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segunda-feira, 22 de abril de 2013

O que é Neurociência

Cumprindo a promessa que fiz aos que estiveram no Curso de Psicologia Positiva, esta é a primeira parte de uma série de 3. Aqui veremos um resumo de como se desenvolveu a neurociência e quais são seus componentes. Parte 2 será o que são e como funcionam as emoções e parte 3 algumas das aplicações das neurociências em medicina, educação e psicologia.

Neurociência ou Ciência neural é o estudo de como o sistema nervoso se desenvolve, sua estrutura e o que é que ele faz.

Neurocientistas estudam o cérebro e como este comanda o comportamento e as funções cognitivas, tanto em seu funcionamento normal, quanto em seus distúrbios neurológicos, psiquiátricos e de desenvolvimento.
Costumeiramente, é usado no plural, neurociências. Tradicionalmente classificada como subdivisão da biologia, atualmente é vista como ciência interdisciplinar, estreitamente ligada a outras disciplinas tais como matemática, linguística, engenharia, ciências da computação, química, filosofia, psicologia e medicina.
Muitos pesquisadores acham que neurociência é a mesma coisa que neurobiologia, mas neurobiologia é a biologia do sistema nervoso, enquanto que neurociência se refere a qualquer coisa que tenha a ver com o sistema nervoso, pois estuda os aspectos celulares, funcionais, evolucionários, computacionais, moleculares e médicos do mesmo.

De acordo com o Medilexicon (dicionário médico), neurociências são “As disciplinas científicas relacionadas ao desenvolvimento, estrutura, função, química, farmacologia, avaliações clínicas e patologia do Sistema Nervoso”.

Ao que se sabe, os mais antigos escritos sobre o cérebro datam de 1700 AC no Papiro Cirúrgico de Edwin Smith, onde a palavra "cérebro" é mencionada 8 vezes, e descrevem os sintomas, diagnóstico e resultados de duas pessoas que tiveram fraturas compostas no crânio. Edwin Smith (1822- 1906) era um antiquário e colecionador americano que deu nome a este papiro.

Lá pelo ano 500 AC, várias visões do cérebro começam a emergir na Grécia Antiga.

Alcmaeon escreveu que cérebro é o lugar onde está a mente, tendo sido provavelmente a primeira pessoa na história que escreveu isso.

Em seguida vem bom velho Hipócrates, dizendo que o cérebro é o locus da inteligência.

Aristóteles deu um de seus raros chutes fora, dizendo que o cérebro era um mecanismo de refrescamento do sangue, sendo o coração o centro da inteligência. Dizia que os humanos se comportavam mais racionalmente que os outros animais porque nossos grandes cérebros esfriavam o sangue quente, prevenindo assim atos de "sangue quente” ou irracionais.

Galeno de Pergamon, anatomista grego que trabalhava em Roma, disse que o cérebro era onde se processavam os sentidos, posto que era fofinho, enquanto o cerebelo controlava os músculos, posto que bem mais denso que o resto do cérebro.

Com a chegada do microscópio (o qual se acredita ter sido inventado na Holanda, lá por 1590), aconteceu um mais profundo entendimento do cérebro.

Camilo Golgi (1843-1926), médico, patologista e cientista italiano, usou o cromato de prata para mostrar como se parece um neurônio.

Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), patologista, histologista e neurocientista espanhol, levou em frente os trabalhos de Golgi e desenvolveu a "doutrina neuronal", isto é, a hipótese que coloca o neurônio como a unidade funcional do cérebro. Em 1906, ambos ganharam o Nobel de Medicina e Fisiologia pelo trabalho conjunto de categorização dos neurônios.

Lá pelo final do séc.19, Hermann von Hemholtz (1821-1894), médico e físico alemão (faltava ser chinês com um nome desses!), Hohannes Peter Müller (1801-1858), fisiologista, anatomista comparativo, ictologista e herpetólogo, também alemão, e Emil du Bois-Reymond (1818-1896), médico e fisiologista idem, idem, demonstraram não só a excitabilidade elétrica dos neurônios, mas também como o estado elétrico dos neurônios adjacentes era afetado.

Ao mesmo tempo, Pierre Paul Broca (1824-1880), médico, cirurgião, anatomista e antropólogo francês, trabalhou com pacientes com danos cerebrais, concluindo que diferentes regiões do cérebro tinham diferentes e específicas funções.

John Hughlings Jackson (1835-1911), neurologista inglês, através da observação de pacientes com epilepsia, descobriu como o córtex motor era organizado por seguir a progressão das convulsões pelo corpo do paciente.

Carl Wernicke (1848-1905), psiquiatra, anatomista e neuropatologista alemão (vocês hão de notar que os alemães eram bons nisso), descreveu as partes do cérebro responsáveis pela fala e compreensão da linguagem.

De 1950 em diante, o estudo científico do sistema nervoso avançou em passos gigantes, principalmente pelo progresso em outras áreas como ciências da computação, eletrofisiologia e biologia molecular.

Atualmente, os ramos da neurociência podem ser categorizados nas seguintes áreas (neurocientistas usualmente trabalham em várias áreas ao mesmo tempo):

Neurociências Afetivas: Como os neurônios se comportam em relação às emoções. Ciência de laboratório.

Neurociências Comportamentais: É o estudo das bases biológicas do comportamento, ou de como o cérebro afeta o comportamento.

Neurociência celular: É o estudo dos neurônios, incluindo sua forma e propriedades fisiológicas a nível celular.

Neurociência Clínica: Estuda os distúrbios do sistema nervoso (neurologia) e os distúrbios da mente (psiquiatria)

Neurociência Cognitiva: Estuda as funções cognitivas superiores que existem nos humanos e suas bases neuronais. Ligada à linguística, todas as outras neurociências, psicologia e ciências cognitivas. Os neurocientistas cognitivos podem tomar duas direções: comportamental/ experimental ou modelagem computacional - em ambos os casos, é o estudo da natureza da cognição a partir do ponto de vista neural.

Neurociência computacional: Procura entender como o cérebro computa a informação, através do uso de computadores para estimular e modelar as funções cerebrais, através do uso de técnicas matemáticas e físicas.

Neurociências Culturais: Estuda como crenças, práticas e valores culturais são tanto moldados, quanto moldam o cérebro, mentes e genes durante diferentes períodos.

Neurociências do desenvolvimento: Estuda como o sistema nervoso se desenvolve sob o ponto de vista celular e quais são os mecanismos de base desse desenvolvimento.

Neurociência Molecular: É o estudo do papel desempenhado por moléculas individuais no SN

Neuroengenharia: É o uso de técnicas de engenharia para melhor entender, repor, consertar ou melhorar sistemas neurais.

Neuroimagem: Braço das imagens médicas que se concentra no cérebro e SN. É usada para diagnosticar doenças ou definir saúde do cérebro. Também muito usada no estudo do cérebro, como funciona e que atividades o afetam.

Neuroinformática: integra a informação de todas as áreas das neurociências, para entender o cérebro e tratar suas doenças. Inclui o adquirir, guardar, compartilhar e publicar informações, análise, modelagem e simulações.

Neurolinguística: É o estudo de que mecanismos cerebrais controlam a aquisição, compreensão e expressão oral da linguagem.

Neurofisiologia: É o estudo das relações entre o cérebro e suas funções, a soma das partes do corpo e como elas se interelacionam. Basicamente, é o estudo de como funciona o SN usando técnicas fisiológicas, tais como estimulação por eletrodos, canais de sensibilidade à luz ou íons ou tinturas voltagem-sensitivas.

Paleoneurologia: É o estudo do cérebro através de fosseis

Neurociências Sociais: É o estudo interdisciplinar dedicado ao entendimento de como sistemas biológicos implementam os processos comportamentais e sociais. Usam conceitos e métodos biológicos para informar e refinar teorias de comportamento social, ao mesmo tempo em que usa conceitos sociais e comportamentais para refinar teorias de função e organização neurais.

Neurociência de Sistemas: Segue os caminhos do fluxo de informações no SNC e procura definir os tipos de processos que ocorrem, usando essa informação para explicar funções comportamentais.

Abaixo, veremos algumas imagens explicativas dos conceitos relatados. Termino dizendo que uma das muitas coisas que aprendi com neuro, foi a precariedade de nossas certezas. O que hoje é certeza, amanhã irá fazer parte da historia do desenvolvimento das neurociências, e este é um conceito não só altamente liberador, no sentido que permite o desenvolvimento, como também uma aula de humildade, coisa que nunca entendi pela explicação das freiras, e só fui entender depois de muitos anos na prática.


neurônio visto pelo microscópio pela técnica de Golgi -(Golgi neuron:Colorado College neuroanatomy and Histology)


neurônio visto por técnicas de neuroimagem (Faculty washington Edu


hieróglifo da palavra "cérebro" no papiro de Edwin Smith (New York Academy of Medicine)


Médicos examinando o cérebro do lider revolucionário Leon Trotsky em 1940 (Joe McNally/Getty Images)


Cirurgia estereotáxica para implantação de eletrodos de estimulação profunda (Joe mcNally/Getty Images)





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