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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

TERAPIA VERSUS ANTIDEPRESSIVOS:UMA REVISÃO DA DEPRESSÃO

Depressão é uma doença de dificil tratamento, até mesmo porque, ainda estamos tentando descobrir como e por que ela aparece.

Diferentes métodos de tratamento, afetam o cérebro de maneiras drasticamente distintas, e é por isso porque terapia e medicamentos, por vezes, funcionam, e por vezes não.
É importante lembrar que depressão não é aquele caso temporário de estar triste, ou para baixo, mas sim uma situação na qual há mudanças físicas severas na forma de como o cérebro funciona.

Até o momento, sabe-se que há 2 áreas cerebrais diretamente ligadas ao problema: O córtex pré frontal, que fica bem atrás da testa e vai até quase o meio da cabeça, e a amigdala, estrutura minúscula em forma de pepita.

Os antidepressivos, considerados pelos leigos como a única coisa para tratar depressão, atuam apenas na amigdala, o que explica por que, apenas 22 a 40% das pessoas com depressão, deles se beneficiam.

Por outro lado, a Terapia Cognitivo Comportamental, tipo muito específico de terapia, parece que afeta o córtex pré frontal.

O cortex pré frontal é a parte do cérebro que, entre outras coisas, nos dá auto contrôle, coisa extremamente necessária quando há que se evitar os perigosíssimos ataques de pensamentos negativoa, na depressão, enquanto a amígdala é a coisa que ajuda a processar nossas emoções, fazendo com que possamos sentir alegria, raiva, tristeza, e todo o resto.
Em pessoas saudáveis, o córtex pré-frontal controla a amígdala , fazendo com que não quebremos a mão esmurrando paredes quando estamos com raiva ou que choremos sem parar quando estamos tristes.

Pessoas com depressão provavelmente têm um córtex pré-frontal sub-ativo, fazendo com que seu contôle sobre a amigdala se torne precário e pouco funcional, o que os torna mais propensos a emoções arrebatadoras.

Assim, partindo do pressuposto que a terapia cognitivo comportamental estimula o córtex pré frontal, faz o maior sentido o fato de funcionar bem em pessoas com depressão e que não respondem aos antidepressivos.

E isso é mais do que um pressuposto, pois 2 estudos randomizados e contolados (são o padrão mais elevado de estudo, usado para avaliar um método de tratamento), com 600 pessoas, mostraram os benefícios da citada terapia, como alternativa útil e econômica aos antidepressivos. Neles, foi demonstrado que pessoas fazendo terapia eram menos propensas a voltar a terem depressão depois de parar com a terapia, do que os que paravam de tomar a medicação, ou seja, o efeito terapeutico é mais duradouro que o efeito medicamentoso.

Infelizmente, ainda não sabemos direito o que é que desarranja no cérebro das pessoas com depressão, pois, embora muitos apresentem sintomas semelhantes, a saber, sentimentos de inutilidade, pontos de vista exageradamente negativos sobre si mesmo e o mundo, dificuldades de lidar com tarefas do dia a dia, os mecanismos subjacentes a esses sintomas variam de pessoa a pessoa, e como resultado, cada um responde de forma diferente a diferentes tratamentos.

Para alguns, os antidepressivos são um milagre, para outros o é a terapia, para outros ainda há a necessidade de combinação de terapia a medicamentos, e para os mais azarados, nada funciona (ainda bem que esse número é muito baixo, se comparado às mudanças produzidas pelos medicamentos e pela terapia).

Um estudo de 2007, descobriu que um pequeno grupo de adultos deprimidos, com uma amigdala hiperativa e um córtex pré frontal sub ativo, pode reverter o desequilibrio em apenas 14 semanas de terapia cognitivo comportamental.

Ainda não é solução perfeita, há um longo caminho a ser percorrido, pois as lacunas em nosso conhecimento sobre como o cérebro funciona, tornam quase impossível desenvolver tratamentos perfeitos. Outro grande desafio é que ainda não podemos prever quem irá responder a antidepressivos e quem irá responder à terapia, embora os estudos na área prometam belissimas novidades para muito breve.

Por enquanto, o tratamento continua a ser um processo de tentativa e erro que pode ser longo e doloroso.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

MITOS, FALSAS IDÉIAS E APRENDIZADO: COMO MITOS SOBRE O CÉREBRO ESTÃO PREJUDICANDO O ENSINO.

Já falei bastante aqui de “Raciocínio Motivado” ou “Polarização da Confirmação”, definições científicas do velho e bom Preconceito, que é a tendência a procurar, interpretar, ou priorizar as informações de formas que confirmem nossas crenças ou hipóteses. É um assunto que me fascina, por vários motivos: primeiro que vai totalmente contra a lógica, pois deveria ser óbvio que, quanto mais informação temos, mais nossa capacidade de discernimento deveria melhorar. Falso. Total e completamente falso. Só aumentamos nosso conhecimento nas áreas que de antemão nos interessam. Atesto por mim mesma, ao me perguntar quantos artigos li, nos últimos 10 anos, em ginecologia e obstetricia. Triste resposta, é que não me lembro de ter lido nenhum. Pior, nem sequer chequei o quadradinho apropriado quando escolhi minhas coisas no Medlinx, e olha que coloquei coisas esquisitíssimas, tipo genética evolutiva.

O segundo e mais importante ponto, além de meu desgosto com a citada matéria desde tempos de faculdade, é o das consequências deletéias e desastres, causados por essa polarização, e nem sequer estou falando de política, guerras e irracionalidades maiores ou menores que perfazem nosso dia a dia.
É feio abrir o jornal e ver um pai matando a filha de pancadas, literalmente, pela recusa da menina, de 12 anos, de casar com o escolhido da família, de 46; ou ver na TV o povo do ISIS decapitando mulheres e jogando os corpos nas ruas, porque, pecado dos pecados, eram professoras, advogadas, enfim, mulheres que de certa forma recusaram o papel tradicional de absoluta submissão. É mais feio ainda, pensar, como pensei inicialmente, “que horror esse povo que não saiu do século 11, bárbaros imbecis.”

É terrivel, porque esse pensamento é simplesmente uma forma educada do uso do raciocínio motivado, ou seja, me “separo”desses trogloditas, não preciso fazer nada a respeito, porque estão lá longe, não fazem parte de meu mundo organizado e racional (em tese), e como cerejinha em cima do bolo, ainda me sinto muito virtuosa por não fazer parte desse grupo, como se tivesse sido conquista pessoal o acidente geográfico que me fez nascer no norte da Itália, dentro de um momento histórico específico, numa cultura específica.

Pois declaro neste momento, o início de minha batalha pessoal contra o raciocínio motivado, pelo menos o meu. Calma que não vou sair caçando terroristas insanos, ou virar vigilante urbana, ou de qualquer outra espécie. Falta-me total vocação para a coisa, além de considerar que terroristas/vigilantes/fanáticos de qualquer espécie, cor ou credo, nada mais são que lados opostos da mesma moeda.

O que, mais do que posso, quero fazer, é um trabalho de desmistificação. Vai funcionar? Não faço idéia.Mas, se não começar, nunca que vou saber.

Há um tempinho atrás, li o artigo “How myths about brain are hampering teaching” (Como mitos sobre o cérebro estão prejudicando o ensino- link no final), detalhando o seguinte experimento:
Foi apresentado a professores na Inglaterra, Holanda, Turquia, Grécia e China, 7 dos assim chamados “mitos neurológicos”, e lhes foi perguntado se acreditavam nos mesmos.

Os chocantes resultados:

-Mais de ¼ dos professores, na Inglaterra e na Turquia, acreditavam que o cérebro encolhe se bebermos menos de 6 a8 copos de água por dia.
-Mais da metade de todos os professores acredita que os alunos só usam 10% de seu cérebro e que crianças ficam menos atentas depois de beber qualquer coisa açucarada ou comer um lanchinho.
-Mais de 70% de todos os professores, de todos os paises, acreditam que os alunos ou usam o cérebro direito ou o esquerdo, porcentagem essa que chegou a 91% na Inglaterra.
-Mais de 90% dos professores de todos os paises, “sentem”que ensinar no estilo preferido do aluno (auditivo, visual ou cinestésico), ajuda muito, apesar de não haver qualquer evidência que suporte isso.

O Dr. Paul Howard-Jones, da Bristol University e autor do artigo diz o seguinte: “Essas idéias são vendidas aos professores, como se tivessem base nas neurciências, embora a própia neurociência não suporte nenhuma dessas idéias, as quais, além de não terem qualquer valor educacional, usualmente estão associadas a pobre desempenho em salas de aula.”
O relatório culpa desejos, ansiedade e tendência a explicações simples como fatores típicos que distorcem o fato, tornando neurociência em neuromito. Tais fatores também parecem estar prejudicando os esforços recentes de neurocientistas para comunicar o verdadeiro significado de seu trabalho para os educadores.
Ainda segundo o Dr. Howard-Jones “Embora o aumento do diálogo entre a neurociência e educação seja encorajador, vemos novos neuromitos aparecendo, além dos antigos retornando em novas formas. Às vezes, a transmissão de mensagens "simplificada" sobre o cérebro, para os educadores, pode gerar mal-entendidos e confusões sobre conceitos como plasticidade cerebral, coisa muito comum nas discussões sobre política de educação "
.

O relatório destaca várias áreas onde novas descobertas da neurociência estão sendo mal interpretadas pelos educadores, incluindo ideias relacionadas com o cérebro e investimento educacional precoce, o desenvolvimento do cérebro do adolescente e distúrbios como a dislexia, TDAH e outros distúrbios do aprendizado.

A análise conclui que, no futuro, essa colaboração será muito necessária, pois a educação e treinamento devem ser enriquecidos, e não enganados pela neurociência.

Para isso, há um novo campo que está se desenvolvendo rapidamente, que é a “neurociência educacional”, campo que engloba ensino e neurociência. E é nesse que vou, feliz feito cavalo selvagem correndo em pradarias (OK, a imagem é um pouco demasiada para uma senhora em minha faixa etária, mas quem se importa? O sonho é meu, ninguém tasca, eu vi primeiro!)

Estou me divertindo, como não me divertia há muito, montando séries de neuropsiquiatria em quadrinhos. Vamos ver como funciona.

E só para dar água na boca, aqui vão os 7 neuromitos apresentados aos professores na citada pesquisa:

-No geral, usamos apenas 10% de nosso cérebro.
-Indivíduos aprendem melhor quando recebem informação em sua forma preferida de aprendizado (por exemplo, visual, auditiva ou cinestésica)
-Sessões curtas de exercícios de coordenação podem melhorar a integração da função cerebral dos hemisférios esquerdo e direito.
-Diferenças na dominância dos hemisférios (cérebro direito ou cérebro esquerdo) explicam diferenças individuais dos estudantes.
-Crianças ficam menos atentas depois de lanches e/ou ingestão de bebidas açucaradas.
-O cérebro encolhe se bebermos menos de 6 a 8 copos de água por dia.
-Problemas de aprendizado associados a diferenças no desenvolvimento das funções cerebrais, não podem ser remediados por treino/educação.

Agora, se os professores acreditam no acima, dá para imaginar o que está sendo passado aos alunos?

COMO MITOS SOBRE O CÉREBRO ESTÃO PREJUDICANDO O ENSINO http://www.neuroscientistnews.com/research-news/myth-conceptions-how-myths-about-brain-are-hampering-teaching

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

UMA LIÇÃO DE CIVILIDADE

Num mundo cada vez mais polarizado por ideias político/religiosas, onde horrores nos assaltam 24h/dia,7 dias por semana, foi um sopro de esperança (e orgulho) de pertencer à mesma raça que esses canadenses incríveis. Vamos a um resumo do acontecido:

Em 22 de Outubro de 2014, em Ottawa, Canadá, Michael Zehaf-Bibeau decidiu que seria excelente ideia mandar uma saraivada de balas no Memorial da Guerra, matando o soldado reservista, Nathan Cirillo, que lá estava postando guarda, desarmado. Após heroico feito, foi ao Parlamento, onde foi morto pelo Sargento Kevin Wickers, chefe de segurança da casa, que também estava desarmado e teve que ir catar seu revólver na escrivaninha de seu escritório.
(Vejam vídeo abaixo)
http://www.youtube.com/watch?v=v4wfzWJ2Hwo


Não vou nem comentar a diferença estonteante entre as reportagens americanas e canadenses, na primeira, um surto histérico de pânico a respeito da invasão islâmica em solo norte americano, na segunda, uma tentativa de clarear os fatos, na medida em que apareciam. O que se sabe sobre o assassino (e me perdoem os puristas que diferenciam assassinatos em “políticos”,” religiosos”, ou de qualquer outra colocação, pois acho que matar, a não ser em legítima defesa, ou defesa de alguém mais, ou em guerra, simples assassinato), é o seguinte:

Cidadão canadense que, apesar de todas as oportunidades educacionais proporcionadas por sua família, não se formou em nada, teve trabalhos esporádicos em campos de petróleo, converteu-se ao islamismo, foi expulso da mesquita da qual fazia parte por comportamento briguento,e longa história criminal ligada a abuso de drogas e violência. História que define a futilidade do mal, como tão bem descreve Itzik Basman, em seu livro Futility As Tragedy: An Interpretation Of Hamlet (A Futilidade como tragédia: Uma interpretação de Hamlet).

Dia seguinte, quando o parlamento reabriu, foi emocionante a homenagem ao Sargento, mas mais emocionante foram as palavras do Primeiro Ministro canadense, Stephen Harper:

“Bem, membros desta casa, como disse ontem, os canadenses não serão intimidados. Vamos estar atentos, mas não vamos correr cheios de medo. Vamos ser prudentes, mas não vamos entrar em pânico e quanto aos negócios do governo, bem, aqui estamos nós, em nossos lugares, em nossa câmara no coração da nossa democracia e no nosso trabalho."
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/northamerica/canada/11183022/Standing-ovation-for-man-who-shot-Ottawa-gunman-Michael-Zehaf-Bibeau.html

Uns dias depois, em Cold Lake, Alberta, uma mesquita foi vandalizada, ainda não se sabe por quem, mas obviamente por alguns que acham que a melhor forma de apagar um incêndio, é colocar mais lenha na fogueira. Quando os moradores descobriram que tinha sido feito, se reuniram e doaram seu tempo para restaurar o prédio. As mensagens de ódio, pintadas com spray vermelho, foram removidas, as janelas foram arrumadas e cartazes de "Você está em casa" e "amar o seu próximo" foram afixados.
http://www.addictinginfo.org/2014/10/25/canadian-mosque-gets-vandalized-this-communitys-response-will-make-your-day-image/

Então, parabéns canadenses. Num mundo onde se está cada vez mais tentado provar Freud correto, quando fala do mal estar da civilização, lá vem vocês e demonstram que é possível superar o conflito entre instintos e cultura, viver em paz e prosperar. Que possam ensinar ao mundo. Estamos por demais precisados.

O mal-estar na civilização é um texto do médico neurologista e fundador da psicanálise, o mal falado Sigmund Freud. É considerado seu mais importante trabalho no âmbito da sociologia e antropologia, escrito às vésperas do colapso da Bolsa de Valores, em 1929. É uma investigação sobre as raízes da infelicidade humana, sobre o conflito entre instintos e cultura, e a forma que esta assume na civilização moderna. Aconselho.
http://cei1011.files.wordpress.com/2010/04/freud_o_mal_estar_na_civilizacao.pdf

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

DEVER CUMPRIDO, TEIMOSIA, NEUROPSIQUIATRIA E ANSIEDADE EM QUADRINHOS.

O título é maior que o post em si. Acontece que hoje, tomada do prazer imenso que é finalmente ter entregado um livro para publicação, prazer esse extremamente aumentado pelo fato de ser a primeirissima experiência fora de minha área de conforto (e se é verdade que a vida só começa fora da citada zona, acabei de renascer), cá estava a ruminar sobre retomar, a sério, meu sonho antigo de neurologia para crianças. Pensava eu que material, já o tenho aos montes, as idéias de como desenvolver até que razoávelmente organizadas (sim, Grace e Teresa, não tenho qualquer dúvida que vocês terão muito a dizer sobre minha ideia de organização), então, era só colocar a mão na massa.
Mais animada fiquei ao ler o artigo “How myths about the brain are hampering teaching” (COMO MITOS SOBRE O CÉREBRO ESTÃO PREJUDICANDO O ENSINO), artigo que traduzirei e colocarei na página do Curare no Face Book, e então, aqui vai Ansiedade em Quadrinhos, como primeiro ítem. Queria muito ter feito uma animação, mas ainda não sei como. Chego lá, com a lerdeza inerente à minha faixa etária.
A idéia inicial é fazer quadrinhos sobre os distúrbios psiquiatricos mais comuns. Também preciso de feed back quanto à facilidade de entendimento, então, por favor, ajudem.
Aqui vai:

Pronto para consumo!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

REVERTIDA PERDA DE MEMÓRIA ASSOCIADA COM ALZHEIMER

Infelizmente, nesta altura da vida, a maioria de nós conhece alguém com o Mal de Alzheimer, e se conhece, também sabe a sensação de Dante às portas do Inferno, quando todas as esperanças foram perdidas. Mal as palavras são pronunciadas, e uma capa de chumbo desce sobre nós. Nada adianta, nada vai resolver, pronto, acabou. Também se sabe que a expectativa altera o resultado de um experimento, tendendo a conclusão a bater com a expectativa inicial, de forma que acabamos por nos comportarmos,(tanto pacientes como cuidadores), de forma desesperançada, piorando tudo. Há razões para o pessimismo, se levarmos em conta que o Alzheimer afeta cerca de 5,4 milhões de americanos e 30 milhões de pessoas no mundo, e ainda não há prevenção e/ou tratamentos eficazes, e as estimativas apontam que, em 2050,160 milhões de pessoas em todo o mundo terão a doença. Ao contrário de várias outras doenças crônicas, a doença de Alzheimer está em alta, tendo-se tornado a terceira principal causa de morte nos Estados Unidos, logo depois de doenças cardiovasculares e câncer.

É por essas e outras, incluindo meu próprio pavor de vir a ter a malfadada, que sai cantando uma musiquinha besta e antiga da Wanderléia, cuja única frase que me recordo é: “Já chegou, já chegou, novamente a esperança. Todo mal já passou, já voltou a bonança...” ou algo muito parecido, quando recebi o artigo que traduzo abaixo. Pode não ser a solução total, pode demorar um pouco mais, mas está aí. Estamos abrindo novas possibilidades. Isso, e a alegria de constatar que, devagarzinho, quase que sussurrando, nós médicos estamos voltando a encarar a profissão como aquela coisa linda, que aprendemos nos primeiros anos da faculdade: “A ciência e artes médicas são o conjunto de cuidados que temos não com a doença, mas com os seres que delas sofrem.” Evviva!

Estudo conjunto do UCLA Centro de Pesquisa para Mal de Alzheimer Mary S. Easton, UCLA e do Instituto Buck de Pesquisa do Envelhecimento, é o primeiro a sugerir que a perda de memória em pacientes pode ser invertida, e a melhora sustentada, usando um programa terapêutico de 36 pontos, que envolve mudanças abrangentes na dieta, estimulação cerebral, exercício, otimização do sono, medicamentos e vitaminas específicas, além de vários passos adicionais que afetam a química do cérebro.
Para se ter ideia da importância desse estudo, temos que lembrar que no caso do Mal de Alzheimer, não há nenhum medicamento que impeça ou mesmo retarde a progressão da doença, e as drogas desenvolvidas tiveram apenas efeitos modestos sobre os sintomas. Só na última década, centenas de ensaios clínicos foram conduzidos, a um custo total de mais de um bilhão de dólares, sem sucesso.

Outras doenças crônicas, como as cardiovasculares, câncer e HIV, foram melhoradas através do uso de combinações terapêuticas.
No entanto, no caso de outras perturbações da memória e do Mal de Alzheimer, terapias de combinação abrangentes não foram exploradas, mesmo que, nas últimas décadas, as pesquisas em genética e bioquímica tenham mostrado uma extensa rede de interações moleculares envolvidas na patogênese do Alzheimer, o que sugere que, uma abordagem terapêutica mais alargada, ao invés de uma única droga que tenha como objetivo um único alvo, possa ser possível e potencialmente mais eficaz para o tratamento do declínio cognitivo devido à doença de Alzheimer. (Dale Bredesen, Professor de Neurologia e diretor do Centro de Easton na UCLA, professor do Instituto Buck e autor do artigo publicado na revista Aging).
Essa falha constante na eficácia de drogas contra Alzheimer, estimulou o autor acima citado a pesquisar sobre a natureza fundamental da doença.
Seu laboratório encontrou evidências de que a doença de Alzheimer resulta de um desequilíbrio na sinalização dos neurônios: no cérebro normal, sinais específicos promovem conexões nervosas e assim “fabricam” memórias, enquanto outros sinais promovem a perda das mesmas, permitindo que a informação relevante seja esquecida. Mas, na doença de Alzheimer, o saldo destes sinais opostos é perturbado, conexões nervosas são reprimidas, e as memórias são perdidas.
O modelo de múltiplos alvos e um desequilíbrio na sinalização é contrário ao dogma popular que a doença de Alzheimer é uma doença de toxicidade, causada pelo acúmulo de placas pegajosas no cérebro. Esse grupo de pesquisadores acredita que o peptídeo beta-amiloide, que é a fonte das placas, tenha uma função normal no cérebro, como parte de um conjunto maior de moléculas e que promove sinais que fazem com que as ligações nervosas não só envelheçam, mas também “caduquem”. Assim, o aumento do peptídeo desloca o equilíbrio cerebral entre “fazer memórias “e “perder memórias”, para o lado da perda. (Levem em consideração que, uma das funções da memória é o esquecer).
Considerando tudo isso, Bredesen pensou que, ao invés de um único agente alvo, o mais logico seria uma abordagem sistemática, como as abordadas em outras doenças crônicas, isto é, um sistema de múltiplos componentes. E dá um exemplo: "As drogas existentes para o mal de Alzheimer, atingem um único alvo, mas a doença é muito mais complexa. Imagine ter um telhado com 36 buracos, e sua droga só consegue remendar um deles. Muito bom para aquele buraco, mas continuam 35 goteiras, e por isso o processo subjacente não é muito afetado."
A abordagem da Bredesen é personalizada para o paciente, com base em extensos testes para determinar o que está afetando a via de sinalização e a plasticidade do cérebro.
Como exemplo, o caso da paciente com um trabalho exigente, e que estava esquecendo o caminho de casa. Seu programa terapêutico consistiu de alguns, mas não todos os componentes envolvidos com programa terapêutico de Bredesen, que incluem:

1-Eliminação de todos os carboidratos simples, o que a fez perder 40 K.
2-Eliminação de glúten e alimentos processados, aumentando ingesta de vegetais, frutas e peixes (os pescados em seu ambiente natural, não os produzidos em tanques)
3-Fazer ioga como método de baixar o stress
4-Meditação por 20 minutos, duas vezes ao dia, como forma complementar de baixar o stress
5-Uso de melatonina, todas as noites (Melatonina, também conhecida como N-acetyl-5-methoxytryptamine, é um hormônio encontrado em animais, plantas e micróbios. Nos animais, seus níveis circulantes variam em ciclos diários – ciclos circadianos – que determinam nosso sono/estado de alerta, e tem importante papel na proteção do DNA nuclear e mitocondrial.)
6-Aumento das horas de sono de 4 a 5 por noite, para 7 a 8
7-Uso diário de metil cobalamina (é o equivalente fisiológico da Vitamina B12, usado em tratamento de anemia perniciosa, neuropatia diabética, neuropatia periférica e como tratamento preliminar da Esclerose Lateral Amiotrófica)
8-Uso diário de Vitamina D3
9-Uso diário de óleo de peixe (Omega3)
10-Uso diário de CoQ10
11-Otimização da higiene oral pelo uso de escova de dentes e fio dental elétricos
12-Seguindo discussão com seu médico de família, recomeçou reposição hormonal que havia interrompido.
13-Jejum de pelo menos 12 hs entre jantar e café da manhã, e por pelo menos 3 hs entre jantar e ir para a cama.
14-Exercício físico por pelo menos 30 minutos, 4 a 6 vezes por semana

Os resultados conseguidos em 9 dos 10 pacientes sugerem que sim, a perda de memória pode ser revertida, embora ainda haja necessidade de estudos com número bem maior de pacientes, tanto para realmente estudar as melhoras quanto para se saber por quanto tempo e se as melhoras podem ser mantidas e qual é o ponto de “não retorno, isto é, quão tarde é tarde demais e o programa não consegue fazer mais efeito.

O lado difícil do programa é que é complexo e o peso todo cai sobre o paciente e seu cuidador, e nenhum dos pacientes foi capaz de seguir totalmente o protocolo, sendo as queixas mais comuns, o problema da mudança radical em dieta e estilo de vida, assim como a enorme quantidade de pílulas a serem tomadas todos os dias.

Por outro lado, a boa notícia é que, os efeitos colaterais desse programa, ao contrário do uso de toda e qualquer droga, foram uma melhora geral na saúde e uma otimização do BMI.

Fonte: University of California, Los Angeles (UCLA), Health Sciences