Google+ Badge

sábado, 27 de junho de 2015

TRAUMA NA INFANCIA PODE DESTRUIR SUA SAÚDE DÉCADAS DEPOIS DE TER ACONTECIDO, E NÓS ESTAMOS IGNORANDO ISSO.

Este post é tradução direta de um TED talk, cujo link está no final. É uma coisa tão séria e tão absurda, que me pergunto como não se fala mais sobre isso, e quanto tempo levei antes de ter alguma informação a respeito. Mas, como não adianta chorar sobre leite derramado, o que posso fazer é espalhar a informação para quantos mais profissionais da área e leigos em geral, quanto puder. Ajudem e repassem. Temos que falar a respeito, berrar a respeito, fazer o que for possivel e mais um pouco, a respeito. Então, aqui vai:

“Em meados dos anos 90, o CDC (Center for Desease Control- Centro para Contrôle de Doenças) e Kaiser Permanente descobriram uma exposição a um único fator, aumentava drasticamente o risco de desenvolver 7 em cada 10 das principais causas de morte nos Estados Unidos. Em altas doses, ele afeta o desenvolvimento do cérebro, o sistema imunológico, o sistema hormonal, e até mesmo a maneira como nosso DNA é lido e transcrito. Pessoas que estão expostas a doses muito elevadas, têm o triplo de risco de vida de doenças cardíacas e câncer de pulmão e uma diferença de 20 anos na expectativa de vida. E, no entanto, os médicos não são treinados para realizar exames ou tratamentos de rotina. Agora, a exposição que estou falando não é um pesticida ou um produto químico numa embalagem. É o trauma de infância.

Ok. Que tipo de trauma estou falando? Não estou falando de falhar em um teste ou perder um jogo de basquete. Estou falando de ameaças que são tão graves ou generalizada que literalmente penetram na nossa pele e mudam nossa fisiologia: coisas como abuso ou negligência, ou crescer com um dos pais que luta com uma doença mental ou dependência de substâncias.
Por longo tempo, vi essas coisas da maneira que fui treinada para vê-las:ou como um problema social ou como um problema de saúde mental , e só tinha que fazer os encaminhamentos necessários. E então algo aconteceu para me fazer repensar toda minha abordagem. Quando terminei minha residência, queria ir para algum lugar onde me sentisse realmente necessária, algum lugar onde pudesse fazer a diferença. Então, vim trabalhar para o Centro Médico do Pacífico, na Califórnia , um dos melhores hospitais privados no norte da Califórnia, e juntos, abrimos uma clínica em Bayview-Hunters Point, um dos mais pobres e carentes bairros em San Francisco. Antes disso, havia apenas um pediatra em toda Bayview para servir mais de 10.000 crianças, e aí fomos capazes de prestar cuidados de qualidade superior, independentemente da capacidade de pagamento. Foi tão legal. Mudamos as disparidades típicas da saúde: o acesso aos cuidados, as taxas de imunização, as taxas de internação por asma, e superamos todas as expectativas. Nos sentimos muito orgulhosos de nós mesmos.

Mas aí comecei a notar uma tendência preocupante. Um monte de crianças estavam sendo encaminhadas para mim com TDAH ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, mas quando eu fazia uma história e exame físico completos,o que encontrava era que maioria dos pacientes não encaixava neste diagnóstico. A maioria das crianças que estava vendo, tinha experimentado trauma tão grave que parecia que alguma coisa diferente estava acontecendo. De alguma forma, eu estava perdendo algo importante.

Agora, antes de fazer residência, fiz um mestrado em saúde pública, onde me ensinaram que, se você é médico e vê 100 crianças bebendo do mesmo poço, e 98 delas desenvolvem diarréia, você pode ir em frente e escrever prescrições de antibióticos sem parar, ou pode dizer: "que diabos há neste poço?" Então comecei a ler tudo o que podia sobre como a exposição à adversidade afeta os cérebros e corpos de crianças em desenvolvimento.
E então um dia, meu colega entrou no escritório, e disse, "Dr. Burke, você viu isso?" Em sua mão, uma cópia de um estudo de pesquisa chamado Experiências Adversas da Infância. Esse dia mudou minha prática clínica e, finalmente, minha carreira.

O Estudo de Experiências Adversas na Infância é algo que todo mundo precisa conhecer. Foi feito pelos doutores Vince Felitti (Kaiser) e Bob Anda (CDC), no qual exploraram 17.500 adultos a respeito de sua história de exposição ao que eles chamaram de "experiências adversas na infância"(ACEs). As questões incluiram abuso físico, emocional e/ou sexual; negligência física ou emocional; doença (s) mental, dependência de substâncias, encarceramento, separação ou divórcio dos pais e violência doméstica. Para cada sim, há um ponto na escala ACE. Daí correlacionaram essas pontuações com os resultados de saúde. O que descobriram foi surpreendente: 1- ACEs são incrivelmente comuns. 67% da população tinha pelo menos um ACE, e 12,6% (1 em cada 8), tiveram quatro ou mais ACEs. 2- Havia uma relação dose-resposta entre ACEs e resultados de saúde: maior a pontuação ACE, pior os resultados de saúde. Para uma pessoa com uma pontuação ACE de quatro ou mais, o risco relativo de doença pulmonar obstrutiva crônica foi duas vezes e meia a mais do que alguém com uma pontuação ACE de zero. No caso da hepatite, também foi duas vezes e meia. Para a depressão, era quatro vezes e meia. Para suicídio, era 12 vezes. Uma pessoa com uma pontuação ACE de sete ou mais tinha o triplo de risco de vida de câncer de pulmão e três vezes e meia o risco de doença isquêmica do coração, o assassino número um nos Estados Unidos da América.

O pessoal começou a olhar esses dados e dizer: “Bem, é claro que isso vai arruinar a sua saúde. Isso não é ciência. Este é apenas mau comportamento”. Ou, "Vamos lá. Você teve uma infância difícil, claro que está mais propenso a beber e fumar e fazer todas essas coisas."

Acontece que é exatamente onde a ciência entra. Agora, entendemos melhor do que jamais pudemos antes, como a exposição à adversidade precoce afeta os cérebros e corpos de crianças em desenvolvimento. Ela afeta áreas como o núcleo accumbens, o centro de prazer e recompensa do cérebro que está envolvido na dependência de substâncias. Ela inibe o córtex pré-frontal, o qual é necessário para o controle de impulsos e para funções executivas como julgamento, e é tmbém uma área crítica para o aprendizado. E em exames de ressonância magnética, vemos diferenças mensuráveis na amígdala, centro de resposta de medo do cérebro. Portanto, há razões neurológicos reais do porque as pessoas expostas a altas doses de adversidade são mais propensas a se envolver em comportamentos de alto risco, e isso é importante saber.

Mas acontece que, mesmo se você não se envolver em qualquer comportamento de alto risco, continua mais propenso a desenvolver doenças cardíacas ou câncer. A razão para isto tem a ver com o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o sistema de resposta ao estresse do corpo e cérebro e que rege nossa resposta de luta ou fuga. Como funciona? Bem, imagine que você está andando na floresta e você vê um urso. Imediatamente, o hipotálamo envia um sinal para a pituitária, que envia um sinal para a sua glândula adrenal que diz: "hormônios do estresse cortisol! Adrenalina! Avante! E seu coração começa a bater forte, suas pupilas dilatam, suas vias respiratórias se abrem, e você está pronto para lutar com o urso ou fugir dele. E isso é maravilhoso se você estiver em uma floresta na frente de um urso.

Mas o problema é quando o urso chega em casa todas as noites, e este sistema é ativado, uma e outra e outra vez, e ele deixa de ser adaptável, ou salva-vidas, e vira mal adaptado, ou prejudiciais à saúde. As crianças são especialmente sensíveis a essa ativação repetida do stress, porque seus cérebros e corpos estão apenas se desenvolvendo. Altas doses de adversidade não só afetam a estrutura e função do cérebro, que por sua vez, afeta o sistema imunológico em desenvolvimento, o que acaba complicando o desenvolvimento dos sistemas hormonais e até mesmo a maneira como o DNA é lido e transcrito.

Então, para mim, esta informação jogou meu treinamento pela janela, porque quando entendemos o mecanismo de uma doença, quando sabemos não só que vias são interrompidas, mas como, é nosso dever, como médicos, usar esta ciência para prevenção e tratamento. Isso é o que nós fazemos.

Assim, em San Francisco, criamos o Centro de Bem-Estar da Juventude para prevenir e curar os impactos das ACEs e estresse tóxico. Começamos simplesmente com rastreio de rotina de cada uma de nossas crianças em seus exames físicos regulares, porque agora sei que, se meu paciente tem uma pontuação ACE de 4, ele/ela tem duas vezes e meia mais chances de desenvolver hepatite ou DPOC, quatro vezes e meia de probabilidade aumentada de tornar-se deprimido, e 12 vezes mais probabilidade de tentar tirar sua própria vida, quando comparados com um paciente com zero ACEs. Para os nossos pacientes que testam positivo, temos uma equipe de tratamento multidisciplinar, que trabalha para reduzir a dose de adversidade e tratar os sintomas usando as melhores práticas, incluindo visitas e cuidados domiciliares, coordenação dos tratamentos dos vários membros da família, atenção à saúde mental, nutrição, intervenções holísticas, e sim, medicação quando necessário. Mas também é preciso educar os pais sobre os impactos das ACEs e estresse tóxico, da mesma forma que você faria para cobrir as tomadas elétricas, ou envenenamento por chumbo, e adequar o cuidado de nossos pacientes asmáticos e diabéticos de uma forma que entendam que eles podem precisar de um tratamento mais agressivo , tendo em conta as alterações de seus sitemas hormonal e imunológico.

Então, outra coisa que aconteceu quando compreendi esta ciência, é que queria gritar aos quatro ventos, porque este não era apenas um problema para as crianças em Bayview. Imaginei que, no minuto que todo mundo ouvisse falar nisso, se tornaria exame de rotina, com equipes de tratamento multi-disciplinares em todas as clinicas e haveria uma corrida para desenvolver o protocolos de tratamento clínico mais eficazes. Só que nada disso aconteceu, o que foi um enorme aprendizado para mim. O que eu tinha pensado simplesmente como melhor prática clínica agora entendo como um movimento. Nas palavras do Dr. Robert Block, ex-presidente da Academia Americana de Pediatria, "experiências adversas na infância são a maior ameaça à saúde pública para a qual não temos solução ou protocolo em nossa nação, hoje." E para muita gente, essa é uma perspectiva aterrorizante. O alcance ea escala do problema parecem tão grandes, que nos sentimos esmagados só de pensar como podemos abordá-lo.

Mas, para mim, isso é realmente onde a esperança mora, porque quando temos o enquadramento adequado, quando reconhecemos a coisa como uma crise de saúde pública, então podemos começar a utilizar o kit de ferramentas mais apropiado para chegar a soluções. Do tabaco à contaminação por chumbo, ao HIV / SIDA, os Estados Unidos realmente tem um forte histórico no endereçamento de problemas de saúde pública, mas replicar esses sucessos com ACEs e estresse tóxico vai necessitar de determinação e empenho, e quando olho para o que tem sido a resposta da nação até agora, me pergunto, por que não tomamos isso mais a sério?

No começo, pensei que marginalizavamos a questão porque não se aplicava a nós. Era um problema para as crianças de bairros pobres, negros e latinos. O que é estranho, porque os dados não suportam isso, pois o estudo ACEs original foi feito com uma população 70% branca e 70% com curso superior. Mas então, quanto mais falava com as pessoas, mais entendia que estava vendo o problema pelo avesso. Se perguntar quem, nesta sala, cresceu com um membro da família que sofria de doença mental, aposto que algumas mãos se levantariam. E se perguntarsse quantas pessoas tiveram um pai que talvez bebesse demais, ou que realmente acreditava que, se você poupar a vara, você estrague a criança, aposto que mais algumas mãos se levantariam. Mesmo nesta sala, esta é uma questão que toca muitos de nós, e eu estou começando a acreditar que nós marginalizamos a questão, porque se aplica a nós. Talvez seja mais fácil de ver as coisas em outros lugares, longe da gente. Não queremos encarar a coisa, preferimos ficar doentes.

Felizmente, os avanços científicos e, francamente, as realidades econômicas vão tornar essa opção cada dia menos viável. A ciência é clara: a adversidade precoce afeta drasticamente a saúde de toda uma vida. Hoje, estamos começando a entender como interromper a progressão da adversidade precoce, da doença e morte prematura, e em 30 anos a partir de agora, a criança que tem uma pontuação alta no ACE e cujos sintomas comportamentais passam despercebidos, cuja gestão da asma asma não está correlacionada com o resto dos problemas e que passa a desenvolver pressão alta e doenças cardíacas ou câncer precoce, vai ser tão anômala como uma mortalidade de seis meses a partir do diagnóstico de HIV / AIDS hoje. As pessoas vão olhar para essa situação e dizer: "O que diabos aconteceu lá?"

A única coisa mais importante que nós precisamos hoje é a coragem de olhar o problema na cara e dizer, isso é real e isso pode acontecer com todos nós. Eu acredito que nós somos o movimento.”

Nadine Burke Harris   clique aqui

THE ADVERSE CHILDHOOD EXPERIENCES STUDY clique aqui

CALCULADOR ACE EM ESPANHOL E PDF PODE BAIXAR clique aqui

sábado, 23 de maio de 2015

COMO A GENTE SE SENTE TENDO ANSIEDADE

Como usualmente é muito difícil verbalizar o que e como se sente, a fotografa Katie Crawford decidiu mostrar. Em uma deslumbrante série de auto-retratos intitulada "Meu coração ansioso" ,Crawford captura como se sente ao sofrer de transtorno de ansiedade generalizada e depressão - duas condições que tem desde criança.

“Criei o projeto como uma maneira de me expressar, como me sinto como em minha experiência. Eu sei que pode não ser específico para cada pessoa, mas  espero que  crie a oportunidade de abrir um diálogo entre aqueles que sofrem com isso e aqueles que nunca entenderam . Eu quero as fotografias e os seus escritos emparelhados para começar a expressar a constante e esmagadora  presença da ansiedade. Nem sempre é terrível, nem sempre é forte e nem sempre é tão intensa, mas está  sempre por perto”.

“Quero que as pessoas que sofrem de ansiedade possam ser capazes de usar estas imagens como  referência, se precisarem. Há um equívoco  no qual  a maioria acredita:  que as pessoas que sofrem de ansiedade são anti-sociais, impacientes ou  por demais dramáticas. Não são. O que acontece é que processam tudo à sua volta de forma tão intensa que  não conseguem  lidar com um monte de perguntas,  pessoas ou informações  de uma vez só. E eu acho que certas imagens expressam exatamente isso. Ansiedade é quando você sente tudo ao mesmo tempo".

"Eu quero ajudar a acabar com o estigma de que a doença mental não é a mesma coisa que a doença física. Assim como com a doença física, há dias que são mais leves. Há dias em que alguém com dor lombar crônica não está estremecendo a cada passo, mas há os dias em que a dor é quase paralisante."

“"Eu quero que as pessoas entendam que os medos são construídos em mentiras em que acreditamos. Você tem que entender qual é o problema para saber como lidar com ele. O medo não pode controlar sua vida. Há tantas pessoas que têm esta doença, e eu quero expo-la  por aquilo que ela é. Quero que as pessoas  saibam que não estão sozinhas e que este é um transtorno real. "

Foi o que disse Crawford ao “The Huffington Post”, que completa dizendo:

“Os retratos da artista são uma explicação benvinda em um mundo onde a doença mental é tão freqüentemente mal compreendida. Apenas 25% das pessoas com problemas de saúde mental sentem que os outros entendem sua condição, de acordo com o Centers for Disease Control. Crawford disse que espera que as imagens tragam à tona o que ela e tantos outros lidam diariamente.”

Além da beleza intrínseca das fotos, cá estou eu fazendo minha parte para terminar o estigma, traduzindo e postando a coisa toda. Todo mundo pode ajudar, espalhando.


1
Prisioneira de minha própria mente. Instigadora de meus próprios pensamentos. Quanto mais penso, pior fica. Quanto menos eu acho, pior fica. Respire. Apenas respire. Deixe ir. Vai aliviar em breve.

2
Um copo de água não é pesado. É quase estúpido quando você tem que escolher um. Mas e se você não poderia esvaziá-lo ou larga-lo? O que aconteceria se você tivesse que suportar o peso por dias ... meses ... anos? O peso não muda, mas a carga sim. Em um certo ponto, você não consegue se lembrar como a luz passava por ele. Às vezes, precisa-se de toda a força possível para fingir que o copo não está lá. E, às vezes, você apenas tem que deixá-lo cair.

3
Minha cabeça está cheia de hélio. O foco está desaparecendo. Só uma pequena decisão a tomar. Só uma pergunta fácil de responder. Minha mente não está me deixando. É como se um milhar de circuitos estivessem se cruzando, todos ao mesmo tempo.

4
Eu estava com medo de dormir e sentindo o mais cru dos pânicos, na mais completa escuridão. Na verdade, a completa escuridão não era assustadora. Foi um pouco de luz que lançou uma sombra.... Uma sombra aterrorizante.

5
Eles continuam me dizendo para respirar. Eu posso sentir meu peito se movendo para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Mas por que sinto que estou sufocando? Coloco minha mão debaixo do meu nariz para me certificar que há ar. Eu ainda não posso respirar.

6
Sensação de dormência. Quão contraditória. Quão apropriada. Você pode realmente sentir dormência? Ou é a incapacidade de sentir? Estou tão acostumada a estar dormente que a igualo a um sentimento real?

7
É estranho - na boca do estômago. É como quando você está nadando e quer colocar os pés para baixo, mas a água é mais profunda do que você pensou. Você não pode tocar o fundo e seu coração quase para de bater.

8
Corta tão fundo que é como se nunca pudesse curar. Dor tão real, é quase insuportável. Tornei-me isto ... este corte, essa ferida. Tudo que sei é isso mesmo dor; profundo suspiro, olhos vazios, com as mãos trêmulas. Se é tão doloroso, por que deixá-lo continuar? A menos que ... talvez seja tudo o que você saiba.

9
Tenho medo de viver e tenho medo de morrer. Que forma de existir!

1
Não importa o quanto resista, sempre estará aqui mesmo desesperada para me abraçar, me cobrir, me arrebentar. Cada dia eu luto contra isso: você não é boa para mim e nunca vai ser., mas lá está ela esperando por mim quando eu acordo e ansiosa para me segurar enquanto durmo. Ela tira o meu fôlego. Ela me deixa sem palavras.

1
Você foi criada por mim e para mim. Você foi criada para minha reclusão. Você foi criada por uma defesa venenosa. Você é feita de medos e de mentiras. Medo de promessas unilaterais e de perder a confiança tão raramente dada. Você foi formando toda a minha vida. Mais forte e mais forte.

1
 Depressão é quando você não consegue sentir nada. Ansiedade é quando você sente demais. Ter ambos é uma guerra constante dentro de sua própria mente. Ter ambos significa jamais vencer.

KATIE CRAWFORD

segunda-feira, 18 de maio de 2015

25 COISAS PARA AMAR NAS PESSOAS COM DISTÚRBIOS DA ATENÇÃO

E eis que retomo as séries "Neuropsiquiatria em quadrinhos". Desenvolvi em cima dos trabalhos do Dr. Edward Hallowell, ele mesmo portador do distúrbio da atenção e de dislexia, hoje a maior autoridade mundial no assunto.
Uma dica aos pais e professores: nunca defina a criança pelo distúrbio que apresenta. Ao invéz de dizer: "Ele é esquizofrenico, ela é diabética, nós somos ansiosos, vós sois bipolares, eles são hiperativos... diga: Ele tem esquizofrenia, ela tem diabetes, nós sofremos de ansiedade, vós tendes distúrbio bipolar, eles tem déficit de atenção.
Faz uma enorme diferença SER e TER. Se sou, o distúrbio me define, nada posso fazer a respeito.
Se tenho, é algo com o qual posso lidar.
Ninguém diz "Sou olhos azuis"ou "Sou cabelos castanhos". Dizemos "tenho". Por que? Porque se quiser, boto lente de contacto e passo a ter olhos negros como asa de graúna, ou pintar os cabelos e virar loira platinada.
Que tal aplicar o mesmo princípio aos nossos problemas?
E vamos aos quadrinhos.































quinta-feira, 14 de maio de 2015

AS ÚNICAS COISAS QUE PODEMOS CONTROLAR NA VIDA.

Não sei quanto a vocês, mas volta e meia minha vida complica com gosto. É muita coisa para gerenciar: emprego, casa, família, comida saudável, exercícios, yoga, meditação, exercitar cachorros, alimentar os animais, escovar os mesmos, ter tempo para jogar conversa fora com amigos, comparecer em coquetéis relacionados a trabalho (detesto), desenvolver as atividades de voluntariado (adoro), pagar contas, achar um tempinho para o “dolce far niente”, enfim, o básico da vida moderna.

 Isso tudo, para alguém como eu que não tem a menor vocação para gerente de coisa alguma, e cujo sonho de consumo era ter um mordomo inglês chamado James, que me acordasse às 7:30 da manhã, com uma bandeja com um belo cappuccino e dissesse: “Good morning madam. It is a gorgeous day! ”, após o que, tomado meu cappuccino, virava na cama e o mandava plantar coquinhos. Acredito que o viver seja um exercício em ironia, posto que casei com um inglês e tenho um neto chamado James.

Como todo o resto de minha geração, cresci acreditando que, se fizesse tudo direitinho, me esforçasse bastante e, dentro do possível, seguisse as regras, tudo daria certo, coisa que começou a se mostrar inviável no comecinho da adolescência, quando meu corpo começou a ter mudanças as quais, não só odiei, mas sobre as quais não tinha qualquer controle. Veja o caso dos pés. Tinha a impressão que, quando dobrava uma esquina, eles chegavam lá muito antes do resto de mim. Quando a moda eram curvas, era reta como tábua de passar roupa, e, ao ficar feliz com a primeira delas, eis que Twiggy entra na moda. Não bastasse a retidão do corpo, cabelos tão lisos quanto, e loiros. E dá-lhe a fazer touca nos meus castanhos e ondulados. Muito ondulados. Pelo menos, me dizia eu, nos momentos de inveja crassa, você tem olhos azuis. Grande vantagem, me respondia uma vozinha interior, você tem fotofobia e está de óculos escuros todo o tempo.

Lá pelos 20 anos, intelectual que queria ser, melhor dizendo, achava que deveria ser, eis que começo o Ulysses, do James Joyce, e depois de 5 anos, nunca tendo conseguido passar da página 36, devido a cair em sono profundo, ter que admitir, só para mim mesma, só agora confessando, que acho a obra prima da literatura universal a coisa mais chata que já vi na vida, pior que discurso de assessor na Assembleia da ONU.

E finalmente, eis que viro neurologista e psiquiatra, e para mal de meus pecados, aprendo a duras penas que, faça eu o que fizer, a última e definitiva palavra é do paciente. É ele/ela que vai decidir se, quanto e como vai melhorar ou se curar. Meu trabalho é organizar e apresentar as possibilidades.

E aí, venho morar na terra de tio Sam, onde controle parece ser a palavra operativa para tudo.

As pessoas acham que devem, e podem controlar todos os aspectos da vida. Desde como estar preparado para tempo inclemente (o que gostei, nunca achei na vida que teria um kit desastre, pronto e revisto duas vezes ao ano), até exatamente como a vida vai se apresentar nos próximos 50 anos.

E aí, a porca torce o rabo, a vaca vai para o brejo, uma borboleta bate as asas em Tóquio e temos um terremoto em Los Angeles, e nossa casa de cartas vem abaixo, porque ninguém aprendeu que a vida é a própria teoria do Caos em funcionamento, e que a única coisa sobre a qual temos algum controle, é a nossa reação ao que acontece, muito raramente aos acontecimentos em si.

Todos queremos felicidade e sucesso, e nem paramos para pensar que são duas coisas para as quais temos que definir ou dar nosso próprio significado.
Para Winston Churchill, “sucesso é ir de uma falha a outra, sem perder o entusiasmo”. Para o general Patton, “sucesso é sua capacidade de recuperação quando você chega no fundo do poço”. Já Mark Twain acreditava que, para ter sucesso na vida, haveria que ter 2 coisas: ignorância e confiança.
Minha definição preferida, vem de Bessie Anderson Stanley, que é a seguinte:
“Conseguiu sucesso aquele que viveu bem, riu frequentemente, e muito amou;
Aquele que teve a confiança das mulheres puras, o respeito de homens inteligentes e o amor das criancinhas;
Quem preencheu o seu nicho e cumpriu sua tarefa;
Aquele que nunca deixou de apreciar a beleza da Terra ou deixou de expressá-la;
Quem deixou o mundo melhor do que encontrou,
Quer por ter plantado uma flor, feito um poema perfeito, ou ter resgatado uma alma;
Quem sempre viu o melhor nos outros e deu-lhes o melhor que tinha;
Aquele cuja vida foi uma inspiração;
E cuja memória será uma bênção ".

Felicidade e sucesso, apesar de terem que ser definidos por cada um de nós, tem muito a ver entre si, e a maioria dos estudos na área tem demonstrado que é a felicidade que leva ao sucesso e não vice-versa.
Tomamos milhões de pequenas decisões o tempo todo, e o resultado de cada uma é positivo, negativo ou neutro. Quanto mais decisões positivas e menos negativas fazemos, melhor. Simples: escovar os dentes 3 vezes ao dia, comer comida saudável, exercitar-se regularmente, são alguns exemplos de ações que nos fazem sentir bem e nos aproximam de nossas metas, apesar dos esforços que elas implicam.

Já, decisões negativas, tipo não escovar os dentes, entupir-se de doces, não fazer exercícios, dificulta o alcance das metas porque essas decisões não nos fazem sentir bons, poderosos ou confiantes. São decisões que mais tiram do que dão, pois interferem com nossos níveis de energia, destroem nossa motivação e embaçam nosso foco. Lembra a culpa/remorso que sentiu depois que se estufou com o terceiro pedaço de bolo de chocolate exatamente antes de uma entrevista importante porque estava mais preocupado com o desconforto do estufamento, do que com o que estava acontecendo no momento? Ou quando comprou aquele sapato maravilhoso para a festa, mas que não ajustava perfeitamente no seu pé, e passou a festa inteira sem poder curtir ou dançar porque o raio da lindeza incomodava? Pois é.

Embora fazer escolhas saudáveis possa parecer mais difícil, a vantagem acaba sendo enorme, e é surpreendente como essas escolhas acabam se tornando muito mais fáceis, tão logo o primeiro esforço seja feito. Então para de se preocupar com o que não pode controlar e comece a aprender como dominar o que pode.

Cat Goldber, neuromarketeira (tradução besta minha de “neuromarketer” e nem o Google tem a tradução. De qualquer forma, NEUROMARKETING é um novo campo de pesquisa de marketing no qual são estudadas as respostas cognitivas, afetivas e sensório-motoras dos consumidores a estímulos de marketing.). Como dizia, a citada veio com a ideia de COMO SE TORNAR SENHOR DA PRÓPRIA VIDA EM 7 SIMPLES PASSOS, que reproduzo abaixo. (E aqui registro minha mais profunda inveja desse pessoal que trabalha em marketing e que tem recursos disponíveis, falo de dinheiro, em muito maior quantidade que todos os pesquisadores de laboratórios do universo). Registrada, vamos ao que interessa:

11- INSPIRE, EXPIRE, REPITA
A maioria das pessoas sequer pensa sobre a sua respiração, a qual obviamente é importante, mas também o é a capacidade de se concentrar nela. Sentir seu peito expandir quando inala, e relaxado quando expira. A respiração é a base e a forma de acalmar pensamentos que se atropelam. Assim que lhe acontecer algo desagradável, basta tomar algumas respirações profundas e se concentrar não em como a situação é horrível, mas na sua respiração. Quando se concentrar em sua respiração, conte "um" quando inala, "dois" quando expira. Quando chegar a 10, comece tudo de novo. Vai começar a se sentir melhor imediatamente. (Lembra de mãe, vó, os mais velhos lhe dizendo que antes de fazer qualquer coisa contasse até 10? Brilhante ideia).

22-CONVERSE COM VOCÊ MESMO
Todos temos vozes em nossas cabeças, vozes essas que podem ser bem críticas e atrapalhar nossa felicidade e sucesso. Conte as vezes que você costuma entrar em conversas internas negativas durante o dia. Vai ficar surpreso com o quanto se critica. Troque por declarações encorajadoras, e sua atitude vai começar a mudar. Tente falar para si mesmo com compaixão. Por exemplo, em vez de dizer que você não é bom o suficiente, lembre-se que você é digno de amor e atenção, ou que não há problema em cometer erros, pois todos nós o fazemos!

33-SEJA GRATO
Se praticar gratidão diariamente, sua felicidade e produtividade aumentarão. Cultivar a gratidão nos treina a concentrar na esperança, a permanecer inspirados, e a ser otimistas, dando-nos a coragem e a resiliência para perseverar em face de contratempos, além nos colocar em excelente estado de espirito.  

4
4-TORNE-SE FLUENTE EM LINGUAGEM CORPORAL
De acordo com a neurocientista Amy Cuddy, você pode demonstrar poder e confiança simplesmente mudando sua postura corporal, por exemplo, adotando uma postura “poderosa”, com os braços nos quadris e pés bem plantados no chão e um pouco afastados, o que faz com que ocupe mais espaço, o que por sua vez aumenta a testosterona e diminui o hormônio do estresse (cortisol). O resultado? Esta "pose de poder" vai fazer com que se sinta mais confiante. Pense nisso antes de se reunir com um cliente potencial, ir a uma entrevista de trabalho, ou até mesmo antes de sair de casa.

55-DESENVOLVA APTIDÃO FÍSICA E MENTAL
A autora acha que tem suas melhores ideias quando está naquela esteira elíptica. Segundo ela, exercitar-se é a chance que ela tem de ouvir música e pensar a respeito de nada. Já, para mim, é andando à toa. O fato é que não há qualquer necessidade de ir à academia de ginástica, é só pegar 20 minutos do dia, tirar o traseiro da cadeira e mexer-se. O movimento ajuda a liberar a mente e corpo de formas a ter mais acesso a nossos potenciais criativos. Há vários estudos demonstrando que o simples andar aumenta a criatividade. Movimento ajuda na criatividade e aumenta o foco. Treinar o cérebro é tão fácil quanto importante. Se joga Sudoku ou faz palavras cruzadas, ou subscreve o app Lumosity, seu cérebro vai sentir a diferença. Benefício semelhante é dado pela meditação. Apenas 20 a 30 minutos aumentam o foco, reduzem o stress e ansiedade, e podem até mesmo diminuir dores físicas.

6-FIQUE ESPERTO COM O QUE COME
Mesmo que seja muito gostoso, junk food é um desastre, tornando corpo e mente lerdos e tristes.  Consumir muito açúcar tem sido associado a todos os tipos de condições médicas (incluindo síndrome metabólica e doença cardiovascular), para não mencionar mudanças de humor e “esquecimentos” que matam a produtividade. Além disso, já foi demonstrado que alimentos processados agravam, ou até mesmo causam, doenças crônicas como diabetes, obesidade e até câncer de mama. Correções simples, como ter frutas à mão, nos ajudam a fazer a escolha mais saudável quando estamos esgotados e com fome e loucos para ingerir qualquer coisa. Fácil de fazer, convenientes para transportar, potinhos de frutas são deliciosos e nutritivos. (Fala sério, quanto tempo você gasta para colocar meia dúzia de morangos e uma pera num tupperware?)

7-DORME, CRIATURA
Sono é fundamental para foco, concentração, trabalho e desempenho acadêmico, mantem o apetite sob controle, e mais uma série de outros resultados positivos para a saúde. Para dormir bem, há necessidade de rotina. Se seu cérebro não consegue se acalmar, enquanto está tentando dormir, você pode dizer a si mesmo: "Estou orgulhoso do trabalho que realizei hoje, vou deixar meu cérebro e corpo descansar agora." Ou tente outras técnicas de relaxamento, incluindo cortes na ingesta de álcool pois quem bebe mais dorme menos.

3 DICAS PARA FACILITAR O CORTE DE MAUS HÁBITOS E PASSAR A VIVER MELHOR A VIDA:

1-VISUALIZE
Seja lá o que for que você queira fazer, você precisa se ver fazendo a coisa. Para a maioria de nós, o trabalho que fazemos enquanto procrastinamos é provavelmente o trabalho que devemos fazer para o resto de nossas vidas. Pratique visualizando este conceito com os olhos fechados por alguns segundos: Onde você está trabalhando? Como é o local? Qual é a temperatura? Como é a iluminação? Como você se sente? Você está tomando café ou água? Que horas são? Quanto mais sentidos envolver, melhor. Mantenha-se imaginando isso, a fim de aumentar a probabilidade dessas visões tornarem-se realidade.

2- CREIA
Há que se acreditar que já temos tudo o que precisamos para ser bem-sucedidos. Lembre-se: Você não precisa de dinheiro para experimentar uma ideia. Há uma abundância de formas livre e de baixo custo para começar com todos os tipos de projeto, usando as mídias sociais e aplicativos de smartphones para fazer uso de sites de angariação de fundos. E quando se trata de ter a coragem e o espirito de “vamos em frente” para começar, bem, isso é algo que você já tem aos montes.

3- FALE
Fale sobre o que você estiver fazendo onde quer que vá. Você não vai acreditar na quantidade de gente disposta a ajudar. Seja qual for a dor que você está curando ou o problema que está resolvendo ou o projeto que está lançando, compartilhe seus conhecimentos e experiências com todos que possam deles se beneficiar. Quando tiver ajudado tantas pessoas quanto possível, essas pessoas vão se conectar a todos os tipos de recursos, tudo o que você precisa para começar. Basta deixar acontecer, e sorrir tão frequentemente quanto possível.

Acho que sei o que você está pensando. Deve ser na linha de como pensava há anos atrás: que isso é fácil demais, que isso é coisa de americano, que a vida é muito mais complicada, terrível e difícil do que isso, se fosse tão fácil todo mundo fazia, que provavelmente a autora não passou por metade dos horrores pelos quais você passou na vida e não tem ideia do que está dizendo, enfim, essas coisas.

Entendo perfeitamente. Pensava igualzinho.

Aí, vim fazer meu primeiro fellowship aqui nos USA e, curiosa que sou, acabei fazendo o segundo, no Centro de Psiquiatria Biológica na Duke University. Eu, que achava que psiquiatria era a coisa mais besta já inventada no campo médico. Eu, neurologista de alma, apaixonada por um neurônio, vendo o mundo a partir da rarefeita área do espaço entre as duas orelhas. E comecei a aprender o básico das terapias cognitivas. E voltei ao Brasil. E comecei a dar aulas de Neurofisiologia numa Faculdade de Psicologia em São Paulo. Pois num belo dia, tomando meu lanchinho na sala dos professores, começou uma conversa sobre terapias, e comecei a dar meus palpites a respeito da terapia cognitiva. Um dos professores, que era terapeuta humanista, e na época eu sequer sabia o que era isso, me perguntou porque gostava tanto das terapias cognitivas. Respondi: porque funcionam. Pois o homem ficou muito bravo, dizendo que era isso que os americanos estavam fazendo para estragar o processo do autoconhecimento, a beleza da busca de sentido, e mais um monte de coisas que nem me lembro. Mas o que lembro bem foi sua saída da sala, bufando e berrando: “Porque funciona! Isso é lá coisa que se diga a respeito de terapia? ”

Pois prezado senhor, é sim. E quanto mais velha fico, mais gosto de coisas que “funcionam”, ou como dizia meu avô, “qualquer conhecimento que não tiver aplicação na vida, é perfeitamente inútil. ”
Por isso mesmo estou fazendo mais um Mestrado, desta vez em Psicologia Positiva. Quero funcionar melhor. Ou o melhor possível, e se der para ajudar alguém mais no processo, vamos em frente que atrás vem gente, ou como dizia Adhemar de Barros: “Fé em Deus e pé na taboa. ”







segunda-feira, 11 de maio de 2015

DICIONÁRIO DA PSIQUÊ: MAMMA MIA QUANTA BOBAGEM A GENTE DIZ



Estava revendo os grandes que mudaram a história da psiquiatria, e eis que me deparo com Giovanni Jervis, psiquiatra italiano, muito pouco conhecido no resto do mundo, embora tenha colaborado com De Martino na definição e trabalhos sobre Tarantismo e com Basaglia para a transformação dos hospitais psiquiatricos. Além do conhecimento e rigor científico, Dr. Giovanni tinha um lado gozador de bom tamanho: adorava parodiar os colegas que utilizavam de forma acrítica, termos pseudocientíficos e totalmente inadequados, tais como “elicitar”, que é uma transposição sem sentido do inglês “elicitation”e que significa “provocar reações”. Ou “desordem”ao invés de “distúrbio”, de novo do inglês “disorder”. Sua mensagem era que,a precisão na linguagem é a marca da clareza no pensamento.
E o que é que nós fazemos? Utilizamos termos técnicos de maneira tão imprópria, que não só mudamos a semântica, como tornamos a ideia vaga e confusa.

Quer exemplos? A definição dos papéis profissionais de psicologo, psicoterapeuta, psicoanalista e psiquiatra. Muita gente utiliza as 4 locuções como sinônimo de “espremedor de cérebros”, diretamente traduzido do ingles “shrink”, embora cada coisa seja uma atividade distinta.

PSICOLOGO: Especialista do comportamento que opera em diversas áreas, muitas vêzes não clinica. O psicologo do trabalho opera na gestão,seleção e formação de pessoal. O psicologo social é um facilitador das relações na comunidade, escola ou prisão. Psicologos jurídicos fazem perícias e consultoria em tribunais.

PSICOTERAPEUTA: Psicologos ou psiquiatras especializados na clínica dos distúrbios da personalidade e saúde mental, aplicando técninas específicas dependendo da teoria que seguem. Assim, há psicoterapeutas comportamentais, cognitivos, da gestalt, humanistas, etc...

PSICOANALISTA: Psicoterapeuta especializado na teoria psicoanalítica, inventada por Sigmund Freud. Há os freudianos mais ortodoxos que caixa de Maizena, há os Lacanianos e algumas outras sub especialidades.

PSIQUIATRA: É o médico especializado na cura dos Distúrbios Mentais, geralmente com visão mais biológica, sendo o único que pode receitar medicamentos.

Um dos termos chave na área psi é PSICOSE, termo que define qualquer doença mental, do grego “psychosis”que significa “condição anormal da mente”, e caracteriza-se por distorções na percepção da vida real do indivíduo.  Tal têrmo é usadissimo como sinônimo de “obsessão”, principalmente pela mídia (Exemplo de manchete de jornal americano, traduzida: “Psicose depois do tiroteio causa pânico na cidade...”), enquanto a mais insidiosa das psicoses, a Esquizofrenia, do grego, significando “mente ou cérebro dividido”, costuma ser usada como sinônimo de opiniões divergentes dentro de um mesmo grupo (outro exemplo de jornal, desta vez italiano: “O senador se diz preocupado pela atitude esquizofrênica de nosso governo a respeito dos direitos na Internet...).

Outra boa é OBJETO TRANSICIONAL, comumente um brinquedo ou objeto ao qual somos particularmente ligados. O melhor exemplo é o cobertor do Linus,
o melhor amigo do Charlie Brown, que designa fielmente um conceito brilhante, introduzido por Winnicott: é o objeto que, na criança entre 3 e 12 meses, é a representação de sua ligação com a mãe, configurando-se ao mesmo tempo, como espaço interno e externo.

TREINAMENTO AUTÓGENO, que é uma técnica de relaxamento individual bastante eficaz, é confundido como técnica de team building (outro exemplo de jornal, brasileiro: “O entusiasmo do Palmeiras foi substituido por um tipo de treinamento autógeno coletivo, para diminuir a sensação de perda frente ao...”)

Outra preciosidade é PSICODRAMA, precisa e potente técnica terapeutica introduzida por Moreno em 1928, a qual, em suas diversas variações consiste  na reatualização catártica de um trauma, conflito ou fantasia, através da atuação teatral, enquanto na linguagem comum, é usada para definir, às vezes de forma irônica, brigas particularmente intensas, cujas razões não mereceriam tanto gasto de energia.

Também gosto muito de ALUCINANTE que, em seu uso comum indica algo surreal, inquietante, incrivel, enquanto na realidade, ALUCINAÇÕES são fenômenos de alterações nos orgãos dos sentidos, durante as quais as pessoas percebem algo (vozes, sons, imagens, até mesmo cheiros e sabores, em certos tipos de epilepsia), que na realidade não estão lá.

O fato é que, o uso coloquial de têrmos não é necessáriamente uma coisa ruim, e pode enriquecer de significados um termo técnico frio. É sinal de vitalidade numa ciência que nos toca a todos: cada um de nós interpreta os pensamentos, emoções, linguagem e comportamento dos outros. Mas, como em qualquer outro campo, para virar as regras há a necessidade de, primeiro, conhece-las a fundo, e neste caso, principalmente os que nos passam o que deveria ser informação, isto é, a mídia e mesmo alguns especialistas, estão atacados de profunda carência.


Donald Woods Winnicott:  Pediatra e psicanalista inglês, especialmente influente no campo da teoria das relações de objeto.Foi um dos principais membros do Grupo Independente da Sociedade Psicanalítica Britânica, presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise duas vezes. É mais conhecido por suas idéias sobre o verdadeiro e falso self, e o objeto transicional.

Giovanni Jervis: Psiquiatra italiano. Colaborou com o antropologo Ernesto de Martino na pesquisa sobre Tarantismo e no tema psicopatologico e cultural do fim do mundo, e com Franco Basaglia na modificação do sistema psiquiatrico na Italia. Introduziu autores como Herbert Marcuse, Roland Laing e Dennis Chapman. Autor de vários livros, dos quais não li nem a metade, meu preferido é o “Manual crítico de Psiquiatria”.Analizou sob vários ângulos, os temas da autoridade, depressão e ilusões, e acreditava que a busca de identidade está sempre relacionada ao momento histórico vivido pela pessoa.

Jacob Levy Moreno  foi um médico, psicólogo, filósofo e dramaturgo, criador do psicodrama e pioneiro no estudo da terapia em grupo.

TARANTISMO: Distúrbio nervoso caracterizado por incontrolável impulso de dançar, popularmente atribuido à mordida da tarântula. Na realidade é um tipo de coréia, que é um grupo de disturbios degenerativos do sistema nervoso, caracterizados por movimentos espasmódicos do corpo e membros.



TREINMENTO AUTÓGENO  é uma técnica de relaxamento desenvolvida pelo psiquiatra alemão Johannes Heinrich Schultz  em 1932. A técnica envolve a prática diária de sessões que duram cerca de 15 minutos, geralmente pela manhã, na hora do almoço, e à noite. Durante cada sessão, o praticante irá repetir um conjunto de visualizações, que induzem um estado de relaxamento. Cada sessão pode ser praticada em uma posição selecionada entre um conjunto de posturas recomendadas . A técnica pode ser usada para aliviar muitos distúrbios psicossomáticos induzidos pelo stress.