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terça-feira, 16 de abril de 2013

REPENSANDO

Segunda feira, levando sobrinha ao Aeroporto de Salvador, calor de matar, parada na Lagoa do Abaeté. As dunas e brancura em volta da lagoa escura, que com tanta lindeza me lembrava, não estão mais lá. Sensação que me roubaram mais uma memória. Estamos voltando para o carro, estou pensando que detesto o termo "Felicidade Autêntica", tanto quanto detesto o termo "Psicossomática", e que coisa mais interessante é essa vida, que, na mesma medida que detesto os termos, amo a prática dos mesmos.

E surge à nossa frente uma senhora, bem entrada em seus 80, vestida de saída de praia cor de bata de bispo, cabelinho branco feito as dunas que não estão mais lá, a cantar "ó abre alas, que eu quero passar", feliz como cavalo selvagem.
Assim, do nada, simplesmente porque estava a fim. E continuo meio para baixo, porque perdi as dunas, porque adorei a companhia de minha sobrinha e queria que continuasse, porque estou cansada mesmo, porque tem mil e um pensamentos desencontrados em minha cabeça, meio assim como as ilusões óticas de asfalto quente.

E penso na mágica da Bahia, que não entendo, mas me encanta, desde que li Jorge Amado pela primeira vez: "Capitães de Areia". Essa capacidade baiana única do sincretismo religioso, da vivência de crenças incompatíveis em termos de cânones e dogmas, e perfeitamente integradas na vida do dia a dia.

Essa fábrica de cantores, compositores, artistas, que parecem brotar do mar baiano. A impressão de que todo mundo aqui é .conhecido ou não, nem por isso menos importante.

E na suprema ironia de ter vindo dar esse mini curso de psicologia positiva logo aqui.

E resolvo ler o último livro do Seligman, que ainda não tinha lido, descobrindo, para meu deleite e prazer, que ele também não gosta do nome que acabou sendo ligado a sua pesquisa, por motivos de venda de livros, e não porque fora escolhido como princípio.
Nas palavras do próprio (tradução livre da que vos fala): "Quando escrevi ‘Authentic happiness’ (Felicidade Autêntica), queria ter dado outro nome, mas o editor achou que ‘felicidade’ no título ia vender mais livros, vai daí que me vi tachado pela palavra. Também detesto a palavra "autentico/a", parente próximo do excessivamente usado ‘self’, num mundo de super inchados ‘Eu´s’. O problema básico com o título e com ‘felicidade’ não é somente porque pouco explica o que escolhemos, mas também porque o ouvido moderno, ao ouvir ‘feliz’, imediatamente escuta ‘alegre’, ‘divertido’, 'bom humor’, ‘risonho’. Tão irritante quanto o acima, tudo também ficou ligado à carinha sorridente, sempre que alguém fala, escreve ou pensa em Psicologia Positiva (confesso que cometi o despautério nos slides do curso, mas honestamente fiquei sem saber o que colocar e foi a mais simples das soluções, e, logo no começo, quando vi o primeiro slide estampadão na parede, me lembrei de Mencken e sua famosa frase: ‘Para cada problema complexo, há uma resposta clara, simples e completamente errada’. Pronto, certamente lá estava, não somente cometida, mas enorme, para todos verem). Historicamente, ‘felicidade’ não está tão intimamente relacionada a sentimentos edonistas tais como ‘divertido’ e ‘jovial e folgazão’, termos nos quais Thomas Jefferson não pensou quando declarou que temos o direito de buscá-la, e certamente nada tem a ver com minha ideia a respeito de psicologia positiva."
"Psicologia Positiva, como a entendo, é a respeito do que escolhemos. Escolhi ter uma massagenzinha no pescoço no aeroporto, simplesmente porque aquilo me fez sentir bem. Escolhi para meu próprio benefício e não porque ia dar mais significado à minha vida ou por qualquer outra razão. Muitas vezes escolhemos o que nos faz sentir bem, só por essa razão, mas é extremamente importante perceber que nossas escolhas não podem ser feitas somente em cima de como nos fazem sentir. Escolhi assistir o excruciante recital de piano de minha filha de 6 anos, não porque me fez sentir bem, mas porque é parte de meus deveres como pai e portanto, parte do que dá sentido à minha vida''.


Então, muito obrigada à Bahia por ter me acolhido e relevado as soluções facilitadas e erradas, mas principalmente por ter me ajudado a definir não só o que quero, pelo fato de querer e gostar, mas o que realmente dá significado à minha vida, neste momento de entrada, no que já fui chamada ao desembarcar: IDOSA. Tão logo superei o choque, me dei conta que, no Brasil, já tenho idade pra me aposentar, o que define a “idosice”, mas tenho também a memória de várias "idosas" que aqui conheci, com o entusiasmo, força de vida e poesia, impossíveis de serem alcançados pelos jovens eternos, tão preocupados com a imagem, de per si narcísica, da beleza eterna.

Então muito obrigada D. Arlete pelo seu scrapbook tão cheio de vida, obrigada à senhora da Lagoa e seu cantar, à moça da loja no aeroporto que declarou que minha cunhada na Inglaterra certamente haveria de ter um pescoço, à Lu pelas suas "lambrusquetas" e as amigas dela que me acolheram como se fosse a velha tia conhecida e me proporcionaram, as 3, não só uma noitada inesquecível, como também uma visão renovada dos "jovens de hoje", nos quais incluo minha xará e seu namorado. Que juventude mais bonita! À Márcia e toda sua família, pelo carinho impagável, às Pinas, que além de serem nome de macarronada de frutos do mar, são as 3 Marias de fé, esperança e acolhimento. À cunhada em Taubaté pela acolhida e pelo feijão do qual terei saudades eternas. Ao sobrinho, pela formatura e por ser quem é. À Grace, por ser o que é, e pelo ser, nas palavras de Lu "para tudo na vida há a Grace". À Marilza e Julio, meus amigos desde colégio, os quais quero ser quando crescer. Serginho, Lídia, Kiko, Miriam, Isa, e com certeza vou esquecer um montão de nomes de minha vida passada, mas que estão tão presentes hoje, e por todos aqueles amigos virtuais que provavelmente não terei a possibilidade de conhecer pessoalmente. E pronto, quase que esqueço meu irmão, que me deve 100 reais pela aposta que sei que ganhei, e que me fez recordar porque é bom e é um desafio o ter um irmão.
E agora, antes de me tornar lacrimejante, e já pedindo desculpas pelos que não foram citados devido à certa estultice no campo da memória... ciao.



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