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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AGNOTOLOGIA: O LADO NEGRO DAS NEUROCIÊNCIAS OU O ESTUDO PARA ESPALHAR IGNORÂNCIA

"A ignorância não é apenas o ainda-não-conhecido, também é uma manobra política, uma criação deliberada por agentes poderosos que querem que não se saiba" Robert Proctor

Faz tempo que tenho um caso de paixão/ódio com a agnotologia. Por um lado, me fascina a mecânica da coisa, por outro, tenho um pavor horroroso das consequências, com pleonasmo e tudo.

Por definição, agnotologia é o estudo da ignorância ou dúvida culturalmente induzida, em especial a publicação de dados científicos falsos ou enganosos.
A palavra foi cunhada por Robert N. Proctor, professor de historia da ciência e tecnologia em Stanford, juntando as palavras gregas “agnosis-não conhecer” e “logia-estudo de”.
Vem a ser o exato oposto de epistemologia, que é a teoria do conhecimento. É o estudo de atos voluntários para espalhar confusão e/ou engano, geralmente para vender um produto ou ganhar um favor.

O primeirissimo uso americano bem conhecido da agnotologia como deliberada produção de ignorância, segundo Proctor, foi a conspiração da indústria do tabaco a respeito dos riscos de seu uso. Usando o jargão científico, as companhias de cigarros produziram pesquisas a respeito de tudo, menos os problemas sérios de saúde consequentes ao uso, como forma de explorar e aumentar a confusão do público.
Em 1979, um memorando secreto da indústria do tabaco foi revelado ao público. Chamado de “Fumar, uma Proposta de Saúde”, e escrito uma década antes pela empresa de tabaco Brown & Williamson, revelou muitas das táticas empregadas pelas indústrias do tabaco para combater as "forças anti-tabaco".
Uma das partes mais reveladoras do memorando, é a do foco em como comercializar cigarros para o público : "A dúvida é o nosso produto, uma vez que é o melhor meio de competir com os fatos que existem na mente do público em geral . É também o melhor meio de criar polêmica. "

Isso chamou muito a atenção do Robert Proctor, que começou a estudar como é que essas companhias estavam negando, atrapalhando e /ou escondendo a relação do fumar com câncer, descobrindo não só os bilhões gastos por citadas companhias, como também cunhando o novo têrmo.

A Agnotologia também se concentra em como e por quais formas o conhecimento não acontece, ou é ignorado ou adiado. Por exemplo, o conhecimento sobre as placas tectônicas foi censurado e adiado por pelo menos uma década, porque algumas evidências foram classificadas como informação militar, relacionadas à Guerra Submarina.

Algumas das causas de ignorância culturalmente induzida são a negligência da mídia, o sigilo e supressão corporativa ou governamental, a destruição de documentos e uma miríade de formas de seletividade culturopolítica, além de nossa própria desatenção, memória curta e o raio do pensamento motivado, como tão bem explicou Dan Kahan, da Faculdade de Direito de Yale, no artigo “Motivated Numeracy and Enlightened Self-Government”(Motivação dos Números e Autonomia Iluminada - tradução livre minha, citado no post “A mais deprimente descoberta sobre o cérebro, no Blog Curare Dolorem Opus divinum Est CLIQUE AQUI).

Uma das consequências é simplesmente o retorno de doenças sérias e que estavam quase que erradicadas, devido ao movimento anti-vacinação. Vejamos:
Em 1998, o pesquisador Andrew Wakefield publicou um estudo na prestigiosa revista médica Lancet, clamando que havia uma conexão entre a vacina tríplice e autismo. Sua teoria era que a vacina contém vírus vivo, o qual, em crianças susceptiveis, causaria um sarampo crônico, o que por sua vez causaria disturbios gastrointestinais, inclusive o que êle chamou de “síndrome do intestino solto”, o que permitiria que certas toxinas e substâncias químicas, como por exemplo as encontradas no pão e laticínios, e que são digeridas no intestino, entrassem na corrente sanguínea, de onde iriam ao cérebro, lesando-o. A mídia desceu com tudo, espalhando o artigo, e como consequência, o índice de vacinação no reino Unido caiu, resultando num enorme aumento de doenças passiveis de prevenção.
E de nada adiantaram todos os artigos subsequentes demonstrando não haver qualquer relação entre vacina e autismo, nem o fato que o autismo continuou aparecendo no Japão, mesmo depois que eles retiraram a vacina, nem o fato da Lancet retirar seu aval do estudo, nem a demonstração, pelo jornalista investigativo Brian Deer, de que Wakefield havia colocado aplicações para uma vacina de sua invenção, nem o quanto estava ganhando de uma indústria farmaceutica para fazer testes infames nas crianças, além de estar sendo pago também por advogados para testemunhar contra as indústrias produtoras das vacinas numa ação de classe de pais de crianças autistas. E também ninguém ligou que o Conselho Médico Britânico lhe retirou a licença para praticar medicina.
Muito antes pelo contrário, os crentes do movimento anti vacina, transformaram o homem numa espécie de mártir, simplesmente negando qualquer evidência de sua ganância e conduta anti ética, e acreditando numa conspiração contra ele, projetada para esconder a verdadeira causa do autismo do público.
Caso esteja interessado na história toda, LEIA AQUI


Em 2004, Londa Schiebinger explicou que a epistemologia se pergunta como sabemos, e por que não sabemos, enquanto a agnotologia se pergunta como fazer para que não se saiba. Diz ela: “... a ignorância é muitas vezes não meramente a ausência de conhecimento, mas um resultado da luta cultural e política"

Seu uso como uma descrição crítica da economia política, foi expandido por Michael Betancourt em um artigo de 2010 intitulado " Immaterial Value and Scarcity in Digital Capitalism - Valor Imaterial e escassez no capitalismo digital." Sua análise focou-se na bolha imobiliária, de 1980 a 2008, aqui nos USA, e nós todos sabemos e vivemos as consequências da explosão de citada bolha. Betancourt argumenta que esta economia política deve ser chamada de capitalismo agnotologico porque “a produção sistêmica e manutenção da ignorância é um grande recurso que permite que a economia funcione, uma vez que permite a criação de uma "economia de bolha".
E continua, explicando “A criação de incógnitas sistêmicas onde qualquer "fato" potencial está sempre contrariado por uma alternativa de aparentemente igual peso e valor torna o envolvimento com as condições da realidade uma fonte de confusão, refletida pela incapacidade dos participantes das bolhas de se tornarem cientes do colapso iminente, e só enxergá-lo depois de ter acontecido.”

Agnotologia é tão importante hoje como quando Proctor estudou a ofuscação de fatos sobre câncer e tabagismo, pela indústria do tabaco. Por exemplo, a dúvida politicamente motivada sobre a nacionalidade do presidente dos EUA, Barack Obama, foi semeada durante muitos meses por adversários, até que ele revelou a sua certidão de nascimento em 2011, o que de nada adiantou porque quem acreditava que ele era mussulmano e nascido no Quênia, acreditando continuou. Em outro caso, alguns comentaristas políticos na Austrália, tentaram atiçar o pânico, comparando a classificação de crédito do país com a Grécia, apesar de todas as informações públicas disponíveis das agências de classificação, que mostram que as duas economias são muito diferentes. No Brasil, a direita insiste em mostrar quão maravilhosa foi a ditadura para a economia, embora seja conhecimento comum, e caso não seja, um minuto no Google mostraria dados e fatos do desastre. No mesmo paragrafo, a insistência da esquerda na negação dos rombos econômicos causados por simples ganância. E está aí o vale do ex-Rio Doce, que não me deixa mentir. Idem uso do Google.

Proctor explica que a ignorância muitas vezes pode ser propagada sob o pretexto de debate equilibrado. Por exemplo, a idéia comum de que haverá sempre duas visões opostas nem sempre resulta em uma conclusão racional, como bem mostrou a história das empresas de tabaco, usando a ciência para tornar seus produtos inofensivos. Hoje, vem sendo usada por negadores da mudança climática para argumentar contra a evidência científica. Pior, quem na realidade vemos argumentando é em geral um cientista, contra meia dúzia de “celebridades” de diversos matizes, com o cientista levando a pior, posto que o/a coitado tem as restrições causadas pelo conhecimento, enquanto os célebres não tem qualquer restrição no uso de sua ignorância, além de serem muito, mas muito mais estridentes.

Esta “rotina de equilíbrio" permitiu que os homens do cigarro e os negadores do clima de hoje, alegarem de que há sempre dois lados para cada história, que "os especialistas discordam” criando uma falsa imagem da verdade, portanto, a ignorância.
Notem que as frases são sempre vagas, sem dizer quem são os especialistas que discordam, como, em que e porque discordam.

Um exemplo disso que tenho claro na memória, foi, no século passado, a disputa política entre Lula e
Fernando Collor de Melo, na qual o último foi apresentado como “o caçador de marajás”, sem que, em nenhum momento fosse dito o nome de um só marajazinho caçado. O resto da história todo mundo conhece, incluindo a atual amizade entre os dois citados inimigos figadais.

Já Proctor,dá outro exemplo: muitos dos estudos que ligaram agentes cancerígenos ao uso de tabaco, foram realizados inicialmente em ratinhos, e a indústria do tabaco respondeu dizendo que os estudos em ratos não significavam que as pessoas estivessem em risco, apesar dos resultados adversos óbvios na saúde de muitos fumantes.
Hoje, escuto como explicação para a negação da evolução é que nunca ninguém viu um macaco virar gente, isso é claro que sem a menor preocupação de dar uma lidinha no que é, exatamente, a teoria da evolução, que nunca, jamais em tempo algum disse que macaco virava gente.

"Vivemos em um mundo de ignorância radical,e embora o conhecimento seja facilmente acessível, não significa que ele seja acessado. E pior, para as grandes questões de importância política e filosófica, o conhecimento das pessoas vem, muitas das vezes, de sua fé ou tradição, ou propaganda, mais do que qualquer outra coisa”, diz Proctor.

Ele também descobriu que a ignorância se espalha quando:1) muitas pessoas não entendem um conceito ou fato e 2) quando grupos de interesses especiais - como uma empresa ou grupo político trabalham duro para criar confusão sobre um problema.

Uma sociedade cientificamente analfabeta, provavelmente vai ser mais suscetível às táticas usadas por aqueles que desejam confundir e obscurecer a verdade.

E Proctor continua: "A luta não é apenas sobre a existência de alterações climáticas, é sobre se Deus criou a Terra para que nós a explorassemos, se o governo tem o direito de regular a indústria, se os ambientalistas deveriam ser habilitados, e assim por diante. Não é apenas sobre os fatos, é sobre o que é imaginado a partir de e para tais fatos ".

Outro estudante da ignorância é David Dunning, da Universidade de Cornell, o qual adverte que a internet está ajudando a propagar a ignorância, pois é um lugar onde todo mundo tem a chance de ser seu próprio perito, o que torna as pessoas presas fáceis de interesses poderosos que desejam espalhar deliberadamente a ignorância.

"Enquanto algumas pessoas inteligentes vão lucrar com todas as informações, agora apenas a um clique de distância, muitos serão enganados por uma falsa sensação de especialização. Minha preocupação não é que estamos perdendo a capacidade de fazer as nossas próprias mentes, mas que está se tornando muito fácil de fazê-lo. Nós devemos nos consultar uns com os outros muito mais do que imaginamos. Outras pessoas podem ser imperfeitas, tal como nós, mas muitas vezes as suas opiniões cobrem um longo caminho para corrigir nossas próprias imperfeições, como a nossa própria experiência imperfeita ajuda a corrigir os seus erros ", diz Dunning.

E concordar mais não poderia. Vamos dar uma olhadinha na nossa página do Facebook. Quantos posts você recebe por dia a respeito de curas milagrosas, superalimentos, notícias totalmente infundadas, mas colocadas tipo “olha agora porque isso é tão importante que logo será apagado” e coisas do gênero? Pois bem, agora me diga quantos post você recebe, e lê, de cabo a rabo, de sites com certa idoniedade, tipo BBC e Reuters? E quando recebe um post desse de “lê ou vai ficar sem saber para todo o sempre”, quanto tempo usa para checar a veracidade do mesmo, antes de passar para a frente?

Dunning e Proctor também alertam que a disseminação intencional da ignorância é galopante ao longo das primárias presidenciais dos EUA em ambos os lados do espectro político.
Só cá? Pergunto eu.

"Donald Trump é o exemplo óbvio, sugerindo soluções fáceis que ou são ou impraticáveis ou inconstitucionais", diz Dunning.

Assim, enquanto agnotologia pode ter tido suas origens no auge da indústria do tabaco, agora a necessidade conhecê-la é mais importante do que nunca.

Uma novissima disciplina, que tem conexão com a Agnotologia, é a Cognitronica, que tem como objetivos: 1) explicar as distorções na percepção do mundo causadas pela sociedade da informação e globalização e 2) lidar com essas distorções em diferentes campos.
A Cognitronica está estudando e procurando maneiras de melhorar os mecanismos cognitivos de processamento de informações e por conseguinte melhorar a esfera emocional da personalidade, desenvolvendo a capacidade de simbolizar, os mecanismos linguisticos, as capacidades de associação e raciocínio crítico, para ampliar as perspectivas mentais, que é pré condição importante para todas as esferas de atividade profissional na sociedade de informação.

A idéia é contrabalançar uma situação chamada “Dissonância Cognitiva”, que é o stress mental ou desconforto que sentimos quando temos que lidar com duas ou mais crenças, valores ou idéias contraditorias, ou quando somos confrontados por informação nova que entra em conflito com nossas crenças, idéias ou valores.

A Teoria da Dissonância Cognitiva (Leon Festinger), se baseia no pressuposto de que os indivíduos buscam a coerência entre suas expectativas e sua realidade. Devido a isso, as pessoas se envolvem em um processo chamado de redução de dissonância para trazer suas cognições e ações em sintonia, o que leva à diminuição da tensão psicológica e da angústia.

Velho Freud já havia explicitado que “só mudamos quando a dor do viver ultrapassa a dor do mudar”, e isso porque nosso cérebro funciona no mecanismo de buscar prazer e evitar a dor.

Vejamos um exemplo: Nós todos queremos uma real mudança no estado de política no Brasil, queremos mesmo, não importando se de direita, esquerda, meio ou pontas. Quantos de nós usamos o voto como real arma? Quantos de nós vamos a todos os meios, realmente simples, à distância de meia duzia de cliques, e pesquisamos a vida e feitos de nossos politicos, para daí decidir nosso voto? Provavelmente bem poucos, porque pode acontecer que de repente, encontramos um político de uma tendência diferente da nossa, mas com excelente ficha corrida, enquanto do nosso lado, os que se apresentam são terríveis.

Então usamos os seguintes mecanismos, para diminuir nosso desconforto:
1-Mudamos nosso comportamento ou cognição: “Onde encontro pesquisa séria?”
2-Justificamos o comportamento ou cognição, mudando a cognição conflitiva: “Alguém acredita em pesquisa séria neste país?”
3-Justificamos comportamento ou cognição adicionando novas cognições (reais ou imaginárias) “O blog do Fulano, Beltrano, Sicrano já informou que essas pesquisas são furadas”.
4-Ignoramos ou Negamos qualquer informação que entre em conflito com crenças pré existentes: “Bobagem pura”

E aí, a não ser que se use a numero 1, caso no qual ampliamos nosso conhecimento e podemos usar o pensamento crítico, somos presa fácil da Agnotologia, que simplesmente joga com nossa fraqueza muito humana de querermos estar certos, a qualquer custo e qualquer preço.

E que venha a Cognitronica!

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

METAS PARA TODOS NÓS PSI EM 2016

Quando li esse artigo do colega, sabia que não poderia deixar de compartilhá-lo. O link para o artigo original está no final.

FELIZ ANO NOVO!

"Resoluções para o novo ano são um ritual interessante e, geralmente, de curta duração, mundo afora. Por outro lado, os que pelo menos se dão ao trabalho de passar pelo ritual, exibem um certo grau de auto reflexão e insight a respeito da necessidade de ajustamentos na vida. Tais decisões,na realidade, podem ser tomadas a qualquer momento, mas o advento de um novo ano é um sinal poderoso de um novo começo, outra oportunidade de vida, um potencial ponto de mudança. Embutido nessas resoluções, está um senso subliminar de urgência para corrigir deficiências negligenciadas, pois o calendário impiedosamente aponta para o envelhecimento inevitável e à marcha inexorável do tempo.

UMA PERSPECTIVA PSIQUIATRICA

Para os psiquiatras, as resoluções de Ano Novo transcendem o (muitas vezes efêmero) impulso de começar uma dieta ou começar a ir à academia. Nós temos uma perspectiva única sobre os desafios que nossos pacientes enfrentam todos os dias, como eles lidam com as demandas complexas da vida, apesar de sua ansiedade, depressão ou psicose.
Estamos conscientes das muitas necessidades não satisfeitas na gestão de distúrbios cerebrais neuropsiquiátricos complexos e os principais desafios, como o de apagar o estigma oneroso que engolfa nossos pacientes e a prática da psiquiatria em si, apesar de sua nobre missão de reparar cérebros fraturados, consertar almas torturadas, e restaurar a paz da mente e o bem-estar. Estamos orgulhosos de nossas realizações clínicas e científicas, mas também estamos dolorosamente conscientes de nossas limitações e do enorme abismo entre o que sabemos e o que viremos a saber, quando o cérebro nos revelar seus mistérios gloriosos através da investigação neurocientífica.

QUAIS PODEM SER NOSSAS DECISÕES?

Aqui está minha proposta de resoluções pragmáticas, que muitos psiquiatras vão enxergar como parte de sua perpétua lista do que fazer, um balde de metas e objetivos queridos e bravos, novos horizontes para trazer saúde mental completa para nossos pacientes e gratificação incomensurável para nós, que sonhamos em curas para doenças cerebrais que provocam várias doenças da mente.

1-Atue como qualquer outro médico, enfatizando a fundação médica da psiquiatria: sempre verifique a saúde física do paciente e monitore seu estado cardiometabólico. Vista a jaqueta branca (simbólica ou não), que muitas vezes melhora a relação médico-paciente.

2-Dedique uma porcentagem significativa de sua prática para os pacientes mais graves. Tem um monte de profissionais da saúde, não medicos, suficientes para tratar gente que anda preocupada demais ou precisa só de um apoio ou um conselho.

3-Advogue incansavelmente em todas suas esferas de influência, e publicamente, para que haja verdadeira paridade quanto a cobertura de transtornos psiquiátricos como qualquer outra doença, e também para uma aceitação social global e compassiva.

4- Trabalhe vigorosamente por internação em vez de prisão para doentes mentais graves porque a psicose é uma doença do cérebro, não uma ofensa criminal.

5-Adote a prática psiquiátrica baseada em evidências, sempre que possível, para alcançar os melhores resultados. Porém, e criteriosamente, use o que for possivel, se não existem tratamentos baseados em evidências, para mitigar o sofrimento de um paciente.

6- Evite polifarmacoterapia absurda e irracional, mas não hesite em usar racionais e benéficas combinações terapeuticas.

7- Dê pelo menos uma hora por semana de trabalho pro bono (voluntário)psiquiátrico para indigentes e carentes. As recompensas de dar o que equivale a uma semana por ano são infinitamente mais gratificante do que alguns dólares a mais na conta bancária.

8- Evite chamar a pessoa doente de “cliente”, pelo menos até que oncologistas e cardiologistas façam o mesmo. Recuse-se a abrir mão de sua identidade de médico nas inúmeras clinicas não médicas de saúde mental.

9- Nunca, mas nunca mesmo deixe que o paciente saia de seu consultorio sem, pelo menos, 15 minutos de psicoterapia, mesmo que seja só parte de checagem médica da saúde do mesmo.

10- Mantenha-se atualizado e na vanguarda da evolução da prática psiquiátrica, entrando na PubMed todos os dias (mesmo que brevemente) para ler alguns resumos dos mais recentes estudos relacionados aos pacientes que viu naquele dia.

11- Pense como um neurologista, identificando os circuitos neurais dos sintomas psiquiátricos. Aja como um cardiologista fazendo todo o medicamente possível para evitar a recorrência de episódios psicóticos, maníacos, depressivos, porque eles danificam o tecido cerebral, assim como um infarto do miocárdio danifica o tecido cardiaco.

12- Apoie a pesquisa com palavras, dinheiro e paixão. Descobertas neurocientíficas psiquiátricas geram tratamentos superiores, apagam o estigma e promovem a qualidade de vida dos pacientes. Doe anualmente aos pesquisadores de sua escolha, na escola de medicina onde foi treinado, ou para um instituto de pesquisa sem fins lucrativos

13-Arranje tempo de escrever para publicação, anualmente, pelo menos um relato de caso ou uma carta ao editor sobre as observações de sua prática. Você pode contribuir imensamente para o processo de descoberta através da partilha de novos conhecimentos clínicos.

14-Nunca desista de qualquer paciente ou defina expectativas muito baixas, independentemente do diagnóstico ou da gravidade da doença. Desistir destrói a esperança e abre as portas para o desânimo. Obtenha uma segunda, terceira, quarta opinião se ficar sem opções.

15- Sempre defina remissão seguida de recuperação, como a meta terapêutica para cada paciente. Deixe o paciente saber disso e pede a ele (ela) a se comprometer com esse objetivo com você. Isso tambem é chamado de contrato terapeutico.

16- Orgulhe-se de ser psiquiatra. Você avalia os distúrbios da mente e os rectifica.A mente é o produto mais complexo e mágico do cérebro humano, que determina quem nós somos e como pensamos, sentimos, comunicamos, verbalizamos, empatiazamos, amamos, odiamos, lembramos, planejamos, resolvemos problemas, e, é claro, fazemos resoluções.

E, voltando à dieta e exercícios, para nossos pacientes e nós mesmos, inclua nas suas resoluções de ano novo, a promessa de incentivar fortemente os pacientes a fazer dieta e exercícios, dada a tendência de muitos deles a ganhar peso e morrerem prematuramente em conseqüência de fatores de risco cardiometabólico relacionados com a obesidade. Exorte-os e exorte-se a comer saudável e exercitar-se, toda vez que encontrá-los, não apenas no Ano Novo".

ARTIGO ORIGINAL  CLIQUE AQUI

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

BLOG DO FIM DE ANO

Fim de ano, tempo de reflexões. Este ano, não farei o blog costumeiro de resumos de acontecidos no ano que se finda. Por alguma razão, estou com a impressão de que, apesar de todos os fantásticos avanços da ciência, que pelo menos trazem esperança, estou com gosto amargo na boca. Aquela sensação dificil de definir, talvez ansiedade, de que, apesar de todas as esperanças citadas, enquanto humanidade, estamos num desejo de volta à Idade das Trevas, que parece encobrir o mundo com manto plúmbeo ( e óbviamente eis que traduzo o que sinto numa escrita bombástica).

Vai daí que decidi simplesmente postar duas fábulas, que me fazem muito bem. A primeira é do Robert Fulghrum, que considero o maior filósofo americano vivo, está na minha lista de gente que quero conhecer pessoalmente, antes de morrer, e com certeza, minha alma gêmea. Descobri, ao ler uns dos livros dele, que compartilhamos o horror das “reuniões de staff”, onde acho que um monte de gente, usualmente inteligente, emburrece repentinamente e assim permanece até o término da citada. Ele, numa reunião de professores, na faculdade onde dava aulas, conseguiu dormir tão profundamente que caiu da cadeira e se esfaqueou com uma daquelas faquinhas de escoteiro, que estava perdida em seu bolso, e sobre a qual caiu. Nunca cheguei a esse preciosismo, até mesmo porque não carrego comigo faquinhas de qualquer espécie, mas já escorreguei de muita cadeira, cabeceei e até babei uma vez. A segunda união de almas é nossa paixão por subir em árvores. Ele, claro, sendo americano, é portador de carteirinha da “Associação Internacional de Trepadores de Árvores”, com sede em Atlanta, GA. Eu, mais modesta italo/brasileira, me contento em estragar a venda de uma casa. Foi absolutamente sem intenção. Pois bem, alguns anos atrás, tomada de espírito natalino, eis que decido, num dos imvernos mais frios que já passei em Houston, até nevou, enfeitar as duas árvores postadas em frente à minha casa. Assim, vestida no melhor estilo cebola, desde aqueles calçolões vermelhos do Pluto, até tenis bem velho, luvas e boina de pescador, preta que nem minha era, mas de marido, enrolada em fios e luzes, vou à luta. E lá estou, bem plantada no meio da árvore, tentando me desvencilhar dos fios que nessa altura estavam mais enrolados que meus pensamentos, na casa vizinha chega uma familia, marido mulher e 3 crianças, acompanhados da senhora da imobiliária, que a casa estava à venda. E assim, continuando enrolada mas natalina até a medula, solto um sonoro “Bem vindos! Feliz Natal”. E tento acenar alegremente, o que foi uma péssima idéia, pois perdi o equilibrio, que já não é lá essas coisas, e lá vim eu abaixo, ainda embrulhada na que deveria ser uma alegria natalina. Ao contrário do Robert, não sofri nenhuma concussão, só fiquei toda ralada. A familia sumiu. Então sem mais, aqui vai:

TUDO O QUE DEVERIA SABER NA VIDA, APRENDI NO JARDIM DE INFÂNCIA
"Tudo o que eu preciso mesmo saber sobre como viver, o que fazer, e como ser, aprendi no jardim-de-infância A sabedoria não estava no topo da montanha mais alta, no último ano de um curso superior, mas no tanque de areia do pátio da escolinha maternal. Vejam o que aprendi:
Dividir tudo com os companheiros.
Jogar conforme as regras do jogo.
Não bater em ninguém.
Guardar os brinquedos onde os encontrava.
Arrumar a "bagunça" que eu mesmo fazia.
Não tocar no que não era meu.
Pedir desculpas, se magoava alguém.
Lavar as mãos antes de comer.
Puxar a descarga depois de usar a privada.
Biscoito quente e leite frio fazem bem à saúde.
Fazer de tudo um pouco – estudar, pensar, desenhar, pintar, cantar e dançar, brincar e trabalhar, de tudo um pouco, todos os dias.
Tirar uma soneca todas as tardes.
Ao sair pelo mundo, cuidado com o trânsito, ficar sempre de mãos dadas com o companheiro e sempre "de olho" na professora.

Pense na sementinha de feijão, plantado no copo de plástico: as raízes vão para baixo e para dentro, e a planta cresce para cima – ninguém sabe como ou por quê, mas a verdade é que nós também somos assim.

Peixes dourados, porquinhos-da-índia, esquilos, hamsters e até a semente no copinho plástico – tudo isso morre. Nós também. E lembre-se ainda dos livros de histórias infantis e da primeira palavra que aprendeu, a mais importante de todas: Olhe! Tudo que você precisa de saber está por aí, em algum lugar. A regra de ouro, o amor e os princípios de higiene. Ecologia e política, igualdade e vida saudável.

Escolha um desses itens e o elabore em termos sofisticados, em linguagem de adulto; depois aplique-o à vida da sua família, ao seu trabalho, à forma de governo do seu país, ao seu mundo, e verá que a verdade que ele contém mantém-se clara e firme. Pense o quanto o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro – fizéssemos um lanche de biscoitos com leite às três da tarde e depois nos deitássemos, sem a menor preocupação, cada um no seu colchãozinho, para uma soneca. Ou se todos os governos adotassem, como política básica, a ideia de recolocar as coisas nos lugares onde estavam quando foram retiradas; arrumar a "bagunça" que tivessem feito.
E é verdade, não importa quantos anos tem: ao sair pelo mundo, vá de mãos dadas, e fique sempre "de olho" no companheiro."

E a segunda parte, a fábula O SÁBIO E A VERDADE, não faço a mais remota idéia de quem seja, mas a escutava em muito bom italiano, de meu nonno Brando, que me ensinava que as verdades não precisam necessáriamente serem enunciadas como murros no nariz, grande professor esse meu querido “anarquista e ateu, graças a Deus”.

“Era uma vez um imperador que sonhou que tinha perdido todos os dentes. Acordou apavorado e mandou buscar um sábio, para que interpretasse seu sonho.
Senhor, que desgraça, exclamou o sábio, cada um de seus dentes caidos representa uma pessoa de sua família que vai morrer.
Mas que insolente! Berrou o imperador, e mandou chicotear com gosto o assim chamado sábio.
E mandou imediatamente que buscassem outro sábio.
Este chegando, e sendo dito do sonho, exclamou: Senhor, grande felicidade vos espera. Sua majestade terá vida mais longa do que todos em sua familia!
O rosto do imperador se iluminou e mandou que entregassem cem moedas de ouro ao sábio.
Um dos presentes, o curioso que sempre existe em qualquer lugar, ficou intrigado e foi falar com o sábio.
Como foi que isso aconteceu, perguntou ele. Sua interpretação foi igualzinha à do primeiro sábio, mas o tal levou chicotadas e você levou ouro!
Meu amigo, respondeu o sábio, tudo depende de como se veem as coisas.”

E assim, manto plúmbeo desaparecido, vos desejo que, em 2016 , ousem ver as coisas, saiam pela vida de mãos dadas, e se atrevam a escalar árvores.

Beijos

Patrizia

sábado, 19 de dezembro de 2015

16 MANEIRAS DE COMO MELHORAR SUA SAÚDE MENTAL EM 2016

Usualmente, as decisões de começo de ano, focam na saúde física, mas que tal pensar na mental este ano?
Enquanto nossa cultura, em geral, não fala dessa parte, provavelmente pelo estigma a respeito, bem estar emocional deveria ser nossa prioridade.
Globalmente, 1 em 4 pessoas sofre de algum problema mental em algum ponto de sua vida. Mas, mesmo que não se esteja passando por ansiedade ou depressão, focar em nossa saúde mental pode fazer de 2016 o melhor ano de nossas vidas.
Saúde mental afeta como pensamos, sentimos e agimos, diariamente, assim como influencia como lidamos com stress, como tomamos decisões e como nos conectamos uns aos outros. Então, se está decidido a colocar saúde mental no topo de sua lista de prioridades, aqui vão algumas maneiras simples de fazer isso:

1-FALE COM SEU MÉDICO
O primeiro passo de qualquer mudança saudável, é consultar um médico a respeito dos passos apropriados a serem tomados. Clinicos gerais usualmente podem aplicar testes de depressão e consultas de saúde mental. Daí podem referi-lo a um especialista que vai trabalhar com suas necessidades específicas.

2-PRATIQUE GRATIDÃO
A vida fica muito melhor quando se olha para o lado brilhante dela. Pesquisas sugerem que, o expressar as coisas pelas quais se é grato, desde seu cachorro até uvir no rádio sua música preferida, melhora seu bem estar mental.

3-EXPERIMENTA MEDITAÇÃO
A coisa tem uma montanha de beneficios, desde melhor concentração a melhora no bem estar de forma geral. Há vários métodos e nem é complicado. Só alguns minutinhos logo ao acordar ou antes de dormir, de formas a começar ou terminar o dia numa nota positiva.

4-FAÇA UM DIÁRIO
Colocar a caneta no papel pode ser uma experiecia liberadora e catartica. Tente manter um diário ou simplesmente escreva suas ansiedades, pique e jogue no lixo. Um estudo de 2012 descobriu que, escrever o que o está estressando e ai, jogar fora, pode ajudar a clarear sua mente. Também é aconselhavel escrever quando suas preocupações o mantém acordado à noite.

5-VAI FAZER TERAPIA
É sério. Do mesmo jeito que vai ao médico quando não se sente bem, a mesma coisa deveria ser aplicavel à problemas mentais.Há muitos métodos, desde “terapias da fala”até cognitivo comportamentais. Os profissionais de saude podem ajudá-lo a descobrir qual é a melhor para você.Falar a respeito dos problemas ajuda muito, porque dá uma prespectiva da coisa. Já, falar com alguém que foi treinado para tratar de problemas,é melhor ainda.

6-EXERCITE-SE PELO MENOS ALGUMAS VEZES POR SEMANA
Endorfinas são pura magia. Quando se faz exercícios, o cérebro libera essas particulas quimicas do bem, dando-nos imediata melhora no humor. Melhor ainda é exercitar-se ao ar livre. Pesquisa sugere que andar em grupos melhora os sintomas da depressão. Sim, seu cachorro pode e é parte de seu grupo. Mais de um, já é grupo.

7-APOIE-SE EM SEU SISTEMA DE SUPORTE
Afinal de contas, amigo é prá essas coisas. Um estudo de 2011 demonstrou que estar com seu melhor amigo/a pode reduzir stress. A pesquisa também demonstrou que as conexões sociais são imperativas para a saúde mental. Gaste o máximo possivel de seu tempo com quem você ama, jantando fora, ou simplesmente assistindo filme no Netflix com pipoca.

8- APRENDA
A seu próprio respeito e do mundo onde vive. Simples. Problemas mentais são muito mais simples de lidar se souber o que está acontecendo dentro de sua cabeça. Por exemplo, sabia que algumas condições podem ser genéticas? Aprenda o máximo possivel sobre sua condição ou a das pessoas com as quais convive. Conhecimento é poder. Então, mantenha um apetite saudável também por conhecimento em geral. Leia um livro, vai a um museu, aprenda uma nova lingua. Todas as pesquisas tem demonstrado que, o aprendizado continuo mantem a mente aguçada.

9- ADOTE DIETA BALANCEADA
Que nada tem a ver com o modismo do dia.Coloque mais frutas e verduras na dieta. Nozes de todos os tipos também.

10- OUÇA MÚSICA DE FOSSA
Vail á, canta junto “O meu mundo caiu...”Ir fundo na melancolia pode ajudar a melhorar mais depressa. Pesquisas demonstram que musicas tristes ajudam na cura depois de um término doloroso. Podem ajudar também a derrubar algumas lágrimas, o que é bom para desafogar.

11-VIAJE
Algumas vezes, uma mudança de perspectiva envolve uma mudança de cenário. A ciência sugere que o simples fato de planejar uma viagem, já melhora seu humor, na medida que se antecipa a coisa toda. Também estar perto do oceano acalma.

12- DURMA MAIS.
Quem não adora uma desculpinha para ficar na cama? Falta de sono não só estraga sua saúde física, como também provoca um tsunami na mental. Deprivação de sono pode dificultar na regu;ação de emoções, e dormir mal pode ser sintoma de sérios problemas mentais. Procure ir para a cama 10 minutos mais cedo a cada dia, seja regular na hora de levantar e de dormir e para de tomar café pelo menos 6 hs antes de dormir. Álcool também não é bom para o sono, a não ser um copo de vinho ao jantar. Computador, tablet, cell então, são péssimos.

13- FAÇA UMA DESITOXICAÇÃO DIGITAL.
A mídia social nada mais é que um monte de slides muito bem escolhidos da maravilhosa vida de alguém mais, o que não evita de que sintamos um certa invejinha todas as vezes que alguém posta uma foto de sua festa fabulosa, seu carro novo ou o diamantão ganho no noivado, no exato momento em que estamos de camiseta velha e nossas unhas necessitam mais do que urgentemente da manicure. Farta pesquisa sugere que as pessoas podem sentir sintomas de depressão só de ficar no Face, causada por comparação interna, que está acontecendo, inconscientemente. O antidoto? Parar com isso. Fique o menos tempo possivel na coisa, para o bem de sua saúde mental, porque, embora ainda não tenha lido qualquer pesquisa a respeito, tenho certeza que a maravilha das fotos que aparece no FB tem uma relação inversa com nosso estado de espirito, ou seja, vemos fotos maravilhosas quanto mais em baixa estivermos.

14- SEJA GENTIL E EXPRESSE GENTILEZA
Quer se sentir bem? Faça alguém se sentir bem. Estudos e mais estudos demonstram que gentileza é uma coisa cíclica. Quando se faz o bem para alguém, isso faz com que eles se sintam bem, o que o torna mais feliz. Mesmo o mais pequeno dos gestos pode fazer a diferença. Tem um estudo fotográfico fantástico, mostrando o sorrisão de adolescentes mundo afora, quando alguém lhs dizia que eram lindos.

15- APRENDA A DIZER NÃO
Letrinha pequena, mas completa sentença. Esgotamento é fácil, no trabalho e em casa sem ela. Assegure-se de passar algum tempo sozinho e prioritize seu bem estar mental. Se não quer ir a uma festa, das milhares de fim de ano, não vá. Se está sobrecarregado no trabalho, veja o que é seu e o que está carregando que não lhe pertence. O cuidar de si mesmo NÃO É EGOISMO.

16-FALE COM OUTROS SOBRE SAÚDE MENTAL
Nunca se sabe a quem se pode estar ajudando. Gente como Demi Lovato e Colton Haynes fizeram projetos, documentários e séries de fotos a respeito de saúde mental, e todos nos ganhamos com isso. O único jeito de erradicar o estigma é continuar falando, e você pode ser parte da mudança. Vai firme.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

PALAVRAS VIOLENTAS LEVAM A ATOS VIOLENTOS?

"A receptividade das massas é muito limitada, sua inteligência pequena, mas seu poder de esquecimento é enorme. Em conseqüência desses fatos, toda a propaganda eficaz deve ser limitada a alguns poucos pontos que devem ser repisados e repetidos até que o último membro do público entenda o que você quer que ele entenda por seu slogan ". Adolf Hitler, Mein Kampf

Neste momento histórico, no qual parece que a retórica da violência se espalha feito retrovirus, este artigo da Sara Lipton, professora de historia na State University de NY, nos obriga a pensar muito seriamente. Porque pedir desculpas depois, ou simplesmente se eximir de culpas, não resolve muito. Aí no Brasil, temos os Bolsonaros da vida e a cultura da submissão e violência contra mulheres, a bancada evangélica do congresso estimulando o “nós santos contra vocês pecadores”, os congressistas se pegando a tapa em discussões sobre ética, lama se espalhando de canto a canto, a real e a figurada. Aqui, o Trump (que no ingles original, lá da terra de sua Majestade, significa peido), estimulando o pânico contra aqueles que não se parecem conosco, uma ala inteira, e grande, do Partido Republicano, o auto denominado “Tea Party”, em referência aos americanos que despejaram na baia de Boston o chá, provindo da Inglaterra, misoginistas até a medula de seus ossos, com discursos inflamados a respeito de tudo o que não é branco leite, nem rico. A extrema direita fazendo uma ressureição feito fênix na França, e, é claro, o ISIS, que simplesmente pulou a parte do discurso e foi diretamente a uma violência devastadora à tudo aquilo que mais assusta os sem discurso e sem razão: cultura e o poder da civilização, a qual, prestem atenção, é uma palavra feminina.

Para ler o artigo original, clique aqui http://www.nytimes.com/2015/12/13/opinion/the-words-that-killed-medieval-jews.html?smid=fb-nytimes&smtyp=cur&_r=0

“ A Procuradora-Geral Loretta E. Lynch recentemente expressou sua preocupação de que a retórica política anti-muçulmana provocaria um aumento nos ataques contra os muçulmanos. Alguns afirmam que o tiroteio em massa do mês passado em Colorado Springs, foi provocado pela afirmação de Carly Fiorina que Planned Parenthood era uma fábrica de "colheita de pedaços de bebês"; Dona Fiorina contrapôs que a linguagem não pode ser responsabilizada pelos atos de um homem "perturbado". Debates semelhantes têm sido ocasionados pelo espancamento de um homem latino-americano sem-teto em Boston, supostamente inspirado pela retórica anti-imigração do Donald J. Trump, e pela morte a tiros de policiais na Califórnia, Texas e Illinois, que alguns atribuíram aos sentimentos contra políciais nos protestos “Vidas Negras Contam”.

Nenhum historiador pretende ter insights sobre as motivações dos indivíduos, mas a história mostra que uma da retórica “incendiária” contra um determinado grupo pode incitar a violência contra esse grupo, mesmo quando não há qualquer necessidade da mesma. Quando um grupo é rotulado como hostil e brutal, seus membros são mais propensos a serem tratados com hostilidade e brutalidade. As imagens visuais são particularmente poderosas, estimulando ações que podem até nem serem intencionais pelos criadores das imagens.

A experiência dos judeus na Europa medieval oferece um exemplo preocupante. A teologia cristã oficial e a política em relação aos judeus, se manteve praticamente inalterada na Idade Média.A cerca de 1000 anos, o cristianismo condenou os princípios fundamentais do judaísmo e "os judeus" responsáveis pela morte de Jesus foram detidos. Mas os termos em que essas idéias foram expressas mudou tudo, radicalmente.

Até o ano 1100, as devoções cristãs eram focadas na natureza divina de Cristo e em seu triunfo sobre a morte. Imagens da crucificação mostravam um Jesus vivo e saudável na cruz, e por isso seus assassinos não eram o principal focos do pensamento cristão. Não havia polêmicas anti-judaicas, e as obras de arte retratavam seus algozes não como judeus, mas como soldados romanos(mais historicamente correto) ou como matutos sem noção.. Embora existam registros de esparsos episódios anti-judaicos como conversões forçadas, não havia, até aqui .um padrão consistente de violência anti-judaica.

Nas décadas em torno de 1100, uma mudança no foco da veneração cristã trouxe os judeus à tona. Em um esforço para estimular a compaixão entre os adoradores cristãos, pregadores e artistas começaram falar e pintar detalhes vívidos da dor de Cristo. Assim, ele foi transformado de juiz divino e triunfante, em salvador sofrido. Uma tática paralela, destinada a fomentar o sentimento de unidade dos cristãos, foi ressaltar a crueldade de seus supostos torturadores, os judeus.

Parte por esta identificação com um Cristo vulnerável, parte em resposta aos recentes sucessos militares turcos, e em parte porque um movimento de reforma interna estava questionando os fundamentos da fé, os cristãos começaram a se ver como se estivessem sendo ameaçados Em 1084 o papa escreveu que o cristianismo "caiu sob o escárnio, não só do Diabo, mas de judeus, sarracenos e pagãos". O "Aguilhão do Amor", uma releitura da crucificação que é considerada o primeiro tratado anti-judaico, foi escrito por volta de 1155-1180. Ele descreve os judeus como consumidos pelo sadismo e com sede de sangue, e assim, eles começaram a ser vistos como inimigos, não só de Cristo, mas também dos cristãos; foi nessa época que os judeus começaram a ser acusados de sacrificar ritualmente crianças cristãs.

Feroz retórica anti-judaica começou a permear sermões, peças de teatro e textos polêmicos. Judeus foram marcados como demoníacos e gananciosos. Em uma diatribe, o chefe do mosteiro mais influente da cristandade trovejou aos judeus: "Por que vocês não se chamam de animais irracionais? Por que não de bestas? "Imagens começaram a retratar os judeus como criaturas do mal com caricatos narizes aduncos.

Os primeiros registros de violência anti-judaica em grande escala, coincidem com esta mudança de retórica. Embora o papa, que pregou a Primeira Cruzada tivesse chamado apenas para uma "peregrinação armada", para retomar Jerusalém dos mussulmanos, as primeiras vítimas da Cruzada não foram os governantes turcos de Jerusalém, mas os residentes judeus da Renânia alemã. Relatos contemporâneos registraram os cruzados perguntando por que, se eles estavam viajando para uma terra distante para "matar e subjugar todos estes reinos que não acreditam no Crucificado", eles também não devem atacar "os judeus, que o mataram e crucificaram?"

Centenas, talvez milhares, de judeus foram massacrados em cidades onde haviam residido em paz por várias gerações. Em nenhum momento as autoridades cristãs promoveram ou consentiram com violência. A teologia cristã, que aplicava o verso do salmo "Não os mate" para os judeus, insistiu que os judeus não deveriam ser mortos por sua religião, e isso não tinha mudado. Clérigos estavam embasbacados para explicar os ataques. Um clérigo de uma cidade vizinha atribuiu os massacres a "algum erro da mente."

Mas nem todos os assassinos da Renânia eram loucos. Os cruzados começaram esse genocídio, na época da Páscoa. Ambos, cruzada e pregação da Páscoa, despertaram enorme raiva sobre a crucificação e medo dos inimigos hostis e ameaçadores. Não é de surpreender que as bandas armadas beligerantes transformaram tal retórica em ação anti-judaica.

Por todo o resto da Idade Média, esse padrão foi repetido: Pregações sobre as cruzadas, proclamações de "inimizade" dos judeu ou acusações anti-judaicas infundadas foram seguidas por surtos de violência anti-judaica, que as mesmas autoridades que haviam despertado as zelosas paixões dos cristãos, agora, chocadas, foram incapazes de conter. Vemos isso na Renânia durante a Segunda Cruzada (1146), na Inglaterra durante a Terceira Cruzada (1190), em Franconia em 1298, em muitas localidades depois da Peste Negra em 1348, e na Península Ibérica em 1391. Às vezes, os agressores eram zelosos guerreiros sagrados, por vezes, eram oportunistas rivais nos negócios, às vezes pais em luto pela morte de suas crianças por acidente ou crime, ou com medo dos estragos de uma nova doença.

Alguns deles podem muito bem ter sido insanos. Mas sãos ou dementes, eles não pegaram suas vítimas em um vácuo. Foi a escoriação desumanizante e repetida, que levou os cristãos medievais a atacar as pessoas que tinham sido por muito tempo seus vizinhos.

Provedores da retorica anti-muçulmana, anti-imigrantes, anti-polícia . anti-aborto, anti gay, anti feminismo de hoje podem até nem ter a intenção de provocar violência contra os muçulmanos, imigrantes, policiais e profissionais de saúde. Mas, à luz da história, eles não devem se chocar quando a violência acontecer.”

E em minha modesta opinião, não deveriam não só se chocar, mas também serem responsabilizados pela violência que provocaram. É inconcebivel que um adulto ou adulta, que faz sua vida em politica, possa ser tão desligado mentalmente que não consiga imaginar as possiveis consequencias da instilação do ódio. Porque não é, nem nunca foi o amor que nos une.

Na psicologia das massas, o que une, mais do que tudo, é o medo e ódio comuns, voltados contra um inimigo, fora de nós mesmos e facilmente identificavel. Porque é muito mais fácil ver um cisco no olho do outro do que um galho inteiro dentro do nosso. E, provavelmente por causa disso que Freud foi e é tão odiado. Ele apontou, sem meias palavras, o galho dentro de nosso olho, quando colocou: “Quando Pedro fala de Paulo, aprendo muito mais sobre Pedro do que sobre Paulo.”.