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terça-feira, 6 de novembro de 2012

DESAMPARO APRENDIDO - DESAPRENDA

“Todas as manhãs, quando abro meus olhos, digo a mim mesmo: sou eu que tenho o poder de me fazer feliz ou infeliz hoje, e não os acontecimentos. Posso escolher o que vou sentir. O ontem está morto e o amanhã ainda não chegou. Só tenho um dia, hoje, e vou ser feliz nele”. Groucho Marx


Desamparo Aprendido é a condição na qual um animal, humanos incluídos, aprende a se comportar de forma impotente, e não muda sua resposta, mesmo quando há oportunidades de sair da situação. Nessa teoria, a depressão e outros distúrbios mentais podem ser o resultado da falta de percepção de controle sobre situações experienciada pelo indivíduo em questão. Assim, define-se que tem desamparo aprendido, qualquer organismo que tenha sido menos sensível ou ineficaz no determinar as consequencias de seu comportamento.

Pois lá estavam Seligman e Maier em seu laboratório na Universidade da Pensilvânia, em 1967, estudando os mecanismos da depressão, quando, por puro acaso, notaram que os cães (tadinhos), com os quais estavam fazendo os experimentos, começaram a se comportar de maneira oposta à que tinha sido descrita por Skinner, isto é, mesmo quando a oportunidade de escape era dada aos bichinhos depois de receberem choques, eles simplesmente continuavam na jaula e não mais reagiam. O único mecanismo de enfrentamento que passavam a usar era o de serem estóicos e viverem com o desconforto da melhor forma possível. Outra descoberta foi que, ao contrário de todos os outros animas, o ser humano apresenta uma condição única chamada de APRENDIZADO VICÁRIO OU MODELAGEM, isto é, nós humanos podemos aprender, seja lá o que for, não só por passar pela experiência, mas também pela simples observação do comportamento de outrém.

Esse achado explica, de forma clara, muitos comportamentos humanos destrutivos, tais como alcoolismo e dependências quimicas, para os quais nunca jamais se encontrou qualquer base genética. Aliás, sendo honesta, com excessão da esquizofrenia, não há qualquer base genética para nenhum distúrbio mental.

No desamparo, há um aumento do 5-HT (serotonina) no núcleo dorsal da rafe. Outras regiões cerebrais envolvidas com a expressão de comportamento de impotência são a amigdala e estria terminalis.

Estou trazendo todas essas informações em neurobiologia, porque esse tipo de comportamento, ou seja, perceber eventos como sendo incontroláveis, faz com que as pessoas, independentemente de sua origem, idade, credo, cor, se tornem incapazes de lidar com suas emoções, de solucionar problemas ou definirem e alcançarem metas, tornando-se passivas, com variações extremas de humor, e com dificuldade de aprendizado, o que se traduz em sérios problemas de saúde, física e/ou mental. Exemplos disso, vemos todos os dias, como as pessoas que continuam obesas, não fazem qualquer tipo de exercício e, às vezes, nem procuram tratamentos, por acharem que nada podem fazer ou que nada adianta. Essa ideia de impotência frente aos acontecimentos aumenta o estresse, formando um círculo vicioso.

Um dos exemplos mais acachapantes que vi, foi de uma senhora de 40 anos, que, além da dependência a metanfetaminas, também era obesa (o que de per si, é uma dificuldade enorme, pois as anfetas cortam o apetite), mas também com Diabetes II desde os 30, quase cega, com seríssima neuropatia diabética e sem metade do pé esquerdo, perdido para a doença. A citada seguia um regime de doces e Dr. Pepper, uma espécie de coca cola muito popular no Texas, tão absurdamente doce que de olhar, aumenta a glicemia. Pois apesar de todos os avisos e ameaças dos médicos que a tratavam, me disse que comia e bebia o que lhe dava vontade, pois “Deus dá e Deus tira”, e não havia nada que ela pudesse fazer a respeito. Faleceu 3 meses depois da entrevista.

O desamparo aprendido pode ser usado como mecanismo de defesa, para sobrevivência em circunstâncias difíceis, como por exemplo, em crianças ou adultos que sofrem situações de abuso. Quando todas as tentativas de luta, defesa, ou de escape da situação pareceram não funcionar.
Todo mundo conhece algum caso de alguma esposa/namorada/amante que passa por situações terríveis, todos se perguntam porque ela não larga do cara. Porque aprendeu o desamparo que,infelizmente, muitas delas chamam de “amor”. E a corrente se expande quando uma criança, observando sua mãe a obedecer passivamente as demandas de um esposo abusivo, passa a acreditar que baixa autoestima e passividade são coisas normais relacionadas a casamento.
Estudos em saúde mental também demonstraram que pessoas que possuem uma tendência a explicar acontecimentos na vida de forma pessimista, têm suas chances de ter depressão grandemente aumentadas.

O sociólogo Harry White, em seu livro “Identity and Control” (Identidade e Controle), sugeriu que a noção de desamparo aprendido pode ser extendida muito além da psicologia, para o campo da ação social, pois, quando uma identidade cultural ou política falha em atingir as metas desejadas, o que sofre é a percepção coletiva de capacidade. Um exemplo disso são os “Códigos Negros”, isto é, as leis sobre negros, e não necessariamente escravos, aqui nos EUA, que aprendi num dos cursos de Diversidade Cultural. Só vai uma delas, que dizia que qualquer pessoa que ensinasse um negro a ler, escravo ou não, receberia 3 meses de prisão e uma multa de US$25, um dinheirão naquela época.
Outro exemplo que acho impressionante são os conselhos dados às mulheres nas revistas femininas dos anos 50. Há preciosidades tais como:
“Ser uma esposa de sucesso é carreira de tempo integral que requer, entre outras coisas, as qualidades de um diplomata, o conhecimento de negócios, o saber cozinhar, o conhecimento de uma enfermeira, de um politico, de uma professora e de uma dançarina de cabaré”. E se a pobre vivente não possuisse essas qualidades intrínsecas, estaria fadada a uma vida de solteirona infeliz, dado que era ensinado que, para mulheres, a única felicidade possível seria através do casamento.
“Se um homem abandona o lar, é certamente porque a esposa não foi capaz de satisfazer seus desejos ou de ajudá-lo a relaxar quando necessário.”
É engraçado pensar que isso é coisa dos anos 50, quando, com palavras diferentes, vemos as mesmas situações ocorrendo o tempo todo. Há cerca de um mes, li um artigo no Estadão, onde era descrita a situação de jovens no Brasil, principalmente mulheres, que não desenvolvem qualquer competência que os habilite a entrar no mercado de trabalho, quer por não terminarem o 1o. grau escolar, quer por engravidarem muito cedo, continuando assim o círculo pobreza - falta de habilidades - pobreza.

Em seu livro “Gross National Happiness,” (Felicidade Interna Bruta - tradução minha, não achei o livro traduzido para o português), o Dr. Brooks argumenta que, o que é crucial para o bem estar, não é quão alegre nos sentimos ou quanto dinheiro fazemos, mas sim o significado que encontramos ou damos à vida, ou seja, o sentido de “sucesso merecido”, isto é, a crença que criamos algum valor(es) em nossa vida e na de outrém.
Combina com os achados de Seligman, que define: “quando recompensas e castigos são dados de forma arbitrária, os animais (humanos incluídos) param de tentar acertar e se tornam “passivos”, que é exatamente o desamparo aprendido. Um exemplo ao vivo e à cores é Las Vegas. A primeira vez que vi, tinha vinte e poucos anos, então qualquer coisa acima dos 35 parecia velho, mas o que me horrorizou foi ver aquele mundo de velhinhos, de ambos os sexos, muito mais mulheres que homens, sentados em frente às maquinas caça níqueis, com baldinhos de moedas ao lado, aquele olhar perdido no nada, a manusear a maçaneta do lado da maquininha. Nenhuma alegria na coisa, uma repetição de movimentos totalmente mecanizada. Quando alguém acertava, era uma explosão histérica por 5 minutos, e depois tudo voltava ao que era antes. Na época, nem desconfiava que existisse algo chamado de “desamparo aprendido”, mas a cena ficou gravada para sempre em minha mente, e meu pedido fervoroso a um ente supremo foi: “Senhor, qualquer coisa menos isso”.

Então, para evitar ou curar essa condição, a Psicologia Positiva indica, antes de qualquer coisa, dar uma boa olhada nos elementos básicos do bem estar, identificando quais são aqueles que lhe são mais significantes, definir metas e monitorar o progresso. O simples fato de notar quanto tempo se gasta por dia na conquista de cada meta faz uma enorme diferença, pois fica fácil de ver as discrepâncias entre nossa meta e o que fazemos para alcançá-la. Também é uma boa idéia questionar nossas metas e atividades. Por exemplo, se minha meta é conseguir outro mestrado, porque diabos perco tanto tempo me explicando o quão dificil vai ser?

Outro ponto importante é que a Psicologia Positiva não prescreve nenhuma fórmula, mágica ou não, para a felicidade pessoal, e é exatamente por isso que a revisão de nossos valores e metas pessoais é fundamental. Se é sua meta ser a melhor jogadora de buraco de seu grupo, vai em frente. Se for ser a avó do ano, que a força esteja contigo! Lembre-se ainda que, metas e valores mudam como muda nossa vida, em diferentes grupos sociais, em diferentes idades, em países diferentes.
Como regrinha básica, tenho cá comigo que, quando me pego dizendo a mim mesma “sempre”, “todo mundo”, “nada de novo debaixo do sol” e outras preciosidades generalizantes, significa que estou atacada de preguiça mental e que não quero me dar ao trabalho de modificar algo, e é geralmente onde mora o perigo. Mas essa é minha regrinha e não uma verdade universal a ser seguida.

Para melhorar nosso nível de satisfação na vida, é importante rever nossa vivência nas seguintes areas: (em ordem alfabética)

Atenção Concentrada (Mindfulness): a prática da atenção concentrada em coisas como gratidão e otimismo torna as pessoas mais felizes por desenvolver sentido de pertencimento, o que diminui a sensação de solidão e, consequentemente, o stress.

Cuidar
: Voluntários, ou qualquer um que cuida de outrém ou de animais de forma consistente, têm menos depressão do que os que não fazem. E, embora o cuidar ou se voluntariar possa fazer parte de um grupo organizado ou clube, pode também ser uma coisa tão simples quanto dar uma mãozinha a um colega de trabalho que está tendo dificuldade com alguma tarefa.

Envolvimento Espiritual e Significado
: Estudos e mais estudos têm demonstrado a íntima relação entre práticas espirituais ou religiosas, significado e felicidade. A prática espiritual pode ser meditação, atenção concentrada (mindfulness) ou o rezar. É o que é chamado de “propósito”ou “vocação”. Notar que isso é absolutamente pessoal, é o contrário absoluto do sair querendo enfiar nossas crenças nos outros. Conforma-se com o que disse Jesus Cristo a respeito de ir rezar dentro do quarto, se lhe der vontade, e se opõe ao que disse São Paulo de sair evangelizando o mundo. Talvez porque São Paulo era guerreiro de base e, depois do tombo do cavalo, desenvolveu epilepsia, mas isso é só minha opinião e nunca li estudo nenhum a respeito.

Exercício: Saúde e bem estar, que se definem como exercício, alimentação adequada e exposição ao sol, estão associados com melhor saúde mental, desde priscas eras (lembre-se do “Mens sana in corpora sano” dos romanos), e menor incidência de depressão.

Fluidez: É quando se está tão profundamente envolvido em alguma atividade, que perdemos a noção do tempo. Geralmente acontece quando há desafio em quantidade suficiente para gerar tensão (e não estresse patológico),e isto provoca crescimento em alguma área. Quem melhor explicou isso, embora tenha chamado de teoria da relatividade, foi Einstein quando disse: “relatividade é quando alguém se senta numa chapa quente, e um minuto parece uma eternidade, enquanto que quando se está conversando com alguém que se gosta, as horas se tornam minutos”.

Relacionamentos: pessoas que tem amizades longas e duradouras são mais felizes do que as que não têm. O número não importa, o que importa é a qualidade, nível de cooperação em atividades e a troca de sentimentos pessoais. Velho Juca Chaves não me deixa mentir  CLIQUE AQUI

Virtudes e Pontos Fortes: Estudos realizados no campo da psicologia positiva têm levantado cada vez mais evidências a respeito de mostrar que as pessoas mais felizes são aquelas que descobriram suas virtudes (ex: humanidade, justiça) e seus pontos fortes (ex: persistência e pensamento critico), e as usam para alguma finalidade maior que seus própios objetivos pessoais. Isso me lembra gente tipo madre Tereza e Dr. Linvigstone.

A parte que mais gosto nas ciências comportamentais é exatamente essa de definir que, seja lá o que tenhamos aprendido ou concluído em nossa vida, temos a capacidade de aprender coisas e diferentes. E se pudemos aprender algo que acaba não nos fazendo muito bem, podemos usar nossa energia para aprender algo que nos faça bem.

No próximo post, vamos de volta ao passado falar sobre o conceito, antigo como o mundo, de Virtudes.

NA

Albert Einstein (14 Março 1879 – 18 Abril 1955) físico teórico alemão, desenvolveu a teoria da relatividade, revolucionando o campo da física. Humanista convicto e, depois de participar da fissão do átomo, tornou-se um dos mais ativos defensores do pacifismo.

David Livingstone (19 Março 1813 – 1 Maio 1873) escocês, médico missionário, explorador, cruzado contra a escravidão.

Martin E. P. "Marty" Seligman (12 Agosto 1942) Americano, psicólogo e educador, foi quem desenvolveu a teoria do Desamparo Aprendido


Madre Teresa de Calcutá
(26 Agosto 1910 – 5 Setembro 1997), freira, ícone com a famosa frase: “Como cidadã, sou Indiana, pela fé, sou freira católica, mas por vocação, pertenço ao mundo”. Só falta a prova de um segundo milagre para ser santificada, que beatificada já foi em 2003.

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