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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SERÁ POSSÍVEL?

“Sucesso não é final e a falha não é fatal: o que conta, é a coragem de continuar.” Winston Churchill

Tremenda chamada no Times: ESTA É A COISA MAIS IMPORTANTE QUE IMPEDE A MAIOR PARTE DAS PESSOAS DE TEREM SUCESSO.

Apesar de pertencer àquele grupo de pessoas que acredita piamente que sucesso é muito mais, e às vezes muito diferente do que ser uma Kim Kardashian da vida, apesar de adorar a definição de sucesso da Bessie Anderson Stanley:

“Conseguiu sucesso aquele que viveu bem, riu muitas vezes e amou muito;
Aquele que teve a confiança dos puros, o respeito dos inteligentes e o amor das criancinhas;
Aquele que preencheu seu nicho e completou sua tarefa;
Aquele ao qual nunca faltou a apreciação da beleza da Terra nem deixou de expressá-la;
Aquele que deixou o mundo melhor do que o encontrou,
Quer por ter plantado uma flor, feito um poema perfeito ou por ter resgatado uma alma;
Aquele que sempre buscou o melhor nos outros e deu-lhes o melhor que tinha;
Aquele cuja vida foi uma inspiração e sua memória é uma bênção.”

E detestar a seguinte definição de dicionário:

“Sucesso é a obtenção de popularidade e/ou lucro”, minha curiosidade mórbida me impeliu a ler, mesmo que fosse só para obtenção daquele pequeno prazer bestinha de se sentir moralmente superior a americanos para os quais tudo é a respeito de “Money “ou o brilho fugidio de Hollywood.

E, para meu contentamento, acho uma beleza de artigo.

Pois, senhoras e senhores, o que nos impede de suceder na vida, é nossa atitude, o que, a fim e a cabo, concorda redondo com a definição de sucesso exposta acima, da Bessie, não do dicionário.
Pois baseados numa montanha de pesquisas, muitas das quais conheço, as outras já marquei em meu caderninho para ler,vejam só:

1- A GUERRA POR TALENTO É UM MITO:

Segundo Seth Godin, há muito poucos empregos que buscam por habilidades extremamente específicas, tipo um violinista ou um cirurgião torácico, e mesmo assim, mesmo nesses casos, o que separa vencedores de perdedores não é o talento, mas a atitude. Aliás, é o que ensinam na Escola de Economia em Harvard: o primeiro componente para que você consiga o que quer na vida, é fazer com que as pessoas gostem de você. Lógico, há outras coisas como experiência, formação, títulos, essas coisas, mas veja, se alguém tem que escolher entre duas pessoas com as mesmas qualificações e experiência, vai escolher quem? O que procura fazer parte do time, tem algo bom a dizer sempre, procura pelo consenso, ou aquele que se comporta feito Catilina, irritando todo mundo?
Marco Cicero Túlio, senador romano, 63 anos antes de Cristo, abriu o congresso com as seguintes palavras repetidas pela minha mãe todas as vezes que entrava em crises de “por que?” e lhe torrava a paciência: “Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? Quam diu etiam furor iste tuus nos eludet? Quem ad finem sese effrenata iactabit audacia?” (Diga-me Catilina, por quanto tempo vais continuar abusando de nossa paciência? Por quanto tempo vais zombar de nós com sua loucura? Para que esta audácia desenfreada de atrair sobre ti mesmo nossa raiva?)
A escolha não é difícil.

2- TRABALHAR DURO É SOBRESTIMADO

Jeffrey Pfeffer, professor da escola de MBA de Stanford, diz que as pesquisas mostram que o desempenho é apenas vagamente relacionado para aqueles que vão em frente na vida, e isso inclui o efeito de suas realizações nessas onipresentes avaliações de desempenho e nas perspectivas de promoção. Os estudos que ele cita, mostram que, o ser gostado afeta as avaliações de desempenho muito mais do que o desempenho de per si. Aliás essa foi uma das discussões intermináveis e deliciosas com meu chefe no MHMR. Como bom americano, dizia ele que avaliações são impessoais. Que bons chefes não permitem que sentimentos pessoais interfiram, blá, blá, blá, e eu lhe respondia que isso não era real, exemplo ele mesmo, que tinha me escolhido dentre um monte de outras pessoas com excelentes currículos e que tinham a vantagem de ser americanas e não ter o sotaque macarrônico que possuo. Por que me escolheu? Porque durante a entrevista, quase caiu da cadeira de tanto rir quando à pergunta: “Qual é a diferença entre psicose e normatividade única”, lhe respondi que dependia da nacionalidade, pois na Inglaterra, o Príncipe Charles conversa normalmente com suas plantas, e ninguém acha esquisito. Americano fora, estaria internado. Acabei, entre outras coisas, como professora de Diversidade Cultural aplicada à Saúde, sem jamais ter pensado numa coisa dessas.

3- SIM, É UM CONCURSO DE POPULARIDADE

Pesquisadores do MIT, que se deram ao trabalho de seguir, por um ano, 2600 empregados, observando seus laços sociais e usando fórmulas matemáticas para analisar o tamanho e o âmbito de suas agendas de endereços e listas de amigos, descobriram que quanto mais conectados eram (no caso, empregados da IBM), melhor desempenho tinham. Até quantificaram a diferença, isto é, cada contato de e mail vale um retorno de 948 dólares. E a melhor coisa para previsão de sucesso de um time não era esperteza ou esforço, mas sim como cada integrante se sentia a respeito dos outros. Assim, quanto melhor nos sentimos a respeito de nossos relacionamentos no trabalho, mais eficazes seremos.
Então, da próxima vez que se pegar berrando “Eu estou certo, eles é que estão errados”, lembre-se: sim, você tem um problema de atitude.

3- NÃO É O SER JUSTO, MAS O SER CONFIÁVEL.

Não adianta uivar “Isso não é justo!”, por dois motivos, não necessariamente nessa ordem: a) A ideia de “justiça “é tão relativa quanto a de “amor”, “verdade”, etc. Depende de nosso ponto de observação e nossas crenças a respeito de determinado assunto, caso não acreditem, simplesmente sigam as notícias sobre os escândalos políticos em jornais e/ ou revistas de direita e de esquerda e, b) A vida não é exatamente meritocracia como na escola, onde, você faz seu teste e ganha sua nota.
Na escola, colaboração é chamada de “trapaça” ou “cola”, enquanto na vida, é simplesmente como as coisas funcionam. E, onde há colaboração, obviamente tem que haver confiança. Não é possível qualquer tipo de trabalho funcionar, se o chefe for checar todo o tempo, o que cada um dos outros fez num determinado projeto. Se assim fosse, nada nunca sairia do papel.
A companhia/escola/hospital, seja lá o que for, confia no trabalho que você faz? Os chefes confiam no fato que você está alinhado com sua missão e metas? Trabalhadores esforçados nem sempre são recompensados, mas os que realmente creem, vão em frente.
Um estudo recente da BYU mostrou que empregados que realmente acreditam na missão de sua organização tem chances muito maiores de melhorar seu status e influência na companhia, do que aqueles que não acreditam.
O estudo descobriu que aqueles que tem forte crença na meta de sua companhia ou na causa da qual participam, tornam-se mais influentes em círculos importantes da empresa, enquanto os que simplesmente estão ligados ao pagamento e/ ou ao relógio de ponto, ficam na periferia da história, independentemente da posição formal na empresa ou seu desempenho. E isso é absolutamente verdadeiro até em tratamentos para Drogadependentes, coisa que, por definição, mas não na prática, é uma situação única. Vou fazer outro post sobre esse assunto, mas só para dar a ideia, toda a pesquisa na área mostra que, tratamentos de sucesso, isto é, aqueles que apresentam maior número de pacientes vivendo sem as drogas, após um período de 5 anos depois da alta, são aqueles que oferecem possibilidades aos pacientes de crescerem como indivíduos, participando na ajuda dos que entram no programa, aprendendo assim as bases da colaboração, como oposto ao submundo do uso/venda de drogas.

ENTÃO, O QUE FAZER?

Já leu o Dom Quixote? Se não, leia: “Se quiser ser um cavalheiro, comporte-se como tal”
Continue a ser a pessoa que foi na entrevista, aquela que eles contrataram, positivo, entusiasta, bem preparado, querendo agradar e acreditando naquilo que faz.
Já viu alguém no discurso de recebimento do Oscar dizer que, bom, ganhei sim, mas isso para mim é uma bobaginha sem qualquer importância, só faço para ganhar milhões? Nunca viu não é? Mesmo o famoso Marlon Brando, que não foi receber seu Oscar, mandou uma moça vestida de índia, linda de morrer, para recebe-lo, e na minha opinião, foi uma das mais brilhantes jogadas de marketing que já vi. O que o povo faz, é agradecer. Agradecem pai, mãe, o Bispo de Tremembé, colaboradores, amigos, parentes, vizinhos. Mesma coisa na entrega do Nobel.
A grande maioria de nós, nunca vai receber um Oscar ou um Nobel, ou qualquer outro prêmio na vida, mas podemos, todos nós, fazer de nossa vida o maior dos prêmios, para nós mesmos e para aqueles com os quais convivemos, vivendo a gratidão de compartilhar momentos, quer no dia a dia de nossos trabalhos, na vida em família, nos encontros com amigos reais ou virtuais, nas pequenas e grandes coisas.
A fim e a cabo, acho que é aprender que é melhor ser feliz do que estar certo, lição dura.
Há algum tempo, li uma entrevista com o Contardo Caligaris, o qual muito admiro, na qual dizia que não queria ter uma vida feliz, mas sim uma vida interessante. Ora essa, pensei eu, o que pode ser mais feliz do que considerar sua vida interessante? Alguém já viu um entediado feliz? Mas, esta também é uma outra história que fica para uma outra vez.

This Is the No. 1 Thing That Holds Most People Back From Success http://time.com/68333/this-is-the-number-one-thing-that-holds-most-people-back-from-success/

terça-feira, 26 de agosto de 2014

NOSSO MUNDO É DEFINIDO POR AQUILO NO QUE PRESTAMOS ATENÇÃO

“Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é, enquanto você está pensando sobre isso”. Daniel Kahneman, psicologo, ganhador do Premio Nobel de 2002 em Ciências Econômicas

Há milhões de coisas acontecendo a todo momento, algumas boas, outras ruins, um monte pelo meio do espectro. O conflito em Gaza não termina nunca, o surto de Ebola na África Ocidental piora, a Peste Bubônica retornou na China (no momento que escrevo já tem 2 casos aqui nos USA), polícia branca mata adolescentes negros com fé, gosto e vontade, políticos xingam os oponentes sem nada trazer de novo ao discurso, facções político/religiosas decapitam jornalistas... Pois estava eu pensando no quão difícil está sendo manter a sanidade, um pouco de esperança no futuro, e bom humor no geral, quando me cai do céu (figura de linguagem, pois caiu foi no meu e mail, diretamente de PubMed), um artigo da Barbara Fredrickson, psicóloga social da Universidade da Carolina do Norte, autora cuja pesquisa em Emoções Positivas e Psicofisologia gosto imensamente.

Só para se ter uma ideia do trabalho da acima citada, em 2000 recebeu o Prêmio Templeton, da Associação Americana de Psicologia, o Prêmio de Trajetória e Carreira da Sociedade de Psicologia Social Experimental em 2008, a Medalha Christopher Peterson em 2013, e sua pesquisa é suportada por ninguém menos que o Instituto Nacional de Saúde, aqui dos USA.

Sua teoria, chamada BROADEN-AND-BUILD (Amplie e Construa), explica o mecanismo e o porquê das emoções positivas serem importantissimas para sobrevivência, pois expandem a cognição e as opções comportamentais. Baseando-se em experiências prévias que demonstraram que todas as emoções levam a tendências e/ou ações específicas, concluiu que as emoções estão moldadas de formas a causar “mudanças momentâneas nos repertórios de pensamento-ação", que são séries de ações potenciais que corpo e mente estão preparados para realizar. Assim, essa expansão da flexibilidade cognitiva, evidente durante estados emocionais positivos, resulta na construção de recursos, os quais com o passar do tempo,se tornam riquissimas fontes de engenhosidade e possibilidades. E, embora um estado emocional positivo seja passageiro, seus benefícios perduram sob a forma de tratos, ligações sociais e habilidades que constroem o futuro. Não bastasse, há também a hipótese, ainda não de todo demonstrada de que emoções positivas podem desfazer os efeitos cardiovasculares das emoções negativas. Faz o maior sentido. Vejam, quando experienciamos stress, nossa frequência cardiaca, pressão arterial, açúcar no sangue e imunosupressão aumentam, pois são ações fisiologicas ou adaptativas otimizadas para ação imediata. Se não regularizarmos essas alterações depois que o stress passou, a coisa se torna crônica, o que pode levar a problemas sérios tais como doenças coronarianas.

E alguém acha que não ia ler um artigo dessa criatura, assim, de imediato, nesse momento de horror e tristeza? Pois é. Li, e não tinha nada a ver com o assunto, é uma revisão/ correção do trabalho prévio que ela desenvolveu, o que não teve a menor importância, pois o nome da criatura me fez lembrar uma montanha de coisas boas, interessantes, e necessárias em momentos que a esperança parece não sair, mas galopar para fora da janela.
Como disse no começo, coisas acontecem, todo o tempo, mas para cada um de nós,individualmente, só acontece aquilo no que se presta atenção. Esta máxima das ciências cognitivas, aprendi cedissimo, com minha nonna Linda, que padecia de um caso raro de surdez seletiva, só escutando o que lhe convinha, e o resto, quando perguntada, não fazia a mais remota idéia. Como? Como? dizia ela. Nunca escutei tal coisa! Minha surdez está piorando a cada dia!.
Quem imaginaria, muitos anos mais tarde fui aprender que nossa capacidade em focar em algo e suprimir aquilo outro, é a chave para contrôle de nossas experiências, e, a fim e a cabo, nosso bem estar. Diria que o fato dela ter sido imortal até os 104 anos é boa evidência do acima explicado.

Como várias pesquisas demonstraram (no fim há alguns desses artigos), vencedores de loteria, a longo prazo, não são muito mais felizes que pessoas que ficaram paraplégicas depois de acidentes, pelo fato que, eventualmente, tanto o estar rico como o estar paralizado se tornou um pequeno pedaço de uma grande vida. Ou seja, pararam de prestar atenção no assunto.

O autor da citação com a qual iniciei o artigo, tem idéias interessantissimas a esse repeito:
“As pessoas acham que, se ganharem na loto, serão felizes para sempre, e óbvio, não o serão. No início, claro, por causa da novidade e por pensarem na coisa todo o tempo. Depois se adaptam e param de prestar atenção. Similarmente, as pessoas se surpreendem com o quão felizes paraplégicos podem ser mas, eles não são paraplégicos tempo integral. Eles fazem outras coisas. Eles curtem suas refeições, seus amigos, ler jornal, assistir filmes, etc… Tem a ver com alocação da atenção, e contolar a atenção pode ser a chave da felicidade. Ser capaz de controlar a atenção lhe dá poder, porque você sabe que NÃO PRECISA ficar só pensando numa emoção negativa que apareça”.

Com isso ele não está dizendo para virarmos ostras bem fechadas para o resto do mundo, sem qualquer idéia a respeito dos horrores lá fora, ou darmos uma de Maria Antonieta com “Não tem pão? Comam bolos.”(A pobre coitada nunca jamais proferiu tal frase, mas funciona como exemplo do que queria dizer, e também da força da propaganda, que faz com que, algo nunca dito, se torne uma verdade incontestável).

A idéia é o que fazer, para melhor contolar nossa atenção, num mundo cheio de noticias ruins, e mails, texts, facebooks, o escambau, tudo nos distraindo constantemente.
Pois aqui vão as dicas:

1-REAVALIE

COMO SE REAGE ÀS COISAS É MAIS IMPORTANTE DO QUE O QUE ACONTECE NA REALIDADE.

As pesquisas de Arnold e Lazarus mostram que reavaliar situações, focalizando na parte boa de acontecimentos ruins pode ser um grande passo a respeito de permanecer positivo.
Direcione sua atenção para alguns elementos da situação, para organizar as coisas de maneira menos confusa. Por exemplo, depois de uma explosão raivosa a respeito de uma partilha mais equitativa nas tarefas domésticas (frase finissima para o pensamento negro de “o FDP largou a toalha molhada em cima da cama, de novo!”), ao invés de continuar a focalizar no egoísmo e preguiça de seu parceiro, pode se concentrar no fato que, pelo menos, a fistula purulenta foi aberta, primeiro passo para cura e cicatrização da citada, solução do problema em questão e melhora de seu humor.

Já notou como, em qualquer conflito, de briga doméstica a religiosos das mais diversas estirpes destruindo patrimonio histórico uns dos outros, da discordância com um amigo a guerras terríveis, tudo se baseia no fato que nos recusamos a ver o ponto de vista do outro, e preferimos usar tudo o que temos para demonstrar o quanto esse outro é mau, culpado, horrivel, sei lá, ponha os adjetivos que quiser.

O psicologo George Bonanno, da Universidade de Columbia, acha que o desviar a atenção de uma experiência negativa, não só não é uma coisa mal adaptativa, como muitos de seus colegas consideram, mas que, pelo contrário, pode ser uma estratégia de enfrentamento fantástica. Segundo ele: “Mesmo em face de eventos terriveis, auto decepção e evasão emocional estão consistentemente relacionadas a melhor resultado. Mesmo quando a pancada é severa, como a morte de um ente querido, desviar o foco de seu sofrimento para qualquer outra coisa, pode aumentar sua capacidade de resilência.”

Assistam o filme “O Pianista”(The Pianist, 2002, Roman Polansky, baseado no livro The Pianist: The Extraordinary True Story of One Man's Survival in Warsaw, 1939-1945, de Jerzy Waldorff). Prestem bem atenção e me digam como foi que ele sobreviveu.
Para os que gostam de ler, aconselho veementemente “O homem em busca de sentido”do Vicktor Frankl.

2-COLOQUE SUA ATENÇÃO NAQUELES QUE ACREDITAM EM VOCÊ

Se você tem alguma experiência em palestras, já deve ter notado que sempre, não importa estar falando para 5 ou 500 pessoas, em Boston ou Tumbuctu, São Paulo ou Manaus, digo sempre tem aquele ser que foi lá só para mostrar ao mundo, da maneira mais desagradavel, ofensiva e chocante, o quanto suas idéias estão erradas. Suas, palestrante, não dele, chateante. Pois bem, que fazer? Como neutralizar aquela voz interna que berra “Danou-se”?

Seguindo as boas lições de politicos e vendedores, que aprendem a, seletivamente, prestar atenção aos reforçadores positivos.Para criaturas de temperamento sanguíneo, como certos politicos, empresarios e vendedores, parece ser coisa natural o direcionar a atenção para além da negatividade que recebem.Como? Simplesmente desviando de caras feias no público presente e focando em caras amigáveis, apagando assim qualquer imagem perturbadora antes que essa possa ficar armazenada na memória.

3-BUSQUE O FLUXO

Só lembrando que “fluxo”é um estado ativo de atenção, no qual se está tão interessado e/ou focado no que se está fazendo, que o resto do mundo praticamente desaparece. É o exato oposto de, por exemplo, se largar por horas a fio na frente da TV.

Num exemplo impressionante do tipo de mentalidade que destroi boas experiências diárias, a maioria das pessoas reflexivamente diz que prefeririam estar em casa do que no trabalho, ao contrário do que mostra toda a pesquisa sobre “fluxo”, a qual demonstra que, quando no trabalho, as pessoas tendem a se concentrar em atividades que exigem sua atenção, desafiam suas habilidades, tem metas claras, e conduzem a feed backs oportunos que favorecem a experiência ideal.

4-TRANSFORME AS COISAS CHATAS NUM JOGO, NUM DESAFIO.

Csíkszentmihályi, a criatura que praticamente inventou o conceito de “fluxo”, acredita que, com um pouco de esfôrço e atenção, podemos tornar mesmo a mais estupidificante das tarefas, em algo mais satisfatorio. Para mim, não existe nada mais estulto do que passar roupa. Até hoje procuro saber quem foi que inventou a coisa, para, caso houver outro mundo e lá o encontrar, estar certa e segura de lhe dizer o que penso. Mas, há muitos anos atrás, uma amiga me fez ter a maior das epifanias. Pois estávamos ambas em começo de profissão, com todas as pressões inerentes ao momento histórico, e com roupas para passar para o resto da vida, quando ela me telefona e me convida para ir passar roupa na casa dela. Achei assaz esquisito, mas era sábado e, a não ser que quisesse ir ao hospital pelada na segunda feira, não ia ter jeito. Pois lá fui. Ela tinha ganho de alguém uma garrafa de champagne, e, entre champagne, boa música e muitas gargalhadas, demos conta, numa tarde agradabilissima, da roupa toda. Não estou insinuando que nos tornemos alcoolatras para suportar coisas chatas. Estou dizendo que, muito mais do que fazemos, é como o fazemos. Agora, mudei o repertório para botar em dia filmes que não deu tempo de assistir. Basicamente, é descobrir como melhorar algo que é muito chato, em algo interessante.

5-PROGRAME DESAFIOS PARA SEU TEMPO DE LAZER

Apesar de minha imorredoura paixão pelo cérebro, também sou uma realista convicta, e sei que o danadinho é preguiçoso, assim, se o deixarmos a seu bel prazer, ele vai escolher fazer o que é mais fácil ao invéz do que possa ser mais interessante ou divertido.
Citando Csíkszentmihályi (de novo): “Se forem deixados à sua própria sorte e programação genética, e sem um estímulo externo marcante para atraí-los, a maioria das pessoas tende a entrar em um modo de processamento de informação de baixo nível, durante o qual, ou se preocupam com coisas à toa sem possibilidade de solução, ou assistem TV.”

O antídoto para o tédio do assim chamado lazer, é prestar tanta atenção ao programar uma noite ou fim de semana produtivo como o fazemos com nossa jornada de trabalho.

Exemplos:

a)Tenho duas amigas, vidas diferentes, profissões diferentes, idades diferentes, estados diferentes, que usam parte de seu ocupadissimo tempo servindo como voluntárias em Hospitais do Câncer. Já vi muita coisa triste nessa vida, mas é dificil achar algo tão avassalador como esses hospitais. Dá vontade de dobrar no chão e chorar de ódio/tristeza/revolta/dor/desespero, tudo junto, principalmente na ala infantil. Pois as duas lá estão, e fora essa característica comum, a segunda é que ambas são mulheres lindas, cheias de vida, com sorrisos de milhão de dólares, como dizem aqui, com tremendo bom humor e gosto pela vida. Estão no fluxo. Só não uso os nomes porque não pedi licença, mas elas sabem que são minhas heroinas e que quero ser igualzinha quando crescer.

b)Todo mundo já sabe do tal do desfio do balde de gelo para a campanha de doação para a Esclerose Lateral Amiotrófica ou Doença de Lou Gehrig, embora ainda tenha gente achando que o pessoal se molha todo para não pagar a doação e, em não entendendo o espírito da coisa, mostram crianças africanas tomando água em tampinha de garrafa. Pois bem, o ator Matt Damon, que além de ator é ativista social e fundou a Water.org, ONG dedicada a prover água potável e soluções sanitárias às regiões mais pobres da terra (http://www.water.org), aceitou o desafio da maneira mais brilhante possivel: usando água de seu vaso sanitário, informando que é mais limpa do que a disponível a milhões de crianças no mundo. Na mosca, duas vezes. Veja abaixo.
http://www.huffingtonpost.com/2014/08/25/matt-damon-ice-bucket-challenge_n_5710431.html?ncid=fcbklnkushpmg00000023&ir=Good+News
Basicamente, é o que Cristo disse a Lázaro: “Levanta-te e anda”, e qualquer outra hora comentarei sobre minha interpretação da morte como metáfora.

6-SABOREIE AS COISAS BOAS DA VIDA

Tal qual com comida, uma coisa é engolir um MacDonald em pé, só para encher o estômago, e outra é saborear um prato de Casoncei alla Bresciana, de preferencia no lago D’Iseo, na companhia de amigos queridos. São duas experiências sensoriais totalmente distintas, com consequencias idem. Aliás, a capacidade de “saborear”, de casoncei a um por de sol, de um livro ao sorrisão de uma criança, de uma boa piada a um bom vinho, é uma das habilidades das pessoas que se consideram felizes, como bem demonstra o seguinte experimento:
Um grupo de pessoas foi orientado a se concentrar em todas as coisas boas que poderiam encontrar, tipo o sol, as flores, gente sorridente andando pela rua, etc…..
Outro grupo era para se concentrar em coisas negativas, tipo lixo na rua, caras amarradas, sem teto, trânsito impossivel, etc, e o terceiro grupo foi instruido a andar só para exercício, procurando não prestar atenção no local. Depois de uma semana, os grupos foram testados, com os seguintes resultados:
O grupo que, deliberadamente se concentrou nas coisas boas, estava muito mais feliz que no início do experimento, o grupo que se concentrou nas coisa ruins, estava mais triste, e para os que andaram por exercício, nada mudou.

Isso demonstra que vemos apenas aquilo que estamos procurando ver, não necessáriamente o que lá está. A coisa boa é que podemos nos treinar a procurar ver as coisas boas, ao invéz de esperar passivamente para que venham até nós.
(RAPT: Attention and the Focused Life, Winifred Gallagher)

Atenção concentrada no trabalho ou no lazer, não só nos torna mais felizes momentaneamente, como também, junto com a seleção dos desafios que queremos superar, é o que nos transforma no tipo de pessoa que queremos nos tornar.

Não adianta ler todos os livros de auto ajuda existentes no mercado, se não estiver disposto ao trabalho constante, ao desafio diário, pessoal e intranferível, de ser a pessoa que você sonha encontrar.
Já não me lembro quem foi que disse isso, mas gravei essa frase numa plaquinha na minha escrivaninha:

“O QUE SOMOS, É IMUTÁVEL. QUEM SOMOS, NUNCA PARA DE MUDAR”.

PESQUISA SOBRE RELATIVIDADE DA FELICIDADE
Lottery winners and accident victims: is happiness relative? Brickman P, Coates D, Janoff-Bulman; J Pers Soc Psychol. 1978 Aug;36(8):917-27
Measuring the impact of major life events upon happiness. Ballas D, Dorling D.; Int J Epidemiol. 2007 Dec;36(6):1244-52. Epub 2007 Sep 28.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

DEPRESSÃO PODE SER TRATADA, MAS É PRECISO COMPETÊNCIA

Decidi traduzir esse artigo da Kay Redfield Jamison, não só pelo fato dela ser considerada a maior especialista na área, mas também por ser um dos únicos dos que se seguiram à morte do Robin Williams que não é nem piegas nem exagerado, mas claro, conciso e direto ao ponto. No final, breve bio da autora e seus livros, os quais considero básicos para os que trabalham na área psi e excelentes para qualquer um que queira ter uma ideia do assunto. Como concordo tanto com suas palavras, nem sequer fiz comentários.

Quando, em 1931, o artista americano Ralph Barton se suicidou, deixou uma nota explicando porquê, em meio a uma vida aparentemente boa e completa, ele escolhera morrer.

“Todos os que me conheceram ou ouviram falar de mim, terão uma hipótese diferente para explicar porque fiz isso, e a maioria das explicações estará errada. Tive poucas dificuldades reais e mais do que muitos em carinho e apreço. Apesar disso, meu trabalho se tornou tortura e me tornei causa de infelicidade a outros. Corri de uma esposa a outra, de uma casa a outra, de um país a outro, num ridículo esforço de escapar de mim mesmo.”
A razão que ele deu para seu ato foi “Uma vida inteira de melancolia, piorada por sintomas claros de insanidade maníaco-depressiva.”

Barton estava correto a respeito das reações dos outros. Muitas vezes, é mais fácil explicar um suicídio por causas externas, como problemas conjugais ou de trabalho, doenças físicas, estresse financeiro ou problemas com a lei do que é atribuí-lo à doença mental.

Certamente, stress é importante e muitas vezes interage perigosamente com a depressão. Mas o fator de risco mais importante para o suicídio é a doença mental, principalmente depressão ou transtorno bipolar (também conhecido como doença maníaco-depressiva). Quando a depressão é acompanhada por álcool ou drogas, o que é muito comum, o risco de suicídio aumenta perigosamente.

A depressão suicida envolve um tipo de dor e desespero que é impossível de descrever - e eu tentei. Sou professora de psiquiatria e escrevi sobre a minha doença bipolar, mas as palavras se esforçam para fazer justiça aos sentimentos. Como se descreve a sensação de passar de ser alguém que ama a vida a alguém que só deseja morrer?

Depressão suicida é um estado de horror e desespero gelado, agitado e implacável.

As coisas que você mais ama na vida se vão. Tudo é um esforço, o dia inteiro e noite afora. Não há esperança, não há sentido, não há nada. A carga, que se sabe, estamos sendo para outras pessoas, é intolerável. Assim também o é, a agitação da mania que pode ferver dentro de uma depressão. Não há nenhuma maneira de sair e à frente, uma estrada sem fim.

Quando alguém está nesse estado, o suicídio pode parecer uma escolha ruim, mas é a única.

Há tempos, tive depressão suicida. Sou um dos milhões de pessoas que passaram por tratamentos para a depressão e fiquei bem. Tive a sorte de ter um psiquiatra bem versado no uso de lítio, bem informado sobre a minha doença, e que também era um excelente psicoterapeuta.

Infelizmente, essa não é a experiência comum. Muitos profissionais de diferentes áreas, tratam a depressão, incluindo médicos de família, internistas, ginecologistas, bem como psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais.
Isso resulta em níveis de competência loucamente descontrolados.
Muitos dos que tratam depressão, não são bem treinados na distinção entre os tipos da mesma. Não há um padrão comum para o ensino do como chegar ao diagnóstico.
Distinguir entre depressão bipolar e distúrbio depressivo maior, por exemplo, pode ser difícil e erros acontecem. Um erro de diagnóstico pode ser fatal. Medicações que funcionam bem com uma pessoa, induzem agitação em outra.
Nós exigimos tratamentos bem informados, baseados em evidência para os cânceres e as doenças cardíacas. Deveríamos exigir o mesmo para as doenças mentais e a depressão.

Por exemplo: sabemos que o lítio diminui enormemente o risco de suicídio, em pacientes com distúrbios do humor como o distúrbio bipolar,e, apesar disso, só é usado em última instância. Também sabemos que medicação E psicoterapia funcionam muito melhor em conjunto, do que qualquer uma das duas separadamente. No entanto, muitos clínicos continuam a puxar a sardinha para sua própria brasa, quer exclusivamente na psicofarmacologia ou na psicoterapia.

E também sabemos que muitas pessoas com depressão suicida reagem bem à eletroconvulsoterapia (ECT), mas o preconceito contra o tratamento, ao invés da ciência, continua reinando em muitos hospitais, clínicas e consultórios.

Pacientes com depressão grave e seus familiares, devem ser envolvidos nas discussões sobre o suicídio, sempre que possível.
No geral, a depressão embota a capacidade de pensar e lembrar e, por isso, os pacientes devem receber informações sobre sua doença, tratamento e sobre os sintomas indicativos de risco de suicídio - como agitação, insônia e impulsividade, por escrito. (Na minha prática, uma cópia sempre foi dada aos familiares, só por via das dúvidas).

Uma vez que o paciente em depressão suicida tenha se recuperado, é valioso para o médico, paciente e familiares, discutir o que foi útil para o tratamento e que deve ser feito se a pessoa se tornar suicida novamente.
Nem sempre é fácil conviver ou se comunicar com pessoas deprimidas, pois a depressão, irritabilidade e falta de esperança podem ser contagiosas – assim, fazer planos quando o paciente está bem é o melhor caminho.

Uma diretriz antecipada que especifica os desejos do paciente, tanto a respeito de tratamento quanto de situações legais que possam surgir, pode ser útil. Eu tenho uma, por exemplo, que especifica que concordo com ECT se meu médico e meu marido, que também é médico, acharem que é o melhor curso de tratamento.

Pelo fato de ensinar e escrever sobre depressão e doença bipolar, muitas vezes me perguntam qual é o fator mais importante no tratamento. Minha resposta é :competência.

Empatia é importante, mas competência é essencial.

Tive a sorte de ter um psiquiatra que possuía ambas. Foi uma longa viagem de volta à vida, depois de quase morrer numa tentativa de suicídio, mas ele estava comigo, na verdade à minha frente, a cada lentíssimo passo do caminho.

To Know Suicide: Depression can be Treated but it takes competence http://www.nytimes.com/2014/08/16/opinion/depression-can-be-treated-but-it-takes-competence.html?_r=0

Kay Redfield Jamison é psicóloga clínica, escritora e a primeira e única psicóloga a ser professora de psiquiatria na Escola de Medicina John Hopkins, e até onde sei, no resto do mundo. Também é professora honorária de Inglês na Universidade de St. Andrews.
Durante sua carreira, ganhou inúmeros prêmios, aqui só coloco os mais interessantes:
Melhor Médico dos Estados Unidos, Herói da Medicina, Prêmios da Academia Nacional de Saúde Mental (NAMH) e da Fundação Americana para Prevenção de Suicídio.
Também foi uma das 5 pessoas escolhidas para a série televisiva “Grandes Mentes em Medicina.”
Começou a ter problemas com seu distúrbio bipolar, no início da faculdade, problemas esses que foram piorando, até uma séria tentativa de suicídio com medicação. Depois disso, entendeu que teria que tomar medicação pelo resto da vida, pois todas as vezes que parava de toma-la, surtos sérios aconteciam.

LIVROS

Uma Mente Inquieta (An Unquiet Mind: A Memoir of Moods and Madness): Foi escrito tanto para ajudar os médicos a enxergar o que um paciente vê como útil no Tratamento, quanto para ilustrar a importância de estar presente para os pacientes e não tentar acalmá-los com platitudes ou promessas de um futuro melhor

Tocados Pelo Fogo: A Doença Maníaco-Depressiva e o Temperamento Artístico (Touched with Fire: Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament)

Os restantes coloquei tradução minha, pois não encontrei em português.

Doença Maníaco Depressiva (Manic-Depressive Illness)

A noite cai depressa: Entendendo o Suicídio (Night Falls Fast: Understanding Suicide)

Exuberância: A paixão pela vida (Exuberance: The Passion for Life)

Nada mais foi o mesmo: Memórias (Nothing Was the Same: A Memoir)

domingo, 3 de agosto de 2014

CEM ANOS DA PRIMEIRA GUERRA, FUTILIDADE E CONSEQUÊNCIAS


“Se acha que o comportamento humano é desencorajante hoje, considere há um seculo. Um marciano podia ter dado uma olhada na Europa em 1914, e visto um continente pacífico e próspero, com uma cultura mais ou menos compartilhada. Quase todos tinham comida o suficiente. Os ingleses ouviam Wagner, os alemães saboreavam Shakespeare, os aristocratas russos imitavam os franceses, e todo mundo amava Mozart e as óperas italianas.
Daí, a Europa implodiu.
Dez dias antes do Império Austro Hungárico declarar guerra à Sérvia, em 28 de Julho de 1914, que acabou se tornando a Grande Guerra, as pessoas de todos os paises estavam comendo, trabalhando, sonhando com tudo, menos uma guerra, ou como um cientista político escreveu no jornal -The Atlantic, no ano seguinte: A guerra despencou em cima deles como um trovão.
Filósofos, especialistas e poetas, passaram os 4 anos seguintes arrancando os cabelos para encontrar explicações. Ridicularizaram a idéia de que o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, foi a causa. Segundo a maioria, foi só o pretexto.
Uma teia de alianças, enredos e manobras de diplomatas e generais arrastaram nações ambivalentes numa guerra desnecessária. Esses, os fatos.
Agora, quais foram as causas profundas?
Foi a ganância dos beligerantes ricos tentando ficar mais ricos.
W.E.B. Du Bois, o escritor e ativista negro, disse que era a competição pelas colônias mais ricas em recursos na África.
Foi uma luta entre liberdade e autocracia (embora a aliança da Rússia czarista com a França e Inglaterra minem esse argumento).
Segundo o filósofo e pacifista de Bertrand Russell, foi porque os instintos morais da humanidade haviam ficado muito atrás da busca pelas riquezas materiais.
Foi a insegurança psicológica da Alemanha, desencadeada pela supremacia naval da Inglaterra e pelo medo de uma possivel ascenção da Russia.
Foi, simplesmente, a insanidade da única espécia carnívora que mata os de sua própia espécie por nenhuma razão.
Ou todas as acima.
E para isso, mais de 16 milhões de homens foram para o abate, muitos deles de formas cruéis e criativas. Em trincheiras que se estenderam ininterruptamente por 475 milhas, do Mar do Norte até a fronteira com a Suíça, os alemães construíram muros usando cadáveres, de modo que as tropas francesas que capturaram uma trincheira, penduravam suas cantinas em tornozelos salientes.Ao longo do rio Somme, no norte da França, mais de 1 milhão de homens foram mortos ou feridos em 1916, para um avanço aliado de 7 milhas.Gás venenoso preenchia ¼ de todos os projéteis de artilharia disparados na frente ocidental em 1918. Mais de um terço dos homens alemães nascidos entre 1892 e 1895 morreram no curso da guerra.A matança disseminou-se para civis, na Inglaterra, e a França foi atacada pelos zepelins alemães. A guerra não era mais nobre, embora alguns que nela batalharam, o fossem acima e além de qualquer comparação.
O mundo se tornou um lugar mais desagradável após a guerra do que antes dela.
Foi uma guerra triste, sem nenhum sentido, pela qual continuamos pagando até hoje.
Um tratado de paz de durissimo e uma economia devastada produziram uma "geração perdida" de jovens alemães e levou diretamente à ascensão de Hitler e a uma conflagração ainda mais feia. O acordo secreto de Sykes-Picot secreto entre Grã-Bretanha e França, em 1916, desenhou limites arbitrários nos dividendos do pós-guerra no Oriente Médio em torno do Iraque, por exemplo, que estão dando problemas até hoje. A derrubada da monarquia russa e o colapso do Império Austro-húngarico, criaram uma Europa balcanizada que, recentemente, com a derrubada do avião da Malaysia Airlines em cima da conturbada Ucrânia, continua a machucar.
Todas as guerras nos dizem algo sobre os instintos mais básicos da natureza humana, e a Primeira Guerra Mundial (causticamente nomeada em 1918 por um jornalista inglês, que achou que não seria a última) mais do que a maioria. Sobre a natureza da cobiça, os perigos da insegurança, a facilidade de perder o controle humano sobre os acontecimentos humanos.
Nossa espécie evoluiu? Desenvolveu?
A contraprova é dolorosamente abundante: Os fornos dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Os Gulags de Stalin. Os genocídios no Camboja e em Ruanda.O retorno aos padrões de pensamento e comportamento do século VII, incitados pela revolução iraniana de 1979 e praticado por jihadistas de todo o Oriente Médio.
De fato, a evidência de que nos tornamos mais sábios desde a guerra destinada a acabar com todas as guerras, e que não fez nada do tipo, é bem pequena.
Apesar disso, se serve de consolo em meio às tragédias e desordem do mundo atual, o Homo sapiens parece ter sido mais estúpido no passado do que está sendo agora.”

The Tragic Futility of World War I-Burt Solomon

http://www.theatlantic.com/international/archive/2014/07/world-war-i-tragic-futility/375103/

Os 100 anos dessa guerra, celebrados em prosa e verso em todas as formas de mídia, me fizeram pensar num montão de coisas, desde meu avô bersagliere, que recebeu medalha no citado conflito, passando pela minha bisavó e a gozação horrivel que ela sofreu de seu neto, meu pai, quando Enrico Antonio Maria Montini, primo distante dela, tornou-se Papa Paulo VI, chegando ao artigo que traduzi acima. Artigo primoroso, do qual discordo na última frase, isto é, que o Homo Sapiens está mais esperto agora do que era no passado. Temos muito mais informação, conhecimento e tecnologia, sem a menor sombra de dúvidas. Melhoramos? Altamente discutível. O que minha bisavó e a gozação de meu pai tem a ver com isso? Conto. Um pouquinho da história da Itália que desde o primeiro Papa em Roma, esteve interligada com a história da Igreja Católica, ou como dizia o grande Indro Montanelli, “na Italia, até ateu é católico”. Católico, e anti clerical, pois os papas tinham por mania, quando alguma cidade-estado italiana lhe dava algum problema, de chamarem algum rei estrangeiro, com notada preferência pelos alemães, para descerem e matarem uns quantos problemáticos além de destruir o máximo possivel o local onde viviam. Não bastasse, também criaram a “aristocracia negra”, que é como são chamadas as familias aristocráticas que ganharam o titulo por parentagem com algum alto prelado. Assim, a gozação era em cima de, depois da familia sobreviver por centenas de anos, sem sequer um padre na mesma, catapimba, vem um e vira Papa. O consolo era que o sobrenome era diferente e que, pelo menos uma coisa o Montini tinha feito direito, que foi, no fim da segunda guerra mundial, quando nosso valente rei fugiu num navio para Portugal, esconder os netos do citado dentro do Vaticano, netos esses que haviam sido abandonados na pressa. E como covardia pouca é bobagem, a meio caminho de Portugal, declarou que a Italia não era mais aliada dos alemães. Pronto. Aliados subindo pelo sul, alemães baixando com fé pelo norte, italianos, só para variar um pouco, sanduichados no meio.

E voltemos à idéia do estarmos mais espertos. Há uma frase que todo mundo gosta de repetir e com a qual tenho profunda implicancia, que é “A história se repete”. Ora, a história é uma entidade feita e montada pela vida e ações de cada um de nós viventes em determinado momento, não pode se repetir. O que se repete são as besteiras que cometemos. Nós, primatas da espécie Homo Sapiens. Freud chamou a coisa de Compulsão à Repetição, dizendo que, quem disso sofria, caia na categoria dos neuróticos. Naturalmente que ai vem o DSM e acaba com a perfeição estética do discurso freudiano, enfiando todas as neuroses na classificação geral e insonsa de distúrbios da ansiedade.

E é aqui que a premonição do Bertrand Russell brilha como farol em noite escura: “Os instintos morais da humanidade ficaram muito atrás da busca pelas riquezas materiais”.

Quando vejo aqui, neste assim chamado primeiro mundo, políticos estimulando a população burra e ignara a assustar mais ainda as pobres das crianças que estão vindo de Honduras e Guatemala, muitas delas desacompanhadas, porque berram na televisão que estão trazendo doenças contagiosas que matarão todos os americaninhos; quando vejo os arautos do inferno a estimularem o ódio a outras crenças; quando vejo as tentativas de acobertar os problemas com os fractais na busca pelo petróleo… juro que duvido dessa esperteza.

Depois me lembro que tem o povo todo dos Médicos sem Fronteiras, a enormidade do trabalho da Fundação Melissa e Bill Gates, vacinando as crianças na Índia, África e onde mais precisar, tem aquelas criaturas que além de trabalhar o dia todo, ainda acham tempo para ajudar o vizinho doente, vão ser voluntários em hospitais, creches, asilos, vão cuidar de gente e animais abandonados, aí sou atacada por um afeto enorme pela raça à qual pertenço. Essa raça que criou os “moralmente comprometidos” aos montes, mas que criou, aos milhares e milhões esses heróis de todos os dias, que batalham, acima e além de qualquer fé, pressuposto político ou recompensa. Pensa só, num pai ou numa mãe, a criarem filhos decentes para o mundo.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A MAIS DEPRIMENTE DAS DESCOBERTAS A RESPEITO DO CÉREBRO


Já relatei, em prosa e verso, minha contínua paixão a respeito desse pequeno e prodigioso órgão, localizado no espaço entre nossas orelhas. Como controla todas nossas funções, fisiológicas e as assim chamadas mentais, que são tão fisiológicas quanto o suar debaixo de sol quente, como é capaz de modificar-se com a experiência, diferentemente de todos os outros, como é ótimo nisso, naquilo e naquele outro mais. Tal paixão dura cerca de 4 décadas, desde aquele dia glorioso em que vi o primeiro neurônio, naqueles slides super antigos, neuronio em preto sobre fundo azul, mostrado pelo Prof. Mano, e minha declaração de que era aquilo que iria fazer, embora sem ter muita certeza ainda do que “aquilo” fosse. Cá entre nós, o “aquilo”, que virou neurologia e psiquiatria, já se expandiu e se modificou tanto, que volta e meia tenho que repensar no que é meu “aquilo”.Mas como toda boa história de amor, esta também teve seus altos e baixos, percalços de caminho, lutas, perdas, superações, enfim, todas as coisas que fazem parte de qualquer história, mas nunca deprimi tanto como no período entre ano passado e presente momento.

Não bastassem os desastres causados por nós mesmos, os assim chamados “homo sapiens”, cada vez mais homo(fóbicos)* e menos sapiens, e só para exemplificar esta última semana (exemplos aleatórios, mas que me chamaram atenção no mar de desgraças):

1- O sarampo, que havia sido declarado extinto em 2000, aqui nos USA, está fazendo um fantástico retorno, principalmente nos estados de NY, California e Texas, seguindo o que é chamado de movimento “anti-vacinação”, coisa suportada por algumas celebridades televisivas como a atriz Jenny McCarthy, o ator Aidan Quinn e a estrela de “reality show”,Kristin Cavallari, como se pode notar, cientistas de peso, que continuam acreditando que a vacinação tripla causa autismo, apesar de todas as evidências em contrario, e que são tantas que nem dá para colocar aqui. Isso, e o fato de, o filho da McCarty, segundo ela autista pelas vacinas, nem autista é, sendo o diagnóstico muito diferente.

2- Dois irmãos mortos, de pneumonia, o primeiro em 2009, com 2 anos, e o segundo de 8 meses, ano passado, porque seus pais, Herbert e Catherine Schaible, da Pennsilvania, como disseram ao juiz: “Acreditamos na cura divina, que Jesus derramou seu sangue para nossa cura e que morreu na cruz para quebrar o poder do demônio.” Tem mas 7 filhos, que, por enquanto, estão sobrevivendo.

3- O assim chamado “jovem evengélico”cujo nome esqueci de salvar, que invadiu a Igreja da Nossa Senhora do Patrocínio do Santíssimo Sacramento e quebrou entre outras coisas, a imagem da padroeira da cidade, Nossa Senhora Aparecida, tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal.O abestalhado disse que destruiu os 10 santos por não concordar com a idolatria às imagens e por “não ser condizente ao seu credo”.

4- O conflito Gaza–Israel, que começou no verão de 2006, e que apesar do fato de Hamas e Israel terem concordado com cessar-fogo em seguida à operação “Pilares da Defesa”, em Novembro de 2012, continua firme e forte, um lado culpando o outro, morte, horror e destruição, muito mais para os palestinos do que para os judeus.

5- O avião da Malasya Airlines, com 298 pessoas a bordo, derrubado na Ucrânia, quase divisa com a Russia, com todo mundo apontando o dedo para todo mundo, inclusive a última que vi na BBC, que um grupo de russos veio com a idéia de que citado avião foi derrubado pelos americanos, para fazer com que os russos ficassem com a cara no chão. E, pela mesma BBC, a popularidade de Putin com seus constituinte, subiu enormemente.

Exemplos não faltam, o que falta é espaço, que minha idéia aqui não é escrever a segunda edição de Guerra e Paz, mas explicar minha profunda decepção com um de meus grandes amores.

Como disse no início, não bastassem os exemplos citados, o artigo do Professor Dan Kahan, da Faculdade de Direito de Yale, com o pomposo título de “Motivated Numeracy and Enlightened Self-Government”(Motivação dos Números e Autonomia Iluminada - tradução livre minha), foi um golpe forte em minhas esperanças. Explico. Sei que todos nós, em maior ou menor grau funcionamos à base do Raciocínio Motivado,que é por definição,“o fenômeno de tomada de decisão de forma tendenciosa, baseado em emoções à revelia de evidências, e que tem como objetivo mitigar dissonâncias cognitivas” (Webster's Third New International Unabridged Dictionary).
Isso tudo significa que, nós humanos, no geral, ao invéz de buscar informação de forma racional, que possa confirmar ou desconfirmar determinada crença, na realidade buscamos só aquele tipo de informação que confirme aquilo no qual já, de antemão, acreditamos.

Tudo bem, todo mundo que trabalha em qualquer subdivisão das neurociências sabe disso há muito tempo, mas também acreditávamos que, com educação, treino, e, maravilha das maravilhas, toda a informação disponível via internet, essa necessidade diminuiria exponencialmente na medida que o conhecimento se tornasse cada vez mais popularizado.
E, como de costume lembrando Maiza, “nosso mundo caiu…”.E a última cutucada, se é que precisava, na nossa bolha otimista, foi dada pelo artigo citado no início, que básicamente diz o seguinte:

“O mecanismo de negação é a base de como nosso cérebro funciona. O acesso a melhor e maior quantidade de informações não transforma pessoas pouco acostumadas a entreter idéias, em cidadãos com cérebros bem equipados. Muito antes pelo contrário, só os torna mais comprometidos com os própios equívocos.Durante toda a história, ninguém, comprometido com alguma idéia política, religiosa ou econômica, mudou de idéia só porque novos dados abalaram a concretude de seu pensamento.Quando há conflito entre as crenças partidárias e evidências claras, são as crenças que ganham. O poder da emoção sobre a razão não é uma falha em nossos sistemas operacionais, é uma característica.”

Então, antes de se esvair em lágrimas, olha só como o autor desenvolveu citado artigo, simplesmente tomando como base as pesquisas de Brendan Nahyan, professor assistente de ciências governamentais na Universidade de Dartmouth, que demonstrou o seguinte:

Pessoas que acreditavam que Armas de Destruição em Massa haviam sido encontradas no Iraque, passaram a acreditar na desinformação, de forma ainda mais forte, quando lhes era mostradas notícias negando o fato.
Pessoas que pensavam que George W. Bush havia proibido todas as pesquisas com células-tronco não mudaram de idéia mesmo depois que lhes foram mostrados artigos e mais artigos relatando que só alguns trabalhos com células-tronco financiadas pelo governo federal foram parados.
A pessoas que afirmavam que o ponto mais importante de um governo é a economia, e que desaprovavam a política de Obama, foi mostrado um gráfico de empregos não agrícolas, o qual, em relação ao ano anterior, mostrava uma linha ascendente, com a adição de mais de 1 milhão de empregos. Foi perguntado se o número de pessoas com empregos tinha ido para cima, baixo ou ficado na mesma. Muitos, olhando diretamente para o gráfico, disseram que havia diminuido.

Aí, o Khan decidiu usar simples aritmética comparativa, mostrando a um grupo de pessoas uma tabela de números a respeito de se, determinado creme melhorava ou não erupções cutâneas, e a maioria do grupo chegou a exatamente os mesmos resultados.
A mesmíssima tabela, com os mesmíssimos números foi mostrada ao mesmo grupo, dias depois, mudando a premissa, ou seja, foi perguntado se, determinada lei que bania o direito das pessoas de portarem armas, reduzia ou não a incidência de crime.

Surpresa, surpresa! Dependendo das crenças a respeito de armas de cada um, as conclusões aritméticas foram totalmente diversas.

Assim, Khan concluiu que, gente que faz contas básicas de aritmética, perfeitamente bem a respeito de um creme, erra nas mesmissimas contas quando a coisa se relaciona a crença prévia. Daí o nome do artigo.

Pronto. Pode chorar, mas só um pouquinho porque, o que também foi descoberto é que, não importa qual a crença, se, antes de passar pelo teste, as pessoas gastam alguns minutos escrevendo umas poucas sentenças a respeito de uma experiência que os tenha feito sentir-se bem a respeito de si mesmas, a maior parte delas começa a ver os gráficos como realmente são e a fazer as contas certas, e até mesmo mudando a idéia previamente tão cara.

Simples assim: quando gastamos uns minutinhos afirmando nossa auto estima e valor, ficamos mais propensos a enxergar a realidade, a mudar de idéia, a ousar.

E aqui, solto um berro de pura alegria, e só não pulo feito índio em dança de chuva porque estou com um pé imobilizado, o que em nada impede de me felicitar efusivamente ao som da Nona de Beethoven, fechar este arquivo e abrir o outro, que por enquanto se chama “Neurologia para Crianças”.
Porque meu sonho de longa data, começa a se concretizar, pelo menos no papel. Sonho que é ensinar a educadores e pais a treinarem as crianças, através de atividades lúdicas, a entender e lidar com o própio cérebro, para que não seja o inimigo, mas o aliado na construção de uma vida plena.

Cheers!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

* Uso o têrmo Homofóbico, num sentido amplo, representando tudo o que é racismo, isto é o ódio a outro ser humano ou grupo deles, só porque são diferentes da gente em alguma coisa, cor, credo, gênero, orientação sexual, etc...

Motivated Numeracy and Enlightened Self-Government http://www.cogsci.bme.hu/~ktkuser/KURZUSOK/BMETE47MC15/2013_2014_1/kahanEtAl2013.pdf

When Corrections Fail:The persistence of political misperceptions http://www.dartmouth.edu/~nyhan/nyhan-reifler.pdf