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sábado, 21 de julho de 2012

A tragédia do sintoma social

Em choque, como todo o resto do mundo, assistindo a matança em Aurora, no Colorado. O assassino, um jovem brilhante, cursando seu PhD em ciências neurológicas, ironicamente focalizado em marcadores biológicos do comportamento humano.
Pintou cabelo de vermelho e achou de ser o Jocker,o arqui inimigo de Batman.
Não se sabe se há drogas envolvidas no processo, pois ainda não conseguiram entrar em seu apartamento, que parece ser um campo minado, com a quantidade de explosivos lá dentro.
Isso me lembrou 1999, São Paulo, Brasil, sala 9 do cinema do Morumbi Shopping, onde o estudante do 6 ano de Medicina da Santa Casa, Mateus da Costa Meira, matou 3, disparando uma sub metralhadora que, por graça divina, ou porque Deus é brasileiro, encrencou.
Rápida pesquisa em Santo Google, me informa que o supra citado está cumprindo pena na penitenciária Lemos Brito,em Salvador,onde,em 2009 tentou matar o colega de cela. No caso de Mateus, muitas drogas envolvidas, e historico rico em sintomas, que todo mundo descontou,e só foi expulso da faculdade,a 15 dias da formatura, após o delito.Antes disso, ninguém achou que era caso sério um garoto que:
“Parecia ser invisível, apático", diz Ivan Pollastrini Pistelli, professor de Pediatria. Mateus recusou-se a cumprir a escala de plantões hospitalares rotineiros do curso de medicina. A desobediência custou-lhe um confronto com uma junta da Faculdade de Medicina da Santa Casa. Quatro psicólogos e uma psiquiatra chegaram a um diagnóstico preocupante. Constataram que o estudante sofria de depressão profunda, agravada pela solidão permanente. Recomendaram acompanhamento especializado. O psiquiatra José Cassio Nascimento Pitta assumiu o caso. Recomendou internações e receitou uma droga antipsicótica e outra antidepressiva…” Revista Época

Interessante é também a entrevista que a mãe de Mateus, enfermeira, tal qual a mãe de Holmes, concedeu á revista Revista Época:
“Até os 13 anos era normal. Nessa idade, começaram o choro e a depressão. Ele falou: "Minha mãe, eu quero me suicidar". Foi ao psicólogo e fez tratamento por um ano. Depois o atendimento passou a ser de emergência. Ficava agressivo, e a gente chamava o médico. Chegou então a um ponto que parou de aceitar o tratamento e as medicações.
"Minha mãe, não tenho um amiguinho". A situação piorou aos 15 anos. Foi fazer um intercâmbio nos Estados Unidos e a mãe americana não o suportou por causa da agressividade. Retornou logo. A dona da agência de intercâmbio disse que Mateus precisava de ajuda.
Quebrou a costela do pai, deu-me um murro num olho, chutou-me um joelho. Uma vez, agrediu-me porque achou que a roupa não estava passada. Tinha mania de limpeza e de organização.
Pioraram aos 16 anos. Procuramos os médicos. Um deles disse achar melhor que não ficássemos com ele, pois algo podia nos acontecer. Aqui em São Paulo, ele morou num pensionato e teve uma briga séria com um colega. Ligaram-me, e Mateus teve de sair de lá. Eu estava em Salvador, ele me telefonou e disse: "Minha mãe, vou me suicidar". Logo depois, mudou-se para um apartamento. Lá, agrediu o porteiro do edifício. Depois foi para outro prédio, onde ficou até quando houve o problema (os crimes).
Época: A faculdade, em São Paulo, foi informada dos problemas mentais de seu filho?
Alina: Sim. No fim do primeiro ano, quando foi passar férias em Salvador, Mateus tentou suicídio usando um bisturi. Tem nos pulsos as marcas dessa tentativa. Nesse mesmo dia, resolveu correr de calça jeans. Chegou em casa com a calça estraçalhada. Disse que sentiu calor no meio do caminho e cortou a calça toda com um caco de vidro. Tempos depois, feriu-se novamente e voltou a falar em suicídio. No início do segundo ano, estive na faculdade e disse à direção que ele estava depressivo. Fui encaminhada ao serviço de assistência ao estudante. Pedi que a faculdade ajudasse no tratamento. Comunicaram-me que Mateus era um aluno brilhante e não podia ser obrigado a aceitar o tratamento…”
Pula para o Holmes aqui.Quieto demais a vida toda, nenhum de seus colegas de ginasio consegue se lembrar dele. Forma-se em Ciências neurológicas em 2010 pela Universidade da California, não consegue achar emprego e vai trabalhar meio periodo no McDonald. Em Junho de 2011, entra no programa de doutoramento na Universidade do Colorado, em Denver. A Universidade informa que estava tendo problemas acadêmicos, e estava no processo de desligamento da dita universidade.
Nos 60 dias antes do ataque, comprou, em lojas locais, um rifle semi automatico de assalto AR-15, duas pistolas Glock calibre .40, um rifle Remington 12, e 6000 cartuchos de munição.( BBC)
Me abstenho de comentar a esse respeito. Ë tão absurdo que isso seja possível, que me faltam palavras adequadas, além de que meu ponto não é a discussão da venda de armas, mas o sintoma de doença social no qual tem sido cada vez mais possivel esse tipo de acontecimento .
É piadinha universal, baseada em fatos,de que, pelo menos uma vez por ano, há uma desgraça destas aqui nos EUA. Infelizmente, essa cultura está sendo exportada com grande sucesso. Quero crer que todos se recordam de Peter Mangs, na Suécia, em Maio deste ano, que saiu matando imigrantes (BBC)
ou o massacre de Oslo em Julho de 2011 ( The Week)
E é a isso que chamo de sintoma social. Pessoas com problemas mentais de todos os tipos, sempre existiram, o problema me parece que, quanto mais aprendemos sobre comportamento humano, mais nos afastamos de bons diagnósticos e possiveis tratamentos, em nome de crenças mal colocadas e estigmas infames sobre o assunto.
Uma das consequências do movimento anti psiquiatrico(1)dos anos 60 foi a piora do estigma. Basaglia, na italia, fixou-se na esquizofrenia, clamando que era causada por injúrias ao sentido de “self”, causado por erros grosseiros dos pais, principalmente mãe da criatura esquizofrênica,não se importando minimamente com o fato que 1% da população mundial tem algum tipo de esquizofrenia, independentemente dos pais serem bons, maus, péssimos, ou qualquer grau de permeio.
Naturalmente também que ninguém vai querer ser etiquetada de “mãe esquizofrenizante”.
Também com o endeusamento do DSM ( Manual Estatístico e Diagnóstico dos Disturbios Mentais da Associação Americana de Psiquiatria), os bons e velhos princípios de observação, estudo e diagnostico, que nos informavam que os sintomas psicóticos seguem a cultura onde se desenvolvem, vão sendo esquecidos num passado distante. Estão aí as consequências.

(1)Anti-psiquiatria é uma configuração de grupos e conceitos teóricos, que apareceu nos anos 60, desafiando os pressupostos e práticas fundamentais da psiquiatria. O termo foi cunhado em 1967 pelo psiquiatra David Cooper. Maiores influências intelectuais: Michael Foucault, R.D.Laing, Thomas Szaz e franco Basaglia)

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