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segunda-feira, 4 de março de 2013

E A ESPERANÇA FOI PARA O LABORATÓRIO!

Desde os gregos, que largaram a esperança escondida dentro da caixa de Pandora, depois que o tontão do Epimeteu abriu a dita cuja, soltando no mundo todas as desgraças, a pobre tem sido usada por cada político prometente, invocada na famosa frase "...é a última que morre", agarrada por qualquer um que já tenha estado adoentado, usada e abusada em todas as religiões e seitas, parte da maioria das letras de músicas "dor de cotovelo", perseguida por todos, conquistada por alguns.

Finalmente, essa elusiva sensação foi parar no laboratório para, obviamente, ser dissecada, e se saber o que é, como funciona, em quem funciona e porque funciona assim em alguns, assado em outros. Aconteceu assim:

Seligman deu uma palestra em Oxford sobre a "Teoria do Desamparo Apreendido", que é quando os estímulos desagradáveis são aleatórios e, não importa o que se faça, eles continuam. O organismo então tende a "desistir de tentar" e simplesmente se adapta para sentir o menor desconforto possível. Pois bem, assistindo a palestra, estava John Teasdale, que disse ao palestrante que tudo bem, tudo certo, mas como explicar aquela minoria de organismos, os quais, não importa o que, não desistem e continuam tentando? Bingo! Volta ele para a Penn U com a sensação de que tudo o que estudara e pesquisara estava errado, mas ao invés de desistir, recrutou Lyn Abramson e Judy Garber, para rever as bases da teoria, começando pelas teorias do Weiner, que por sua vez havia criticado a teoria que fez o Skinner famoso, dizendo que a teoria do Skinner era ótima para ratos de laboratório, mas não funcionava em gente, pela simples razão que nós, humanos, não só reagimos a estímulos, mas também nos contamos historinhas do porquê algo está ocorrendo. Assim, dependendo da historinha que nos contamos, continuamos tentando ou desistimos. Sua teoria explicava que, nós humanos não só reagimos ao "esquema de reforço", mas também aos nossos estados mentais internos.

Daí, Seligman, seguindo a teoria de Weiner, iniciou com Teasdale um trabalho a respeito de como "desamparo" e "depressão" deveriam ser tratados, a partir de mudanças na forma como as pessoas se explicam os acontecimentos da vida, e com a Lyn, iniciou o mesmo trabalho, só que na direção oposta, isto é, como os "estilos explanatórios" causavam desamparo e depressão. Finalmente, juntaram tudo num estudo só, no qual colocaram mais uma variável na teoria de Weiner, que dizia que nas explicações que nos damos, há apenas duas variáveis: Permanência e Personalização. A nova foi chamada Penetração.

Fazendo um enorme resumo, o Seligman recebeu o prêmio da Associação de Psicologia Americana, em 1976, pela Teoria do Desamparo Apreendido, e a Lyn Abramson, em 1982, pela reformulação da mesma teoria. E vamos ao que interessa. Quem são aqueles que nunca desistem, tipo minha cachorrinha quando quer um biscoito?

São aqueles que têm um "sistema explanatório" no qual se dizem que, uma coisa ruim não é para sempre, vai passar eventualmente, e, no fundo, tem muito mais coisa na vida do que um evento ruim. É um habito de pensamento aprendido durante infância e adolescência, e que deriva diretamente de como nos vemos no mundo, isto é, se achamos que merecemos o que conquistamos ou se somos inúteis e sem esperança.

Usualmente, os que se sentem merecedores são aqueles que, desde cedo, aprenderam a importância de uma coisa bem feita, que tiveram recompensas mensuráveis com suas conquistas, e o oposto são aqueles que nunca souberam o que esperar de seus atos, ou receberam tudo sem ter que fazer nenhum esforço, ou nunca receberam nenhuma recompensa, não importando o tamanho do esforço.

Nesse ponto, a teoria do desamparo apreendido combina demais com a teoria da "mãe suficientemente boa" do Winnicott, e, não se preocupem, que no fim há um glossariozinho com mini explicação de todas as teorias aqui citadas.

Mas este é o momento da noticia boa, isto é, mesmo que você seja um desesperançado total, isto só significa que aprendeu a ser assim, e se foi capaz de aprender uma coisa, é perfeitamente capaz de aprender outra e melhor, e aqui podemos começar:

Há 3 dimensões cruciais para nosso "sistema explanatório":

1 - PERMANÊNCIA = tempo

Os que desistem facilmente acreditam que as causas de eventos ruins estão presentes para sempre. Tudo o que é ruim persistirá para toda a eternidade. Os que resistem ao desamparo são os que acreditam que tudo é temporário, e isso me lembra minha madrinha que costumava repetir: "Não há bem que sempre dure ou mal que nunca se acabe".

Exemplo:

Estilo Permanente (Pessimista)

"Dietas nunca funcionam"

"Os homens são todos iguais!"

Estilo Temporário (Otimista)

"É difícil fazer dieta no Texas" (E orgulhosamente informo que já perdi quase todos os quilos que lá ganhei)

"O escolha ruim que fiz!"


Quem pensa em termos de SEMPRE ou NUNCA tem estilo PERMANENTE e PESSIMISTA.

Quem pensa em termos de ÀS VÊZES, ESCOLHAS, ULTIMAMENTE, ou seja, palavras que definem temporariedade e não eternidade, o estilo é TEMPORÁRIO E OTIMISTA.

Já, para a explicação de eventos bons, é justamente o oposto.

Estilo Temporário (Pessimista): "Deu certo porque me matei de trabalhar"

Estilo Permanente (Otimista): "Sou sortuda. Sempre trabalhei no que gosto"


2 - PENETRAÇÃO: Específico X Universal = espaço

Pessoas que têm explicações UNIVERSAIS desistem de tudo quando um problema atinge uma área de suas vidas. Os que são ESPECÍFICOS podem se tornar desamparados numa área de suas vidas, mas continuam funcionando bem nas outras.

Universal (Pessimista)

"Todos os professores são chatos"

"Todos os homens são uns porcos chauvinistas"

Específico (Otimista)

"A minha professora é uma chata"

Meu quase ex-marido é um chauvinista"

Mas o exemplo mais claro é um que costumamos ver todos os dias. Pensemos em João e Maria, que trabalham na mesma coisa e na mesma empresa. Ambos são despedidos. João deixa de fazer a barba, fica de pijama até meio dia, recusa-se a conversar com esposa e filhos, sente-se o maior perdedor falido de todo universo. Maria fica chateada, mas tem que continuar a levar as crianças para a escola, cuidar da casa, fazer supermercado, se queixar da injustiça com todas as amigas, cabeleireiro e quem mais quiser escutar, continua indo à academia porque não ia perder a chance de contar o acontecido ao povo de lá. Em suma, continua funcionando, e não é à toa que todos os estudos demonstram que nós mulheres (em média) vivemos 4 a 5 anos mais do que os homens; embora tenhamos muito mais diagnóstico de depressão do que homens (3 vezes mais), também é fato que procuramos ajuda; e há 3 vezes mais suicídios entre homens do que em mulheres.

Para os eventos bons, é o oposto:

Específico (Pessimista)

"Só sou bom com números"

"Com a sorte que tenho, essa bolota é câncer"

Universal (Otimista)

"Sou bom no que faço"

"Com certeza essa bolota é gordura, mas vou ao médico"

Pessoas que se dão explicações permanentes e universais a respeito de seus problemas, tendem a desmoronar sob pressão, e, desmoronados ficam por longo tempo e em todas as áreas.

3 - PERSONALIZAÇÃO: Interno X Externo

Quando coisas ruins acontecem, podemos culpar a nós mesmos (internalização) ou a outros / circunstâncias externas (externalização). Essa é uma medida muito, mas muito complicada, porque, em teoria, quando nos culpamos pelas coisas, nos sentimos horríveis e nossa autoestima baixa. Pelo contrário, quando culpamos outros ou circunstâncias, ela sobe. Então, de novo e teoricamente, pessoas que internalizam coisas ruins, são pessimistas, e as que externalizam são otimistas.
De todas as variáveis aqui citadas, esta é a mais facilmente superestimada, exagerada e simplesmente falsificada, e se não me acreditam, deem uma olhada, qualquer dia e qualquer hora, no Facebook. Ainda bem que é também a menos importante, porque simplesmente mede como uma pessoa se sente a respeito dela mesma, enquanto as outras duas, Permanência e Penetração, determinam o que se faz a respeito das coisas, como se faz e por quanto tempo.

Então, apesar da grande importância de desaprendermos a deixar de ser pessimistas e desamparados, e aprendermos a ser otimistas, é importante saber que ser otimista absolutamente não implica em ser irresponsável e culpar o mundo pelas bobagens que todos, sem exceção, fazemos na vida. Já tem besteira demais acontecendo neste mundo por causa da má interpretação de uma coisa chamada autoestima, com erosão de responsabilidade pessoal. Muitos atos de pura e simples maldade são classificados como "insanidade", falta de educação como assertividade, e falta de responsabilidade para com a família ou o local onde se vive como liberdade. Não serei eu a bater nessa tecla.

Quero que as pessoas possam melhorar, e rápido, de coisas como depressão e pessimismo? Claro que sim! Então, como boa e velha médica que sou, quero sim que reconquistemos a esperança guardada na caixa de Pandora. O primeiro passo é ser realista, reconhecer que ela está lá e estar disposto a fazer os esforços necessários para consegui-la, não adiantando para isso achar que sim, mereço (alta autoestima), não fui eu quem a colocou lá (externalização, fato), quero que caia no meu colo, portanto fico sem fazer nada, criticando a malvada da Pandora e o cretino do Epimeteu (danei-me, não vou conseguir mesmo).

Como conseguir, vai ser uma outra história que fica para outra vez.

GLOSSARIO:

B.F.Skinner: (Burrhus Frederic - com um nome desses ou ia ser gênio ou ia ser doido, e às vezes não sei bem a diferença), psicólogo, autor, inventor e filósofo social. Foi professor de Psicologia em Harvard, desde 1958 até sua aposentadoria, em 1974. Inventou a câmara de condicionamento operante, também conhecida como a caixa de Skinner. Inovou em cima de sua própria filosofia da ciência, que chamou behaviorismo radical, e fundou a própria escola de pesquisa experimental em psicologia (a análise experimental do comportamento). Publicou 21 livros e 180 artigos.

Bernard Weiner: Psicólogo social que desenvolveu a "Teoria da Atribuição", a qual explica os vínculos emocionais e motivacionais, causas e consequências do sucesso e fracasso escolares. Publicou 15 livros no campo da psicologia da motivação e emoção. (Aconselho a ler o livro dele "An Attributional Theory of Motivation and Emotion ", no qual explica como, através da educação, podemos modificar a psicodinâmica das salas de aula).

Donald Woods Winnicott: Pediatra e psicanalista inglês foi especialmente influente na teoria das relações objetais. Muito conhecido por suas ideias sobre "Verdadeiro e Falso Eu" e o Objeto de Transição, mas minha preferência e total admiração vai pela descrição do que ele chamou de "mãe suficientemente boa", que é aquela que está à disposição do bebê, mas também sabe quando deve dar espaço e independência para que o mesmo se desenvolva. Vá ser bom assim no raio que o pique! e isso porque aqui não é o lugar ainda para falar de seu trabalho, ainda não superado, com crianças e pré adolescentes com tendências anti sociais e órfãos durante a segunda guerra mundial.

Lyn Yvonne Abramson: Professora de psicologia na Universidade de Wisconsin-Madison. Suas principais áreas de pesquisa são a respeito de vulnerabilidade para a depressão e abordagens psicobiologicas e cognitivas à depressão, distúrbios bipolares e distúrbios alimentares.
Recentemente, junto com seus colaboradores, propôs uma perspectiva integrada a respeito de preconceito e depressão, que combina as teorias cognitivas da depressão com as teorias cognitivas do preconceito. Nela, defendem que muitos casos de depressão podem ser causados por preconceitos a respeito de si mesmo ou outrem. (Um dos exemplos que dão é o de um preconceito causando depressão a nível social, como no caso dos nazistas causando depressão nos judeus, e o outro é a nível intrapessoal, isto é o preconceito de uma pessoa a respeito de si mesma, causando depressão).

Judy Garber: professora do Departamento de psicologia e desenvolvimento Humano do Peabody College na Universidade de Vanderbilt. Sua área de interesse é a interrelação de fatores interpessoais, biológicos, ambientais e sóciocognitivos, que contribuem para o início e a manutenção dos distúrbios do humor. Presentemente, coordena o programa de estudo para determinar a eficácia de terapias cognitivo comportamentais na prevenção de depressão em crianças e adolescentes.

John Teasdale: Foi chefe de pesquisas na Universidade de Oxford e chefe de pesquisas em Cognição e Ciências Cerebrais em Cambridge. Seu foco sempre foi o de entender a cognição por trás da depressão, tendo sido pioneiro nas terapias cognitivas na Inglaterra. Foi um dos fundadores da Mindfulness-based Cognitive Therapy (Terapia Cognitiva Baseada na Atenção Plena), e, apesar de estar aposentado, continua ensinando meditação e técnicas de atenção plena.

Martin Seligman: Psicólogo e educador. É professor de Psicologia na Universidade da Pensilvânia, Diretor do Centro de Psicologia Positiva, na mesma universidade, e inventor da teoria do Desamparo Apreendido.
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Comportamento operante: Em psicologia, há 2 tipos de condicionamento ou aprendizado - condicionamento operante e condicionamento clássico. O Comportamento Operante ou operativo, que funciona em tandem com condicionamento do mesmo nome, se refere ao tipo de comportamento que atua no ambiente ou é controlável pelo indivíduo, e acontece porque produz algum tipo de consequência. Por exemplo, no famoso exemplo do cachorro de Pavlov, que salivava quando ouvia a campainha pois sabia que a carne vinha em seguida, é típico condicionamento clássico, o cão não conseguia controlar sua salivação. Mas, se o cachorro salivasse por saber que o salivar lhe traria o bife, aí teria sido comportamento operante.

Esquema de Reforço: São as regras precisas, usadas para apresentar (ou remover) reforços (ou punições), após um comportamento operante especifico. Estas regras são definidas em termos de tempo e / ou o número de respostas necessárias para apresentar (ou remover) um reforço (ou uma punição). Diferentes cronogramas de reforço produzem efeitos distintos sobre o comportamento operante.

PREE (partial reinforcement extinction effect - efeito parcial de extinção de reforço): A constatação de que comportamentos que são reforçados de forma intermitente são mais persistentes (levam mais tempo para serem extintos) do que comportamentos que são reforçados a cada vez que eles ocorrem.

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