Google+ Badge

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A PSICOLOGIA DOS ERROS ESTONTEANTEMENTE ESTÚPIDOS

Estou a sofrer as dores de parto encruado de trigêmeos, seguindo o processo eleitoral aqui nos USA e seja lá que nome tenha o enrosco do impeachment/delações premiadas/lava jato/roubos de merenda escolar e fechamento de escolas aí no Brasil.

Aqui, Donald Trump é o escolhido do partido republicano (GOP- Great Old Party – Grande Velho Partido). Aí, sequer sei resumir. Entendi que a presidente foi afastada, Temer assumiu interinamente e a festa de escandalos continua sem trégua à vista. É ministério que desaparece e volta à tona, delações que aparecem e de repente também somem, juízes viram salvadores da Pátria e daí aumentam os próprios rendimentos sem pejo ou pudor. Nem lembro a porcentagem de Congressistas respondendo a algum processo, menos o dono do helicoptero com 500 Kg de cocaina.

Nem o Oliver Stone teria conseguido. E aí recebo o artigo que abaixo traduzo. Se vai mudar algo? Duvido. Mas que vai ter gente à beça metendo a mão na testa, isso vai. Tomara que não seja tarde demais.
PSYCHOLOGY OF BREACKTAKING STUPID MISTAKES

“Todos nós cometemos erros estúpidos de vez em quando. A história está repleta de exemplos. Diz a lenda que os troianos aceitaram o "presente" dos gregos, um enorme cavalo de madeira, que acabou por ser oco e preenchido com um time de comandos. A torre de Pisa começou a inclinar-se, mesmo antes da construção ser concluída e não é sequer a mais inclinada do mundo . A NASA, inadvertidamente, gravou em cima das gravações originais do pouso na Lua, e agentes do comitê de reeleição de Richard Nixon foram pegos invadindo um escritório de Watergate, pondo em movimento o maior escândalo político da história dos EUA. Mais recentemente, o governo francês gastou US $ 15 bilhões com uma frota de novos trens, apenas para descobrir que eles eram muito grandes para caber em cerca de 1.300 estações.

Prontamente reconhecemos estes incidentes como erros estúpidos, erros-épicos. Num nível mais pessoal, investimos em esquemas de ficar rico-rapidinho, dirigimos acima do limite permitido e postamos coisas em mídias sociais as quais nos causarão sério arrependimento mais tarde.

Mas o que, exatamente, impulsiona a nossa percepção dessas ações como erros estúpidos, ao contrário de má sorte? Sua aparente falta de pensar a respeito? A gravidade das consequências? A responsabilidade das pessoas envolvidas? A ciência pode nos ajudar a responder a estas perguntas.

Em um estudo recém-publicado na revista Intelligence, usando termos de pesquisa como "coisa estúpida de se fazer", Balazs Aczel e seus colegas compilaram uma coleção de histórias que descrevem erros estúpidos de fontes como The Huffington Post e TMZ. Uma história descreveu um ladrão que invadiu uma casa e roubou uma televisão e mais tarde retornou para buscar o controle remoto; outro descreveu os assaltantes que pretendiam roubar telefones celulares, mas acabaram roubando dispositivos de rastreamento (GPS) que, quando ligados deram à polícia sua localização exata. Os pesquisadores então pediram a um gupo de estudantes universitários, para avaliar cada história a a respeiro da responsabilidade das pessoas envolvidas, a influência da situação, a gravidade das consequências, e outros fatores.

As análises de avaliações dos sujeitos revelou três variedades de erros estúpidos:

A primeira é quando a confiança de uma pessoa ultrapassa a sua habilidade, como quando um homem, em Pittsburgh, roubou dois bancos em plena luz do dia sem usar disfarce, acreditando que o suco de limão que tinha esfregado no rosto o faria invisível para as câmeras de segurança. Ou, no que é amplamente considerado como um dos maiores fracassos de mascote da história, quando o Wild Wing dos Anaheim Ducks tascou fogo em si mesmo, tentando saltar sobre uma parede em chamas (os líderes de torcida o arrancaram das chamas e ele voltou à ação no final do jogo, ileso).

A desconexão entre a confiança nas própias habilidades e ausência das mesmas foi apelidada de efeito Dunning-Kruger, depois de um estudo realizado pelos psicólogos sociais David Dunning e Justin Kruger com estudantes da Cornell sobre testes de humor, lógica e gramática e, em seguida, avaliar quão bem eles pensam que foram, em comparação com outros sujeitos do estudo. Os sujeitos com pior desempenho, cujas pontuações os colocaram no percentil 12, estimaram que tinham alcançado o percentil 62, o mais alto. Resumindo os resultados, Dunning observou: "Desempenho ruim, e todos nós temos algum desempenho péssimo em alguma área, não consegue visualizar as falhas de pensamento ou respostas falhas. Quando pensamos que estamos fazendo nosso melhor desempenho, é quando, usualmente, cometemos as maiores besteiras”.

Como qualquer dos inúmeros escândalos políticos bem ilustra, o segundo tipo de erro estúpido envolve atos impulsivos, quando nosso comportamento parece fora de controle. No escândalo que ficou conhecido como Weinergate, ex-politico, Anthony Weiner, enviou textos e fotos de si mesmo e suas partes pudendas, para mulheres que havia conhecido no Facebook. Depois de renunciar ao cargo, Weiner continuou suas ciber-imbecilidades sob o cognome de Carlos Perigo, e ai caiu presa do efeito Dunning-Kruger quando superestimou o apoio apoio que receberia na primaria para prefeito de NY em 2013. Mais recentemente, em Michigan, um representante do estado Todd Courser (conservador de direita, pertencente aoTea Party,que é extrema direita), admitiu ao envio de um e- mail anônimo para agentes Partido republicano e membros da mídia alegando (falsamente) que ele havia sido pego fazendo sexo com uma prostituta do sexo masculino, com o objectivo de, em fazendo tal revelação, pudesse fazer parecer que seu caso com a colega representante Cindy Gamrat parecesse como parte de uma campanha de difamação. Em um audio gravado de uma conversa secreta com um membro da equipe, Courser descreveu sua estratégia como uma "queima controlada de mim mesmo" projetada para "inocular o rebanho" contra as alegações que ainda não haviam sido feitas.

A variedade final de erro estúpido envolve lapsos de atenção tipo Homer, da série “Os Simpsons”. Um dos melhores exemplos da história do esporte americano é a de Roy Riegels, estrela do esporte da Universidade da California, o qual, em 1929 durante o Rose Bowl, correu 65 jardas para o lado errado do campo, erro que deu a vitória ao time do Georgia Tech. Já em 1964, Jim Marshall, do Minnesota Vikings, que foi por 2 vezes considerado o melhor dos jogadores, além de ser capitão da equipe, repetiou o feito, não por uma mas 2 vezes no mesmo jogo.

No estudo de Aczel, as análises revelaram que as pessoas vêem esta categoria como o menor dos erros estúpidos.

Naturalmente é irrealista pensar que poderíamos eliminar o erro humano. Errar é humano, e vai ser sempre. No entanto, esta pesquisa nos dá uma melhor descrição das nossas falhas e fraquezas, e um lugar para começar a pensar em intervenções e prescrições para nos ajudar a errar menos. Esta pesquisa também nos lembra de nossas fragilidades humanas compartilhadas. Somos todos propensos a superestimar nossas habilidades, tomar decisões impulsivas, e termos lapsos de atenção. Esta constatação simples faz com que erros estúpidos pareçam, talvez, um pouco menos estúpidos - e um pouco mais humanos.”

Pois concordo com tudo, só que, quando a soma das 3 categorias se espalha numa população, aí criamos histeria coletiva, que tal qual um desastre natural, deixa sequelas às vezes irremediaveis.

Mas esse é o assunto da próxima postagem: “Os demonios nossos de cada dia ou histeria de massa.”

quinta-feira, 14 de abril de 2016

TIROS QUE SAEM PELA CULATRA OU PORQUÊ FATOS NÃO VENCEM ARGUMENTOS

Vamos dizer que você está tendo uma discussão com um amigo sobre o aquecimento global ou quem foi o melhor goleiro na história das copas. Você apresenta a seu amigo um conjunto de fatos que você acha que vencem a discussão. E, no entanto, espantadissimo, pois acha que os fatos que apresentou claramente contradizem a posição do seu amigo, descobre que tais fatos falharam totalmente em corrigir a crença, falsa ou infundada, do citado amigo. Na verdade,ele está ainda mais agarrado à sua crença após ser exposto à informação corretiva.

Um grupo de investigadores da Universidade de Dartmouth estudou o problema do assim chamado "tiro pela culatra", que é definido como o efeito no qual "as correcções realmente aumentam os equívocos entre o grupo em questão."

O problema aqui pode ser a maneira como seu amigo está recebendo estas informações. Pode ser que seu amigo conhece a você e suas opiniões muito bem , e não acha que você seja exatamente uma fonte onisciente das mesmas, caso na qual pode haver acordo. A outra situação é um pouco mais complicada.

Quando se trata de receber informações de correção sobre uma questão, principalmente sobre politica, religião ou saúde, os autores do estudo destacam que “as pessoas normalmente recebem informações corretiva nos relatórios "objetivos" de notícias, opondo dois lados de um argumento contra o outro, o que é significativamente mais ambíguo do que receber uma resposta correta de uma fonte onisciente. Nesses casos, os cidadãos são susceptíveis de resistir ou rejeitar os argumentos e evidências que contradizem suas opiniões, uma visão que é consistente com um vasto leque de investigação”.

Assim, quando vemos uma notícia que apresenta ambos os lados de uma questão, nós simplesmente escolhemos o lado que concorda com nossa crença prévia, reforçando assim nosso ponto de vista. Mas, o que acontece com aqueles indivíduos que simplesmente não suportam desafios para seus pontos de vista, e seja lá o que acontece, só reforça mais e mais seu parecer original?

Os autores descrevem o efeito “tiro pela culatra" como um possível resultado do processo pelo qual as pessoas contra argumentam informações, de preferência incongruentes, de formas a reforçar seus pontos de vista preexistentes. Se as pessoas contra argumentam informações indesejáveis vigorosamente o suficiente, podem acabar com informações mais atitudinalmente congruentes em mente do que antes do debate, o que, por sua vez, leva a comunicar opiniões que são mais extremas do que teriam sido se tais opiniões não tivessem sido desafiadas. E aí, a vaca vai para o brejo.

Então, o que se pode fazer?

Julia Galef ( Presidente do Instituto para Racionalidade aplicada) diz que é preciso fazer uma mudança mental importante, ou seja, ao invés de pensar sobre o argumento como uma batalha a ser ganha, reformular a coisa como uma parceria, uma colaboração em que as pessoas, juntas, estão tentando descobrir a resposta certa.
Isso torna muito mais fácil a avaliação dos argumentos, quais são bons e quais são ruins porque todos estariam motivados para obter a resposta certa juntos, ao invés de ter que defender o argumento com o qual se entrou na discussão, como o correto.

Gosto imensamente dessa proposta. Infelizmente, também conheço o Raciocínio Motivado, que por definição é o “Tipo de estratégia de justificação inferida, utilizada para minimizar a dissonância cognitiva.”
Acontece quando nos agarramos a falsas crenças apesar de esmagadora evidência em contrário. Em outras palavras, ao invez de pesquisar de forma racional, a informação que confirma ou desconfirma uma crença particular, o que realmente procuramos é por informação que confirme o que já acreditamos. É uma forma implícita de regulação da emoção, na qual os circuitos cerebrais convergem em "juízos que minimizem os efeitos negativos e maximizem os afetos positivos associados com uma ameaça ou à realização de motivos ".

Exemplos de uma obviedade ululante, como diria o Nelson Rodrigues, não faltam, tipo o movimento anti-vacinação, que conseguiu trazer de volta doenças quase que totalmente erradicadas, o lobby pró-armas aqui nos USA, as dietas para perder peso, que cada mês tem uma nova, jurando que o cidadão vai perder 10 Kg por semana comendo o que quiser, enfim, a lista é infindável.

No excelente artigo “Motivated reasoning & its cognates” (Raciocínio Motivado e seus cognatos, tradução livre minha), no Projeto de Cognição Cultural da Faculdade de Direito de Yale (http://www.culturalcognition.net/blog/2013/5/15/motivated-reasoning-its-cognates.html) os gênios discutem que, na realidade, todo e qualquer raciocínio é motivado, porque seria totalmente sem sentido qualquer raiocínio que não o fosse.

Dizem eles: “O prospecto de que os seus próprios argumentos empíricos possam ser demonstrados falsos, cria o risco de “ameaça à identidade”, individual ou grupal, pois a pessoa ou todo o grupo ao qual esta pertence, terão que aceitar suas idéias como falsas. Além disso, a certeza com que os argumentos empíricos são transmitidos, tipo "é simplesmente um fato que. . . "; "Como eles podem negar a evidência científica sobre. . .? ", desperta suspeitas de má fé ou partidarismo cego por parte dos grupos . No entanto, quando os membros de grupos oponentes tentam rebater esses argumentos, são propensos a responder com a mesma certeza, e com a mesma falta de consciência de que estão sendo impelidos a creditar argumentos empíricos para proteger suas identidades. Esta forma de troca, que é a assinatura do realismo ingênuo, gera, previsivelmente, ciclos de recriminação e ressentimento.”

O problema então, surge sempre e quando pensamos que estamos sendo absolutamente racionais, que a idéia que defendemos nada tem a ver com nossas paixões pessoais, e uso o termo “paixão” no sentido neurofisiologico do termo, ou seja, uma emoção forte, sendo emoção “um estado psicologico complexo que envolve 3 componentes distintos: uma experiência subjetiva, uma resposta fisiologica e uma resposta comportamental ou expressiva (Hockenbury & Hockenbury, 2007))

Ou seja, não há qualquer possibilidade de sermos totalmente racionais ou, como dizem aqui, “nada pessoal”, o que me causa frouxos de riso. Pensa o seguinte: você é chefe de um escritorio, ou qualquer coisa, e a empresa tem que despedir uma pessoa, só porque está diminuindo suas atividades. Pois bem, você tem dois empregados, igualmente bons no que fazem, igualmente trabalhadores, mesma faixa etária, mesmas condições sociais. Um deles, vc acha super divertido, sempre pronto com a piadinha do dia. O outro é quetão, fica na dele, não é a mais expansiva das criaturas. Qual você despede? Seja honesto.

Nem filhos conseguimos amar igual, por mais que repitamos essa falácia socialmente. Não os amamos mais ou menos. Os amamos diferente, porque cada um tem uma personalidade, cada um tem um jeito, cada um é um universo.

Então tudo o que fazemos ou pensamos é absolutamente pessoal, tem a ver com quem somos, quem queremos ser, a que grupo queremos pertencer, e todo nosso comportamento externo é fruto desse “Eu” aprendido, esculpido, moldado, social e historico, com uma pitada de genética enfiada no meio.

Queremos mesmo mudar uma situação politico/social? Não vai ser chamando este ou aquele politico de todo e qualquer epíteto derrogatorio encontrado na lingua em questão. Não vai ser insultando os que discordam de nosso ponto de vista.

Vai ser dando uma boa olhada em nós mesmos e nos perguntando, por que, exatamente, defendemos este ou aquele ponto, ou como bem disse Sun Tzu, em “A arte da Guerra” há 2500 anos:

“Se você conhece seu inimigo e conhece a si mesmo, não temerá o resultado de 100 batalhas”.


Ou como brilhantemente sumarizou o agente Aloysius Xingu L Pendergast, no livro “Labirinto Azul”, de Preston e Child, ao ser questionado sobre o porque ter se livrado de apenas parte de sua fortuna, provinda de um ancestral muito sacana:

“Porque prefiro ser um pouco hipocrita a ser pobre”.

E la nave vá…

THE BACKFIRE EFFECT

WHEN CORRECTION FAILS


domingo, 14 de fevereiro de 2016

BRASIL: A OPORTUNIDADE INESPERADA QUE A ZIKA APRESENTA

Traduzido ao pé da letra da revista médica Lancet. VEJA LINK AQUI

O Brasil está (compreensivelmente) chateado. Na reunião do Conselho Executivo da OMS, no mês passado, um oficial de Genebra me disse que a delegação do país estava se recusando a apoiar resoluções que poderiam ter suportado porque o Ministério das Relações Exteriores brasileiro se opõe aos rankings do país pelo Banco Mundial.

O Brasil é classificado pelo Banco Mundial como um país de renda média superior, juntamente com os seus vizinhos próximos (Colômbia, Equador, Paraguai e Peru). Infelizmente para o Banco (e para a OMS), o Brasil não se vê como uma nação de renda média. Ele tem aspirações mais elevadas. Para piorar o insulto, em 2015 o Banco promoveu rivais do Brasil, (Argentina e Venezuela), para o status de alta renda. Um país de alta renda é definido por um rendimento nacional bruto por pessoa igual ou superior a US $ 12 736. Brasil está um pouco abaixo, em $ 11 530 (2014).

O Brasil tem sido sensível ao julgamento dos outros. Quando a OMS publicou o seu Relatório Mundial de Saúde em 2000, o governo e as lideranças de saúde do país se sentiram feridas e indignadas. A OMS classificou o Brasil em 125 lugar dos 191 países (Venezuela foi colocada em 54 e Argentina 75).

O Brasil pode,certamente, orgulhar-se de seu progresso para uma saúde melhor.

Mas, em sua história de doenças infecciosas, a coisa é complicada. Em seu livro “Epidemias Laid Low” (2006), Patrice Bourdelais argumenta que um país de alta renda é aquele que conseguiu conquistar as epidemias,razão pela qual a historia do Brasil nessa área, não é apenas uma tragédia nacional, mas também uma humilhação internacional.

A presidente Dilma Rousseff emitiu declarações de resistência e desafiao. Mas a Zika chega em um momento perigoso para o Brasil. A economia do país está encolhendo, enquanto o desemprego e a inflação estão subindo. Essas pressões têm ameaçado um sistema de saúde já frágil.

Escrevendo na revista The Lancet em 2011, Mauricio Barreto e seus colegas identificaram dengue como um dos principais "fracassos" na saúde pública brasileira. O principal vetor da dengue, Aedes aegypti, é também o vetor para Zika. Os esforços para controlar a dengue falharam no Brasil, o que significa que a probabilidade de controlar Zika rapidamente, é baixa.

Mas, com uma liderança atuante, o Brasil pode transformar esta epidemia em uma força. Em momentos de epidemia,de perigo, centra-se naturalmente sobre a ação das nações para controlar o surto. Quais são consequências de uma epidemia em uma nação? Epidemias alteram governos. Os líderes políticos não poderiam ter nenhum sinal mais claro de que é sua responsabilidade o proteger a saúde das suas populações (governos, não médicos, são quem derrotam as epidemias). Esses líderes entendem que a estabilidade política, econômica e social do seu país depende da saúde.

Esta realização tem consequências.Leis são promulgadas para proteger a saúde. Novos investimentos são feitos em ciência médica (progresso político depende do progresso científico). Novas instituições são criadas para canalizar os melhores pareceres científicos para os decisores. Saúde universal gratuita e de alta qualidade torna-se uma prioridade pública. E os líderes entendem que proteger e manter a confiança do público é essencial para a ordem pública.

Epidemias alteram a relação entre médicos e estado. O número, renda, status e poder dos médicos (e suas instituições) são reforçados. Médicos aumentam e melhoram suas demandas e procuram (e geralmente conseguem), maiores contribuições para as políticas de saúde.

Epidemias mudam a concepção pública da doença, a qual não é mais vista como apenas patologia do corpo. Elas também tornam-se patologias do ambiente. Saúde não é mais uma qualidade dentro do controle puramente individual. É algo que depende da organização da sociedade. Epidemias remodelam o conhecimento. Dados confiáveis assumem importância política suprema. Os políticos exigem o acesso imediato a esses dados. A pesquisa torna-se uma ferramenta vital para melhorar o juízo político. Novas áreas de conhecimento são criadas. A comunicação rápida e transparente das novas descobertas se torna uma necessidade.

Epidemias mudam o público. As expectativas do público aumentam. Pessoas passam a apreciar as ações de um governo forte, mas tornam-se cautelosas se percebem poder coercitivo do Estado. O público é menos tolerante com aqueles que abrigam a doença (ou o risco de doença). O estigma floresce. A Saúde torna-se uma obsessão pública. Pessoas e governos começam a levar a saúde mais a sério. Curandeiros e charlatães prosperam.

Epidemias mudam sociedades. A doença epidemica precipita uma crise política. Sociedade são reestruturadas e reformadas. A ideia de progresso é redefinida (reversões são possíveis). Um consenso se constrói em torno do direito à saúde.

Em suma, as epidemias podem acelerar, bem como destruir o desenvolvimento humano.

A Zika será apenas um momento na longa luta para avançar a saúde dessas nações atualmente afetadas. Mas esse momento é uma oportunidade que não deve ser perdida.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AGNOTOLOGIA: O LADO NEGRO DAS NEUROCIÊNCIAS OU O ESTUDO PARA ESPALHAR IGNORÂNCIA

"A ignorância não é apenas o ainda-não-conhecido, também é uma manobra política, uma criação deliberada por agentes poderosos que querem que não se saiba" Robert Proctor

Faz tempo que tenho um caso de paixão/ódio com a agnotologia. Por um lado, me fascina a mecânica da coisa, por outro, tenho um pavor horroroso das consequências, com pleonasmo e tudo.

Por definição, agnotologia é o estudo da ignorância ou dúvida culturalmente induzida, em especial a publicação de dados científicos falsos ou enganosos.
A palavra foi cunhada por Robert N. Proctor, professor de historia da ciência e tecnologia em Stanford, juntando as palavras gregas “agnosis-não conhecer” e “logia-estudo de”.
Vem a ser o exato oposto de epistemologia, que é a teoria do conhecimento. É o estudo de atos voluntários para espalhar confusão e/ou engano, geralmente para vender um produto ou ganhar um favor.

O primeirissimo uso americano bem conhecido da agnotologia como deliberada produção de ignorância, segundo Proctor, foi a conspiração da indústria do tabaco a respeito dos riscos de seu uso. Usando o jargão científico, as companhias de cigarros produziram pesquisas a respeito de tudo, menos os problemas sérios de saúde consequentes ao uso, como forma de explorar e aumentar a confusão do público.
Em 1979, um memorando secreto da indústria do tabaco foi revelado ao público. Chamado de “Fumar, uma Proposta de Saúde”, e escrito uma década antes pela empresa de tabaco Brown & Williamson, revelou muitas das táticas empregadas pelas indústrias do tabaco para combater as "forças anti-tabaco".
Uma das partes mais reveladoras do memorando, é a do foco em como comercializar cigarros para o público : "A dúvida é o nosso produto, uma vez que é o melhor meio de competir com os fatos que existem na mente do público em geral . É também o melhor meio de criar polêmica. "

Isso chamou muito a atenção do Robert Proctor, que começou a estudar como é que essas companhias estavam negando, atrapalhando e /ou escondendo a relação do fumar com câncer, descobrindo não só os bilhões gastos por citadas companhias, como também cunhando o novo têrmo.

A Agnotologia também se concentra em como e por quais formas o conhecimento não acontece, ou é ignorado ou adiado. Por exemplo, o conhecimento sobre as placas tectônicas foi censurado e adiado por pelo menos uma década, porque algumas evidências foram classificadas como informação militar, relacionadas à Guerra Submarina.

Algumas das causas de ignorância culturalmente induzida são a negligência da mídia, o sigilo e supressão corporativa ou governamental, a destruição de documentos e uma miríade de formas de seletividade culturopolítica, além de nossa própria desatenção, memória curta e o raio do pensamento motivado, como tão bem explicou Dan Kahan, da Faculdade de Direito de Yale, no artigo “Motivated Numeracy and Enlightened Self-Government”(Motivação dos Números e Autonomia Iluminada - tradução livre minha, citado no post “A mais deprimente descoberta sobre o cérebro, no Blog Curare Dolorem Opus divinum Est CLIQUE AQUI).

Uma das consequências é simplesmente o retorno de doenças sérias e que estavam quase que erradicadas, devido ao movimento anti-vacinação. Vejamos:
Em 1998, o pesquisador Andrew Wakefield publicou um estudo na prestigiosa revista médica Lancet, clamando que havia uma conexão entre a vacina tríplice e autismo. Sua teoria era que a vacina contém vírus vivo, o qual, em crianças susceptiveis, causaria um sarampo crônico, o que por sua vez causaria disturbios gastrointestinais, inclusive o que êle chamou de “síndrome do intestino solto”, o que permitiria que certas toxinas e substâncias químicas, como por exemplo as encontradas no pão e laticínios, e que são digeridas no intestino, entrassem na corrente sanguínea, de onde iriam ao cérebro, lesando-o. A mídia desceu com tudo, espalhando o artigo, e como consequência, o índice de vacinação no reino Unido caiu, resultando num enorme aumento de doenças passiveis de prevenção.
E de nada adiantaram todos os artigos subsequentes demonstrando não haver qualquer relação entre vacina e autismo, nem o fato que o autismo continuou aparecendo no Japão, mesmo depois que eles retiraram a vacina, nem o fato da Lancet retirar seu aval do estudo, nem a demonstração, pelo jornalista investigativo Brian Deer, de que Wakefield havia colocado aplicações para uma vacina de sua invenção, nem o quanto estava ganhando de uma indústria farmaceutica para fazer testes infames nas crianças, além de estar sendo pago também por advogados para testemunhar contra as indústrias produtoras das vacinas numa ação de classe de pais de crianças autistas. E também ninguém ligou que o Conselho Médico Britânico lhe retirou a licença para praticar medicina.
Muito antes pelo contrário, os crentes do movimento anti vacina, transformaram o homem numa espécie de mártir, simplesmente negando qualquer evidência de sua ganância e conduta anti ética, e acreditando numa conspiração contra ele, projetada para esconder a verdadeira causa do autismo do público.
Caso esteja interessado na história toda, LEIA AQUI


Em 2004, Londa Schiebinger explicou que a epistemologia se pergunta como sabemos, e por que não sabemos, enquanto a agnotologia se pergunta como fazer para que não se saiba. Diz ela: “... a ignorância é muitas vezes não meramente a ausência de conhecimento, mas um resultado da luta cultural e política"

Seu uso como uma descrição crítica da economia política, foi expandido por Michael Betancourt em um artigo de 2010 intitulado " Immaterial Value and Scarcity in Digital Capitalism - Valor Imaterial e escassez no capitalismo digital." Sua análise focou-se na bolha imobiliária, de 1980 a 2008, aqui nos USA, e nós todos sabemos e vivemos as consequências da explosão de citada bolha. Betancourt argumenta que esta economia política deve ser chamada de capitalismo agnotologico porque “a produção sistêmica e manutenção da ignorância é um grande recurso que permite que a economia funcione, uma vez que permite a criação de uma "economia de bolha".
E continua, explicando “A criação de incógnitas sistêmicas onde qualquer "fato" potencial está sempre contrariado por uma alternativa de aparentemente igual peso e valor torna o envolvimento com as condições da realidade uma fonte de confusão, refletida pela incapacidade dos participantes das bolhas de se tornarem cientes do colapso iminente, e só enxergá-lo depois de ter acontecido.”

Agnotologia é tão importante hoje como quando Proctor estudou a ofuscação de fatos sobre câncer e tabagismo, pela indústria do tabaco. Por exemplo, a dúvida politicamente motivada sobre a nacionalidade do presidente dos EUA, Barack Obama, foi semeada durante muitos meses por adversários, até que ele revelou a sua certidão de nascimento em 2011, o que de nada adiantou porque quem acreditava que ele era mussulmano e nascido no Quênia, acreditando continuou. Em outro caso, alguns comentaristas políticos na Austrália, tentaram atiçar o pânico, comparando a classificação de crédito do país com a Grécia, apesar de todas as informações públicas disponíveis das agências de classificação, que mostram que as duas economias são muito diferentes. No Brasil, a direita insiste em mostrar quão maravilhosa foi a ditadura para a economia, embora seja conhecimento comum, e caso não seja, um minuto no Google mostraria dados e fatos do desastre. No mesmo paragrafo, a insistência da esquerda na negação dos rombos econômicos causados por simples ganância. E está aí o vale do ex-Rio Doce, que não me deixa mentir. Idem uso do Google.

Proctor explica que a ignorância muitas vezes pode ser propagada sob o pretexto de debate equilibrado. Por exemplo, a idéia comum de que haverá sempre duas visões opostas nem sempre resulta em uma conclusão racional, como bem mostrou a história das empresas de tabaco, usando a ciência para tornar seus produtos inofensivos. Hoje, vem sendo usada por negadores da mudança climática para argumentar contra a evidência científica. Pior, quem na realidade vemos argumentando é em geral um cientista, contra meia dúzia de “celebridades” de diversos matizes, com o cientista levando a pior, posto que o/a coitado tem as restrições causadas pelo conhecimento, enquanto os célebres não tem qualquer restrição no uso de sua ignorância, além de serem muito, mas muito mais estridentes.

Esta “rotina de equilíbrio" permitiu que os homens do cigarro e os negadores do clima de hoje, alegarem de que há sempre dois lados para cada história, que "os especialistas discordam” criando uma falsa imagem da verdade, portanto, a ignorância.
Notem que as frases são sempre vagas, sem dizer quem são os especialistas que discordam, como, em que e porque discordam.

Um exemplo disso que tenho claro na memória, foi, no século passado, a disputa política entre Lula e
Fernando Collor de Melo, na qual o último foi apresentado como “o caçador de marajás”, sem que, em nenhum momento fosse dito o nome de um só marajazinho caçado. O resto da história todo mundo conhece, incluindo a atual amizade entre os dois citados inimigos figadais.

Já Proctor,dá outro exemplo: muitos dos estudos que ligaram agentes cancerígenos ao uso de tabaco, foram realizados inicialmente em ratinhos, e a indústria do tabaco respondeu dizendo que os estudos em ratos não significavam que as pessoas estivessem em risco, apesar dos resultados adversos óbvios na saúde de muitos fumantes.
Hoje, escuto como explicação para a negação da evolução é que nunca ninguém viu um macaco virar gente, isso é claro que sem a menor preocupação de dar uma lidinha no que é, exatamente, a teoria da evolução, que nunca, jamais em tempo algum disse que macaco virava gente.

"Vivemos em um mundo de ignorância radical,e embora o conhecimento seja facilmente acessível, não significa que ele seja acessado. E pior, para as grandes questões de importância política e filosófica, o conhecimento das pessoas vem, muitas das vezes, de sua fé ou tradição, ou propaganda, mais do que qualquer outra coisa”, diz Proctor.

Ele também descobriu que a ignorância se espalha quando:1) muitas pessoas não entendem um conceito ou fato e 2) quando grupos de interesses especiais - como uma empresa ou grupo político trabalham duro para criar confusão sobre um problema.

Uma sociedade cientificamente analfabeta, provavelmente vai ser mais suscetível às táticas usadas por aqueles que desejam confundir e obscurecer a verdade.

E Proctor continua: "A luta não é apenas sobre a existência de alterações climáticas, é sobre se Deus criou a Terra para que nós a explorassemos, se o governo tem o direito de regular a indústria, se os ambientalistas deveriam ser habilitados, e assim por diante. Não é apenas sobre os fatos, é sobre o que é imaginado a partir de e para tais fatos ".

Outro estudante da ignorância é David Dunning, da Universidade de Cornell, o qual adverte que a internet está ajudando a propagar a ignorância, pois é um lugar onde todo mundo tem a chance de ser seu próprio perito, o que torna as pessoas presas fáceis de interesses poderosos que desejam espalhar deliberadamente a ignorância.

"Enquanto algumas pessoas inteligentes vão lucrar com todas as informações, agora apenas a um clique de distância, muitos serão enganados por uma falsa sensação de especialização. Minha preocupação não é que estamos perdendo a capacidade de fazer as nossas próprias mentes, mas que está se tornando muito fácil de fazê-lo. Nós devemos nos consultar uns com os outros muito mais do que imaginamos. Outras pessoas podem ser imperfeitas, tal como nós, mas muitas vezes as suas opiniões cobrem um longo caminho para corrigir nossas próprias imperfeições, como a nossa própria experiência imperfeita ajuda a corrigir os seus erros ", diz Dunning.

E concordar mais não poderia. Vamos dar uma olhadinha na nossa página do Facebook. Quantos posts você recebe por dia a respeito de curas milagrosas, superalimentos, notícias totalmente infundadas, mas colocadas tipo “olha agora porque isso é tão importante que logo será apagado” e coisas do gênero? Pois bem, agora me diga quantos post você recebe, e lê, de cabo a rabo, de sites com certa idoniedade, tipo BBC e Reuters? E quando recebe um post desse de “lê ou vai ficar sem saber para todo o sempre”, quanto tempo usa para checar a veracidade do mesmo, antes de passar para a frente?

Dunning e Proctor também alertam que a disseminação intencional da ignorância é galopante ao longo das primárias presidenciais dos EUA em ambos os lados do espectro político.
Só cá? Pergunto eu.

"Donald Trump é o exemplo óbvio, sugerindo soluções fáceis que ou são ou impraticáveis ou inconstitucionais", diz Dunning.

Assim, enquanto agnotologia pode ter tido suas origens no auge da indústria do tabaco, agora a necessidade conhecê-la é mais importante do que nunca.

Uma novissima disciplina, que tem conexão com a Agnotologia, é a Cognitronica, que tem como objetivos: 1) explicar as distorções na percepção do mundo causadas pela sociedade da informação e globalização e 2) lidar com essas distorções em diferentes campos.
A Cognitronica está estudando e procurando maneiras de melhorar os mecanismos cognitivos de processamento de informações e por conseguinte melhorar a esfera emocional da personalidade, desenvolvendo a capacidade de simbolizar, os mecanismos linguisticos, as capacidades de associação e raciocínio crítico, para ampliar as perspectivas mentais, que é pré condição importante para todas as esferas de atividade profissional na sociedade de informação.

A idéia é contrabalançar uma situação chamada “Dissonância Cognitiva”, que é o stress mental ou desconforto que sentimos quando temos que lidar com duas ou mais crenças, valores ou idéias contraditorias, ou quando somos confrontados por informação nova que entra em conflito com nossas crenças, idéias ou valores.

A Teoria da Dissonância Cognitiva (Leon Festinger), se baseia no pressuposto de que os indivíduos buscam a coerência entre suas expectativas e sua realidade. Devido a isso, as pessoas se envolvem em um processo chamado de redução de dissonância para trazer suas cognições e ações em sintonia, o que leva à diminuição da tensão psicológica e da angústia.

Velho Freud já havia explicitado que “só mudamos quando a dor do viver ultrapassa a dor do mudar”, e isso porque nosso cérebro funciona no mecanismo de buscar prazer e evitar a dor.

Vejamos um exemplo: Nós todos queremos uma real mudança no estado de política no Brasil, queremos mesmo, não importando se de direita, esquerda, meio ou pontas. Quantos de nós usamos o voto como real arma? Quantos de nós vamos a todos os meios, realmente simples, à distância de meia duzia de cliques, e pesquisamos a vida e feitos de nossos politicos, para daí decidir nosso voto? Provavelmente bem poucos, porque pode acontecer que de repente, encontramos um político de uma tendência diferente da nossa, mas com excelente ficha corrida, enquanto do nosso lado, os que se apresentam são terríveis.

Então usamos os seguintes mecanismos, para diminuir nosso desconforto:
1-Mudamos nosso comportamento ou cognição: “Onde encontro pesquisa séria?”
2-Justificamos o comportamento ou cognição, mudando a cognição conflitiva: “Alguém acredita em pesquisa séria neste país?”
3-Justificamos comportamento ou cognição adicionando novas cognições (reais ou imaginárias) “O blog do Fulano, Beltrano, Sicrano já informou que essas pesquisas são furadas”.
4-Ignoramos ou Negamos qualquer informação que entre em conflito com crenças pré existentes: “Bobagem pura”

E aí, a não ser que se use a numero 1, caso no qual ampliamos nosso conhecimento e podemos usar o pensamento crítico, somos presa fácil da Agnotologia, que simplesmente joga com nossa fraqueza muito humana de querermos estar certos, a qualquer custo e qualquer preço.

E que venha a Cognitronica!

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

METAS PARA TODOS NÓS PSI EM 2016

Quando li esse artigo do colega, sabia que não poderia deixar de compartilhá-lo. O link para o artigo original está no final.

FELIZ ANO NOVO!

"Resoluções para o novo ano são um ritual interessante e, geralmente, de curta duração, mundo afora. Por outro lado, os que pelo menos se dão ao trabalho de passar pelo ritual, exibem um certo grau de auto reflexão e insight a respeito da necessidade de ajustamentos na vida. Tais decisões,na realidade, podem ser tomadas a qualquer momento, mas o advento de um novo ano é um sinal poderoso de um novo começo, outra oportunidade de vida, um potencial ponto de mudança. Embutido nessas resoluções, está um senso subliminar de urgência para corrigir deficiências negligenciadas, pois o calendário impiedosamente aponta para o envelhecimento inevitável e à marcha inexorável do tempo.

UMA PERSPECTIVA PSIQUIATRICA

Para os psiquiatras, as resoluções de Ano Novo transcendem o (muitas vezes efêmero) impulso de começar uma dieta ou começar a ir à academia. Nós temos uma perspectiva única sobre os desafios que nossos pacientes enfrentam todos os dias, como eles lidam com as demandas complexas da vida, apesar de sua ansiedade, depressão ou psicose.
Estamos conscientes das muitas necessidades não satisfeitas na gestão de distúrbios cerebrais neuropsiquiátricos complexos e os principais desafios, como o de apagar o estigma oneroso que engolfa nossos pacientes e a prática da psiquiatria em si, apesar de sua nobre missão de reparar cérebros fraturados, consertar almas torturadas, e restaurar a paz da mente e o bem-estar. Estamos orgulhosos de nossas realizações clínicas e científicas, mas também estamos dolorosamente conscientes de nossas limitações e do enorme abismo entre o que sabemos e o que viremos a saber, quando o cérebro nos revelar seus mistérios gloriosos através da investigação neurocientífica.

QUAIS PODEM SER NOSSAS DECISÕES?

Aqui está minha proposta de resoluções pragmáticas, que muitos psiquiatras vão enxergar como parte de sua perpétua lista do que fazer, um balde de metas e objetivos queridos e bravos, novos horizontes para trazer saúde mental completa para nossos pacientes e gratificação incomensurável para nós, que sonhamos em curas para doenças cerebrais que provocam várias doenças da mente.

1-Atue como qualquer outro médico, enfatizando a fundação médica da psiquiatria: sempre verifique a saúde física do paciente e monitore seu estado cardiometabólico. Vista a jaqueta branca (simbólica ou não), que muitas vezes melhora a relação médico-paciente.

2-Dedique uma porcentagem significativa de sua prática para os pacientes mais graves. Tem um monte de profissionais da saúde, não medicos, suficientes para tratar gente que anda preocupada demais ou precisa só de um apoio ou um conselho.

3-Advogue incansavelmente em todas suas esferas de influência, e publicamente, para que haja verdadeira paridade quanto a cobertura de transtornos psiquiátricos como qualquer outra doença, e também para uma aceitação social global e compassiva.

4- Trabalhe vigorosamente por internação em vez de prisão para doentes mentais graves porque a psicose é uma doença do cérebro, não uma ofensa criminal.

5-Adote a prática psiquiátrica baseada em evidências, sempre que possível, para alcançar os melhores resultados. Porém, e criteriosamente, use o que for possivel, se não existem tratamentos baseados em evidências, para mitigar o sofrimento de um paciente.

6- Evite polifarmacoterapia absurda e irracional, mas não hesite em usar racionais e benéficas combinações terapeuticas.

7- Dê pelo menos uma hora por semana de trabalho pro bono (voluntário)psiquiátrico para indigentes e carentes. As recompensas de dar o que equivale a uma semana por ano são infinitamente mais gratificante do que alguns dólares a mais na conta bancária.

8- Evite chamar a pessoa doente de “cliente”, pelo menos até que oncologistas e cardiologistas façam o mesmo. Recuse-se a abrir mão de sua identidade de médico nas inúmeras clinicas não médicas de saúde mental.

9- Nunca, mas nunca mesmo deixe que o paciente saia de seu consultorio sem, pelo menos, 15 minutos de psicoterapia, mesmo que seja só parte de checagem médica da saúde do mesmo.

10- Mantenha-se atualizado e na vanguarda da evolução da prática psiquiátrica, entrando na PubMed todos os dias (mesmo que brevemente) para ler alguns resumos dos mais recentes estudos relacionados aos pacientes que viu naquele dia.

11- Pense como um neurologista, identificando os circuitos neurais dos sintomas psiquiátricos. Aja como um cardiologista fazendo todo o medicamente possível para evitar a recorrência de episódios psicóticos, maníacos, depressivos, porque eles danificam o tecido cerebral, assim como um infarto do miocárdio danifica o tecido cardiaco.

12- Apoie a pesquisa com palavras, dinheiro e paixão. Descobertas neurocientíficas psiquiátricas geram tratamentos superiores, apagam o estigma e promovem a qualidade de vida dos pacientes. Doe anualmente aos pesquisadores de sua escolha, na escola de medicina onde foi treinado, ou para um instituto de pesquisa sem fins lucrativos

13-Arranje tempo de escrever para publicação, anualmente, pelo menos um relato de caso ou uma carta ao editor sobre as observações de sua prática. Você pode contribuir imensamente para o processo de descoberta através da partilha de novos conhecimentos clínicos.

14-Nunca desista de qualquer paciente ou defina expectativas muito baixas, independentemente do diagnóstico ou da gravidade da doença. Desistir destrói a esperança e abre as portas para o desânimo. Obtenha uma segunda, terceira, quarta opinião se ficar sem opções.

15- Sempre defina remissão seguida de recuperação, como a meta terapêutica para cada paciente. Deixe o paciente saber disso e pede a ele (ela) a se comprometer com esse objetivo com você. Isso tambem é chamado de contrato terapeutico.

16- Orgulhe-se de ser psiquiatra. Você avalia os distúrbios da mente e os rectifica.A mente é o produto mais complexo e mágico do cérebro humano, que determina quem nós somos e como pensamos, sentimos, comunicamos, verbalizamos, empatiazamos, amamos, odiamos, lembramos, planejamos, resolvemos problemas, e, é claro, fazemos resoluções.

E, voltando à dieta e exercícios, para nossos pacientes e nós mesmos, inclua nas suas resoluções de ano novo, a promessa de incentivar fortemente os pacientes a fazer dieta e exercícios, dada a tendência de muitos deles a ganhar peso e morrerem prematuramente em conseqüência de fatores de risco cardiometabólico relacionados com a obesidade. Exorte-os e exorte-se a comer saudável e exercitar-se, toda vez que encontrá-los, não apenas no Ano Novo".

ARTIGO ORIGINAL  CLIQUE AQUI