivador extrínseco, pois incentiva a pessoa a vencer e vencer os outros, não simplesmente para desfrutar as recompensas intrínsecas da atividade. Uma multidão torcendo e o desejo de ganhar um troféu também são incentivos extrínsecos.

Para entender bem o conceito, é só pensar em dois jogos: tênis e frescobol. No primeiro, faz-se de tudo para levar o oponente a cometer erros. Ganha quem fizer menos erros. Já no frescobol, a farra é não ter oponente, e faz-se de tudo para que o outro não erre. Já não me recordo quem foi o autor que escreveu um texto belíssimo com esses dois jogos e casamento, dizendo que, enquanto um casamento deveria ser como um jogo de frescobol, a maioria deles acabava num embate de tênis.

Infelizmente, a grande parte da pesquisa em motivação tem sido feita no campo da economia e negócios, posto que foi descoberto que empregados motivados são mais produtivos e consequentemente trazem mais lucros, que é exatamente o motivador maior de nossa sociedade. Certo ou errado, é o que é, e como a grande maioria das pessoas tem trabalhos só pela sobrevivência, o grande motor continua sendo o dinheiro, ou o status social decorrente do mesmo, o que nos remete à teoria maquiavélica da motivação.

Mas, como sou otimista, e tenho seguido de perto as tendências dessa geração novíssima que está agora na faixa de vinte e poucos anos, essa tendência parece estar mudando, devagar, com os mais novos procurando trabalhos nos quais tenham a possibilidade de desfrutar recompensas intrínsecas da atividade em si.

O que quero dizer com tudo isso é que, excluindo problemas genéticos e/ou lesões de qualquer espécie, nossos circuitos cerebrais para isto ou aquilo, são exatamente os mesmos, e o que faz toda a diferença é como os usamos. Vou trazer como exemplo, uma pesquisa recentíssima, a respeito de como se desenvolve a individualidade. Cientistas em Dresden, Berlin, Münster e Saarbrücken se colocaram a seguinte questão:

COMO É QUE OS ORGANISMOS EVOLUEM PARA INDIVÍDUOS QUE SE DISTINGUEM DOS OUTROS POR SUA PRÓPRIA ESTRUTURA CEREBRAL E COMPORTAMENTO PESSOAL?

Pois foram à luta, usando ratos, e concluíram que: EXPERIÊNCIAS PESSOAIS INFLUENCIAM O DESENVOLVIMENTO DE NOVOS NEURÔNIOS, LEVANDO A MODIFICAÇÕES MENSURÁVEIS NO CÉREBRO.

Então agora não é mais só teoria que o cérebro se modifica com a experiência. É fato. E casa lindamente com o outro fato básico da neurologia que diz: SOMOS O QUE FAZEMOS REPETIDAMENTE, e se isso não é uma enorme e grandiosa esperança de possibilidades, não sei o que possa ser.

Assim, me despeço felicíssima de estar viva e ter a oportunidade única de ver essas maravilhas todas acontecendo.

Caso queiram ler toda a experiência acima, que resumi no osso, está na revista SCIENCE, de Maio deste ano, e os pesquisadores são: Gerd Kempermann, Professor de Genômica da Regeneração (CRTD); Prof. Ulman Lindenberger, Diretor do Centro para Psicologia da Vida no Instituto Max Planck para desenvolvimento Humano (MPIB); Bióloga Julia Freund (CRTD) e Dr. Andreas Brandmaier, cientista de computação (MPIB).

GLOSSÁRIO

Homo Economicus: É o conceito de muitas teorias econômicas onde os seres humanos têm interesses racionais e a capacidade de fazer julgamentos em relação a seus fins subjetivamente definidos. Usando essas avaliações racionais, homo economicus tenta maximizar a utilidade como um consumidor e lucro econômico como produtor. Esta teoria está em contraste com o conceito de homo reciprocans, que afirma que os seres humanos são essencialmente motivados pelo desejo de serem cooperativos e para melhorar o seu ambiente.

Perfeita Racionalidade: Em economia e na teoria dos jogos, os participantes são considerados como tendo racionalidade perfeita, isto é, sempre agirão de maneira a maximizar sua utilidade, sendo capazes das mais complexas deduções para esse fim. São capazes de pensar em todos os resultados possíveis e escolher qual curso de ação resultará no melhor resultado possível. Notar que a Racionalidade Econômica e a Teoria dos Jogos são explicações completamente individualistas e são a base do Capitalismo, que nos faz acreditar que os donos do capital fazem suas escolhas em cima de cuidadosamente pensadas possibilidades, e não apenas em nome de seu lucro pessoal. (Informo que a última parte é pensamento meu, pois não acredito em nenhum momento nessa racionalidade, concordando muito com Machiavelli em sua teoria da motivação)

BIBLIOGRAFIA

Cognitive Neuroscience of Motivation


Experience Leads to the growth of New Brain Cells

In search of the Neural Circuits of Intrinsic Motivation

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