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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

DEMÔNIOS NOSSOS DE CADA DIA, OU A HISTERIA EM MASSA

"O mundo é a experiência do homem como lhe parece, moldada por seu ego. É a vida menos que abundante, vivida de acordo com os ditames do eu isolado. É da natureza desnaturada pelos espetáculos de distorção de nossos apetites e repulsas. É o finito divorciado do Eterno. É multiplicidade de forma isolada a partir da sua base não-dual. É tempo apreendido como uma coisa maldita depois da outra. É um sistema de categorias verbais tomando o lugar dos inacreditavelmente belos e misteriosos elementos que constituem a realidade. É uma noção rotulada de "Deus". É o Universo equiparado com as palavras de nosso vocabulário utilitarista ". Aldous Huxley-Os Demônios de Loudun.

Sim. Adoro Aldous Huxley. Tudo. Mas, “Os Demônios de Loudun” transformaram minha visão de mundo, tornando o fenômeno de histeria de massas uma de minhas grandes fascinações. Uso o termo fascinação, num sentido bem solto, desde que há coisas que me fascinam não exatamente por gostar delas, também quando não as entendo, ou me horrorizam, ou fazem coceiras em minha curiosidade.

Deixa dar uma espanada no conceito, esquecendo um pouquinho a versão lavada em cândida do DSM, que não só juntou a coisa, ao mesmo tempo, aos Distúrbios de Personalidade como também aos Distúrbios da Ansiedade Generalizada, descaracterizando tudo.

Embora aqui nos USA “histeria” não seja mais usada como diagnóstico, na Europa continua firme e forte, e seu significado tornou-se bastante distinto daquele descrito por Charcot e Freud. Primeiro, porque “histeria” vem da palavra grega que significa útero, e é mais do que óbvio que não há necessidade nenhuma do mesmo para desenvolver os sintomas, e segundo porque, devido à variedade de seus sintomas, apresenta-se mais como uma Síndrome, tal qual a Esquizofrenia tem sido vista.
Mas, meu objetivo hoje, não é falar sobre a citada indivídualmente, mas sim quando aparece e/ou se espalha num grupo.

Em psicologia e sociologia, histeria em massa ou de massa ou histeria coletiva, ou histeria em grupo ou comportamento obsessivo coletivo, é um fenômeno de ilusões coletivas a respeito de ameaças, reais ou imaginárias, que se espalha numa população, como resultado de rumores e medo.

A dita cuja pode acontecer em qualquer lugar, desde que haja um grupo de pessoas dispostas a tomar parte em uma ilusão coletiva, e, embora pareça surgir do nada, sempre há um clarissimo porquê atrás da coisa toda.

Embora seja fácil olhar para trás, em retrospectiva, e rir do acontecido, a histeria em massa é muito parecida com um desastre natural, ou seja, é devastadora e depois dela sobra uma desordem que às vezes fica muito dificil de arrumar.

Abaixo vão alguns exemplos que escolhi a dedo, pois há uma quantidade enorme dos mesmos, assim se estiverem curiosos, no final há material bibliografico fácilmente acessivel.
Por que escolhi esses exemplos? Porque acho que estamos re-vivendo tal fenômeno, e em meu caso, em dose dupla, Brasil e USA.
Ou como disse o grande Indro Montanelli, em seu livro sobre a historia da Grécia:
“Como sempre acontece em crises semelhantes, quando uma comunidade perde o seu sentido de missão e o controle de seu destino, o egoismo individual e do grupo se torna violento e desenfreado. O vocabulário, em Atenas, foi então enriquecido com 3 novas palavras: pleonexia, que significa encanto/desejo pelo supérfluo; crematistike, que significa febre do ouro; e neoplutoi, o que corresponde aos nossos assim chamados "tubarões", ou seja os donos do poder/dinheiro.”
Por ordem temporal, comecemos com o que deu origem ao livro:

AS POSSESSÕES DE LOUDUN – 1632
Um dos casos mais famosos de possessão em massa da história da França aconteceu em um convento de freiras Ursulinas, que afirmaram que seu pároco e diretor religioso, Urbano Grandier, havia ordenado a demônios que as possuissem, a fim de torná-las mais flexível para suas propostas sexuais (suas dele, Grandier). Os exorcismos resultantes das freiras e o julgamento de Grandier tornaram-se tão sensacionais que milhares de pessoas foram assistir. Também atraiu a atenção do rei Luís XIII e do Cardeal Richelieu. Dois anos mais tarde, Grandier foi considerado culpado e condenado à morte na fogueira. Teoricamente, tudo resolvido, certo? Pois ledo engano.
Na verdade, as tais possessões foram consequencia de bem tramado golpe para derrubar Grandier, pois o citado, além de ser bem apanhado fisicamente, era arrogante, tinha um estilo de vida um quanto libertino, de formas que angariou bom número de inimigos, entre eles, outros padres e bispos, que viram no acontecimento inicial, com uma freira que se achou possuida, a oportunidade perfeita para desacreditar Grandier. A madre superiora, Jeanne des Anges, também aproveitou a atenção para promover sua própria carreira no convento. As possessões continuaram até 1637, trazendo beneficios economicos para o convento e a cidade. Interessante que isso sempre me recorda certos cultos tão atuais.

OS JULGAMENTOS DAS BRUXAS DE SALEM -1692
Um dos melhores exemplos definidores do caráter americano, foi este ataque coletivo dos colonos puritanos do Novo Mundo pela crença histérica do satanismo no meio deles. Algumas meninas pré-adolescentes começaram a ter "visões", e foram "tomadas pelo Diabo", o qual foi convocado para mexer com elas por “um povo que não gostavam.” Essas pessoas foram então "julgadas", torturadas e, geralmente, queimadas na fogueira. Notar que tais pessoas foram um escravo caribenho, Tituba e duas mulheres, uma Sarah Good, pedinte e a outra, Sarah Osborn, velha e pobre. Foi uma inquisição americana, que preparou o caminho para muitos movimentos que vieram depois.

O GRANDE PÂNICO DO INÍCIO DA REVOLUÇÃO FRANCESA -1789
No início da Revolução Francesa, um pânico geral atingiu camponeses depois de terem ouvido rumores de um plano da aristocracia, a respeito da mesma vir a usar bandidos para saquear suas aldeias e campos. Paranoia encheu o ar como fumaça, e vagrantes e até mesmo animais foram confundidos com bandidos. Para se protegerem, os moradores formaram milícias armadas, movimento que só exacerbou o problema. As próprias milícias eram muitas vezes confundidas com bandidos por aldeias vizinhas, e outras ainda aumentaram o caos, atacando e incendiando casas e campos pertencentes aos nobres. Só quando ficou claro que não havia tal conspiração aristocrática foi que os camponeses se acalmaram. Todo o episódio deixou a classe dominante com tanto medo, que apressadamente promulgaram uma série de reformas para apaziguá-los. Com efeito, o Grande Pânico tornou-se o catalisador que aboliu a velha ordem, e as sequelas foram sentidas no mundo todo. Deixo a cada um o prazer de fazer as próprias analogias.

LINCHAMENTOS NOS USA :1860 a 1960
Os estados confederados, depois de perder a guerra civil, receberam o que, para eles, foi a indignidade final: A Reconstrução, que deu aos libertos (antigos escravos) o direito de serem seres humanos. Isso não foi bem recebido no Sul (até hoje), e por cerca de 100 anos, qualquer pessoa negra, no Sul, acusada e não condenada por qualquer crime de: olhar para uma mulher branca, assobiar para uma mulher branca, tocar uma mulher branca, falar com uma pessoa branca, recusar-se a ir para a sarjeta quando uma pessoa branca passasse na calçada, ou de alguma forma perturbar de qualquer forma, real ou imaginada, qualquer branco, estava susceptível a ser arrancada de sua casa ou prisão por uma multidão, mutilada de forma medonha, enforcada numa árvore, e depois queimada . Todos os governos, estadual ou federal e suas agências (como a polícia) simplesmente ignoraram a coisa toda. Até mais ou menos os anos 70, se podia comprar cartões-postais de comerciantes locais, orgulhosos dos notáveis linchamentos na área

O PÂNICO DO MOSQUITO BEIJADOR DE 1899
Em 1899, nos USA, o reporter James McElhone, do Washington Post, culpou o “mosquito beijador” como causador de mordidas de insetos nos lábios de algumas pessoas. Escreveu uma historia sensacional sobre o assunto, descrevendo como terrivelmente as pessoas tinham sido envenenadas e como os tais mosquitos estavam iniciando uma nova epidemia pior que a peste negra. Desnecessario se faz dizer que a historia desencadeou pânico atroz na nação, e uma senhora até descreveu seu ataque muito mais parecido com o ataque de um vampiro do que um mosquito. Pedintes começaram a cobrir o rosto com bandagens para aumentar seus proveitos e vários espertinhos pediram assistencia financeira governamental, pois clamavam ter perdido seus empregos devido ao tal mosquitão. Curiosamente, nunca que foi um mosquito pego no ato e os entomologistas, eventualmente, classificaram a coisa como “epidemia jornalistica”.

O FENÔMENO DOS CAÇADORES DE CABEÇAS – MALASIA – 1937
Nessa data, em algumas remotas regiões da Malasia e Indonésia, o povo começou a acreditar que o governo tinha espalhado caçadores de cabeças para conseguir as mesmas, que serviriam como base de construção de novos prédios e pontes. Pânico alcançava seu pico todas as vezes que uma nova estrutura começasse a ser contruida, e a coisa paralizou a cidade de Banda, onde as pessoas se barricaram dentro de casa. Historias de sons e visões estranhas só aumentaram a nóia, e alguns bons contadores de historias fizeram pequenas fortunas contando de seus encontros com e de como tinham escapado dos tais caçadores. A coisa se repetiu, agora em Bornéu, onde os moradores ficaram paranoicos após os rumores de que o governo estava raptando pessoas para reenforçar a estrutura de uma ponte próxima. Foi imposto toque de recolher, as escolas foram fechadas, e, surpresa, surpresa, milicias e patrulhas foram formadas. Para os especialistas que analisaram estes casos, os sustos/mitos dos caçadores de cabeça são essencialmente um boato que aparece de tempos em tempos e reflete a relação ideológica desconfortável entre tribos e seu governo.

INTERNAÇÃO DOS JAPONESES/AMERICANOS EM CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO – 1942- SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Depois de Pearl Harbor, xenofobia em relação a tudo o que fosse oriental, se espalhou pelos EUA, levando à construção de uma série de campos de concentração para o confinamento de milhares de Japones e nipo-americanos que viviam na costa oeste dos EUA. Sem julgamento, essas pessoas tinham os seus negócios e bens confiscados e seus lares roubados (permanentemente), enquanto eles foram transferidos para assentamentos a centenas e até milhares de milhas de distância de suas casas. Isso sem contar os que foram mortos ou sériamente lesados por milicias patrióticas, bem ao estilo dos Nazis contra judeus.

O PAVOR VERMELHO – 1940 – FINAL DOS ANOS 50 – McCARTISMO
Uma das formas verdadeiramente selvagens (e modernas) de histeria política manufaturada, foi o surgimento de um senador alcoólatra chamado Joseph McCarthy após o fim da Segunda Guerra Mundial. Há que se fazer um resumão de longuissima história, que aqui vai: O Partido Republicano (GOP) estava se tornando insignificante após Franklin Delano Roosvelt (FDR) e os democratas conseguirem tirar o país da Grande Depressão e, em seguida, projetar a vitória dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. O que fazer? Joe McCarthy e suas nunca, jamais, nem uma única vez verificadas acusações de que o governo dos EUA tinha sido completamente infiltrado por comunistas, conseguiu mergulhar o país em uma fossa de paranóia e fascismo que os republicanos exploraram ao máximo. Milhares de pessoas, professores, funcionários públicos, artistas, perderam seus empregos porque ou não quiseram assinar "juramentos de lealdade", ou porque não "informaram" sobre os seus amigos e vizinhos, ou porque alguém os viu lendo algum livro que parecia suspeito, ou foram ouvidos dizendo algo que parecesse anti Americano, enfim, dá para ter uma idéia. Há centenas de bons relatos no you tube, é só clicar McCartism ou McCartney. A coisa foi tão feia, que foi cunhado o termo MACCARTISMO, que é a prática de fazer acusações de subversão ou traição sem qualquer cuidado com evidências. Também significa a pratica de fazer alegações injustas usando técnicas investigativas injustas (o que inclui qualquer tipo de tortura), especialmente a fim de restringir discordância ou crítica política. Desnecessário se faz lembrar de como o McCartismo foi reinventado durante os anos Bush nesta terra dos livres e fortes, e continua, mais forte do que nunca, com a ascenção de Donald Trump, após 8 anos nos quais, Barack Obama, negro, democrata, absolutamente brilhante, tirou os USA da Depressão de 2009, ganhou o Nobel, aumentou o numero de empregos nesta terra, recusou-se, com uma classe que pouca gente possui, a baixar o nivel de seu discurso, ou como bem disse Michelle Obama na convenção democrata:
“Quando eles baixam o nivel, nós ascendemos.”

HISTERIA DE ABUSO EM CRECHES– 1980-90
Ou o caso McMartin, que se tornou um dos processos mais caros e sem sentido da historia Americana. E foi só a pontinha do iceberg do que viria a ser chamado de “histeria de ritual de abuso de creches”, e que durou quase duas décadas. No caso, trabalhadores de creches foram acusados de colocar as criancinhas em rituais de abuso satânicos. Afirmações fantásticas incluiram crianças serem forçadas a presenciar execuções (embora nunca se achou um defunto), estupros, torturas, e assim por diante. Todos, e digo todos os acusados, foram mais tarde exonerados, mas não antes de passar um bom tempo na cadeia e terem suas vidas total e completamente arruinadas. O que foi que causou a coisa toda? A resposta pode ser encontrada nos próprios pais. Como tornou-se mais comum para ambos, marido e mulher, trabalhar fora de casa, eles tinham que confiar seus filhos a creches, o que provavelmente muito aumentou ansiedade e culpa, e os que trabalhavam nas tais creches, se tornaram o bode expiatório perfeito para as angústias dos pais, ajudando-os a ignorar suas próprias falhas e problemas. Acrescente a isso os falsos testemunhos, vergonhosamente coagidos das crianças por psicologos interrogadores com pouco ou nenhum treino na situação, mais a vontade de escrever artigos inéditos (e os tiveram aos montes), e presto, lá se tem a receita perfeita para o equivalente do século 20 à caça às bruxas medieval.

O SUSTO DA COCA COLA CONTAMINADA DE 1999
A ameaça mais séria ao virtual monopólio da Coca-Cola na Europa começou em junho de 1999, quando mais de 100 estudantes na Bélgica “adoeceram” depois de bebe-la. A investigação, acoplada a PR inepto, custou à empresa $ 200 milhões de dólares e uma proibição de venda por vários dias em outros países europeus.
Embora o exame dos lotes contaminados tenha mostrado contaminação (foram encontrados "mau" dióxido de carbono e fenol), dois cientistas belgas especularam que os produtos contaminados tinham uma quantidade pequena demais para causar danos reais; para eles, o incidente foi principalmente "um caso de histeria em massa", alimentado, em parte, pelo pavor da doença da vaca louca e de produtos animais contaminados com dioxinas. A investigação separada do Conselho Superior de Higiene da Bélgica, em março de 2000, corroborou essas alegações e afirmou que a maioria das vítimas sofreu uma "doença psicogênica de massa." Sempre tive a desconfiança que teve o dedinho da Pepsi na coisa. Admito, adoro uma teoriazinha conspiratoria.

A COCEIRA DE BIN LADEN- Outubro 2001 a Junho 2002
Milhares de crianças de escolas primarias apresentaram erupções cutâneas que apareceram a troco de coisa alguma, e duravam de poucas horas a 2 semanas, desaparecendo tão misteriosamente como tinham aparecido. Todo mundo surtou: frente aos ataques de 9/11 e o susto do antrax, seria essa uma forma de bioterrorismo? A resposta é sim e não. Embora erupções cutâneas tenham sido e continuem sendo uma endemia em escolas, as crianças começaram a prestar mais atenção, e as enfermeiras das escolas começaram a reportar maior numero de casos que o costumeiro. Investigadores do CDC (Centro para Contrôle das Doenças -Atlanta-GA) descobriram que alguns estudantes, deliberadamente, esfregavam papel de lixa na pele, numa tentativa de fechar as escolas. Daí que, embora inexistente, a “coceira de Bin Laden foi ótima para espalhar histeria de massa. Aliás um caso há algumas semanas, trouxe à tona a coisa: Um avião foi atrasado horas, porque um senhora, vendo um italiano, professor de economia em Harvard, sentado ao lado dela e escrevendo muito concentrado, suas equações, apavorou-se e achou que era um terrorista árabe, fazendo coisas estranhas. Por um lado, ela estava certa, os números que usamos são arabicos. O tal professor está fazendo piadas homéricas com a coisa toda.

OS ATAQUES ALIENIGENAS NA ÍNDIA EM 2002
Conhecido como "muhnochwa", ou "arranhador de rosto," o ser apareceu no estado indiano de Uttar Pradesh, e deixava queimaduras ou marcas de arranhões no rosto e extremidades de suas vítimas. Ele também, supostamente, causou a morte de meia dúzia de pessoas, o que levou os moradores do lugar a formar grupos de vigilantes e a uma revolta contra o que acreditavam ser a falta de proteção policial. A agitação tornou-se tão difundida que o governo nacional teve de intervir e enviar agentes para investigar o caso.
Antes da investigação, havia teorias bizarras sobre as origens do muhnochwa. Uma delas era uma crença de que a coisa era um inseto zumbi gigantesco, usado por agentes paquistaneses para espionagem. Finalmente, os cientistas que investigaram o caso explicaram que o tal muhnochwa nada mais era do que um raio em bola, fenômeno natural que ocorre costumeiramente durante longos períodos de seca e pode queimar em contacto com a pele humana.
E nem vou comentar a histeria das armas de destruição em massa, que o Hussein nunca teve, mas que levou à Guerra mais longa que os USA já entraram, assim como à desestabilização de toda a região e ao aparecimento do tão comentado ISIS.

E chegamos ao que vou chamar de “O GRANDE ENROSCO CONFUSO”.
Aqui nos USA, Donald Trump ganhou as primárias para concorrer à Presidência, pelo Partido Republicano (GOP) e no Brasil, Bolsonaro está cotadissimo para o mesmo posto. O que tem os dois em comum?
Me perdoem se falo mais sobre os USA do que sobre o Brasil. No primeiro, vivo, tendo então experiência na pele. No Brasil, vivi, sendo que agora, embora avidamente leia as notícias, em jornais e através de relatos de amigos e dos posts no Facebook, não é a mesma coisa do estar aí todos os dias.
Então, vamos a alguns fatos interessantes:
Hitler admirava o genocidio perpetrado contra os índios Americanos, assim como as politicas de segregação do regime de Jim Crow no Sul dos USA, tanto que as Leis de Raça de Nuremberg foram moldadas em cima das mesmas. Segundo Ernst Hanfstaengl, Hitler estava “apaixonadamente interessado” na KKK. E falando no mal citado, ele também era bom conhecedor e manipulador, tanto da histeria, como das massas.

“Se você conta uma mentira grande o suficiente e a repete com frequência, será acreditada.”
“Use a emoção para as massas, e a razão para poucos”
“A receptividade das massas é muito limitada, sua inteligencia pouca, mas seu poder de esquecimento é enorme. Como consequência de todos esses fatos, toda propaganda eficaz deve ser limitada a poucos pontos, e há que martelar esses pontos ou slogans até que o ultimo membro do público entenda o que você quer que ele entenda atravéz dos seus slogans.”
“O primeiro e essencial ponto para o sucesso é o emprego regular da violência.”
“Humanitarismo é a expressão de estupidez e covardia.”
“Escolas seculares não devem ser toleradas, porque tal escola não tem intrução religiosa, e qualquer instrução moral sem religião é contruida no ar, consequentemente, todo o treinamento do carater e religião tem que ser derivados da fé…precisamos de pessoas crentes.”
“A nossa força consiste em nossa velocidade e na nossa brutalidade. Genghis Khan levou milhões de mulheres e crianças para o abate, com premeditação e um coração feliz. A História vê nele apenas o fundador de um Estado. Me é indiferente o que uma fraca civilização europeia ocidental vai dizer a meu respeito. Emiti o comando e, se alguém proferir uma palavra de crítica, será executado por um pelotão de fuzilamento, pois nosso objectivo que é a Guerra, não consiste em permanecer dentro de certas linhas, mas na destruição física do inimigo. Assim, define minhas ordens, para que enviem à morte sem dó e sem piedade, homens, mulheres e crianças de derivação e linguagem polaca. Só assim vamos ganhar o espaço de vida (Lebensraum) que precisamos. Quem, afinal, continua falando da aniquilação dos armênios?”
“Não importa o tamanho do talento empregado na organização de propaganda, pois não terá resultado se não for levado em conta este principio fundamental: Propaganda deve ser limitada a alguns temas simples e estes devem ser repetidos sempre. Aqui, como em inúmeros outros casos, a perseverança é a primeira e mais importante condição para o sucesso.”
“A função principal da propaganda é convencer as massas, cuja lentidão de entendimento é grande e precisa de tempo para que possa absorver a informação; e só a repetição constante finalmente conseguirá gravar uma ideia na memória da multidão.”
“Paralela à formação do corpo uma luta contra o envenenamento da alma deve começar. Toda a nossa vida pública de hoje é como uma estufa para idéias sexuais e simulações. Basta olhar para o cardápio servido em nossos filmes, vaudeville e teatros, e você dificilmente será capaz de negar que este não é o tipo certo de alimentos, particularmente para os jovens ... Teatro, arte, literatura, cinema, imprensa, posters, e cultura devem ser limpos de todas as manifestações do nosso mundo podre e voltar a ser colocadas a serviço de uma idéia moral, política e cultural.”

E os exemplos da criatura não acabam, mas a idéia é trazer à tona o quanto as idéias do Hitler continuam firmes, fortes e funcionando, no âmago de nossas vivências. Para os estudiosos do fascismo, não apenas como fenômeno historico, mas como um fenômeno vivo que sempre se manteve numa espécie de meia-vida, nas franjas da direita de qualquer nação, tipo assim como um virus, que está em suspensão e passa a viver e se reproduzir tão logo consiga penetrar na célula de um animal. É um fenômeno ao mesmo tempo simples e complexo: em certo sentido, se assemelha à patologia psicológica humana, que é composta de uma complexa constelação de traços que estão interligados e cuja presença aumenta ou diminui de importância de acordo com os estágios de desenvolvimento que atravessa; e em outro, pode, em muitos aspectos, ser inserida, de cima para baixo, pela imposição cru, quase selvagem, da vontade violenta organizada de um ID humano irritado e dominado pelo medo de suas própias inseguranças.

E é nesse ponto que indivíduos como Trump, Bolsonaro, Maduro, Chavez, Fidel, Stalin (que infelicidade o ter que citar só alguns porque a lista é muito longa), se sobressaem. E não venham me fazer a distinção de que Maduro, Fidel, Stalin eram ou são de esquerda. São e foram tão fascistas quanto Hitler, Mussolini, Hussein, e quantos outros quiserem colocar, pois dominaram milhões de pessoas através do medo, força, destruicão, morte e propaganda, portanto farinha do mesmo saco.

Robert O. Paxton, em “The Anatomy of Fascism” (Anatomia do Fascismo), escreve:

“Fascismo pode ser definido como uma forma de comportamento político marcado pela preocupação obsessiva com o declínio da comunidade, humilhação ou vitimização e por cultos compensatórios de unidade, energia e pureza, em que uma parte é a base de massas de militantes nacionalistas comprometidas, que trabalham na desconfortável mas eficaz colaboração com as elites tradicionais, abandona as liberdades democráticas e persegue com violência redentora e sem ética ou restrições legais, os objetivos de limpeza interna e expansão externa.”

E continua, descrevendo suas “Nove Paixões Mobilizadoras”:
1-Uma sensação de crise esmagadora e fora do alcance de todas as soluções tradicionais.
2-A primazia do grupo, para o qual a pessoa tem deveres superiores a qualquer direito, seja universal ou individual, e a subordinação do indivíduo a citado grupo.
3-A crença de que o grupo é vítima, sentimento este que justifica qualquer ação, sem limites legais ou morais, contra os inimigos do grupo, tanto internos como externos.
4-O medo de declínio do grupo sob o efeito corrosivo do liberalismo individualista, do conflito de classes, e/ou de influências alienígenas.
5-A necessidade de integração de uma comunidade mais pura, por consentimento se possível, ou pela violência excludente, se necessário.
6-A necessidade de autoridade por líderes naturais (sempre do sexo masculino), culminando com um chefe nacional, que é o único capaz de encarnar o destino do grupo.
7-A superioridade dos instintos do líder sobre a razão abstrata e universal
8-A beleza da violência e a eficácia da vontade, sempre e quando dedicadas ao sucesso do grupo.
9-O direito do povo escolhido de dominar os outros sem restrições de qualquer tipo de lei, humana ou divina, direito a ser decidido pelo único critério de bravura do grupo (lei do mais forte, e não, Darwin nunca disse isso).

Em muitos aspectos, a campanha presidencial de Trump preenche muitos dos componentes dessa complexa constelação de características que define o fascismo, somado ao aparecimento do líder carismático em torno do qual as tropas podem se juntar, aquele que exprime as suas frustrações e seduz seus seguidores. E é isso que o torna tão perigoso.
Porque a histeria tem como base a sedução. Longe dos fatos, longe da lógica, baseia-se em “sentimentos”, “sensações” e percepções. E quando o líder carismatico sabe como controlar esse caldeirão em ebulição, dignificando os mais baixos sentimentos e aspirações, que todos nós temos, a maioria de nós tentando manter sob controle, a quimica é perfeita.

Vejamos quais foram e são os pontos básicos da campanha do Trump:

Eliminação e Purificação da Raça: Mandar todos os mexicanos ilegais de volta para o México (são 11 milhões de pessoas, a logistica envolvida nisso é incompreensivel), porque são todos ladrões, criminosos, assassinos e estupradores, retorica classica para demonizar uma classe inteira de gente, reduzindo-os a objetos que só servem para ser eliminados. Não vamos nos esquecer de também devolver todos os Mussulmanos.

Ultranacionalismo Palingenético, definido pelos seus slogans de campanha: “Fazer a América grandiosa de novo”, “Tomar o país de volta”, ou seja o mito do renascimento da Fênix, a partir das cinzas, de uma sociedade toda inteira, para um utópico “tempo bom”, num passado que provavelmente nunca existiu.

Profundo desprezo tanto pelo liberalismo quanto pelo conservadorismo estabelecido.

Proclamação consistente e retumbante do “estado de crise” da America e da mesma ter se tornado motivo de riso do resto do mundo, por causa dos liberais, principalmente o mais negro e liberal de todos, que acontece ser o Presidente da Nação.

Personifica a insistência fascista da liderança masculina por ser “um homem do destino”, assim como sua recusa em reconhecer a evidência factual da falsidade de muitas das suas proclamações e comentários incorporando a noção fascista que os instintos do líder são mais importantes que a razão e os fatos.

Desprezo por “fraquezas”, que vão desde dizer que quem é capturado numa guerra é uma besta, a escárnio de um repórter do New York Times com deficiência física.

Os exemplos são tantos que não há qualquer possibilidade de colocá-los todos num post de blog.

O ponto é o seguinte: fascismo só funciona em cima da perfeita organização da histeria de massa. E nisso, culpo a mídia, falada, escrita e de qualquer outra forma, que prefere o interessante aos fatos e está sendo incapaz de promover pensamento critico, que alias é o único antidoto para a já citada.

E é tão simples: Pense. Pense sobre você mesmo e suas crenças. Por que as tem? De onde vieram? Elas defendem seus direitos ou suas singularidades? Consegue debater sem insultar? Consegue diferenciar coisas pelas quais morreria, daquelas pelas quais vive?

"Os direitos humanos" são uma coisa boa, mas como podemos ter a certeza de que nossos direitos não se expandem à custa dos direitos dos outros? Uma sociedade com direitos ilimitados é incapaz de enfrentar a adversidade. Se não desejarmos ser governados por uma autoridade coercitiva, então cada um de nós deve controlar-se. A sociedade estável não é alcançada através do equilíbrio entre forças opostas, mas pela consciência da auto-limitação, pelo princípio de que estamos sempre obrigados a defender o senso de justiça moral. "
Aleksandr Solzhenitsyn, Rebuilding Russia: Reflections and Tentative Proposals (Reconstruindo a Russia: Reflexões e Propostas, tradução livre)

BIBLIOGRAFIA
Mass Hysteria & Moral Panic: Definitions, Causes & Examples CLIQUE AQUI

Mass Delusions and Hysterias: Highlights from the Past Millennium CLIQUE AQUI

MEIN KAMPF, Adolph Hitler CLIQUE AQUI

Nazi Germany: Confronting the Myths: Catherine A. Epstein, John Wiley and sons, 2015

Rebuilding Russia: Reflections and Tentative Proposals, Aleksandr Solzhenitsyn ,Harvil Press, 1991

Salem Witch Trials CLIQUE AQUI

Strange Cases of Mass Hysteria CLIQUE AQUI

Storia dei Greci, Indro Montanelli, RCS Rizzoli Libri, Milano, 1979

The Anatomy of Fascism, Robert O Paxton   CLIQUE AQUI



quarta-feira, 6 de julho de 2016

SOBRE SER LOUCO, SER INTERNADO E VOLTAR A SER GENTE

Este é um ensaio de Karla Cristina Fernandez Philipovsky Koerich, que gentilmente cedeu para publicação neste blog.Embora discorde de alguns pontos, é fantástico como pontos discordantes estimulam o pensamento e a curiosidade. Excelente leitura.

RESUMO
Neste pequeno ensaio, busco verificar, por intermédio de pesquisa bibliográfica, de que modo a psiquiatria, como um ramo especializado da higiene pública, se apropriou da loucura, transformando-a em uma doença com nuances de periculosidade que precisavam ser contidas; como se davam os processos de internação para o seu tratamento até pouco tempo atrás; como o saber médico era o protagonista dessa relação entre médico e paciente e, o que a Reforma Psiquiátrica no Brasil trouxe de mudanças para essa dinâmica tortuosa por que passavam as pessoas em sofrimento psíquico nos dias de hoje.
Palavras-chave: Loucura; Tratamento; Reforma Psiquiátrica.

ABSTRACT
In this short essay, I seek to verify, through bibliographical research, how psychiatry as a specialized field of public hygiene, appropriated the madness, transforming it into an illness with Hazard nuances that needed to be contained; how to give the hospitalization process for treatment until recently; how the medical knowledge was the main character of the relationship between doctor and patient, and what the psychiatric reform in Brazil brought changes to this tortuous dynamics by passing people in psychological distress.
Keywords: Madness; Treatment; Psychiatric Reform.


A questão das alas, alas de agitados, alas de dementes... basta ser colocado – qualquer um de nós – em uma ala de agitados que nos tornamos agitados, numa ala de dementes então eu não ouso dizer o que nos tornaríamos, pois é muito tentador, um gozo muito particular, até o fim dos tempos!
(OURY, 2010)


Como o louco virou doente e, a hospedaria, um hospital
Antes de a loucura ser considerada um transtorno mental, uma doença passível de tratamento, os loucos não tinham destino diferente de qualquer outra pessoa desviante: eram recolhidos por hospícios – hospitais gerais e Santas Casas – que, Segundo Amarante (1998), durante a época clássica, funcionavam como “hospedarias” para marginais. Qualquer pessoa que fosse tomada pela desrazão ou que representasse uma afronta à ordem social estaria sujeita a ser recolhida por essas instituições; prostitutas, leprosos, ladrões, vagabundos e loucos. Daí, depreendemos que os hospitais/hospícios não possuíam caráter de tratamento ou cura de doentes, apenas mantinham fora de circulação aqueles que não seguiam as normas.
Em Os Anormais, Foucault (2002) lembrou que a psiquiatria, em sua constituição, no final do século XVIII e início do século XIX, principalmente, não se configurava como um ramo específico da medicina geral, mas sim, como uma especialidade da higiene pública, institucionalizando-se como “domínio particular da proteção social, contra todos os perigos que o fato da doença, ou de tudo o que se possa assimilar direta ou indiretamente à doença, pode acarretar à sociedade” (FOUCAULT, 2002, p. 148). Assim, ele nos mostrou que, enquanto a psiquiatria se institucionalizava como um ramo da higiene pública, ela precisou patologizar os distúrbios da loucura, tornando-a uma doença, fazendo prognósticos, analisando fichas clínicas, fazendo observações e, ao mesmo tempo, buscando demonstrar por meio dessas investigações que a loucura apresentava um grau de ameaça que só poderia ser administrado e combatido pela própria psiquiatria, que a estudava e era capaz de contê-la (por meio de tratamento e cura, em teoria), dada a sua linha higienista.
A partir do instante em que a loucura foi tornada uma doença que necessitava de tratamento,
[...] a psiquiatria fez funcionar toda uma parte da higiene pública como medicina e, [...] fez o saber, a prevenção e a eventual cura da doença mental funcionarem como precaução social, absolutamente necessária para se evitar um certo número de perigos fundamentais decorrentes da existência mesma da loucura. (FOUCAULT, 2002, p. 149)


Com isso, temos o cenário adequado para a criação dos hospitais psiquiátricos como instituições exclusivas para o tratamento da loucura e do médico psiquiatra, como responsável pelos pacientes que estão tutelados a ele.

Louco não tem querer
O poder de intervenção na vida dos pacientes/doentes/internados – e gostaria de ratificar que essa autoridade garantia prerrogativas sobre essas vidas alheias que iam desde o diagnóstico até a alta ou não, da instituição – deu à psiquiatria e, consequentemente, ao médico psiquiatra a permissão para dispor e despojar seus pacientes de seus direitos mais básicos com o pretexto de os estarem tratando, fazendo mesmo experimentos no percurso da criação de seus saberes médicos, quando, conforme Foucault (2000, p. 340), “a relação constante e recíproca entre teoria e prática se vê desdobrada num confronto imediato entre médico e paciente. Sofrimento e saber se ajustarão um ao outro na unidade de uma experiência concreta.”
Nesse ponto, gostaria de saltar da Idade Clássica para o século XX, quando o poder médico se expandia em algumas direções secundárias, chegamos ao hospício, tão bem descrito por Goffman (1974) como um lugar em que qualquer pessoa que não fosse o internado, teria alguma espécie de poder sobre ele.
Entre os anos de 1955 e 1956, Goffman (1974) fez um trabalho de campo no Hospital St. Elizabeths, em Washington, nos Estados Unidos. Essa instituição federal contava com pouco mais de 700 internados e foi durante sua estada por esse meio que fez importantes observações a respeito das figuras que compunham a dinâmica desse tipo de entidade: de um lado, os internados e, de outro, todo o corpo dirigente (que abrangia desde os guardas, faxineiros, enfermeiros, médicos, até os diretores do lugar). Ele agrupou as instituições totais em cinco tipos primordialmente, sendo um deles o hospital psiquiátrico, considerado como local “para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça à comunidade, embora de maneira não intencional” (GOFFMANN, 1974).
Quando essa pessoa considerada incapaz, citada anteriormente, dava entrada na instituição, iniciava-se o processo por meio do qual ela era destituída de vários aspectos de sua vida cotidiana, para não dizer de quase todos. O primeiro e mais premente era a perda da liberdade, que acontecia em todas as suas instâncias. Não se tinha liberdade de ir e vir, já que se estava restrito a um único estabelecimento e mesmo dentro desse recinto “todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois uma atividade leva, em tempo predeterminado, à seguinte, e toda a sequência de atividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários” (GOFFMAN, 1974, p. 18).
Sem liberdade de ação, de ir e vir ou de escolha, restava ao internado obedecer aos dirigentes e comportar-se bem, pois qualquer desvio da conduta considerada adequada era passível de castigos, para além de demonstrar, de acordo com os termos médicos, que o comportamento fora da norma apenas reforçava o diagnóstico de loucura e as suas nuances (agressividade, raiva etc.).

[...] a obediência tende a estar associada a uma atitude manifesta que não está sujeita ao mesmo grau de pressão para obediência. Embora essa resposta expressiva de autodefesa a exigências humilhantes ocorra nas instituições totais, a equipe diretora pode castigar diretamente os internados [...] e citar o mau humor e a insolência como bases para outros castigos. (GOFFMAN, 1974, p. 40)

Para além da falta de liberdade, os internados eram privados de direitos elementares como o de individualidade, escolha, privacidade ou de autonomia. Atividades de cunho secundário no mundo exterior como barbear-se, ir ao banheiro ou dar um telefonema tornavam-se obrigatórias de pedidos de permissão. Como crianças, os internados precisavam pedir autorização para executar essas e quaisquer outras ações, sendo que nem mesmo a humilhação em ter que pedir garantia que suas solicitações fossem atendidas de pronto; eles poderiam ser caçoados, terem seus pedidos negados, serem longamente inqueridos sobre a razão de quererem seus pedidos atendidos ou simplesmente poderiam ser ignorados e esquecidos pelos membros da equipe dirigente (GOFFMAN, 1974).

Como era aqui
Se o tratamento descrito por Goffman nos Estados Unidos, nos anos de 1950, já parecia extremamente desumano, causa ainda mais espanto que no Brasil, vinte anos depois, na década de 1970, haja relatos de casos ainda mais bárbaros, como os que ocorriam com os internados do Hospital Colônia Sant’Ana, localizado no município de São José, em Santa Catarina. Borges (2013, p. 1541), em artigo publicado, tem como fontes de entrevistas profissionais de saúde que trabalharam na instituição à época e que reportam como “Triste, doloroso, insuportável, feio, agonizante, terrível, escuro, tétrico, horrível, são palavras que cortam os diferentes depoimentos e que, para os entrevistados, descrevem o cotidiano da colônia na década de 1970.”
Borges (2013) escreve que, com o passar dos anos, o Hospital tornou-se um “depósito de gente”, um lugar negligenciado a despeito de como deveria desempenhar seu papel quando da sua inauguração, em 1941: “A existência do HCS é fruto de uma demanda ligada ao sofrimento, a fim de retirar do convívio social aqueles tidos como loucos, para amenizar seu sofrimento e proteger o meio social” (BORGES, 2013, p. 1532). Superlotado, como era a maior parte das instituições psiquiátricas do país em diversas épocas, o hospital já fora inaugurado com número de pacientes superior a sua capacidade sendo que, ao fim da década de 1960, o excesso de internados chegou ao seu ápice quando foi “colocado na lista de hospitais psiquiátricos que utilizam os chamados leitos-chão, camas improvisadas feitas no chão para internação de pacientes” (SERRANO, 1998 apud BORGES, 2013, p. 1533).
A autora ainda menciona que a instituição empregava procedimentos médicos que não atendiam às determinações de normas específicas e colocavam em risco a vida dos internados, como era o caso do eletrochoque:

Era também feito muito eletrochoque. Havia dois funcionários que eram os encarregados de fazer o choque. Era uma seção [sic] horrível. Colocavam o colchão no chão, e, aí, quatro pacientes seguravam um outro para que eles aplicassem o choque, e depois seriam os outros que segurariam que iriam sofrer a mesma prática. Isso era terrível. (PAULA, 2009 apud BORGES, 2013, p. 1541)


Se saíssemos da Colônia Sant’Ana, que fica em nosso estado, e fôssemos para Minas Gerais, em Barbacena, teríamos um quadro ainda mais degradante – por mais que possamos custar a crer que isso fosse possível –, tal era a condição da Colônia de Barbacena, hospital que se manteve em funcionamento até os anos de 1980, e que se tornou o caso mais emblemático da falta de estrutura e de humanidade dispensada aos seus pacientes no Brasil, ficando conhecida como o “Holocausto Brasileiro ”, e sendo exposta por Arbex (2013, p. 24) em livro de mesmo nome: “Sessenta mil pessoas perderam a vida na Colônia. As cinco décadas mais dramáticas do país fazem parte do período em que a loucura dos chamados normais dizimou, pelo menos, duas gerações de inocentes em 18.250 dias de horror.”
Em 1979, o cineasta Helvécio Ratton lançou o documentário Em nome da razão, em que denunciava a barbárie e negligência vividas na Colônia de Barbacena. Seu filme trouxe luz e mobilização quanto à questão daquela instituição em particular, mas também gerou debate acerca das instituições em sua totalidade no país. Franco Basaglia, psiquiatra italiano e pioneiro na luta pelo fim dos manicômios, assistiu ao documentário e manifestou ao seu diretor como a película tinha um poder de revelação, que de fato se mostrou verdadeiro. Basaglia também visitara a Colônia, e chocado com o que viu, foi mais um a denunciar e deixar em evidência o método – e por que não dizer a falta de –, nocivo e perverso com que os pacientes eram tratados (ARBEX, 2013).
Essa postura corroborava com o pensamento que se estabelecia no Brasil, no momento em que passava por um processo de redemocratização e que, associado a outros fatores, como a criação do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), que tinha reivindicações que iam para além da pauta corporativa – como direitos trabalhistas, aumento salarial, cursos de formação etc. –, reivindicava também mudanças no aspecto das “estruturas administrativas hierarquizadas e verticalizadas”, e criticava severamente as péssimas condições de trabalho devido ao número insuficiente de profissionais para atender aos pacientes, o que lhes causava sobrecarga e acarretava um atendimento sem qualidade; afora os terríveis problemas estruturais com os quais os internados conviviam, dentre tantas outras demandas. Esse conjunto de acontecimentos e ações propiciou que o movimento antimanicomial despontasse no Brasil (AMARANTE, 1998).
Enquanto a psiquiatria no país ainda vivia dias de barbárie e negligência mesmo em anos mais recentes (décadas de 1970/80), como já visto, podemos retroceder novamente no tempo e nos deslocar até a Europa do pós II Guerra, na década de 1950, e observar o movimento de reforma psiquiátrica que começava a ser articular e notar que o momento histórico/político, tanto lá quanto aqui, influenciou grandemente no despertar da sociedade para a melhoria da condição humana, como veremos adiante. Depois de fases de tanta violência, dor, mortes e sofrimento, não se podia mais admitir que as pessoas não tivessem tratamento adequado e digno.

Começando a transformação por onde começaram os problemas
Amarante (1998) lembra que depois da Segunda Guerra, a já intitulada comunidade terapêutica , tomada por suas experiências institucionais e por todo o horror causado pelos campos de concentração, buscou chamar a atenção do corpo social para a situação calamitosa em que se encontravam as pessoas que viviam nas instituições psiquiátricas daquela época e lembrou que o espírito democrático que tomava conta da Europa naquele instante não permitiria mais que tratamentos abusivos e desrespeitosos aos direitos humanos fossem aceitos.
Temos, então, campo fértil para as tão necessárias mudanças e reformas no âmbito dos hospitais psiquiátricos, uma vez que população europeia, havia pouquíssimo tempo, vira-se diante de uma guerra que deixara sequelas em seus soldados, em seu povo e, depois dela, era necessário que o continente se restabelecesse, mas, para isso, precisava contar com uma massa produtiva e saudável. Seus trabalhadores precisavam estar curados dos traumas do conflito vivido. E essa cura não poderia advir das instituições asilares da maneira que estavam, como nos advertiram Birman e Costa (1992), pois os hospitais, que já não tratavam ou curavam, estavam sendo apontados não só como responsáveis pela deterioração da saúde física de seus pacientes, mas também pela piora de seus quadros mentais e por tornar suas enfermidades crônicas.
Birman e Costa (1992) ressaltam que, a partir dessas constatações, até a obra de Hermann Simon – criador da Terapia Ocupacional , que estava abandonada em virtude de críticas sofridas por parte da psiquiatra europeia quase vinte anos antes – foi retomada pela comunidade terapêutica sendo, a princípio, colocada como a primeira manifestação de uma nova prática psiquiátrica, sendo também mencionada como o fundamento para a criação do que viria a ser o movimento francês de Psicoterapia Institucional.
Mais adiante, também é retomada a Psicoterapia Interpessoal , através dos postulados do psiquiatra Harry Stack Sullivan que, depois de constatar a melhora de seus pacientes por intermédio da integração médico/paciente, passou do tratamento individual para o de grupo, em que havia interação entre os próprios pacientes. Junte-se a isso o psiquiatra Karl Menninger, que desde antes da Segunda Guerra já usava em sua clínica o método de grupo com os internados, visando sua ressocialização (AMARANTE, 1998).O psiquiatra e psicanalista francês Jean Oury, em entrevista à revista brasileira Percurso, publicada no ano de 2010, ratificou a necessidade de mudanças na infraestrutura das instituições asilares no período do pós-guerra, sendo ele mesmo um dos responsáveis , desde o seu surgimento até os dias de hoje, pela clínica La Borde, localizada no interior da França, e que se tornou um reconhecido caso de sucesso na busca por tratamentos alternativos ao sofrimento psíquico, mudando paradigmas e transfigurando as intervenções de tratamento. Oury (2010) aplicou na La Borde seus conceitos de Coletivo e de Psicoterapia Institucional.
Com o primeiro termo, ele se referia a uma dupla articulação entre o Estabelecimento, que caracteriza como as relações com o Estado – incluindo contratos, hierarquia, necessidade de diplomas e estrutura –, e o tecido institucional que, segundo ele, “propicia essa raridade chamada vida cotidiana”. Para o psicanalista, era necessário “um operador coletivo para responsabilizar as pessoas, dar-lhes inciativas, promover a relação com suas famílias, não é um simples teatro, é simplesmente uma vida de todo dia, do dia a dia, a vida” (OURY, 2010). O psiquiatra diz que se um hospital não se preocupa em oferecer essa dupla articulação, oferecendo apenas o Estabelecimento, não se trata então de um hospital, com o intuito de tratar/curar, mas apenas uma clausura:

Se não existe mais uma vida cotidiana, chegamos às celas, à contenção e às câmeras. Em contrapartida, nos lugares onde houve um pouco de Psicoterapia Institucional não existem celas, contenções, câmeras e é possível ver que na vida cotidiana existe certa liberdade de circulação, ou seja, a condição para que possam existir encontros, ao acaso, do contrário não é verdadeiro [...]. (OURY, 2010)

Quando falava em Psicoterapia Institucional, Oury (2010) levantava a problemática da burocratização que havia tanto na hierarquia quanto na estrutura do Estabelecimento e o quanto isso inviabilizava o processo terapêutico, uma vez que essa psicoterapia tinha como objetivo não apenas tratar as pessoas que estavam internadas no asilo, mas tratar a instituição como um todo, incluindo médicos e todo o corpo clínico, além de todos os envolvidos diretamente com o funcionamento desse estabelecimento. Não era possível haver uma transformação na estrutura se essa estrutura não se abrisse e não oportunizasse a mudança requerida.
Tosquelles (s.d. apud OURY, 2009) diz que sem a abertura devida, temos o “enclausuramento hierárquico. Cada um fechado dentro do seu consultório e se acusando mutuamente de idiota, é uma situação que gera conflitos.”
As abordagens terapêuticas mencionadas aqui não representam integralmente o movimento que se iniciou na Europa e Estados Unidos na época do pós-guerra e mesmo antes e durante a II Guerra, mas, seguramente, foi mostrado o ponto central do que esse movimento propunha para as instituições asilares. Era premente a necessidade de implantar um método que considerasse o paciente como uma pessoa em sua totalidade – com direitos, necessidades, identidade, quereres –; que a responsabilidade exclusiva por sua melhora não estivesse apenas nas mãos dos médicos como seres oniscientes, nem por detrás dos muros dos hospitais, que isolavam e serviam como um espaço para sofrer e ser esquecido. Era preciso não uma reforma, era preciso demolir para construir de novo.

Como as mudanças aconteceram aqui: a Reforma
Ante a profusão de movimentos que versavam a temática da saúde mental e a emergência de sua reforma, em 1989 surgiu o projeto de Lei nº 3.657, do sociólogo e então deputado federal, Paulo Delgado (PT/MG), no qual ele propunha que os manicômios fossem progressivamente extintos, dando lugar a outros tipos de assistência; a proposta também desejava a regulamentação das internações psiquiátricas compulsórias. O projeto só foi sancionado em 6 de abril de 2001, tornando-se a Lei nº 10.216 e, apesar de todas as modificações sofridas – a parte do texto que visava à extinção dos manicômios, por exemplo, não foi inserida no projeto final –, considera-se que houve grande avanço na questão. (WADI, 2009)
Com essa lei, o Brasil passou a trabalhar com uma Política de Saúde Mental que buscará o tipo de tratamento que a comunidade terapêutica, muitos anos antes, já almejava. Conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, ela vai possibilitar que as pessoas portadoras de sofrimento psíquico não sejam mais impelidas exclusivamente a uma internação, que as isolaria do seu convívio social e familiar. Percebe-se e passa-se a trabalhar por um tratamento que se adeque ao máximo ao cotidiano desses pacientes, que passarão a se chamar usuários .
De forma bastante sucinta, a Lei 10.216 busca reduzir o número de leitos psiquiátricos de longa duração, dando preferência para que os atendimentos sejam realizados em hospitais gerais e que, no caso de a internação se fazer estritamente necessária, ela seja por período curto. Também propõe que seja criada uma rede de apoio assistencial que possibilite ao usuário ser atendido dentro de um perímetro máximo aceitável, para que ele não precise deixar seu espaço de convivência cotidiana – que é tão importante considerando a melhora de seu quadro –, para se tratar. Em relação aos pacientes ditos de longa permanência, buscar-se-á a sua desinstitucionalização e reabilitação social, introduzindo-o em um universo produtivo, que envolva trabalho, lazer e cultura. (BRASIL, 2015)
Quando esmiuçado o parágrafo único da Lei, vê-se todos os direitos básicos que foram solapados destes, agora usuários, durante séculos e séculos de duras intervenções psiquiátricas:

Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades;
II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade;
III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração;
IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas;
V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;
VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;
VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento;
VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis;
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.

Imprescindível notar a enorme importância dessa formalização de direitos, visto que até então, no simples decurso deste ensaio, se evidencia que nenhum deles era obedecido ou, sequer, levado em conta. Tínhamos a instituição asilar como uma cadeia que punia, não como um hospital que tratava; tínhamos um hospício que isolava, desrespeitava, humilhava, abusava e explorava seus pacientes. Tínhamos um estabelecimento que não considerava as pessoas internadas de acordo com suas limitações mas que, simplesmente, incapacitava a todas elas, não lhes dando qualquer explicação ou motivação para um tratamento em detrimento de outro; tínhamos, enfim, uma instituição que não buscava a ressocialização desses usuários.
Os nove itens desse parágrafo único protocolaram um novo recomeço para as pessoas portadoras de sofrimento psíquico:

Com este novo protagonismo, o do próprio louco, ou usuário, delineia-se, efetivamente, um novo momento no cenário da saúde mental brasileira. O louco/doente mental deixa de ser simples objeto da intervenção psiquiátrica, para tornar-se, de fato, agente de transformação da realidade, construtor de outras possibilidades até então imprevistas no teclado psiquiátrico [...]. (AMARANTE, 1998, p. 121)


O protagonismo mencionado por Amarante se deu na medida em que os pacientes saíram de dentro do estabelecimento psiquiátrico, quando tiveram a chance de serem desinstitucionalizados, o que incluía não estar mais sob a égide médica; não que não fossem mais tratados por médicos, pois continuariam a ser, mas porque seu tratamento não emergia mais apenas dos saberes médicos.
O ato de, paulatinamente, “sair da instituição” só foi possível por intermédio dos CAPs (Centros de Atenção Psicossocial) ou NAPs (Núcleos de Atenção Psicossocial), centros de atenção social que começaram a surgir no Brasil ainda em 1986 , graças aos movimentos sociais e da categoria dos trabalhadores de saúde mental, de quem já tratamos anteriormente, que lutavam pela melhoria das condições de assistência e entregavam as condições péssimas em que se encontravam as instituições psiquiátricas que eram, até então, a única expressão de tratamento disponível para as pessoas que precisavam desse tipo de auxílio. (BRASIL, 2004)
Os CAPs se estabelecem como estruturas territoriais e descentralizadoras de tratamento; integrante do Sistema Único de Saúde (SUS), caracterizam-se como serviços de saúde abertos e comunitários. O manual intitulado Saúde Mental no SUS: os centros de atenção psicossocial (2004, p. 13) afirma que os CAPs são lugares

de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais quadros, cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivos de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida.

E que têm como objetivo

oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos.



Na teoria, o CAPs é um espaço de tratamento e acolhimento que respeita o ambiente em que o usuário vive e que não o retira de seu meio, nem o despe de suas particularidades como ser humano com a justificativa de tratá-lo. No CAPs, as portas estão abertas para quem quiser ir e vir e o saber médico passa a ser um saber terapêutico, que não se restringe unicamente à psiquiatria, mas que tem nela apenas uma de suas vertentes, posto que cada um desses estabelecimentos conta com uma equipe técnica mínima de um médico com formação em saúde mental, um enfermeiro, três profissionais de nível superior dentre as categorias: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional ou pedagogo; e quatro profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão (BRASIL, 2004).
Além disso, os CAPs oferecem oficinas, psicoterapia em grupo, atendimento aos familiares dos usuários, visitas domiciliares e reinserção social/familiar. Olhando as leis, os projetos instituídos e a parte do “papel”, parece mesmo que as amarras da camisa-de-força manicomial foram desfeitas e que todas as dificuldades foram ultrapassadas mas, infelizmente, a realidade brasileira ainda deve manejar e tentar solucionar questões como a da falta de estrutura, que persiste. Sai o hospício, entra o CAPs, e a demanda dos usuários continua sendo bem maior do que a oferta de espaços terapêuticos e, mesmo que o manual aponte uma equipe mínima para garantir o funcionamento desses lugares, a falta de recursos humanos e de qualificação adequada para atender a essa clientela ainda é escassa.
Ainda deve ser lembrada a questão da medicalização que, se durante séculos foi usada como uma maneira de controlar os ânimos da população internada, segue até agora, ao menos para a população que tem acesso a esses medicamentos de forma gratuita, com princípios ativos ultrapassados que apenas embotam esses usuários, não permitindo que tenham progressos mais expressivos no percurso de seus tratamentos.

Algumas considerações

Este pequeníssimo ensaio não tem qualquer pretensão de encerrar as temáticas loucura-tratamento-reforma ou de abarcá-los em sua totalidade, pois seriam necessários muitos anos de estudo, leitura e pesquisa. Meu intuito foi o de mostrar o desenrolar histórico – mesmo que muito resumido – da triste ascensão da loucura e de como ela foi apropriada pelo saber médico e pela instituição psiquiátrica durante tanto tempo.
O epílogo mais lastimável ao qual poderia chegar é o de perceber que os hospitais, os asilos, os manicômios, as colônias eram lotados não porque havia um número indecente de pessoas loucas na sociedade mas, sim, porque durante muito tempo os critérios de diagnóstico eram pífios e segregadores e longe de buscarem a melhora do “doente”, procuravam apenas deixá-lo mais e mais em estado de estupor, menos dono de si, menos senhor de suas vontades, menos independente, menos gente.
Criou-se a loucura como doença, criou-se o hospital psiquiátrico para tratar exclusivamente a loucura e, então, colocou-se lá dentro todas as pessoas que possuíssem a patologia. A questão é que os braços da loucura se alongaram tanto que envolveram qualquer comportamento que não estivesse dentro dos padrões da normalidade deste ou daquele contexto histórico. Extinguem-se doenças, criam-se novas patologias e quem não enquadra no sistema, enquadra-se na doença; seguimos, então, a mesma dinâmica instaurada desde as origens do hospital psiquiátrico.
A despeito disso, sim, hoje, o horizonte parece bem mais promissor do que pareceu em séculos. A humanização do tratamento, a desinstitucionalização dos usuários, o tratamento medicamentoso adequado, o apoio da família, as psicoterapias, a quebra gradual de estigmas, o fato de a loucura estar em voga e toda a sorte de transtornos que podem ser associados a ela (pânico, depressão, ansiedade, neurose...) fazem dela um assunto de trato mais digerível, diferentemente de outros tempos.
Depois de tantas amarras, parece que o “louco manso”, aquele que nos habita a todos, tem finalmente a liberdade de pular o muro alto e, numa profusão de oportunidades, tem a liberdade de ser.

REFERÊNCIAS

AMARANTE, Paulo (Coord.). Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995.
ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
BIRMAN, Joel; COSTA, Jurandir Freire. Organização de instituições para uma psiquiatria comunitária. In: AMARANTE, Paulo (Org.) Psiquiatria Social e Reforma Psiquiátrica, Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p.41-72.
BORGES, Viviane Trindade. Um “depósito de gente”: as marcas do sofrimento e as transformações no antigo Hospital Colônia Sant’Ana e na assistência psiquiátrica em Santa Catarina, 1970-1996. In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 20, n. 4, p.00-00, out./dez. 2013.
BRASIL. Centro Cultural da Saúde. A reforma psiquiátrica brasileira e a política de saúde mental. Disponível em: . Acesso em: 16 nov. 2015.
BRASIL. Lei 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Disponível em: . Acesso em: 16 nov. 2015.
BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção À Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde mental no SUS: os centros de atenção psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
BRUM, Eliane. (Prefácio) Os loucos somos nós. In: ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro, p. 16, 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
DE CARLO, Marysia M. R. do Prado; BARTALOTTI, Celina Camargo. Caminhos da Terapia Ocupacional. In: DE CARLO, Marysia M. R. do Prado; BARTALOTTI, Celina Camargo (Org.) Terapia ocupacional no Brasil: fundamentos e perspectivas, São Paulo: Ed. Plexus, 2001. p.19-40.
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Editoria Perspectiva, 2000.
FOUCAULT, Michel. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
GOFFMAN, Erwin. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974.
OURY, Jean. Entrevista com Jean Oury. Revista Percurso. São Paulo, v.00, n.00, p.00-00, Jun. 2010. Entrevistadores: ALMEIDA, Andréa C. M. de; BREYTON, Danielle M.; CARDOSO, Deborah J.; HOTIMSKY, Silvio; MARKUSSZOWER, Suzan. Traduzida por: Andréa C. M. de Almeida e Danielle M. Breyton.
REIS, José Roberto Franco. O coração do Brasil bate nas ruas: a luta pela redemocratização do Brasil. In: PONTE, Carlos Fidelis; FALLEIROS, Ialê (Org.). Na corda bamba de sombrinha: a saúde no fio da história. 1. ed. Rio de Janeiro: FIOCRUZ-COC-EPSJV, 2010. p. 221-236.
WADI, Yonissa Marmitt. Uma história da loucura no tempo presente: os caminhos da assistência e da reforma psiquiátrica no Estado do Paraná. Revista Tempo e Argumento, vol. 1, n. 1, p.68-98, jan./jun. 2009.

BIO
Karla é formada em Letras, pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, e escreveu este artigo para a conclusão da disciplina "Memória, História e Instituições de Isolamento", do mestrado em História do Tempo Presente, da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, que cursou como aluna especial. Tem 32 anos, é florianopolitana, formada em letras, casada, tem uma filha, é de esquerda, ateia e, ainda assim, leonina. Gosta de assuntos ligados à morte e à dita "loucura", mas é uma boa pessoa.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A PSICOLOGIA DOS ERROS ESTONTEANTEMENTE ESTÚPIDOS

Estou a sofrer as dores de parto encruado de trigêmeos, seguindo o processo eleitoral aqui nos USA e seja lá que nome tenha o enrosco do impeachment/delações premiadas/lava jato/roubos de merenda escolar e fechamento de escolas aí no Brasil.

Aqui, Donald Trump é o escolhido do partido republicano (GOP- Great Old Party – Grande Velho Partido). Aí, sequer sei resumir. Entendi que a presidente foi afastada, Temer assumiu interinamente e a festa de escandalos continua sem trégua à vista. É ministério que desaparece e volta à tona, delações que aparecem e de repente também somem, juízes viram salvadores da Pátria e daí aumentam os próprios rendimentos sem pejo ou pudor. Nem lembro a porcentagem de Congressistas respondendo a algum processo, menos o dono do helicoptero com 500 Kg de cocaina.

Nem o Oliver Stone teria conseguido. E aí recebo o artigo que abaixo traduzo. Se vai mudar algo? Duvido. Mas que vai ter gente à beça metendo a mão na testa, isso vai. Tomara que não seja tarde demais.
PSYCHOLOGY OF BREACKTAKING STUPID MISTAKES

“Todos nós cometemos erros estúpidos de vez em quando. A história está repleta de exemplos. Diz a lenda que os troianos aceitaram o "presente" dos gregos, um enorme cavalo de madeira, que acabou por ser oco e preenchido com um time de comandos. A torre de Pisa começou a inclinar-se, mesmo antes da construção ser concluída e não é sequer a mais inclinada do mundo . A NASA, inadvertidamente, gravou em cima das gravações originais do pouso na Lua, e agentes do comitê de reeleição de Richard Nixon foram pegos invadindo um escritório de Watergate, pondo em movimento o maior escândalo político da história dos EUA. Mais recentemente, o governo francês gastou US $ 15 bilhões com uma frota de novos trens, apenas para descobrir que eles eram muito grandes para caber em cerca de 1.300 estações.

Prontamente reconhecemos estes incidentes como erros estúpidos, erros-épicos. Num nível mais pessoal, investimos em esquemas de ficar rico-rapidinho, dirigimos acima do limite permitido e postamos coisas em mídias sociais as quais nos causarão sério arrependimento mais tarde.

Mas o que, exatamente, impulsiona a nossa percepção dessas ações como erros estúpidos, ao contrário de má sorte? Sua aparente falta de pensar a respeito? A gravidade das consequências? A responsabilidade das pessoas envolvidas? A ciência pode nos ajudar a responder a estas perguntas.

Em um estudo recém-publicado na revista Intelligence, usando termos de pesquisa como "coisa estúpida de se fazer", Balazs Aczel e seus colegas compilaram uma coleção de histórias que descrevem erros estúpidos de fontes como The Huffington Post e TMZ. Uma história descreveu um ladrão que invadiu uma casa e roubou uma televisão e mais tarde retornou para buscar o controle remoto; outro descreveu os assaltantes que pretendiam roubar telefones celulares, mas acabaram roubando dispositivos de rastreamento (GPS) que, quando ligados deram à polícia sua localização exata. Os pesquisadores então pediram a um gupo de estudantes universitários, para avaliar cada história a a respeiro da responsabilidade das pessoas envolvidas, a influência da situação, a gravidade das consequências, e outros fatores.

As análises de avaliações dos sujeitos revelou três variedades de erros estúpidos:

A primeira é quando a confiança de uma pessoa ultrapassa a sua habilidade, como quando um homem, em Pittsburgh, roubou dois bancos em plena luz do dia sem usar disfarce, acreditando que o suco de limão que tinha esfregado no rosto o faria invisível para as câmeras de segurança. Ou, no que é amplamente considerado como um dos maiores fracassos de mascote da história, quando o Wild Wing dos Anaheim Ducks tascou fogo em si mesmo, tentando saltar sobre uma parede em chamas (os líderes de torcida o arrancaram das chamas e ele voltou à ação no final do jogo, ileso).

A desconexão entre a confiança nas própias habilidades e ausência das mesmas foi apelidada de efeito Dunning-Kruger, depois de um estudo realizado pelos psicólogos sociais David Dunning e Justin Kruger com estudantes da Cornell sobre testes de humor, lógica e gramática e, em seguida, avaliar quão bem eles pensam que foram, em comparação com outros sujeitos do estudo. Os sujeitos com pior desempenho, cujas pontuações os colocaram no percentil 12, estimaram que tinham alcançado o percentil 62, o mais alto. Resumindo os resultados, Dunning observou: "Desempenho ruim, e todos nós temos algum desempenho péssimo em alguma área, não consegue visualizar as falhas de pensamento ou respostas falhas. Quando pensamos que estamos fazendo nosso melhor desempenho, é quando, usualmente, cometemos as maiores besteiras”.

Como qualquer dos inúmeros escândalos políticos bem ilustra, o segundo tipo de erro estúpido envolve atos impulsivos, quando nosso comportamento parece fora de controle. No escândalo que ficou conhecido como Weinergate, ex-politico, Anthony Weiner, enviou textos e fotos de si mesmo e suas partes pudendas, para mulheres que havia conhecido no Facebook. Depois de renunciar ao cargo, Weiner continuou suas ciber-imbecilidades sob o cognome de Carlos Perigo, e ai caiu presa do efeito Dunning-Kruger quando superestimou o apoio apoio que receberia na primaria para prefeito de NY em 2013. Mais recentemente, em Michigan, um representante do estado Todd Courser (conservador de direita, pertencente aoTea Party,que é extrema direita), admitiu ao envio de um e- mail anônimo para agentes Partido republicano e membros da mídia alegando (falsamente) que ele havia sido pego fazendo sexo com uma prostituta do sexo masculino, com o objectivo de, em fazendo tal revelação, pudesse fazer parecer que seu caso com a colega representante Cindy Gamrat parecesse como parte de uma campanha de difamação. Em um audio gravado de uma conversa secreta com um membro da equipe, Courser descreveu sua estratégia como uma "queima controlada de mim mesmo" projetada para "inocular o rebanho" contra as alegações que ainda não haviam sido feitas.

A variedade final de erro estúpido envolve lapsos de atenção tipo Homer, da série “Os Simpsons”. Um dos melhores exemplos da história do esporte americano é a de Roy Riegels, estrela do esporte da Universidade da California, o qual, em 1929 durante o Rose Bowl, correu 65 jardas para o lado errado do campo, erro que deu a vitória ao time do Georgia Tech. Já em 1964, Jim Marshall, do Minnesota Vikings, que foi por 2 vezes considerado o melhor dos jogadores, além de ser capitão da equipe, repetiou o feito, não por uma mas 2 vezes no mesmo jogo.

No estudo de Aczel, as análises revelaram que as pessoas vêem esta categoria como o menor dos erros estúpidos.

Naturalmente é irrealista pensar que poderíamos eliminar o erro humano. Errar é humano, e vai ser sempre. No entanto, esta pesquisa nos dá uma melhor descrição das nossas falhas e fraquezas, e um lugar para começar a pensar em intervenções e prescrições para nos ajudar a errar menos. Esta pesquisa também nos lembra de nossas fragilidades humanas compartilhadas. Somos todos propensos a superestimar nossas habilidades, tomar decisões impulsivas, e termos lapsos de atenção. Esta constatação simples faz com que erros estúpidos pareçam, talvez, um pouco menos estúpidos - e um pouco mais humanos.”

Pois concordo com tudo, só que, quando a soma das 3 categorias se espalha numa população, aí criamos histeria coletiva, que tal qual um desastre natural, deixa sequelas às vezes irremediaveis.

Mas esse é o assunto da próxima postagem: “Os demonios nossos de cada dia ou histeria de massa.”

quinta-feira, 14 de abril de 2016

TIROS QUE SAEM PELA CULATRA OU PORQUÊ FATOS NÃO VENCEM ARGUMENTOS

Vamos dizer que você está tendo uma discussão com um amigo sobre o aquecimento global ou quem foi o melhor goleiro na história das copas. Você apresenta a seu amigo um conjunto de fatos que você acha que vencem a discussão. E, no entanto, espantadissimo, pois acha que os fatos que apresentou claramente contradizem a posição do seu amigo, descobre que tais fatos falharam totalmente em corrigir a crença, falsa ou infundada, do citado amigo. Na verdade,ele está ainda mais agarrado à sua crença após ser exposto à informação corretiva.

Um grupo de investigadores da Universidade de Dartmouth estudou o problema do assim chamado "tiro pela culatra", que é definido como o efeito no qual "as correcções realmente aumentam os equívocos entre o grupo em questão."

O problema aqui pode ser a maneira como seu amigo está recebendo estas informações. Pode ser que seu amigo conhece a você e suas opiniões muito bem , e não acha que você seja exatamente uma fonte onisciente das mesmas, caso na qual pode haver acordo. A outra situação é um pouco mais complicada.

Quando se trata de receber informações de correção sobre uma questão, principalmente sobre politica, religião ou saúde, os autores do estudo destacam que “as pessoas normalmente recebem informações corretiva nos relatórios "objetivos" de notícias, opondo dois lados de um argumento contra o outro, o que é significativamente mais ambíguo do que receber uma resposta correta de uma fonte onisciente. Nesses casos, os cidadãos são susceptíveis de resistir ou rejeitar os argumentos e evidências que contradizem suas opiniões, uma visão que é consistente com um vasto leque de investigação”.

Assim, quando vemos uma notícia que apresenta ambos os lados de uma questão, nós simplesmente escolhemos o lado que concorda com nossa crença prévia, reforçando assim nosso ponto de vista. Mas, o que acontece com aqueles indivíduos que simplesmente não suportam desafios para seus pontos de vista, e seja lá o que acontece, só reforça mais e mais seu parecer original?

Os autores descrevem o efeito “tiro pela culatra" como um possível resultado do processo pelo qual as pessoas contra argumentam informações, de preferência incongruentes, de formas a reforçar seus pontos de vista preexistentes. Se as pessoas contra argumentam informações indesejáveis vigorosamente o suficiente, podem acabar com informações mais atitudinalmente congruentes em mente do que antes do debate, o que, por sua vez, leva a comunicar opiniões que são mais extremas do que teriam sido se tais opiniões não tivessem sido desafiadas. E aí, a vaca vai para o brejo.

Então, o que se pode fazer?

Julia Galef ( Presidente do Instituto para Racionalidade aplicada) diz que é preciso fazer uma mudança mental importante, ou seja, ao invés de pensar sobre o argumento como uma batalha a ser ganha, reformular a coisa como uma parceria, uma colaboração em que as pessoas, juntas, estão tentando descobrir a resposta certa.
Isso torna muito mais fácil a avaliação dos argumentos, quais são bons e quais são ruins porque todos estariam motivados para obter a resposta certa juntos, ao invés de ter que defender o argumento com o qual se entrou na discussão, como o correto.

Gosto imensamente dessa proposta. Infelizmente, também conheço o Raciocínio Motivado, que por definição é o “Tipo de estratégia de justificação inferida, utilizada para minimizar a dissonância cognitiva.”
Acontece quando nos agarramos a falsas crenças apesar de esmagadora evidência em contrário. Em outras palavras, ao invez de pesquisar de forma racional, a informação que confirma ou desconfirma uma crença particular, o que realmente procuramos é por informação que confirme o que já acreditamos. É uma forma implícita de regulação da emoção, na qual os circuitos cerebrais convergem em "juízos que minimizem os efeitos negativos e maximizem os afetos positivos associados com uma ameaça ou à realização de motivos ".

Exemplos de uma obviedade ululante, como diria o Nelson Rodrigues, não faltam, tipo o movimento anti-vacinação, que conseguiu trazer de volta doenças quase que totalmente erradicadas, o lobby pró-armas aqui nos USA, as dietas para perder peso, que cada mês tem uma nova, jurando que o cidadão vai perder 10 Kg por semana comendo o que quiser, enfim, a lista é infindável.

No excelente artigo “Motivated reasoning & its cognates” (Raciocínio Motivado e seus cognatos, tradução livre minha), no Projeto de Cognição Cultural da Faculdade de Direito de Yale (http://www.culturalcognition.net/blog/2013/5/15/motivated-reasoning-its-cognates.html) os gênios discutem que, na realidade, todo e qualquer raciocínio é motivado, porque seria totalmente sem sentido qualquer raiocínio que não o fosse.

Dizem eles: “O prospecto de que os seus próprios argumentos empíricos possam ser demonstrados falsos, cria o risco de “ameaça à identidade”, individual ou grupal, pois a pessoa ou todo o grupo ao qual esta pertence, terão que aceitar suas idéias como falsas. Além disso, a certeza com que os argumentos empíricos são transmitidos, tipo "é simplesmente um fato que. . . "; "Como eles podem negar a evidência científica sobre. . .? ", desperta suspeitas de má fé ou partidarismo cego por parte dos grupos . No entanto, quando os membros de grupos oponentes tentam rebater esses argumentos, são propensos a responder com a mesma certeza, e com a mesma falta de consciência de que estão sendo impelidos a creditar argumentos empíricos para proteger suas identidades. Esta forma de troca, que é a assinatura do realismo ingênuo, gera, previsivelmente, ciclos de recriminação e ressentimento.”

O problema então, surge sempre e quando pensamos que estamos sendo absolutamente racionais, que a idéia que defendemos nada tem a ver com nossas paixões pessoais, e uso o termo “paixão” no sentido neurofisiologico do termo, ou seja, uma emoção forte, sendo emoção “um estado psicologico complexo que envolve 3 componentes distintos: uma experiência subjetiva, uma resposta fisiologica e uma resposta comportamental ou expressiva (Hockenbury & Hockenbury, 2007))

Ou seja, não há qualquer possibilidade de sermos totalmente racionais ou, como dizem aqui, “nada pessoal”, o que me causa frouxos de riso. Pensa o seguinte: você é chefe de um escritorio, ou qualquer coisa, e a empresa tem que despedir uma pessoa, só porque está diminuindo suas atividades. Pois bem, você tem dois empregados, igualmente bons no que fazem, igualmente trabalhadores, mesma faixa etária, mesmas condições sociais. Um deles, vc acha super divertido, sempre pronto com a piadinha do dia. O outro é quetão, fica na dele, não é a mais expansiva das criaturas. Qual você despede? Seja honesto.

Nem filhos conseguimos amar igual, por mais que repitamos essa falácia socialmente. Não os amamos mais ou menos. Os amamos diferente, porque cada um tem uma personalidade, cada um tem um jeito, cada um é um universo.

Então tudo o que fazemos ou pensamos é absolutamente pessoal, tem a ver com quem somos, quem queremos ser, a que grupo queremos pertencer, e todo nosso comportamento externo é fruto desse “Eu” aprendido, esculpido, moldado, social e historico, com uma pitada de genética enfiada no meio.

Queremos mesmo mudar uma situação politico/social? Não vai ser chamando este ou aquele politico de todo e qualquer epíteto derrogatorio encontrado na lingua em questão. Não vai ser insultando os que discordam de nosso ponto de vista.

Vai ser dando uma boa olhada em nós mesmos e nos perguntando, por que, exatamente, defendemos este ou aquele ponto, ou como bem disse Sun Tzu, em “A arte da Guerra” há 2500 anos:

“Se você conhece seu inimigo e conhece a si mesmo, não temerá o resultado de 100 batalhas”.


Ou como brilhantemente sumarizou o agente Aloysius Xingu L Pendergast, no livro “Labirinto Azul”, de Preston e Child, ao ser questionado sobre o porque ter se livrado de apenas parte de sua fortuna, provinda de um ancestral muito sacana:

“Porque prefiro ser um pouco hipocrita a ser pobre”.

E la nave vá…

THE BACKFIRE EFFECT

WHEN CORRECTION FAILS


domingo, 14 de fevereiro de 2016

BRASIL: A OPORTUNIDADE INESPERADA QUE A ZIKA APRESENTA

Traduzido ao pé da letra da revista médica Lancet. VEJA LINK AQUI

O Brasil está (compreensivelmente) chateado. Na reunião do Conselho Executivo da OMS, no mês passado, um oficial de Genebra me disse que a delegação do país estava se recusando a apoiar resoluções que poderiam ter suportado porque o Ministério das Relações Exteriores brasileiro se opõe aos rankings do país pelo Banco Mundial.

O Brasil é classificado pelo Banco Mundial como um país de renda média superior, juntamente com os seus vizinhos próximos (Colômbia, Equador, Paraguai e Peru). Infelizmente para o Banco (e para a OMS), o Brasil não se vê como uma nação de renda média. Ele tem aspirações mais elevadas. Para piorar o insulto, em 2015 o Banco promoveu rivais do Brasil, (Argentina e Venezuela), para o status de alta renda. Um país de alta renda é definido por um rendimento nacional bruto por pessoa igual ou superior a US $ 12 736. Brasil está um pouco abaixo, em $ 11 530 (2014).

O Brasil tem sido sensível ao julgamento dos outros. Quando a OMS publicou o seu Relatório Mundial de Saúde em 2000, o governo e as lideranças de saúde do país se sentiram feridas e indignadas. A OMS classificou o Brasil em 125 lugar dos 191 países (Venezuela foi colocada em 54 e Argentina 75).

O Brasil pode,certamente, orgulhar-se de seu progresso para uma saúde melhor.

Mas, em sua história de doenças infecciosas, a coisa é complicada. Em seu livro “Epidemias Laid Low” (2006), Patrice Bourdelais argumenta que um país de alta renda é aquele que conseguiu conquistar as epidemias,razão pela qual a historia do Brasil nessa área, não é apenas uma tragédia nacional, mas também uma humilhação internacional.

A presidente Dilma Rousseff emitiu declarações de resistência e desafiao. Mas a Zika chega em um momento perigoso para o Brasil. A economia do país está encolhendo, enquanto o desemprego e a inflação estão subindo. Essas pressões têm ameaçado um sistema de saúde já frágil.

Escrevendo na revista The Lancet em 2011, Mauricio Barreto e seus colegas identificaram dengue como um dos principais "fracassos" na saúde pública brasileira. O principal vetor da dengue, Aedes aegypti, é também o vetor para Zika. Os esforços para controlar a dengue falharam no Brasil, o que significa que a probabilidade de controlar Zika rapidamente, é baixa.

Mas, com uma liderança atuante, o Brasil pode transformar esta epidemia em uma força. Em momentos de epidemia,de perigo, centra-se naturalmente sobre a ação das nações para controlar o surto. Quais são consequências de uma epidemia em uma nação? Epidemias alteram governos. Os líderes políticos não poderiam ter nenhum sinal mais claro de que é sua responsabilidade o proteger a saúde das suas populações (governos, não médicos, são quem derrotam as epidemias). Esses líderes entendem que a estabilidade política, econômica e social do seu país depende da saúde.

Esta realização tem consequências.Leis são promulgadas para proteger a saúde. Novos investimentos são feitos em ciência médica (progresso político depende do progresso científico). Novas instituições são criadas para canalizar os melhores pareceres científicos para os decisores. Saúde universal gratuita e de alta qualidade torna-se uma prioridade pública. E os líderes entendem que proteger e manter a confiança do público é essencial para a ordem pública.

Epidemias alteram a relação entre médicos e estado. O número, renda, status e poder dos médicos (e suas instituições) são reforçados. Médicos aumentam e melhoram suas demandas e procuram (e geralmente conseguem), maiores contribuições para as políticas de saúde.

Epidemias mudam a concepção pública da doença, a qual não é mais vista como apenas patologia do corpo. Elas também tornam-se patologias do ambiente. Saúde não é mais uma qualidade dentro do controle puramente individual. É algo que depende da organização da sociedade. Epidemias remodelam o conhecimento. Dados confiáveis assumem importância política suprema. Os políticos exigem o acesso imediato a esses dados. A pesquisa torna-se uma ferramenta vital para melhorar o juízo político. Novas áreas de conhecimento são criadas. A comunicação rápida e transparente das novas descobertas se torna uma necessidade.

Epidemias mudam o público. As expectativas do público aumentam. Pessoas passam a apreciar as ações de um governo forte, mas tornam-se cautelosas se percebem poder coercitivo do Estado. O público é menos tolerante com aqueles que abrigam a doença (ou o risco de doença). O estigma floresce. A Saúde torna-se uma obsessão pública. Pessoas e governos começam a levar a saúde mais a sério. Curandeiros e charlatães prosperam.

Epidemias mudam sociedades. A doença epidemica precipita uma crise política. Sociedade são reestruturadas e reformadas. A ideia de progresso é redefinida (reversões são possíveis). Um consenso se constrói em torno do direito à saúde.

Em suma, as epidemias podem acelerar, bem como destruir o desenvolvimento humano.

A Zika será apenas um momento na longa luta para avançar a saúde dessas nações atualmente afetadas. Mas esse momento é uma oportunidade que não deve ser perdida.