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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

VIOLÊNCIA E DESCASO: NOSSOS PECADOS CAPITAIS - I


Fico imaginando se tem alguma diferença, quando ambos levam à morte, horror, dores inimagináveis para os que não ainda as sentiram. Final do ano passado e começo deste, caracterizaram-se, ao menos em minha opinião, por horrores sem sentido e sem razão.

Em Dezembro 2012, na cidade de Newtown, Connecticut, um jovem de 20 anos entrou numa escola primária e matou 20 crianças com idades entre 4 e 6 anos, e mais 6 adultos, professoras diretora e psicóloga da mesma escola.
Janeiro 2013, na cidade de Santa Maria, RS, morreram 250 jovens, cujo único pecado foi irem a uma festa, numa casa noturna.
Então, o que tem a ver uma coisa com outra? Várias coisas:

1 - Morte de gente que não estava apresentando nenhum comportamento de risco, não estava vivendo digamos, debaixo de um vulcão ativo, nem foram atingidos por nenhum desastre natural.

2 - Em ambos os casos, houve tremendo descaso por parte de quem deveria ser responsável. No caso americano, a mãe do rapaz que morreu e matou as crianças, por ter em casa um jovem com severos problemas mentais, problemas esses escondidos e não tratados, e ainda por cima, armas de alto calibre, as quais ensinou o rapaz a usar. Pagou com a própria vida, mas levou muitos inocentes juntos. No caso do Brasil, os donos e gerente da tal casa noturna, sem nenhuma prevenção contra fogo, sem sprinklers, extintores não funcionantes, uma única saída, seguranças mal treinados, casa superlotada.

Em ambos os casos, tremendo descaso. Descaso pela vida. Será que há violência maior?

Do latim violentĭa, a violência é a qualidade daquilo ou daquele que é violento ou a ação e efeito de violentar outrem ou violentar-se. A violência é um comportamento deliberado que pode causar danos físicos ou psíquicos ao próximo. Assim, na língua portuguesa (e inglesa) o conceito de violência é meio que resumido. Em francês, inclui um conjunto muito mais amplo de significados. Inclui o físico, o social e o que é chamado de violência simbólica. Por exemplo, podemos falar da violência simbólica contida na linguagem, na arquitetura, nos gestos, na pintura, nas diretrizes do governo, nos problemas de classe ou sexo. É este referencial que vou usar.

Em seu influente estudo sobre a violência (On Violence), Hannah Arendt explorou o equilíbrio entre as estruturas de poder institucional e a violência, um equilíbrio que foi destruído quando meios violentos foram adotados para limpar e reorganizar o mundo através do fascismo, nazismo, coletivismo e imperialismo no século XX. Para ela, estas formas de violência tornaram-se os fatores chave para a percepção existencial da quebra dos laços humanos, sob a filosofia moderna de poder. 1984 de George Orwell define o padrão sobre o assunto. Neste romance, o medo, a dor, e o sofrimento são os resultados do totalitarismo não verificado, num mundo emocionalmente isolado e essencialmente sem sentido.
E finalmente, o que acho que descreve como ninguém o social que vivemos aqui nos USA, "O Filho Nativo", de Richard Wright, que detalha o potencial prejudicial de um homem envolto por brutalidade cultural, cuja raiva só pode ser expressa em assassinato.

Se formos honestos, vamos perceber que violência faz parte de nossa civilização (será este o nome correto?) ocidental, desde... sempre.

Shakespeare, cujo nome numa tradução muito literal significa "lança trêmula", foi um mestre do assunto, só lembrando:

Julieta (Romeu e Julieta)
Enquanto beija seu amado Romeu pela última vez, apunhala a si mesma com a adaga de Romeu e cai mortinha em cima do corpo do tonto, que se matou porque não se deu ao trabalho de escutar o frei.

Ofélia (Hamlet)
Levada à loucura pela crueldade de Hamlet e pelo assassinato de seu amado pai, cai de uma árvore (e não, não sei porque foi que ela subiu) num rio, e, embora a queda tenha sido um acidente, nada faz para se salvar e, portanto, seu afogamento é visto como suicídio.

Otelo (Otelo)
Quando descobre que sua esposa, Desdêmona, a quem assassinou, não é culpada de adultério, apunhala-se, e, claro, cai morto ao lado do corpo dela (sutil mensagem de que, se fosse culpada, teria merecido ser assassinada).

Na realidade, a obra inteira do William, tirando algumas das comédias, é um banho de sangue.

Mas vamos mais longe, nossa Bíblia: (só avisando, não sou muito versada no assunto, mas com a ajuda de Santo Google, foi fácil).

"Vou destruir... homens e animais." Deus está zangado e decide destruir todos os seres humanos, animais, répteis, aves, e "toda a carne em que há fôlego de vida." Genesis 6:7, 17

“Porque enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibas que não há outro como eu em toda a terra." Exodo, 9:14

“Um rei sábio esmagará aqueles que são ímpios" Provérbios 20:26 (Precursor de Machiavelli, no Príncipe, quando informa que há duas maneiras de acabar com inimigos: ou simplesmente matando-os ou elevando-os a posições acima de sua capacidade).

"Se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis." Lucas 13:3, 5

Os exemplos são tantos, que levei duas horas lendo, e olha que leio rápido, mas acho que defini o ponto, que é, de alguma forma, desde priscas eras, justificamos a violência de alguma forma, como indivíduos e como sociedade.

Coincidentemente, este mês marca o 80º aniversário da ascensão de Hitler ao poder, quando, depois de ganhar cerca de 1/3 dos votos na eleição da Alemanha em 1932, convenceu o adoentado Presidente Paul von Hindenburg a nomeá-lo chanceler em 30 de janeiro de 1933. Fiquei impressionada com o discurso da Angela Merkel, que aqui resumo:

“A ascensão dos nazistas foi possível porque a elite da sociedade alemã trabalhou com eles, mas também, e acima de tudo, porque a maioria dos alemães, no mínimo, tolerou o acontecido... O fato de que Hitler foi capaz de destruir a democracia alemã em apenas seis meses serve como um alerta hoje, do que pode acontecer se o público é apático... Os direitos humanos não se afirmam por conta própria, a liberdade não surge por conta própria, e a democracia não acontece por conta própria. Não. Uma sociedade dinâmica precisa de pessoas que tenham respeito por si mesmas e pelos outros, que assumam responsabilidade. Precisa de pessoas que tomem decisões corajosas e abertas, e que estejam preparadas para aceitar críticas e oposição ".

Pois é. Estamos? clique aqui Tomorrow belongs to me

No próximo blog: Relações entre violência e Doenças Crônicas, Doenças Mentais Problemas de Aprendizado.

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