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quarta-feira, 8 de abril de 2015

O ESMAGADOR PESO DA BOBEIRA (Perdão Milan Kundera)

“Há bilhões de luzes lá fora, no horizonte, e eu sei que todas elas juntas não são suficientes para iluminar a escuridão no coração de alguns homens”. Michael Connelly, The Scarecrow

Nas últimas semanas, seguimos com horror não só o assassinato de 150 pessoas por Andreas Lubitz no mal fadado vôo 9525 da Germanwings, como a incrível rapidez com a qual largamos todo o aprendido nos últimos 50 anos, e voltamos à caça das bruxas, usando os doentes mentais como bodes expiatórios.
Foi a depressão que fez o homem derrubar o avião! Pronto, simples, caso encerrado, achamos o culpado.

Simples, mas errado e profundamente cruel para os que sofrem desse distúrbio.

Andreas Lubitz deu tantas pistas de seu caráter psicopata, que não foram vistas ou foram ignoradas. (Caso queira saber mais sobre psicopatia, pode ler o artigo A Máscara da Sanidade – blog Curare Dolorem http://curaredolorem.blogspot.com/2013/11/a-mascara-da-sanidade.html e/ou baixar gratuitamente o melhor livro já escrito sobre o assunto A Máscara da Sanidade- livro PDF http://www.cassiopaea.org/cass/sanity_1.PdF),e meu objetivo com este post não é falar de psicopatia, mas sim do comportamento da mídia mundo afora.

A quantidade de artigos que li, com as mais diferentes opiniões a respeito de depressão e deprimidos foi imensa. A grande maioria escrita por gente sem qualquer conhecimento de doença mental, mas como soe acontecer, com opiniões formadas e gravadas em pedra.

Agora, o prêmio “Maldade nua e crua”, vai para um chamado “Deixem de ser coitadinhos!”, escrito por um homem que se define “psicólogo por opção e jornalista por vocação”, mandado por uma amiga que pediu minha opinião sobre o mesmo. Não vou repetir aqui a opinião que dei, posto que certas coisas só se comentam com amigos, mas dentre as preciosidades do artigo, destaco:

“Alguns parvos, falsos cientistas ou psiquiatras, vêm com a lorota de que a depressão é o resultado de uma espécie de curto circuito neuro-hormonal que nos abate, que nos faz andar cabisbaixos e sem graça diante da vida”.
A parva neurocientista aqui gostaria de passar ao não parvo psicologo/jornalista os seguintes links:
Structural and Functional Neuroimaging of Pediatric Depression (Neuroimagem Funcional e Estrutural de Depressão em Pediatria)http://primarypsychiatry.com/structural-and-functional-neuroimaging-of-pediatric-depression/
fMR Imaging Aids in Identifying, Treating Major Depression (Ressonância Magnética Funcional ajuda na identificação e Tratamento de Depressão Maior) http://www.rsna.org/NewsDetail.aspx?id=6324

“Se formos “brigões” diante da vida, no sentido de não nos abatermos por pouco ou mesmo por muito, nunca saberemos o que é depressão. Se estivermos ativos, fogosos diante de um sonho, seremos vencedores, de um modo ou de outro. Os pífios se abatem, acham-se vencidos diante de desafios, entregam-se e não lutam. E mais que tudo, são pessoas que não têm ardentemente um sonho por que lutar. Têm, isso sim, falsos desejos. São covardes existenciais e tipos muito perigosos para si mesmos e para os outros”
Tirando os insultos aos doentes, os quais muito me irritaram, gostaria também de informar ao prezado especialista, que uma das principais caracteristicas da personalidade psicopatica é exatamente essa de ser extremamente “brigão” na vida, sem consideração pelas consequências, com o único pensamento/desejo de “vencer”não importando em quem ou que é destruido/insultado/machucado. O que é óbvio no artigo.

“Agora veja este trecho que vem da Organização Mundial da Saúde: – “A biologia sozinha não explica a depressão”.”
Não, claro que não. Como qualquer doença, a não ser as genéticamente determinadas, há muitos outros fatôres em jogo, mas a frase acima foi tirada do contexto no qual fazia sentido. Aqui vai o link para o que a OMS disse a respeito: Depression, a hide burden (Depressão, o ônus oculto) http://www.who.int/mental_health/management/depression/flyer_depression_2012.pdf?ua=1

“A biologia é escrava da mente.”
Mesmo? Conta essa para quem tem doenças genéticas, nasceu com elas, tipo hemofilia, fibrose cistica, síndrome de Down, distrofia muscular de Duchenne, neurofibromatose, rim policistico, doença falciforme, fenilcetonúria, citando só as que me lembro assim de momento.

“Quem quiser acabar com a “depressão”, o aborrecimento no trabalho, o caminho é fácil: torne-se competente, brigão por resultados, ético, comprometido e “indispensável” para a empresa. Santo remédio contra a depressão de covardes sem brio nem talento.”
Essa é dificil de comentar, porque equalizar uma doença com um aborrecimento é mais ou menos como comparar o trabalho de Einstein com a diluição de remédios homeopáticos. Não faz sentido.

Mas, como me informou a amiga, tal artigo está sendo muito discutido, posto que polêmico. Minha questão é: Polêmico por que? É um amontoado de “opiniões” tão válidas quanto a teoria de que a Terra é chata e o sol roda em volta dela. Pensei que essa "polêmica”havia sido resolvida há uns 500 anos. Pelo visto, estou errada.

Pelo visto, xingar doentes mentais é sinônimo de “competencia e ética”, ao menos na visão do autor.

Muito triste esse estado de coisas. Assustador que quem o faz seja um psicologo. Apavorante que seja um jornalista.

quarta-feira, 25 de março de 2015

DEPENDÊNCIAS, DEFINIÇÕES E TRATAMENTOS

O problema com as dependências, já começa com sua definição, porque há varias, a grande maioria delas dependendo muito mais de crenças pessoais e coletivas sobre o assunto do que seguindo método cientifico. Vejamos:
O Dicionário Oxford, mostra a primeira variação da palavra "vício", aparecendo em 1500. O termo vem do “latim addictus” , que, em Roma significava ser obrigado por um juiz,a se tornar um servo ou escravo, geralmente por causa de dívidas. Era apenas um adjetivo.
Depois, virou verbo, e o “se viciar”passou a significar o "ligar-se ou apegar-se” a uma pessoa, partido, ou causa, como um servo, aderente, ou discípulo, voluntáriamente.
Foi só lá para 1700 que o têrmo “dependência passou a se tornar específico para substâncias. E, no século 20, o têrmo foi restrito para uso de narcóticos, específicamente a heroína. Agora, o têrmo está mais espalhado do que nunca, saindo do domínio das substâncias assim chamadas “adictivas”ou que, de per si causam dependências, quase que sem nenhuma interferência do sujeito que a (s) usa, abrangendo coisas como internet, sexo, jogo, chocolate, doces, pornografia, auto-dependência (narcisismo), e mais outras tantas. E quanto mais “dependências” aparecem, mais “tratamentos” idem.

Com tantos significados e diferentes interpretações, tem sido enorme desafio determinar exatamente o que isso vem a ser, ou nas palavras de Peele: “A que, exatamente se referem os termos adição e dependência? São doenças do cérebro? Padrões comportamentais? Ou serão padrões vivenciais?” e sumariza brilhantemente tudo o que foi escrito sobre o assunto, dizendo:
“Adição/Dependência é a busca por satisfação emocional, por um sentido de segurança, uma sensação de ser amado, de ter algum controle sobre a vida. Mas, a gratificação é ilusória e temporária, e, ao invés de conseguir o desejado, tal comportamento resulta em maior auto aversão, segurança psicológica diminuída, e menor capacidade de enfrentamento. É isso é o que todos os vícios têm em comum."

Não seria maravilhoso se pudéssemos, como prevenção, ensinar às nossas crianças essa simples ideia?
Adição é só uma forma incompetente de tentar lidar com a vida.

Não seria muito mais fácil, barato e eficaz, ensinar às nossas crianças os conceitos de resiliência, respeito por si, pelos outros e pelo lugar onde se vive, do que encher o mundo de pavor a respeito de substâncias, e o que elas lhe fazem, o que, a fim e a cabo é uma falácia porque a escolha do uso disso daquilo ou daquilo outro, é sempre individual?
É óbvio que, depois de certo tempo de uso, de qualquer substância que cause alterações químicas no organismo, de aspirina a heroína, vai modificar o mesmo, e a coisa pode realmente virar “doença”. Nenhuma dúvida a respeito. Só não começa como uma, embora indivíduos com problemas mentais de esquizofrenia a ansiedade crônica, tendam a fazer mais uso de substâncias do que a população em geral.

Mas, uma vez que a doença foi instalada, o que fazer? Qual é o melhor programa de tratamento?

Primeiro, não existe um “melhor programa “universal, que sirva a todo mundo. O que funciona é quando há a melhor conjunção entre as características de uma determinada pessoa, num determinado ponto de sua vida, com suas características sociais e culturais, e as características do tratamento, naquele momento. O que pode ser a melhor escolha para uma pessoa, pode ser um horror para outra, e o que pode parecer muito bom hoje, pode não ser tão bom assim daqui a algum tempo, posto que as necessidades do indivíduo e da família, e as capacidades da organização evoluem de forma dinâmica.

De qualquer maneira, os melhores tratamentos tem algumas características em comum:
Acessibilidade, estabilidade organizacional e força de trabalho individualizada. A filosofia de trabalho é baseada em evidências. O tratamento é estendido à participação da família. Os serviços têm como objetivo não só a recuperação mas também a reinserção social. Há o apoio da comunidade para a Instituição de tratamento e para o indivíduo sendo tratado.

Tenho certo pavor de qualquer programa que clama ter “A SOLUÇÃO”, pois me parece que esse tipo de arrogância clínica e/ou institucional está mais associado a exploração fraudulenta e danos em nome de ajuda do que a recuperação estável e a longo prazo. Também não recomendo programas que continuam a usar confrontação e humilhação como dispositivos terapêuticos, apesar de décadas de pesquisas mostrando sua ineficácia e danos potenciais.
E mais do que concordo com o Stanton Peele (ai que novidade!), quando declara: “Ao reforçar o mito de que o vício é incontrolável e permanente, só fazemos com que fique mais difícil superar o problema. Dizer que a pessoa é impotente perante a adição, é auto destrutivo, pois limita a capacidade individual de mudar e crescer. Não é melhor começar pela crença de que, simplesmente existe a possibilidade de romper com hábitos viciantes e redirecionar a vida? Pode não ser rápido ou fácil de fazer, mas é possível.”

Conheci, trabalhei com, observei centenas de diferentes tipos de tratamentos, em diferentes países e culturas, e segui resultados e/ou total falta deles. Aprendi a importância do seguimento depois da alta, tanto do paciente, quanto da família, para suporte e revisão, seguimento esse inexistente em, pelo menos, 98% dos tratamentos. Observei que, na maioria dos casos, “testemunhos “tem o mesmo valor que evidência, muito parecido com aqueles anúncios de creme para rugas, que tem a foto da velhinha antes e depois, e a única coisa que consigo ver é que na foto “antes”, a criatura está de cara lavada e na foto “depois”, toda maquiadinha.

Aqui vai meu melhor exemplo. Se vocês acharem que estou puxando sardinha só por ser italiano, bom, até que tem alguma verdade na coisa. O fato é que são referência da Comunidade Europeia e ONU. Recomendo as ideias e as ações.

San Patrignano: “É um lar, uma família para os jovens que perderam seu caminho. É uma comunidade de vida que acolhe aqueles aflitos por vícios e marginalização, porque é preciso redescobrir seu caminho através de uma jornada de recuperação, que é acima de tudo um caminho de amor. Gratuito, porque o amor é um dom”.

Nossos Valores:

Educação

O curso do tratamento é essencialmente educacional e de reabilitação. A pessoa não é considerada como sofrendo de uma "doença" e não são, portanto, utilizados medicamentos para o vício. Intervenções psicoterapêuticas/psiquiátricas são implementadas sempre que necessário, para tratar problemas individuais específicos.

Caráter Gratuito

San Patrignano é gratuito para os jovens e suas famílias. A Gratuidade permite que cada indivíduo se sinta criador e estrela de seu próprio caminho. Os produtos e serviços desenvolvidos na comunidade, visam a auto suficiência e representam cerca de 50% das necessidades da comunidade. O restante dos recursos é proveniente de doações, que não são dos familiares dos jovens da comunidade.

Secularismo

Os princípios básicos que sustentam a intervenção terapêutica educacional (respeito pela vida, por si mesmo, para os outros, e para o ambiente) são universalmente reconhecidos pelas diferentes crenças religiosas e sancionado pela Constituição italiana.

Programa Individualizado

O programa de recuperação é personalizado e varia de acordo com as diferentes características e necessidades de cada indivíduo. Assim, não há nenhum passo terapêutico rígido nem temporalmente definido. No entanto, tendo em conta os problemas e a necessidade de uma mudança radical da pessoa, é um programa de recuperação residencial de longo prazo. A duração mínima é de três anos.

A importância do grupo

Quando um/uma jovem entra na comunidade, é colocado em uma das áreas de formação em que San Patrignano é dividido. Aqui, é confiado a outro jovem que se torna seu mentor e que, no primeiro ano da comunidade (tempo varia de indivíduo para indivíduo) segue-o constantemente em seu caminho. Moram no mesmo quarto, com outros. Cada quarto tem seu próprio gerente, bem como cada setor tem um ou mais educadores de referência. Estes são principalmente os grupos com quem o jovem vive todos os dias na comunidade.

As Etapas do Caminho

O crescimento pessoal ocorre através da interação diária com os colegas e os responsáveis pelo setor (educadores). Através desse contato, aparecem as questões críticas e as fragilidades do indivíduo, que por sua vez são analisadas e encaradas. A cada jovem, são gradualmente confiadas mais responsabilidades, tanto na vida em seu setor, quanto nas diferentes atividades que acontecem na comunidade (esportes, artístico, cultural). Com o tempo ele/ela vai se tornar tutor para outra pessoa que necessite de ajuda. Desta forma, os hóspedes da comunidade recuperam, dia após dia, o prazer de ser útil para si e para os outros, experimentando novas formas de gratificação, alternativa e oposta à ilusória oferecida pelas drogas. As regras da vida na comunidade nada mais são do que os de uma convivência civilizada: o respeito a si mesmo, aos outros e ao meio ambiente.

Formação e Estudo

San Patrignano apresenta mais de 50 áreas da vida e de educação, onde os jovens são colocados, de acordo com a disponibilidade das pessoas que possam ajudar o recém-chegado e com base em sua propensão. Aprender uma profissão, permite que cada jovem a cresça, tanto em relação a si mesmo quanto em suas relações interpessoais. É também uma chave de acesso para reintegração plena na sociedade. Paralelamente, é dada a cada um, a oportunidade de retomar os estudos abandonados, em qualquer escola e/ou nível de escolaridade.

Relacionamento com a família

Ao longo do caminho também procura-se reconstruir a relação entre o jovem e sua família. Inicialmente, proporciona-se um distanciamento, com a exceção de correspondência (por carta). À família, é aconselhado seguir caminho paralelo ao do filho/a, participando de qualquer uma das associações ligadas a San Patrignano. Após cerca de um ano (dependendo do jovem) a família pode fazer a primeira visita à comunidade. Depois, as reuniões serão três a quatro por ano. Após os primeiros três anos mais ou menos, o jovem vai voltar pela primeira vez para casa por cerca de dez dias.
SAN PATRIGNANO


STANTON PEELE: Psicólogo e advogado que modificou como se pensa as dependências. Foi pioneiro, entre outras coisas, da ideia de que o vício ocorre na decorr6encia de uma série de experiências, no reconhecimento de recuperação natural do vício, e na abordagem de redução de danos.

E pronto, acabou a trilogia.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COMO FOI QUE A “GUERRA ÀS DROGAS” COMEÇOU: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

Para que possamos entender o que estamos e porque estamos vivenciando hoje, é importante entender como foi que a coisa toda começou, assim, trago um resumo/tradução do livro “Chasing the scream: The first and last days of the war on drugs” Johann Hari, Bloomsbury, 2015 (Perseguindo o grito:Os primeiros e últimos dias da Guerra às Drogas – tradução minha, ao pé da letra, já que não sei o título em português)

“A promessa de travar uma "guerra implacável" contra as drogas foi feita pela primeira vez em 1930, por um homem esquecido hoje, mas que fez mais do que qualquer um para criar o mundo da droga em que vivemos agora. Seu nome: Harry Anslinger.
Em 1904, um menino de doze anos de idade, na Pensilvânia, visitando a fazenda de um vizinho, ouviu gritos lancinantes, uma mulher uivando como um animal. O marido da mesma, deu instruções apressadas ao menino: pegue meu cavalo e vá à cidade o mais depressa possível. Pegue um pacote na farmácia. Traga o pacote aqui. Já. O garoto, apavorado, fez o que lhe foi pedido, e tão logo entregou o pacote de drogas, os gritos da mulher pararam e ela se acalmou. Mas o garoto, nunca mais nem se acalmou nem esqueceu. Anos depois, escreveu que, naquele momento, convenceu-se que havia um grupo de pessoas que, embora à primeira vista parecessem normais, a qualquer momento poderiam tornar-se “emocionais, histéricas, degeneradas, mentalmente deficientes e depravadas”, caso entrassem em contato com o “grande agente transtornador”, as drogas. E assim foi que Harry Anslinger entrou na Guerra às Drogas.

Num outro dia, alguns anos antes, em Manhattan, um rico comerciante judeu ortodoxo, deu de cara com uma cena que não conseguia entender. Seu filho de três anos de idade, estava de pé, com uma faca, em cima de seu irmão mais velho, que dormia, pronto para esfaqueá-lo. "Por que, meu filho, por quê?", Perguntou o comerciante. O menino disse que odiava seu irmão. O menino ia crescer para odiar quase todo mundo. Viria a declarar: "a maioria da raça humana é idiota, lerda, sem juízo e sem cérebro." Ele esfaqueou, pessoalmente ou a mando, muitas pessoas. Normalmente, um homem com esse tipo de personalidade acabaria na prisão, mas este menino não. Ele foi entregue a uma indústria na qual, sua capacidade para violência não foi apenas recompensada, mas necessária: o novo mercado de drogas ilícitas na América do Norte. Quando finalmente foi baleado- vinte blocos, incontáveis assassinatos, e muitos milhões de dólares depois da tentativa em seu irmão, era um homem livre. Assim foi como Arnold Rothstein entrou na guerra contra as drogas, transformando o crime organizado num grande negócio, a partir do Proibicionismo. Provavelmente foi quem melhor definiu o capitalismo com o seguinte aforismo: "Dê as pessoas o que elas querem, e passará a dominá-las.”

Noutra tarde, em 1920, uma menina de seis anos, estava deitada no chão de um bordel em Baltimore ouvindo discos de jazz. A mãe dela acreditava que esta música era obra de Satanás e não deixava a menina ouvir em casa. Aí, a criança se ofereceu para realizar pequenas tarefas de limpeza para a madame do bordel local, com a condição de que, ao invés de ser paga um níquel como as outras crianças, ela poderia ficar horas ouvindo a música, que lhe dava um sentimento que não conseguia descrever. Ela estava determinada, um dia, a criar esse sentimento em outras pessoas. Mesmo depois que foi estuprada, usada, vendida, e depois que começou a injetar heroína para tirar a dor, esta música ainda estaria lá, esperando por ela. Assim foi como Billie Holiday entrou na guerra contra as drogas.

Quando Harry, Arnold e Billie nasceram, as drogas eram disponíveis no mundo todo. Em qualquer farmácia americana podia-se comprar produtos à base de heroína e cocaína. As misturas para tosse mais populares, continham opiáceos; um novo refrigerante chamado Coca-Cola continha cocaína. Na Grã-Bretanha, as mais elegantes lojas de departamento vendiam latas de heroína para as mulheres da sociedade.
Mas eles viveram numa época em que a cultura americana estava à procura de uma saída para a sua crescente onda de ansiedade: um objeto real, físico, que pudesse destruir, na esperança de que isso iria destruir seu medo de um mundo que estava mudando mais rapidamente do que os seus pais e avós jamais poderiam ter imaginado. Resolveram que seriam esses produtos químicos. Em 1914, há um século, resolveram destruí-los. Limpar o mundo de sua presença. Pronto, todos estariam livres. E assim, Harry e Arnold e Billie encontraram-se largados nesse primeiro campo de batalha, e pressionados ao combate.

Billie Holiday no palco, cabelo puxado para trás, rosto redondo e brilhante nas luzes, voz riscada com a dor, em 1939, começou a cantar uma canção que se tornaria emblemática:
Southern trees bear a strange fruit, Blood on the leaves and blood at the root.
As árvores do sul dão uma fruta estranha, com sangue nas folhas e sangue na raiz.
Billy Holliday: Strange fruit

Antes dela, pouquíssimas mulheres negras tinham estado em palcos, e quando estavam, eram meras caricaturas, despojadas de todo o sentimento. Mas agora, aqui estava ela, Lady Day, uma mulher negra expressando tristeza e fúria contra o assassinato em massa de seus irmãos com seus corpos pendurados em árvores. Sua afilhada, Lorraine Feather, comenta: “Foi extremamente bravo. Naquela época, cada canção era sobre o amor. Não havia músicas sobre matanças, muito menos as sórdidas que estavam ocorrendo com negros no Sul dos USA. E aí aparece uma negra, fazendo exatamente esse tipo de música, sobre linchamento, sobre como seu pai havia sido morto O público ouviu, em silencio. Muitos anos mais tarde, este momento seria chamado de "o início do movimento dos direitos civis." Lady Day foi ordenada pelas autoridades a parar de cantar esta canção. Ela se recusou. Sua perseguição por parte do Federal Bureau of Narcotics começou no dia seguinte. Em pouco tempo, ela estaria morta.

Desde seu primeiro dia no cargo, Harry Anslinger tinha um problema, e todos sabiam disso. Tinha acabado de ser nomeado chefe do Bureau Federal de Narcóticos, pequena agência enterrada nas entranhas do Departamento do Tesouro em Washington, DC, que e parecia estar à beira de ser abolida. A Agência havia sido o antigo Departamento da Lei Seca, mas como a proibição tinha sido abolida, seus homens precisavam de um novo papel, rápido. Quando ele olhou para seu novo pessoal, poucos anos antes de iniciar sua perseguição a Billie, viu um exército se afundando, exercito esse que havia passado 14 anos em guerra contra o álcool, só para ver a vitória estonteante do mesmo. Estes homens eram notoriamente corruptos, torturadores e cruéis, e foi com eles que o acima citado decidiu limpar as drogas dos Estados Unidos para sempre.
E isso foi apenas o primeiro obstáculo. Muitas drogas, incluindo maconha, ainda eram legais, e o Supremo Tribunal havia decidido que as pessoas viciadas em drogas mais pesadas deveriam ser tratadas por médicos, e não abusadas pelo braço pesado da lei. Daí, seu orçamento do foi cortado em US $ 700.000. Harry acreditava que a resposta a ser dada a uma mão fraca, no pôquer, devia ser elevar drasticamente as apostas. Assim, comprometeu-se a erradicar todas as drogas, em todos os lugares em 30 anos. Conseguiu transformar um departamento em ruínas, com homens desanimados, no quartel-general para uma guerra global que iria durar cem anos e contando. Pode fazê-lo, não só porque era um gênio burocrático, mas também porque havia uma tensão profunda na cultura americana que estava à espera de um homem como ele, com uma resposta certa e segura para suas dúvidas sobre produtos químicos. (Tenho tanto medo de quem tem respostas definitivas e inabaláveis. A história nos tem mostrado os horrores consequentes).

Desde aquele dia na fazenda de seu vizinho, Harry sabia que queria limpar as drogas da face da terra, mas ninguém imaginava que, a partir de onde começou, poderia fazê-lo. Seu pai era um barbeiro suíço que havia fugido para evitar o serviço militar obrigatório, indo parar na Pensilvânia, onde teve nove filhos, sem possibilidade de pagar seus estudos. Por isso Harry, o oitavo, aos 14 anos foi forçado a trabalhar na estrada de ferro.Era um garoto determinado e insistiu em trabalhar por dinheiro nas tardes e noites para que pudesse continuar indo para a escola todas as manhãs. E foi trabalhando nessa estrada, que teve sua segunda visão de coisas escondidas e escuras, o que se tornou sua segunda obsessão, supervisionando um bando de imigrantes sicilianos. Mais tarde, veio a escrever como ele os ouvia sussurrarem a respeito de algo chamado “Mão Negra”.
Um dia, encontrou um dos trabalhadores italianos, Giovanni, dentro de uma vala, ferido. No hospital, Giovanni, terrorizado, contou-lhe que todos os sicilianos tinham que pagar proteção a um grupo chamado “Máfia”, que tinha vindo da Sicília para os USA. Tal grupo, disse ele, engajava-se em todo tipo de crime, e os trabalhadores da estrada de ferro tinham que lhe pagar uma “taxa de terror”, ou ir parar no hospital ou morrer. Anslinger ficou obcecado com a Máfia, numa época na qual a maioria dos Americanos nem acreditava que ela existisse. Passaram a acreditar, depois dos anos 60, com Edgar Hoover e o FBI.
Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, Harry tentou ir, mas como era cego de um olho (consequência de uma pedrada de um dos irmãos), foi recusado, mas como falava alemão fluentemente, foi trabalhar como diplomata/espião na Holanda. Lá, conheceu vários marinheiros que tinham que voltar para casa pois tinham se tornado dependentes de heroína, o que piorou sua obsessão iniciada na fazenda do vizinho.
No finzinho da guerra, estava óbvio que a Alemanha tinha perdido, e o Kaiser estava planejando abdicar. Ao Henry, foi dada a missão, pelo presidente dos USA, de ir dizer ao Kaiser para não abdicar, pois os USA temiam o caos que poderia acontecer seguindo a abdicação. Henry chegou ao Kaiser tarde demais, ele já tinha abdicado, e, pelo resto de sua vida, nosso herói se culpou pelo fato que seu atraso tinha dado base à ascensão de Hitler, e por conseguinte, à segunda guerra mundial. Concluiu que, o futuro da civilização dependia de suas ações. (Narcisismo pouco é bobagem).

Em 1926, foi mandado para as Bahamas. Era o pico do proibicionismo contra o álcool. Problema era que, os americanos queriam beber, e os contrabandistas queriam vender, de formas que o álcool corria solto nas ilhas, o que o apavorou sobremaneira, pois achava que as bebidas estavam cheias de horrendas doenças que iriam destruir os inocentes americanos, e, naturalmente, tomou a si a tarefa de evitar tal Armagedon. Como? Convencendo seus superiores que, a única forma de acabar com a coisa era por uso de “extrema força”. Das Bahamas para Washington foi um pulinho, tendo sido assaz sortudo em casar com Martha Dennison, que pertencia a uma das famílias mais ricas dos USA, os Mellon, e assim, o secretário do tesouro americano, Andrew Mellon, virou parente.
Não bastassem suas obsessões de base, também chegou à conclusão que imigrantes mexicanos e negros eram chegados a usar muito mais drogas que os brancos, e conseguiu sua primeira vitória e aumento de verbas para seu grupo, depois de se apresentar ao Congresso com o seguinte discurso:
“Ouvi dizer que, na Universidade de Minnesota, estudantes de cor estão indo a festas com estudantes brancas e conseguindo sua simpatia através de histórias de perseguição racial. Resultado: Gravidez”.
Indo em frente, decidiu educar o público a respeito de maconha (coisa que, anteriormente achava que não tinha qualquer problema), com o seguinte primor:
“Quando você fuma esta erva daninha, primeiro, vai ter uma raiva delirante, depois sonhos de caráter erótico e vai perder o poder do pensamento e finalmente, chegará ao ponto final inevitável: Insanidade. Você pode ficar chapado e sair e matar uma pessoa, e tudo antes mesmo de perceber que saiu de seu quarto, porque a maconha transforma o homem em uma besta selvagem. De fato, se o horrível monstro Frankenstein ficasse cara a cara com o monstro maconha, cairia morto de medo."
Durante anos, médicos falaram e lhe mandaram evidências de que estava errado. Sua resposta? Não só ameaçou a classe com sérias represálias, como também escreveu para os policiais em todo o país, ordenando-lhes que achassem casos nos quais a maconha teria sido a causadora de crimes. E as histórias começaram a aparecer.

O caso que definiu Harry, e a América, foi o de Victor Licata, de 21anos, da Florida, conhecido como sensato e silencioso até o dia que fumou maconha, alucinou que havia homens querendo cortar seus braços, e para se defender, agarrou um machado e picou mãe, pai, dois irmãos e uma irmã.
A imprensa, alertada por Harry, fez Licata famoso. As pessoas começaram a acreditar que, se seu filho fuma maconha, ele, como Lacata, também pode lhe cortar em pedacinhos. Pela primeira vez, a imprensa americana, principalmente a de propriedade de William Randolph Hearst, tinha apoio de um departamento do governo dos USA, para espalhar boatos.
E a coisa funcionou lindamente. As pessoas começaram a clamar para que fosse dado mais dinheiro à Agencia de Harry, para que esta os salvasse dessa coisa terrível.
Muitos anos mais tarde, um professor de direito, John Kaplan, achou de dar uma olhada nos prontuários médicos do Victor Lacata e descobriu que o psiquiatra que o havia examinado, tinha registrado que o rapaz sofria de “insanidade “há muito tempo. Havia também o registro de vários familiares do rapaz com os mesmos problemas, 3 deles internados em asilos. Tal psiquiatra havia tentado, durante todo o ano anterior ao crime, internar o rapaz, mas a família havia insistido em cuidar dele em casa.
Se o Harry acobertou, negou, ou nem se preocupou em saber da opinião do psiquiatra, não se sabe, o fato é que a ideia que jovens se tornariam escravos dessa droga até se tornarem assassinos insanos, pegou. E ficou pior quando nosso herói descobriu que a Máfia poderia estar ganhando com o tráfico.

E lá foi ele incrementando sua campanha. O efeito mais assustador da maconha, avisou, acontecia com os negros, fazendo-os esquecer as barreiras raciais adequadas e desencadeando sua luxúria e desejo em cima das mulheres brancas. Claro, todo mundo falava sobre racismo de forma diferente na década de 1930, mas a intensidade de pontos de vista de Harry começou a chocar algumas pessoas, e quando foi revelado que ele se referiu a um suspeito, num memorando oficial como "nigger", o senador Joseph P. Guffey, da Pensilvânia exigiu sua demissão. Mais tarde, quando um de seus poucos agentes negros, William B. Davis, queixou-se de ser chamado de "nigger" por homens de Harry, Anslinger o demitiu.
Quando a Associação Médica Americana publicou um relatório desbancando algumas de suas reivindicações, anunciou que qualquer de seus agentes pego com uma cópia, seria imediatamente despedido. Quando descobriu que um professor chamado Alfred Lindesmith estava argumentando que os viciados precisavam ser tratados com compaixão e cuidado, instruiu seus homens a falsamente avisar universidade de Lindesmith que ele era associado com uma "organização criminosa", além de enviar uma equipe para dizer-lhe para se calar. Embora não conseguisse controlar o fluxo de drogas, estava descobrindo que podia controlar o fluxo de ideias.

Jazz era e é o oposto de tudo o que Harry Anslinger acreditava. É improvisado, descontraído, livre, segue seu próprio ritmo. O pior de tudo, é música mestiça composta por traços europeus e caribenhos, com ecos africanos, tudo acasalado em território americano. Para Anslinger, esta anarquia musical era evidência de uma recorrência dos impulsos primitivos que se escondem em negros, esperando para emergir. Ou, como ele mesmo escreveu em seus diários: "Parecia como as selvas na calada da noite, ritos indecentes incrivelmente antigos das Índias Orientais são ressuscitados na música desses negros. As vidas dos jazzmen tem cheiro de imundície."
Anslinger teve que lidar com uma cena musical composta por gente do calibre de Charlie Parker, Louis Armstrong, e Thelonious Monk, e queria vê-los todos atrás das grades. Tentou fazer uma grande apreensão nacional, num único dia. Seu conselho a seus agentes: “Atire primeiro ".

O único problema do Harry, em relação mundo do jazz, foi que, o povo que dele fazia parte era de uma solidariedade absoluta. Os homens de Anslinger raramente conseguiram encontrar um delator, e todas as vezes que um deles era preso, todos se cotizavam para pagar a fiança e soltá-lo.
No final, quando o Departamento do Tesouro disse a Anslinger ele estava perdendo tempo, tentando arrebentar uma comunidade que não podia ser fraturada, ele então reduziu seu foco, como um laser, na maior vocalista de jazz feminino existente.

Em 1939, o Comitê La Guardia, promovido pelo prefeito de NY, Fiorello La Guardia, fez o primeiro estudo amplo, profundo e sério a respeito dos efeitos de fumar maconha, estudo este que contradisse sistematicamente tudo que nosso Harry vinha dizendo. Conclusão do estudo: “O fumar maconha não causa dependência no sentido médico da palavra. “Publicado em 1944, citado estudo enfureceu Anslinger, que o condenou como “Não científico.”
La Guardia Comitê: Estudo da Maconha Estudo da Maconha

No final de sua carreira, foi acusado de insubordinação, pois tentou impedir a publicação de um relatório as AMA (Associação Médica Americana), a respeito de Dependência, relatório esse editado pelo já nosso conhecido, Professor Alfred R. Lindesmith.
Espantosamente, foi nomeado de novo pelo presidente John Kennedy. Resignou ao cargo ao fazer 70 anos, após o que trabalhou por mais dois anos como representante dos USA na Comissão de Narcóticos na ONU, aposentando-se já totalmente cego. Faleceu em 14 de Novembro de 1975, aos 83 anos.”

Todos esses anos passados, e a contabilidade é a seguinte:
Mais de 1 trilhão de dólares gastos. Os gastos atuais são de 15 bilhões por anos, ou seja, 500 dólares por segundo.
Temos a maior população carcerária do universo, com cerca de 2,3 milhões de pessoas atrás das grades, sendo que mais de meio milhão delas estão por alguma infração das leis de drogas.
Se o comércio global de drogas fosse uma nação, estaria entre as 20 maiores economias do mundo, com estimados 320 bilhões de dólares por ano.
Há cerca de 230 milhões de usuários de drogas ilegais no mundo, mesmo assim, 90% deles não são classificados como problemáticos.
Se os USA taxassem as drogas ilegais como taxa álcool e tabaco, receberia cerca de 46,7 bilhões de dólares ao ano.
A legalização das drogas pouparia à nação cerca de 41000 milhões de dólares por ano, gastos em perseguição e encarceramentos.
Em 1980, havia 40.000 pessoas na cadeia por crimes relacionados a drogas. Hoje temos 500.000, com penas longas e excessivas para coisas como porte da droga. Não só as cadeias se tornaram enormes depósitos de doentes mentais, como também, a face do preconceito. Todas as pesquisas apontam que negros ou latinos não usam nem traficam mais do que brancos, mas mesmo assim, são presos 5 vezes mais.
Isso tudo reduziu o consumo? Não.
Os USA são número 1, mundialmente falando, no uso de drogas ilegais.
Que tal que nem, como se diz em Taubaté, com o que aconteceu com o Proibicionismo. Banir o álcool não fez ninguém parar de beber, só fez com que as pessoas parassem de obedecer à lei.
Ou como tão bem escreveu H. L. Mencken, em 1925: “A Proibição não só falhou em suas promessas, mas, na verdade, criou problemas sociais adicionais, graves e preocupantes. Não há menos embriaguez, mas muito mais. Não há menos crime, mas muito mais. ... O custo do governo não é menor, mas muito maior. O respeito pela lei não aumentou, mas diminuiu. "
Quando ignoramos um problema, nos recusamos a debate-lo e esperamos que desapareça por milagre ou por imposição de força, não estamos só sendo ingênuos, mas estamos a caminho de um desastre. Ignore colesterol alto, e veja os resultados. Ignore uma dorzinha no peito, e reze para que seja só acidez. Continue a exercitar um pé inchado. Quais serão os resultados?
A guerra às drogas falhou. Feio. Está mais do que na hora de enfrentar o problema,
Próximo e final post da trilogia, será sobre iniciativas que fizeram exatamente isso e está funcionando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

MINHA PRÓPRIA VIDA: OLIVER SACKS AO SABER QUE ESTÁ COM CÂNCER TERMINAL

Sei que prometi a segunda parte das dependências e estava justamente terminando,quando me chegou o e mail do New York Times, com o artigo do Sacks.E chegou num momento em que pensava em minha própria mortalidade. Ele está na minha lista de gente que quero conhecer pessoalmente antes de morrer. Pelo visto, não vou conseguir. Ele me fez rir e chorar com seus escritos, e no filme “Tempo de Despertar”, me mostrou que genialidade é muito mais do que descobrir um tratamento novo. É descobrir a vida, junto com o paciente. E então, tenho que traduzir o artigo, porque é mais uma lição de vida desse homem que é grande. Não vou dizer adeus porque mesmo quando ele morrer, vai continuar tão vivo dentro de mim, que vou poder continuar nossas conversas imaginarias a gosto. Esta tradução é meu agradecimento e celebração de uma vida que foi, e continua sendo bem vivida.

“Um mês atrás, senti que estava bem de saúde, até mesmo robusto. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas minha sorte acabou - algumas semanas atrás fiquei sabendo que tenho múltiplas metástases no fígado. Há nove anos, foi descoberto que eu tinha um tumor raro do olho, um melanoma ocular. Embora a radiação e lasering para remover o tumor, em última análise me deixou cego daquele olho, só em casos muito raros tais tumores formam metástases. Estou entre os 2% dos azarados.
Sinto-me grato por terem me sido concedidos nove anos de boa saúde e produtividade, desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado, e apesar de seu avanço poder ser retardado, não pode ser interrompido.
Cabe a mim agora, escolher como viver os meses que me restam . Tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que possa. Nisto me animam as palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava mortalmente doente aos 65 anos, escreveu uma pequena autobiografia em um único dia, em abril de 1776. Ele intitulou-a "Minha própria vida":"Agora estou considerando uma dissolução rápida", escreveu ele. "Sofri muito pouca dor com a minha desordem; e o que é mais estranho, não obstante o grande declínio da minha pessoa, nunca sofri um abatimento de ânimo dos meus espíritos. Possuo o mesmo ardor como sempre no estudo, e a mesma alegria na companhia. "
Tive sorte suficiente para passar dos 80, isto é, 15 anos a mais do que Hume, os quais foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei 5 livros e completei uma autobiografia ( com algumas páginas a mais do que a de Hume), a ser publicada na Primavera deste ano; Tenho vários outros livros quase concluídos.
E Hume continua: "Eu sou ... um homem de disposições leves, de temperamento controlado, de um humor aberto, social, e alegre, capaz de apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas as minhas paixões."
Aqui me aparto de Hume. Embora tenha apreciado e vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha reais inimizades, não posso dizer (nem o diria qualquer um que me conheça) que sou um homem de disposições leves. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, com entusiasmos violentos, e extrema falta de moderação em todas as minhas paixões.
E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume me parece especialmente verdadeira: "É difícil", escreveu ele, "estar mais desapegado da vida do que estou no presente momento."
Nos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida a partir de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com um profundo senso de conexão em todas suas partes. Isso não significa que eu esteja acabado com a vida. Pelo contrário, sinto-me viva intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me resta, continuar a aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar, se tiver força, e alcançar novos níveis de compreensão e percepção. Isso implicará em ter audácia, clareza e uso da palavra; tentar endireitar as minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para diversão (e até mesmo para algumas bobagens ).
Sinto-me focado e com perspectiva. Não há tempo para nada não essencial. Tenho de me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e meus amigos. Não vou assistir as noticias todas as noites, nem prestar qualquer atenção à política ou argumentos sobre o aquecimento global.
Isto não é indiferença, mas desapego - ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, o aquecimento global, a crescente desigualdade, mas estes não são mais o meu negócio; eles pertencem ao futuro. Alegro-me quando me encontro com os jovens sobredotados - mesmo aquele que fizeram minha biópsia e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Tenho estado cada vez mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, de mortes entre os meus contemporâneos. Minha geração está indo embora, e cada morte, senti como um descolamento, um rasgar de parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas também, não há ninguém como qualquer outra pessoa, nunca. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano, de ser um indivíduo único, para encontrar o seu próprio caminho, para viver sua própria vida, para morrer a sua própria morte.
Não posso fingir que estou sem medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado. Recebi muito, e dei algo em troca. Li, viajei, pensei, escrevi. Tive um intercurso com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.
Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta, o que,de per si, tem sido um enorme privilégio e uma aventura.”
http://www.nytimes.com/2015/02/19/opinion/oliver-sacks-on-learning-he-has-terminal-cancer.html
Oliver Sacks, professor de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, é o autor de muitos livros, incluindo "Tempo de Despertar" e "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu."

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O OPOSTO DE DROGADEPENDÊNCIA NÃO É SOBRIEDADE.

Este ano faz 100 anos desde que as drogas (algumas) foram oficialmente banidas e vimos o desenvolvimento de teorias e práticas de todos os tipos, para se lidar com o problema. Os USA instituiu a “guerra às drogas” e aprendemos ou ouvimos histórias sobre dependências e dependentes, a dependência como doença e os milhares de tratamentos e/ou intervenções que parecem crescer como fungos por toda a parte. Tendo passado a maior parte de minha vida profissional trabalhando exatamente na área, aprendi umas coisas e tive que desaprender outras tantas. Algumas das coisas que me incomodavam profundamente no discurso do “nós bonzinhos que lutamos contra as drogas”,foram:

1-Nunca me senti lutando ou quis lutar contra drogas, pelos seguintes motivos:
a)Como médica, uso “drogas”, que em medicina são chamadas de medicamentos, para aliviar sintomas e promover tratamentos. De que maneira vou querer um mundo sem drogas? Quero sentir a dor de ser cortada feito galinha assada quando e se necessitar de uma cirurgia, porque, dentre as coisas usadas em anestesia, estão os derivados da heroína? Nem morta, Joana! Além de que, e ainda como médica, trato de gente, não de substâncias, as quais aprendi a usar conforme necessário.
b)Drogas são substâncias que não tem vida própria. Ela não vem voando e se insere em nosso organismo. Há que ter um ato volitivo de, buscar a substância e dela fazer uso, o que se chama de comportamento, e, para que um comportamento ocorra, há que existir uma motivação para o mesmo. Substâncias são como ferramentas. Se uso um martelo para, ao invés de pregar um prego na parede, promover uma fratura na minha testa, é culpa do martelo?
c)Quanto mais trabalhava na área, mais evidente ficava que há muito mais coisas sobre as quais é quase que proibido falar sobre o assunto; que a discussão a respeito não é livre, leve e solta como deveria, mas organizada por estruturas político/sociais que comandam a mídia e por conseguinte, a opinião pública. Senão, vejamos a história desde o início, e vou falar da história das drogas aqui nos USA, que é onde consigo material e estatísticas, não disponíveis, por exemplo, no Brasil.

2-Pelo fato de trabalhar com Drogadependentes, e por acreditar que, ao escutar o paciente, de uma forma ou outra ele/ela vai lhe explicar direitinho qual é o problema e a melhor forma de enfrenta-lo, após o que, o que tinha que fazer era transformar a coisa para o medicalês, e, junto com o paciente, desenvolver um plano para enfrenta-lo, tenho um certo horror a modelos “prontos e arrumados”, tipo assim roupa tamanho único, pois embora a ideia seja de que serve para todo mundo, na realidade não cai bem em ninguém.

3-Sou daquelas médicas antigas, que curtiu muito o aprendizado na faculdade (e, parodiando agora esqueci quem, detesto estudar, mas adoro aprender), trago comigo algumas noções básicas que continuam orientando meu pensamento. Uma delas é o conceito do que é e porque acontece uma doença num organismo:
“Doença é um conjunto de sinais e sintomas específicos que afetam um ser vivo, alterando seu estado de equilíbrio. O vocábulo é de origem latina, em que “dolentia” significa “dor, padecimento”. Para que uma doença se desenvolva (sempre que causada por agente externo, como, teoricamente é o caso das drogas dependências), há que se levar em conta: a) Virulência do agente patogênico; b) Estado do hospedeiro; c) Ambiente. Isto significa que, só o agente patogênico (o causador da doença) é apenas 1/3 da equação, ou seja, se o hospedeiro estiver em bom estado e viver num ambiente saudável e propício ao desenvolvimento, os efeitos do agente não serão sentidos ou as consequências serão muito menos sérias. Que o digam os sobreviventes da gripe espanhola, que nem na Espanha começou, que matou 1/3 dos europeus. Sobraram 2/3, incluindo minha vó Linda, que a teve mas sobreviveu, e bem, vindo a falecer com a provecta idade de 104 anos. E que o digam os milhões de jovens que fazem ou fizeram uso de alguma droga e nunca se tornaram dependentes. Ou aqueles que sofreram alguma fratura ou problema de dor, usaram derivados da morfina ou heroína por tempos e, resolvido o problema ou saídos do hospital, nunca mais usaram a coisa.

Isto posto, vamos ao ponto.

Drogas são um tremendo problema e um tremendo bom negócio na vida cá das Américas. Não são sequer problema novo, pois fazem parte da história desde o primeiro dia em que Cristóvão Colombo botou os pés no Novo Mundo, e os índios Taino o presentearam com tabaco. E, em existindo uma droga, existe uma solução para algo e um problema associado e tentativas de resolver o problema. Colombo não fazia a mais remota ideia do que fazer com as folhas recebidas, e conta a lenda que as jogou no mar, mas os marinheiros aprenderam com os índios as delicias do fumar, carregando o hábito de volta para a Europa, e logo esta se tornou um continente de dependentes de nicotina (as más línguas dizem que continua até hoje). Cem anos depois, o tabaco resgatou a primeira colônia inglesa na América (Jamestown, na Virgínia, fundada em 1607), que estava à beira do colapso. Em 1612, John Rolfe (mais conhecido como marido da Pocahontas), plantou tabaco, que foi vendido em Londres com imenso lucro. Daí o povo lá de Jamestown só plantou tabaco, o que os salvou da ruina financeira. Não fosse ele, quem sabe o que teria sido dos USA, ou se teria havido tal país.
Caso isso não bastasse, em 1619, a população masculina de Jamestown recebeu com enorme entusiasmo a chegada ao porto de um navio Inglês carregado de jovens mocinhas, compradas a preço de 120 libras de tabaco cada (mais ou menos 54 Kg), para se tornarem esposas. No mesmo ano, os virginianos também introduziram a escravidão, através da compra de 20 negros de um navio mercante holandês. Pelos 240 anos seguintes, escravidão e tabaco dominariam a sociedade da Virginia. O trabalho escravo ajudou os virginianos expandir, e rapidinho, a produção de tabaco, a partir de £ 60.000, em 1622, a 500.000 libras em 1627, para 1,5 milhões de libras em 1.630. E se pensarmos um pouquinho, não é lá muito diferente do trabalho dos plantadores atuais da planta da coca.

E, falando no citado, aqui o tabaco é um dos chamados 3 GRANDES. Os outros dois são o álcool e a nicotina. Chocado? Provavelmente porque essas 3 drogas são tão largamente usadas em nossa sociedade, que nem os usuários, nem ninguém mais definiria como “dependente”, dentro das fantasias que temos sobre os tais, pessoas que como eu vão feito um zumbi fazer o primeiro café da manhã, no minuto seguinte a rolar fora da cama. O fato é que as diferenças entre as 3 GRANDES, drogas que são legais, e suas primas ilegais é muito mais uma questão histórico cultural do que as qualidades intrínsecas das drogas. Cafeína é mais aditiva do que maconha. Álcool é mais intoxicante que cocaína. Tabaco estraga a saúde do usuário muito mais do que ecstasy. Tal qual qualquer outra droga, álcool, cafeína e tabaco são usados de forma recreacional, sem propósitos médicos, pelo simples fato que fazem os usuários se sentirem melhor (ou para os “oficialmente “dependentes, para não ter os sintomas de abstinência, que os fazem se sentir muito mal).

E a definição de dependência é exatamente essa: a necessidade compulsiva de uso de uma substância.

Com isso não quero dizer ou sequer insinuar que drogas são uma coisa boa ou inerentemente má, porque na realidade, como qualquer coisa, não são nem uma coisa, nem outra, tudo dependendo do uso que fazemos delas. Legais ou ilegais. Heroína, quando usada em anestesia, é um santo achado. Quando usada como droga de rua, é tremenda desgraça.O que quero dizer é que as usamos, quando não por imposição médica, simplesmente porque gostamos, desde a primeira criatura que, mastigando seu cogumelinho ou pedaço de cactos, descobriu que alterava a consciência. Pela sua ação, as drogas alteram a química cerebral e podem, temporariamente, fazer com que gente triste fique alegre e saltitante, doentes se sentirem melhor, cansados reencontrarem energia, tímidos se tornarem bravos, insones acharem seu sono, fracos se sentirem fortes, ansiosos relaxarem e gente muito feia se sentir sexy. Na realidade, as drogas não resolvem nenhum desses problemas, mas os mascaram bem pelo tempo que durar sua ação. E isso é suficiente para fazer com que se continue usando.

Isso, e o fato que são um tremendo negócio, pois os dependentes pagam qualquer coisa para conseguir seu objeto de desejo. O café é hoje o segundo produto mais valioso do mercado, perdendo só para o petróleo, e como essa estatística é anterior à despencada de preço do assim chamado “ouro negro”, vai que de repente virou o primeiro. Uma única companhia, a Starbucks, vende mais de 8 bilhões de dólares, sim, bilhões com bi, de cafezinhos por ano. Os americanos gastam mais de 50 bilhões por ano com cigarros e 100 bilhões com álcool. Comparativamente, o mercado das ilegais é muito menor, mas, exatamente por serem mais difíceis, são muito mais “preciosas”. Cocaína é mais valiosa que ouro, pois 1 grama é vendida a 100 dólares, enquanto que uma grama de ouro está a 25. A maconha é o produto agrícola mais valioso dos USA, produzindo 36 bilhões de dólares por ano, enquanto o milho, segundo colocado, só 26.

Hoje quero falar do tremendo enrosco no qual nos encontramos, porque simplesmente não queremos passar pela dificuldade que é encarar de frente o problema. Como fazemos para reinserir no convívio, milhares, melhor dizendo, milhões de jovens perdidos? Queremos que retornem e tenham vidas plenas ou queremos simplesmente impor nossas crenças? Porque é que eu posso, e uso com gosto, minha droga de escolha, a cafeína, que é mais aditiva que maconha, mas critico seriamente o hippie saudoso que dá sua tragadinha no conforto de seu lar? Pior, também tomo meu bom vinho. É álcool. Intoxica. Cada um de nós tem uma ideia preconcebida do que vem a ser o droga dependente e de como trata-lo ou tratar a situação.

Fomos ensinados a pensar que, o que causa a dependência é a droga. Essa teoria foi concebida em cima de experimentação com ratos, na década de 60, e espalhada por uma organização chamada Partnership for a Drug-free América. Todo o mundo e seu primo, sabe do experimento e/ou viu as fotos. Simples. Bota-se o ratinho numa caixa, sozinho, com duas tijelinhas. Uma é água pura e a outra é água com heroína ou cocaína, e o ratinho fica obcecado com a água drogada. Pronto. Provado que drogas tem o efeito de fazer até o ratinho abrir mão de coisa tão necessária quanto água, para ficar só se drogando.

Acontece que um professor de psicologia, em Vancouver, lá no início dos anos 70, Bruce Alexander, achou a coisa muito esquisita, pensando o seguinte: “Bom, o rato está na gaiola sozinho, sem nada para fazer, deixa ver o que acontece se fizer o experimento um pouco diferente”. E fez o famoso experimento do “Rat Park”, que, resumidamente é o seguinte:
1-A teoria do Alexander era que, as drogas, de per si, não causam dependência, a qual ele atribuía às condições de vida. Numa palestra ao senado canadense, em 2001, disse: “As experiências anteriores, nas quais ratos de laboratório foram mantidos isolados em gaiolas de metal apertadas, amarrados a um aparelho de auto injeção, mostram apenas que " animais severamente afligidos, assim como pessoas com graves dificuldades, vão aliviar sua angústia farmacologicamente, se puderem."
2-O “Rat Park “era uma colônia de casinhas de 8,8m2 (200 vezes o tamanho de uma gaiola padrão de laboratório), na qual foram colocados entre 16 e 20 ratos de ambos os sexos, com abundância de alimentos, rodas e bolas para brincar, e espaço suficiente para acasalamento. Ratos que haviam sido forçados a consumir morfina por 57 dias consecutivos, foram trazidos para a colônia e lhes era dada a escolha entre tomar água pura e água com morfina. A maior parte deles, escolheu a água pura, tão logo tiveram a oportunidade de se misturar com os outros ratinhos.

Apesar disso, é interessante notar que as principais revistas cientificas (Science e Nature), recusaram-se a publicar o experimento que só saiu na revista Psychopharmacology em 1978. A publicação não obteve qualquer resposta e a Universidade (Simon Fraser) retirou os fundos de financiamento.

Um bom paralelo à teoria de Alexandre, foi a guerra do Vietnã, durante a qual, 20% dos soldados americanos se tornou dependente de heroína, causando um pavor generalizado na assim chamada “puritana América”, do que fazer com tantas “falhas morais “quando os pobres coitados retornassem à pátria mãe gentil. O que aconteceu foi que 95% dos soldados dependentes (segundo estudo publicado no Archives of General Psychiatry), simplesmente parou de usar. Muito poucos foram a clínicas de recuperação. Saíram da “gaiola “horrenda e voltaram para a colônia. Não precisavam mais da droga.

Outro, seria a dependência ao jogo, e podem acreditar, é tão destrutiva como qualquer droga, e no caso, ninguém se injetou um maço de cartas de baralho ou chips de roleta. Uma de minhas memórias do que chamo de “visões do inferno”, é a da primeira (e única vez) que fui a Las Vegas e vi, em todo lugar, aquele mundo de velhos em frente às maquininhas de jogo, com um balde de moedas ao lado. Horas jogando, sem conversarem ou trocarem uma palavra com quem estava ao lado. Repetição mecânica de movimentos e rituais.

Todos concordam que tabagismo é uma das coisas mais viciantes que existem, sendo que o “gancho químico “do vício é causado por uma droga chamada nicotina. Vai daí que quando os adesivos de nicotina foram desenvolvidos na década de 1990, houve uma explosão de otimismo, pois o dependente poderia receber todos os “ganchos químicos”, sem os efeitos colaterais, fedidos e mortais, do tabagismo. Eles seriam libertados de seus grilhões! E ai veio o balde de água fria do Gabinete do Cirurgião geral, informando que, apenas 17,7% dos fumantes, eram capazes de abandonar o vício com uso de tais adesivos. Muito, mas muito pouco mesmo, o que, mais uma vez demonstra que, apesar da história dos “ganchos químicos “ser real, é apenas pequena parte de muito maior problema.

Vamos ver algumas estatísticas a respeito da “Guerra às drogas”:

3 em 4 americanos acham que a “guerra às drogas “é uma tremenda falha. (Zogby/Inter-American Dialogue Survey: Public Views Clash with U.S. Policy on Cuba, Immigration, and Drugs. http://www.zogby.com/news/ReadNews.cfm?ID=1568))

Pesquisa com a Associação Nacional dos Chefes de Polícia, mostrou que, 82% deles acha que tal guerra foi e é uma falha (18th Annual National Survey Results of Police Chiefs & Sheriffs.http://www.aphf.org/surveyresults.pdf)

Gastos com Controle de Drogas através de estratégias duras de fiscalização aumentaram em 69,7% nos últimos 9 anos, enquanto gastos com Tratamentos e Prevenção cresceram só 13,9%. Recursos federais para redução de oferta (encarceramento, punição e erradicação) são o dobro dos programas redutivos (prevenção e tratamento). (U.S. Office of National Drug Control Policy. (February 2010). National Drug Control Strategy: FY 2011 Budget Summary. p. 17, Table 3. http://www.whitehousedrugpolicy.gov/publications/policy/11budget/fy11budget.pdf)

Apesar dos USA serem o local de nascimento da “Guerra às Drogas” e de terem algumas das mais duras penalidades a respeito das mesmas, também tem as maiores taxas de consumo de maconha e cocaína do mundo (Degenhardt L, Chiu W-T, Sampson N, Kessler RC, Anthony JC, et al. (July 2008). Toward a Global View of Alcohol, Tobacco, Cannabis, and Cocaine Use: Findings from the WHO World Mental Health Surveys. PLoS Medicine. http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0050141

Nos últimos 40 anos, a Guerra às drogas custou mais de 1 trilhão de dólares, o número de gente encarcerada aumentou 705%, e embora pretos e brancos usem drogas em proporções mais ou menos iguais, tem 10 vezes mais negros presos do que brancos. (http://www.thehouseilivein.org/get-involved/drug-war-today/)

O governo federal dos USA gastou, em 2010, 15 bilhões de dólares na “Guerra às drogas”, ou seja, cerca de 500 dólares por segundo (Jeffrey A. Miron & Kathrine Waldock: "The Budgetary Impact of Drug Prohibition," 2010.)

Embora moradores de bairros desfavorecidos, de bairros com altas concentrações de minorias e de bairros com altas densidades populacionais relataram níveis mais elevados de vendas de drogas, também relataram níveis apenas ligeiramente mais altos de consumo das mesmas, juntamente com níveis mais elevados de dependência. Este resultado indica que misturando a venda de drogas com o uso, de modo que as áreas pobres e de minorias sejam vistas como foco do problema, é completamente errado. A descoberta é baseada em dados coletados em 41 locais, incluindo a cidade e áreas suburbanas (mas não rurais) em todas as regiões dos USA. (http://www.drugsense.org/cms/wodclock)

Ao longo das últimas quatro décadas, os governos (federal e estadual) dos USA, despejaram US $ 1 trilhão em gastos na guerra às drogas, conta paga pelos contribuintes. Infelizmente, esses dólares de impostos foram para o lixo. Em 1980, os Estados Unidos tinham 50.000 pessoas atrás das grades por violações das leis de drogas - agora temos mais de meio milhão. Os EUA são hoje o maior carcereiro do mundo, as drogas continuam a ser amplamente disponíveis e os recursos para prevenção e tratamento são escassos. Não só milhares de milhões de dólares de impostos foram desperdiçados, como também os gastos da guerra às drogas resultaram numa ampla retirada do dinheiro de outros serviços importantes. Dinheiro canalizados para a repressão às drogas significou menos financiamento para crimes mais graves, e que deixou a educação fundamental, saúde, serviços sociais e programas de segurança pública a lutar para operar com financiamentos insuficientes. Estamos trabalhando para mudar as mesmas políticas fracassadas de sempre e investir em programas de tratamento e educação eficazes. Estamos liderando o movimento para acabar com este dreno de nossa economia e para proteger os seus dólares de impostos do desperdício da guerra às drogas. (http://www.drugpolicy.org/wasted-tax-dollars)

Com sua teoria (a qual esposo), Bruce Alexander conseguiu se fazer odiar pelos dois lados da política: pela direita, que acha que dependência é uma falha moral, devido à falta de chinelada, falta de disciplina, puro hedonismo, excesso de festas, e coisas do gênero (se não me creem, procurem se informar de um grupo chamado Tough Love – Amor Exigente, sobre o que, no momento, me recuso a falar, e por isso coloquei um artigo do Washington Post a respeito, no final), e pela esquerda liberal que gosta de achar que a dependência é algo que acontece num cérebro sequestrado pela droga, a qual faz tudo sozinha, independentemente de qualquer outra condição. É perfeitamente contrária à teoria sobre a qual se baseia a tal “Guerra às drogas”, que funciona (apesar de todas as evidências em contrário) em cima do pressuposto que há que se erradicar uma montanha de substâncias químicas porque elas sequestram o cérebro das pessoas e causam dependência.

O problema é que as drogas, de per si, não são o que causa a dependência. Se fossem, não existiria dependência a jogo. Não existiriam dependências emocionais a relacionamentos que fazem tão mal a algumas pessoas. A única coisa que a tal da “guerra às drogas “conseguiu, com exceção de queimar dinheiro e recursos, foi aumentar todos os outros fatores que causam dependências, incluindo, e principalmente, a desconexão de indivíduos a seu grupo e seu ambiente. E quando falo em “desconexão”, falo por exemplo do isolamento sentido, e muitas vezes vivido pelos que sofrem de alguma doença mental (não é à toa que o maior consumo de drogas de toda espécie, de cigarro a heroína, está entre doentes mentais), onde a única maneira que encontram para alívio de seu sofrer, é a auto medicação com seja lá o que acharem. Falo do crescer em extrema pobreza, sem esperanças e sem recursos. Falo da falta de educação para a vida. Falo do não se sentir pertencendo ou fazendo parte. Falo do ser maltratado e desprezado. Falo de crianças que sofreram privações tão severas, que o cérebro “encolheu”.

Cuidar de um dependente (de qualquer coisa) ou alguém com algum distúrbio mental é muito mas muito difícil. É mais simples seguir os conselhos de “amores exigentes” ou de shows televisivos tipo “intervenção” e dizer ao dependente que ou ele/ela tome tento ou cai fora. E isso só piora a dependência. Aliás isso só piora qualquer coisa.

Nós humanos, necessitamos de ligações. Precisamos nos sentir conectados, fazendo parte, tendo turma, trocando toques, ideias, emoções e sonhos. Em gaiolas, solitários e abandonados, não importando se a situação seja real ou imaginária, vamos fazer besteira. E quanto maiores forem os castigos, as ameaças e os abandonos, pior a besteira.

Então, temos que mudar muita coisa, começando com nossas próprias cabeças e corações. O oposto de dependência não é sobriedade, mas sim, conexão.

Na próxima semana vou contar de esperanças que se tornaram belas realidades e como estão funcionando.

LAW ENFORCEMENT AGAINST DRUG PROHIBITION: http://www.leap.cc/

O EXPERIMENTO “RAT PARK” EM QUADRINHOS http://www.stuartmcmillen.com/comics_en/rat-park/#page-1

THE CULT OF PHARMACHOLOGY: HOW AMERICA BECAME THE WORLD’S MOST TROUBLE DRUG CULTURE, Richard DeGranpre, Duke University Press, 2008

THE TROUBLE WITH TOUGH LOVE http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/01/28/AR2006012800062.html

THE WAR WE ARE LOSING, Milton Friedman http://druglibrary.org/special/friedman/war_we_are_losing.htm