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terça-feira, 27 de março de 2012

O CÉREBRO APAIXONADO


(Desde os tempos idos do primeiro ano de medicina, quando me apaixonei por um neurônio, considero neurologia poesia. Mas só considero. A autora deste artigo fez. Espero que curtam tanto quanto eu.)

Um campo relativamente novo, chamado NEUROBIOLOGIA, baseia-se numa das grandes descobertas de nossa era, que é o fato do cérebro estar em constante reconstrução, baseado no que acontece em nossa vida, no dia a dia.

A fim e a cabo, o que nos define são as coisas nas quais prestamos mais atenção.

Como escolhemos usar o tempo que não pode ser reposto é o que, literalmente, nos transforma.

Toda e qualquer relação modifica nosso cérebro, mas as mais importantes são aquelas que desenvolvem laços íntimos, bons ou ruins, alterando os delicados circuitos que fromam as memórias, emoções e lembranças que nos fazem quem somos.

Todos os grandes casos de amor começam com um berro.

Ao nascimento, o cérebro já começa a disparar novas vias neuronais , baseado em sua odisséia num mundo alienígena.

Um bebê está imerso em brilhos, imagens, sons, sensações confusas e sentimentos curiosos, tudo desencadeado por um fluxo de objetos e rostos estranhos, mas acima e além de tudo, magnéticamente atraido para aquele(s) que dele cuidam. Estes são investidos por uma magia surpreendente.

Testes de imagens cerebrais mostram a sintonia dos cérebros de mães e seus bebês, mas o que não podem mostrar, é o laço entre eles e que não pertence a nenhum dos dois individualmente, uma fusão na qual o Eu se sente tão permeável que não importa de quem é o corpo.

Sem específicamente dizer nada, a mãe, confiando nos semáforos de seu coração, diz ao bebê tudo o que ele precisa ouvir, comunicando-se através do tom da voz, olhos e rosto.

Graças aos avanços da neuroimagem, temos agora evidências de que, as primeiras relações de apêgo de um bebê são imprimidas em seu cérebro, e os padrões para todos os seus posteriores comportamentos, pensamentos, idéias ao própio respeito e escolha de amores começam nesse cadinho.

Costumávamos pensar que esse era o fim da história: primeiro a hereditariedade, depois os mapas mentais gravados na infância, e pronto, lá estava você definido.

Mas,uma montanha de estudos com neuroimagem, tem demonstrado que a alquimia cerebral continua vida afora, na medida em que amadurecemos, forjamos amizades, nos envolvemos nos mais diferentes assuntos, sucumbimos ao amor romântico e escolhemos nossa alma gêmea.

O corpo se lembra daquela sensação de unidade com a mãe, e anseia pelo seu equivalente adulto.

Assim como os macacos mais sociaveis, vivemos num mundo-espelho no qual, cada relacionamento importante, com o amigo, conjuge ou filho, molda nosso cérebro, o que, por sua vez, forma e reforma nossas relações.

Assim, o tratamento que recebemos quando bebês, não muda nossos genes, mas muda a forma de como esses genes se expressam quando crescemos.

É esse sentimento indelével de "sentir-se sentido", que aprendemos quando bebês e que buscamos a reprodução no amor romântico, essa sensação de reciprocidade que remodela a arquitetura de nosso cérebro e suas funções.

É esse mesmo sentimento que promove longevidade, bem estar, saúde física e mental, felicidade e até mesmo sensatez.

Relacionamentos suportivos são o mais forte indicador de todos os atributos positivos acima espostos, durante nossa vida. (Daniel J. Siegel e Allan N. Schore, neuropsiquiatras, UCLA).

A parte de suporte é crucial, pois os relacionamentos que mais alteram nosso cérebro são exatamente os afetivos/amorosos.

Apenas considere quanto aprendizado acontece quando se escolhe um companheiro/a.

Junto com uma emocionante dependência, lá vem também um vislumbre do mundo através de outros olhos, largam-se alguns hábitos e adotam-se outros, bons ou maus, não importa, degustamos novas idéias, rituais, alimentos, paisagens. Amigos e familiares são adicionados, formando uma tapeçaria de intimidade física e afetiva. Além disso, há outros catalizadores, explosões de hormônios...tudo isso renova o cérebro.

Quando duas pessoas se tornam um casal, o cérebro extende sua idéia de "Eu"para incluir o outro.

Um "Eu" plural emerge, o qual pode tomar emprestado recursos e pontos fortes do outro.

O cérebro sabe quem nós somos. O sistema imunológico sabe quem nós não somos e armazena pedaços dos invasores como auxiliares de memória.

Quando fazemos amor, ou temos gripe ou uma afta, trocamos pedaços de identidade, no primeiro caso, com o ente querido, nos dois ultimos casos com os vírus, e nos tornamos uma espécie de quimera.

Não apenas trocamos contacto, mas absorvemos o ente querido.

O amor é a melhor escola, mas a mensalidade é alta e o trabalho de casa pode ser muito doloroso.

A neuroscientista da UCLA, Naomi Eisenberger, demonstrou através de seus estudos de neuroimagem que, as mesmas áreas do cérebro que registram a dor física também são ativadas quando alguém se sente rejeitado socialmente.

É por isso que ser rejeitado pelo objeto de nossa afeição dói no corpo todo mas em nenhum lugar espeçifico que dê para apontar.

DÓI AQUI
Melhor dizendo, poderiamos apontar para o córtex cingulado antero-dorsal de nosso cérebro, a parte da frente de um colar em volta do corpo caloso, que é um feixe de fibras nervosas por onde vão e voltam as mensagens entre os dois hemisférios cerebrais.

É lá que são registradas a agressão física e a rejeição.

Falando Armênio ou Mandarim, Português ou Russo, todos neste mundo usamos as mesmas imagens de dor física para descrever um coração partido, que percebemos como algo esmagador e incapacitante.

E não é apenas uma metáfora para um soco emocional, pois a dor social pode desencadear o mesmo tipo de sofrimento de uma dor de estômago ou de um osso quebrado.

Mas, um toque amoroso é o suficiente para mudar tudo.

James Coan, neuroscientista da Universidade da Virginia, conduziu experimentos em 2006 nos quais deu choques elétricos nos tornozelos de mulheres que estavam em relacionamentos felizes, registrando a ansiedade antes e os níveis de dor durante os ditos choques.

Daí, elas tomaram choque de novo, só que desta vez segurando a mão de seus parceiros, e, espanto dos espantos, o mesmo nível de eletricidade produziu uma reação a nível cerebral, muito menor.

Em relacionamentos problemáticos, esse efeito protetor não acontece.

Se se está num relacionamento saudável, segurar a mão do parceiro/a é suficiente para baixar a pressão sanguínea, diminuir a resposta ao stress, melhorar a saúde e diminuir a dor física.

Nós alteramos as funções fisiológicas e neurais um do outro.

Tá certo, nem tudo é assim bonitinho, porque na realidade, podemos decidir nos tornar mais atentos e compassivos, mais conscientes das mágoas, motivos e anseios do outro.

Romper com velhos hábitos não é fácil, posto que são atalhos neurais profundamente arraigados, meio que assim um jeitão de passar batido sobre os detalhes, sem necessidade de aprofundamento.

Muitas vezes, casais decidem reprogramar seus cérebros de propósito, com a ajuda de um terapeuta, para aliviar os conflitos e reforçar sua unidade e sua forma única de ser como casal.

Quando ambos estavam no departamento de psicologia da universidade Stony Brook, Bianca Acevedo e Artur Aron resolveram escanear o cérebro de casais casados há longo tempo e que se diziam ainda loucamente apaixonados.

O olhar fixamente para a foto do cônjuge, produziu iluminação nos centros de recompensa, como esperado e como acontece com recém apaixonados e usuários de cocaína.

Mas, ao contrário dos recém apaixonados e dos viciados, mostravam calma em sites associados com medo e ansiedade. Além disso, todos seus locais ricos em opiáceos naturais (endorfinas) e portanto relacionados a alívio de dor e dos locais relacionados com amor (materno e outros), também estavam intensamente ativados.

Um casamento feliz alivia o stress e nos faz sentir seguros como um bebê adorado.Não é de se admirar que "bebê"seja o apelido carinhoso favorito dos adultos.

Não que o amor romântico seja uma cópia exata do vínculo infantil, pois uma pessoa tem que considerar de forma consciente esse tipo de amor para poder lucrar com os paralelos.

O corpo se lembra. O cérebro recicla e resgata.

Então, como é que isso funciona fora do laboratório?

Eu assisti o processo de cura bem de perto,depois que meu marido, com 74 anos, e que também é escritor, sofreu um derrame no hemisfério esquerdo, o qual apagou o linguajar de uma vida inteira. A única coisa que ele conseguia balbuciar era "mem".

Lamentando a perda de nosso dueto de décadas, comecei a explorar novas formas de comunicação, através de gestos atenciosos, mímica, humor, jogos e toneladas de carinho - a epítome cerebral de apêgo seguro.

Isso tudo mais a re-educação caseira, reconhecidamente excêntrica que forneci, e sua (dele) prática diligente, ajudaram a reorganizar o cérebro, e com o tempo, foi capaz de falar novamente, voltou a escrever seus livros e até sua visão melhorou.

Nosso cérebro se modifica com a experiência e, o estar em relacionamentos amorosos de qualquer tipo, com um parceiro, com amigos, com filhos, é o que faz cérebro e corpo realmente funcionarem em seu pico.

Durante idílios de segurança, quando o cérebro sabe que se está com alguém em quem se pode confiar, o pobre não precisa gastar seus preciosos recursos de enfrentamento com estressores ou ameaças, podendo usar sua seiva para aprender coisas novas ou ajustar os processos de cura.

É quando os processos de percepção estão totalmente abertos.

O lado menos brilhante é que, dependendo de quão sensível alguém seja, as lições de amor - doce ou amargo - podem causar profunda impressão.

Assim é que, corações casados podem mudar tudo, até mesmo o cérebro.

  Diane Ackerman

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