Google+ Badge

sexta-feira, 15 de março de 2013

OS BENEFÍCIOS DO OTIMISMO SÃO REAIS

Traduzi uma mèlange de artigos, cujos originais se encontram no final. Minhas opiniões e ideias vão entre parênteses, a não ser a última linha, que encerra a obra. Deu trabalho, mas também muita diversão e boas memórias, além de uma vontade de gritar, ao invés de "Habemus papa", que sempre me recorda aquela propaganda antiga "Habemus chester", "Habemus possibilidades", e essa é uma das grandes maravilhas da vida.

Uma das cenas mais memoráveis do filme "Silver Linings Playbook" – O Lado Bom da Vida, no Brasil (a tradução de filmes, principalmente os títulos continua um mistério para mim) - gira em torno do livro "Adeus às Armas", do Ernest Hemingway, livro este que não tem um final feliz, de jeito nenhum.

Patrizio Solitano Jr. (Bradley Cooper) volta para casa depois de oito meses no hospital psiquiátrico, onde esteve em tratamento para transtorno bipolar, devido a quase ter matado de pancada o amante de sua esposa. Vive com seus pais, pois perdeu esposa, trabalho e casa. Mesmo assim, tenta juntar os pedaços de sua vida: exercita-se, mantém um estilo de vida otimista, e tenta melhorar sua mente, lendo os romances que sua ex-esposa Nikki, uma professora de Inglês, atribui a seus alunos. Meu xará assume um lema pessoal: excelsior, palavra em latim que significa mais ou menos "sempre para cima". Diz a seu terapeuta: “Detesto minha doença e quero controlá-la. Acredito no seguinte: Tenho que fazer tudo o que for possível para permanecer positivo e poder ter a chance de uma vida melhor". É por isso que o romance de Hemingway é tão chocante para ele. Quando chega às paginas finais e descobre o fim triste e mórbido, fecha o danado e o joga numa janela na casa de seus pais, continuando em correria para o quarto dos mesmos dizendo: "Todo esse tempo que se fica torcendo para esse cara, esse Hemingway, para que sobreviva à guerra, depois de ser ferido, e ele sobrevive e foge para a Suíça com a Catherine, e você pensa que termina aí? Não! Ela morre, pai! Gente, o mundo já é tão duro. Será que alguém poderia dizer, ‘Hey, vamos ser positivos’? ‘Vamos dar um fim feliz à história’?"

Outro filme nomeado para o Oscar, “A Vida de Pi”, emprega dispositivo semelhante. Pi encontra-se num bote salva-vidas com um feroz tigre de Bengala, depois do naufrágio que mata toda a sua família. Perdido no oceano pacífico por 227 dias, faminto, desesperado e forçado a um jogo de sobrevivência com o tigre, Pi vai em frente, mesmo tendo, tal qual Patrizio, perdido absolutamente tudo, dizendo: "Devem pensar que perdi toda a esperança nesse ponto. E perdi mesmo. Como resultado, animei-me e me senti muito melhor".
A resiliência de Pi é incrível quando se percebe o que acontece a bordo do bote salva-vidas e como ele lida com a tragédia. A história é muito mais que um garoto e um tigre. Embora o que tenha acontecido seja terrível, Pi decide contar a história de outro jeito. Suas comparações com o que realmente aconteceu são bonitas e não sombrias, transcendentes e não niilistas.
E pergunta no final: "Qual a história que você prefere?".

E essa pergunta é importantíssima quando se procura descobrir o que e quem sobrevive, e se desenvolve após um trauma e quem vai ser destruído, pergunta essa com a qual cinema, livros, peças de teatro, psicólogos e psiquiatras têm se debatido por anos.
Pense na última vez que sofreu uma perda, um revés, ou dificuldades grandes. Reagiu extravasando, ruminando e remoendo a decepção, ou olhou para um sinal de significado através de toda a escuridão?
A rapidez com que se recuperou - quão resiliente é você?

Richard Brody, o crítico do "The New Yorker's", criticou “O Lado Bom da Vida” por seu sentimentalismo e visão da doença mental baseada em fé e redenção emocional. A. O. Scott, do New York Times, fez o mesmo com “A vida de Pi”, dizendo: "O romancista e Pi estão ansiosos para reprimir as implicações mais escuras da história, como se a presença de crueldade e morte sem sentido sejam demasiado para poderem ser lidadas... Insistir na benevolência do universo da maneira que Pi faz, é mais o resultado de ilusão ou engano do que de devoção sincera."

Mas as criticas passam longe dos significados, primeiro porque não entendem porque esses dois filmes estranhos e idiossincráticos, ambos baseados em livros, ressoaram em tantos milhões de pessoas. Seus temas de resiliência falam direto a todos nós, e por uma boa razão. O aspecto chave de cada filme é baseado num crescente corpo de pesquisa científica, que Brody e Scott ignoraram, isto é, que emoções positivas podem desfazer os efeitos desastrosos de uma experiência negativamente estressante.

Longe de ser delirante ou baseada na fé, ter uma perspectiva positiva em circunstâncias difíceis é, não só um importante preditor de resiliência, mas seu mais importante indicador.

Pessoas resilientes tendem a ser mais positivas e otimistas, pois conseguem regular suas emoções de forma eficaz e, por conseguinte, manter o otimismo através das piores circunstâncias. (Isso me lembra minha tia avó, um de meus modelos de vida, a qual, após ter caído do telhado com 80 anos, onde tinha subido para arrumar a antena da TV, que não a deixava assistir sua novelinha preferida, e ter tomado 17 pontos no cocoruto, passou a usar o acontecido para esfregar na cara de quem tivesse a audácia de dizer-lhe que ela precisava tomar tento devido à idade, que o fato só provava o tamanho da saúde que ela tinha a sorte de possuir, idade ou não. Isso depois de sobreviver a 3 cânceres).

E foi exatamente o que o Dr. Dennis Charney, diretor da Faculdade de Medicina do Mount Sinai encontrou quando examinou cerca de 750 veteranos da guerra do Vietnam, que tinham sido mantidos como prisioneiros por períodos entre 6 a 8 anos. Embora tivessem sido torturados e colocados em confinamento solitário, esses 750 homens eram impressionantemente resilientes. Ao contrário de muitos outros veteranos, não tiveram Depressão ou Transtorno do Stress Pós Traumático depois que foram liberados, embora tivessem passado por estresse extremo. Qual era seu segredo? Depois de entrevistas e testes extensivos, o Dr. Charney concluiu que a coisa mais importante era o otimismo, seguido por altruísmo, bom humor e o ter um sentido na vida, isto é, ter algo pelo qual viver.

Por muitos anos, os psicólogos acharam que as pessoas tinham que expressar sua raiva e ansiedade, o famoso "botar para fora", para poder ser feliz. E agora, descobre-se que isso está simplesmente errado. (E essa é mais uma das coisas que adoro nas neurociências: se nada, aprendi sobre a temporariedade de nossas certezas). Por exemplo, quando pesquisadores pediram a pessoas leve ou moderadamente deprimidas para que pensassem sobre sua depressão por oito minutos, descobriram que isso os tornava muito mais deprimidos e assim ficavam por período bem mais longo do que aqueles que simplesmente se distraiam pensando ou fazendo outras coisas.

O sofrimento sem sentido - aquele que não tem uma fresta de esperança - causa mais depressão. (Forma um círculo sem fim, como uma cobra comendo o próprio rabo).

Outro estudo do mesmo autor, descobriu que o enfrentar a adversidade por ventilação, tipo bater num saco de pancadas ou ser vingativo contra alguém que nos enraivece, na verdade nos faz sentir muito pior, e não melhor, como se pensava antes. Pior, descobriram ainda que o não fazer nada na hora da raiva é mais eficaz do que expressá-la de forma destrutiva.

Agora, a melhor coisa é canalizar a depressão, raiva, seja lá qual for o sentimento negativo, para uma meta positiva, como Pat e Pi fizeram (na opinião da alegreta aqui, deve ter sido também pela letra P de seus nomes).

James Pennebaker, psicólogo e pesquisador da Universidade do Texas, em Austin, descobriu que pessoas que encontram sentido na adversidade são mais saudáveis a longo prazo do que aquelas que não o fazem, através de uma pesquisa na qual pediu às pessoas para escrever, durante 15 minutos por dia, 4 dias seguidos, a respeito de sua pior e mais traumática experiência de vida.
Ao analisar os escritos, percebeu que as pessoas que mais se beneficiaram foram aquelas que tentaram achar algum significado no trauma. Elas investigaram causas e consequências da adversidade e, como resultado, tornaram-se mais sábias e menos amargas a respeito da coisa. Um ano depois, suas fichas médicas demonstraram que os "criadores de sentido" foram muito menos vezes ao hospital ou ao médico do que o grupo de controle, aqueles que escreveram sobre acontecimentos não traumáticos. Por outro lado, os que usaram o exercício para "botar para fora" sua raiva e amargura, não tiveram qualquer resultado benéfico em termos de saúde. Mais interessante ainda foi a descoberta de que para as pessoas (outro grupo) às quais foi pedido que exprimissem seus sentimentos através de música ou dança, também não mostraram nenhum benefício em termos de saúde.

Havia, obviamente, algo único e especial a respeito das histórias que as pessoas contam a si mesmas, essas histórias que ajudam seus contadores a encontrar uma saída ou salvação nas adversidades. (Tenho uma relação muito próxima com histórias, posto que cresci numa família de "historiadores orais" como os chamo, desde meu avô materno, que se sentava comigo na varanda me mostrando as constelações no céu, aproveitando para contar o pedaço de mitologia grega ligado à citada constelação, o que provavelmente criou minha imortal paixão pela mitologia, tendo levado um tempão até eu descobrir que não havia qualquer possibilidade de ter visto todas aquelas constelações no céu do Brasil, até as histórias de guerra de meu pai, que roubava sal dos alemães para levar de presente à mãe de sua namorada, e durante todo o período que vovó esteve viva, foi a mais bonita relação sogra-genro que vi na vida).

Barbara Fredrickson, psicóloga e pesquisadora da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, estudou a relação entre o ser positivo e resiliência. Para começo de conversa, o ter um humor positivo faz com que as pessoas sejam mais resistentes fisicamente. Num dos estudos, as pessoas foram ligadas a um aparelho para medir sua atividade cardíaca, e assim que a atividade cardíaca de base havia sido registrada, lhes foi dada uma tarefa estressante: a de fazer um pequeno discurso sobre o porquê eles eram bons amigos. Foram informados que o discurso seria gravado e avaliado.

A frequência cardíaca aumentou rapidinho, as artérias se contraíram e a pressão subiu.

Daí foi mostrado aos participantes um vídeo que, ou evocava emoções negativas (tipo tristeza), ou positivas (tipo alegria), ou neutras. Também foram informados de que, se "por acaso" lhe fosse mostrado um vídeo, não teriam que fazer o discurso. Esperava-se que, na medida em que o vídeo começasse, a ansiedade teria que diminuir.

E lá vem a coisa interessante: a frequência cardíaca dos que assistiram os vídeos positivos voltou ao normal muito mais rapidamente do que a daqueles aos quais foram mostrados vídeos negativos ou neutros.

Assim, os pesquisadores concluíram que emoções positivas desfazem os efeitos de uma experiência negativa e estressante.
Um dos maiores achados dos estudos de Fredrickson foi que os resilientes tiveram uma atitude diferente frente à possibilidade de fazer o discurso, isto é, encararam a tarefa como um desafio e uma oportunidade de crescimento, ao invés de uma ameaça. Em outras palavras, eles encontraram a "silver lining" (janela de oportunidade).

Com todo o acima em mente, os pesquisadores começaram a pensar se seria possível infundir alguma positividade em pessoas não resilientes, para torná-las mais resilientes. Eles prepararam ambos os tipos de pessoas para abordar a tarefa positiva ou negativamente, dizendo a alguns que era um desafio e a outros que era uma ameaça, e aqui vão os interessantíssimos resultados: os resilientes que foram informados que a tarefa era um desafio, se saíram muito bem, como previsto, mas os resilientes aos quais foi dito que era uma ameaça, também se saíram muito bem. Conclusão: pessoas resilientes, não importa se o problema for uma ameaça ou um desafio, têm exatamente a mesma taxa de recuperação cardiovascular.

Já para os não resilientes, aos quais foi dito que a tarefa era um desafio e uma oportunidade, tiveram suas taxas de recuperação muito semelhantes aos resilientes.Para os não resilientes aos quais foi dito que era uma ameaça, a taxa de recuperação foi extremamente lenta.

Pessoas resilientes se recuperam depressa, porque são emocionalmente complexas.

Em todos os estudos de Fredrickson, as pessoas resilientes experimentaram os mesmos níveis de frustração e ansiedade dos outros participantes, e seus picos fisiológicos e emocionais foram tão altos quanto os dos outros, e isso é muito importante porque mostra que pessoas resilientes não são Pollyanas que se iludem com coisas positivas. Eles apenas "soltam" a negatividade, se preocupam menos, e mudam o foco de sua atenção para coisas mais positivas mais rapidamente, respondendo à adversidade com vasta gama de emoções.

Isso foi demonstrado num outro dos estudos de Fredrickson, no qual foi pedido aos participantes para escreverem um pequeno ensaio a respeito do problema mais importante que estivessem experimentando em suas vidas. Os resilientes mostraram a mesma quantidade de ansiedade do que os outros, mas, ao contrário dos demais, também demonstraram mais alegria, interesse e entusiasmo em relação ao problema. Para eles, altos graus de emoções negativas coexistem com a mesma intensidade das positivas.

Pense em como Pi responde à situação aparentemente sem solução, a bordo do barco: "Eu lhe digo, se você estivesse em situação tão precária como eu, você também poderia elevar seus pensamentos. Quanto pior for sua situação, mais alto sua mente vai querer voar".

E quando sua mente começa a subir e voar, mais e mais coisas positivas será capaz de perceber. Isso desencadeia uma espiral ascendente de emoções positivas que abre as pessoas para novas formas de pensar e ver o mundo - para novos caminhos. E essa é mais uma razão pela qual pessoas positivas são resilientes: porque enxergam oportunidades onde os outros não enxergam nada.

A negatividade, por razões puramente adaptativas, nos coloca em modalidade de defesa, estreita nosso campo visual e corta fora qualquer nova possibilidade, posto que esta é vista como risco, o que lembra uma das melhores cenas de “O Lado Bom da Vida”, na qual uma situação ruim quase destrói o Pat. Ele está num jantar com a Tiffany (Jennifer Lawrence), quando escuta a canção "Ma Cherie Amour" tocando dentro de sua cabeça, que é a música que estava tocando quando ele encontrou sua agora ex-esposa pelada no chuveiro com seu amante, e tem um flashback traumático.
Tiffany o ajuda a superar o episódio dizendo: "Você pretende passar o resto de sua vida apavorado por uma música? É só uma música, não faça dela um monstro, e falando nisso, não tem nada tocando, nada. Respire, conte dez de trás para frente...pronto, é isso”.

Ele se recupera e sua interação estabelece a base para o resto do filme.

Estes dois filmes são a respeito de como podemos domar nossos demônios interiores com esperança e uma visão positiva da vida, e domar nossos próprios demônios é tarefa para os fortes, o que me lembra a música de Dom Quixote cantada pela boa Bethânia: Sonhar mais um sonho

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Agora, se quiserem ler uma crítica muitissimo bem feita aos filmes, siga os seguintes links:

 http://www.cinepipocacult.com.br/2013/02/o-lado-bom-da-vida.html

http://www.cinepipocacult.com.br/2012/12/as-aventuras-de-pi.html

Parabéns Amanda. Neste momento tenho a mais absoluta certeza que sua mãe, seja lá onde estiver, está de peito estufado apontando o dedinho dela na sua direção e andando em roda feito pavão orgulhoso. Juro que consigo vê-la perfeitamente.

Dennis Charney: Neuroplasticity and Your Resilient Brain
Neuroplasticity
Otimism-Benefits

1 comentários:

Postar um comentário