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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

QUAIS SÃO OS TRAÇOS DE CARÁTER QUE PRODUZEM BEM ESTAR?


Decidi traduzir este artigo do Scott Barry Kaufman, como uma pequena introdução a esse campo enorme da Psicologia Positiva, que está tomando o mundo de assalto, mas que infelizmente está sendo confundido com conceitos, não só pouco científicos como também às vezes péssimos para nosso desenvolvimento como o tal Poder do Pensamento Positivo (para tal, existe toda uma literatura demonstrando que o mesmo acaba por minar nossa força de atingir metas).

Já vou avisando que sou totalmente parcial em relação à Psicologia Positiva, conceito pelo qual me apaixonei logo da primeira vez que assisti uma palestra a respeito, ainda no MHMR, isso depois de muito relutar com meu chefe, pois achava que era mais uma bobaginha do tipo “como fazer amigos e influenciar pessoas. ” Que bom que ele insistiu, e cá estou eu fazendo mestrado na área, mestrado esse cuja história vale uma postagem, que prometo farei qualquer hora, como interlúdio cômico, contando meus dissabores entre hamsters, estatística e muitas viagens aéreas para a Pensilvânia.

Tem também o fato de que o estudo me transporta no tempo, em coisas que vi e ouvi, dos antigos falando e vivendo o caráter e virtudes que agora viraram parte de estudo em ciência do comportamento. Maior delícia!

Os exemplos são por minha conta e risco, e o autor não tem culpa nenhuma.

‘Em 2004, Christopher Peterson e Martin Seligman publicaram o livro: Pontos fortes do caráter e virtudes: Um Manual de Classificação (Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification). Este volume foi uma contribuição significativa para a psicologia, uma espécie de antídoto para o foco do DSM sobre a doença mental, e um lembrete importante para os psicólogos e psiquiatras, de que os seres humanos não estão só cheios de doença, eles também têm montes de virtudes.
O livro definiu as seguintes 24 forças de caráter:



TRANSCENDÊNCIA

Apreciação da Beleza e Excelência: Apreciar o que é belo, a excelência, o desempenho, nos mais variados campos da vida. (Já caiu de uma bicicleta, pedalando no Ibirapuera, durante a florada de azaleias, porque era tão lindo e você ficou tão encantado que esqueceu de continuar pedalando? Pois eu, já)

Espiritualidade: Ter um sistema de crenças coerente a respeito de um propósito maior na vida e no sentido do Universo. Nada tem a ver com religião e/ou fé religiosa. (Vou repetir aqui o deus de Spinoza, não consigo pensar em melhor exemplo:

Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: -“Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

Para de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que eu fiz para ti.
Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí, é onde eu vivo e aí, expresso meu amor por ti.
Para de me culpar por tua vida miserável: eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho…, não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho? Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor. Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar.
Se eu te fiz, eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é a única coisa que há aqui e agora, e a única que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse, como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado a oportunidade que te dei.
E se houver, tem certeza que eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? … O que aprendeste? …
Para de crer em mim- crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Gratidão: Estar consciente e grato pelas coisas boas que acontecem e expressar isso. (Acho que o exemplo acima cobre perfeitamente)

Esperança: Esperar o melhor no futuro e trabalhar duro para consegui-lo. (É o oposto de narcisismo, que quer, quer já e espera, melhor dizendo, exige, que alguém traga)

Humor: Gostar de rir e gracejar: fazer os outros sorrirem vendo o lado mais leve das coisas e situações. (Ou como dizem por aqui: “Não leve a vida tão a sério; você jamais sairá vivo dela”.)

TEMPERANÇA

Perdão e Merecimento: Perdoar os que lhe fizeram mal; aceitar as próprias falhas e as dos outros; dar uma segunda chance; não ser vingativo. (Perdoar não é esquecer, é deixar de ser bobo, permitindo que malfeitos de outrem amargurem nossa vida. Dar segunda chance, depende muito, para mim, do acontecido. Tenho trabalho a fazer na área, e a única vingança que me diverte assaz é a da música das Frenéticas. Mas pensa um pouco na quantidade de espaço mental e emocional que damos a alguém quando planejamos e/ou pensamos em nos vingar. Não vale a pena. E, se alguém vier com a história do “olho por olho “na Bíblia, olha só a explicação no Talmude:

O Talmude interpreta os versos referentes ao "olho por olho" e expressões semelhantes como a obrigatoriedade de compensação monetária em casos de danos e argumenta contra as interpretações por saduceus que os versículos bíblicos se referem a retaliação física em espécie, usando o argumento de que tais interpretação seriam inaplicáveis aos infratores cegos ou sem olhos. Desde que a Torá exige que as sanções sejam universalmente aplicáveis, a frase não pode ser interpretada dessa maneira. A Lei Oral explica, com base nos versículos bíblicos, que a Bíblia exige uma forma monetária de cinco partes de compensação, que consiste em pagamento de "Danos, Dor, Despesas Médicas, Incapacidade e Angústia Mental" - que subjaz muitos códigos jurídicos modernos. ”)

Humildade e Modéstia: deixar que suas realizações falem por si mesmas; não se sentir mais especial do que se é na realidade. (De novo, o oposto de Narcisismo, onde o narcisista berra ao mundo muito mais do que é, ou muito mais do que seus reais feitos. O melhor exemplo que tenho, são as campanhas políticas, qualquer uma, mas no momento, o Donald Trump está levando o Oscar. E sabe qual a pior parte? Está na ponta das pesquisas entre os candidatos republicanos.)

Prudência: Ser cuidadoso nas escolhas, não assumir riscos indevidos, não fazer ou dizer coisas das quais vai se arrepender mais tarde. (É o velho ditado que acredito todo mundo já ouviu vez ou outra na vida: “Não dar o passo maior que as pernas”)

Autocontrole: Controlar o que sentimos e fazemos; ser disciplinado; controlar nossos apetites e emoções. (Ou, como ensina a psicologia cognitiva, somos responsáveis por nossas ações e emoções. Ponto. Caso queira ver isso da mais bela maneira já escrita, leia o poema “Se”, do Rudyard Kipling.)

JUSTIÇA

Cidadania: Funcionar bem num grupo ou time; ser leal a seu grupo. (Aqui vai uma foto mostrando o exato oposto da ideia)

Equidade: Tratar a todos igualmente, segundo os princípios da equidade e justiça; não permitir que suas emoções provoquem preconceitos a respeito de outras pessoas ou grupos. (Tarefa difícil, já que é tão mais fácil definir tudo que não entendo como feio,imprestável, etc.... ou tudo que desconheço como ruim. A fim e a cabo, é simplesmente o preceito bíblico de amar ao próximo como a ti mesmo, ou de não fazer ao outro o que não gostaria que lhe fizessem. E o “não “é importantíssimo, porque aquilo que gostamos, varia demais, mas aquilo que não gostamos, é universal. Ninguém gosta de
levar um tapa da cara, de ser desrespeitado, de ser ignorado, de ser maltratado, de ser desconsiderado. Infelizmente estamos vivendo um mundo cada vez mais polarizadoonde há o “nós”, bons, bravos, honestos e os “outros”, maus, covardes e desonestos.)

Liderança: Encorajar o grupo ao qual se pertence a fazer o que precisa ser feito, ao mesmo tempo em que continua mantendo boa relação com todos os integrantes de dito grupo. (Ou como disse Lao Tsu: “Um líder é o melhor quando as pessoas mal sabem que ele existe, quando seu trabalho é feito, e seu objetivo cumprido, elas vão dizer: nós mesmos fizemos tudo. ”)

HUMANIDADE

Amor: Valorizar relações profundas com as pessoas, principalmente com aquelas que valorizam, querem, gostam, cuidam e reciprocam ditas relações. (Tem um filminho canadense absolutamente perfeito a respeito deste item. Chama-se “Still mine”. O exato oposto é mostrado no filme “Camile Claudel”, que arrancou lágrimas de milhões pelo romantismo. Onde, alguém me explica? O Rodin, aquele que dizem que morreu pronunciando o nome dela, a deixou por 30 anos num hospital psiquiátrico, não a visitou uma vez sequer e ainda casou com outra. Tem dó.)


Gentileza/Amabilidade: Fazer favores e boas ações, só pelo gosto de fazê-lo. (É autoexplicativo. São esses milhões de voluntários mundo afora, que vão passar uma tarde com crianças com câncer, com os velhinhos em asilos, com os doentes, com os necessitados, cuidando de cachorro abandonado, enfim, os anônimos que fazem a diferença.)

Inteligência Social: Estar ciente das próprias motivações e das dos outros. (A famosa frase inscrita na porta do templo de Apolo, onde morava o Oráculo de Delfos "Conhece-te a ti mesmo.")

CORAGEM

Valentia: Não se encolher frente a ameaças, desafios, dificuldades ou dor; agir sempre baseado no que se acredita, mesmo que não seja popular. (Uma imagem vale mil palavras – foto do alemão que desafiou o sistema num simples ato).

Persistência: Terminar o que se começa; persistir no curso de ação, apesar dos obstáculos.

Integridade: Se apresentar de forma genuína; se responsabilizar pelos próprios sentimentos e ações. (Ou como dizem que o Jânio Quadros disse: “Fi-lo porque qui-lo” ao contrário das desculpas que usamos todos os dias, tipo "é pelos meus filhos", "em nome da pátria, família, propriedade...", "em nome dos bons costumes", etc, etc, e etc. A hora que decidirmos falar em nosso próprio nome, consertamos o mundo.)

Vitalidade; Encarar a vida com sensação de excitação e energia; se sentir vivo e ativo. (Não tem a ver com idade, sexo, estado civil, partido político, crença religiosa. Tem a ver com “ter fé na vida”).

SABEDORIA/SENSATEZ

Criatividade: Pensar em novas e produtivas maneiras de conceitualizar e fazer as coisas. (Lembram do Steve Jobs?)

Curiosidade: Interessar-se por coisas ou experiência, só pelo gosto da coisa; explorar, descobrir. (Ou como disse Sylvia Earle: “ Os melhores cientistas e exploradores são como crianças que não param de fazer perguntas: O que? Como? Quando? Onde? Que? Por que? E perguntam com aquele jeito maravilhado, curioso. Eu também não paro de perguntar, igualzinho a uma criança de 5 anos”.)


Mente Aberta: Pensar sobre as coisas, tentando ver todos os lados da questão; pesar as evidências sem preconceitos. (E uma mente aberta começa por saber que, todos nós temos algum tipo de preconceito, pois vivemos num determinado momento histórico, viemos de determinada família, numa determinada sociedade. O problema é negar e/ou justificar nossos preconceitos, ao invés de encara-los e supera-los.)

Amor pelo aprendizado: Dominar novas habilidades, campos de conhecimento, tópicos, quer por própria conta e risco, quer formalmente. (Esqueci quem foi que disse, mas concordo demais com a frase: “Detesto estudar, mas adoro aprender. ”)

Perspectiva: Ser capaz de aconselhar outros, quando pedido; ter um jeito de olhar para o mundo que faz sentido para você mesmo e para outrem. (O coisinha difícil essa, desde que temos a muito humana tendência de achar que conselho é dizer ao outro o que nós achamos que ele/ela deveria fazer/sentir, sem nos preocuparmos realmente em saber como o outro sente ou o que realmente quer. E pior, antes do pedido.)

No livro, Martin Seligman, o fundador do campo da psicologia positiva, argumentou que os cinco elementos fundamentais de bem-estar são:


POSITIVE EMOTIONS = EMOÇÕES POSITIVAS
ENGAGEMENT = COMPROMISSO
RELATIONSHIPS (POSITIVE) = RELACIONAMENTOS POSITIVOS
MEANING = SIGNIFICADO, SENTIDO, PROPÓSITO
ACCOMPLISHMENT = REALIZAÇÃO

O princípio fundamental do campo da psicologia positiva é que o caminho para o bem-estar é basicamente a nutrição e desenvolvimento de nossos pontos fortes. Mas uma grande questão permanece: Quais são os pontos fortes do caráter que mais predizem a possibilidade de bem-estar?

Em colaboração com Spencer Greenberg, Susan Cain e a Revolução Silenciosa, foram coletados os dados de 517 pessoas, com idades de 18 a 71 anos (idade média = 36), como parte de um projeto maior para criar uma nova escala de introversão.
A análise dos dados obtidos mostrou o seguinte:
Todos os 5 elementos da PERMA estavam fortemente correlacionados. Pessoas que tendiam a maior pontuação em um dos elementos (por exemplo, emoções positivas), também tendiam a pontuação mais elevada nos os outros elementos (por exemplo, união, relações positivas, significado e realização) e aqueles que tendem a pontuação mais baixa em um dos elementos também tendem a pontuação mais baixa sobre os outros. Isso apóia a reivindicação de Seligman de que o bem-estar é uma construção, e que cada um dos cinco elementos da PERMA são indicadores de bem-estar, mas nenhum deles é o bem-estar por conta própria.

(Não vou aqui colocar toda a parte estatística, que é de um chatisse ímpar, então vou resumir no seguinte:)

As 3 forças de caráter mais fortemente relacionadas a bem-estar foram, em ordem decrescente:

Esperança
Gratidão
Amor

E as 3 menos relacionadas, na mesm ordem, foram:

Prudência
Julgamento
Autocontrole

Assim, um dos pontos nucleares da psicologia positiva, foi suportado pela estatística: O DESENVOLVIMENTO DAS FORÇAS DE CARÁTER PREDIZ BEM ESTAR.

A questão seguinte foi: qual força do caráter se sobrepunha a todas as outras como preditora de bem-estar, desde que quase todas se relacionavam entre si, e o que apareceu após análise de regressão foi que, a que se sobrepunha a todas às outras era a gratidão, embora bondade, amor pelo aprendizado, honestidade e humor estavam também muito próximos.

Então é isso. Nem todas as forças de caractere tem peso igual no predizer bem-estar. Não quer dizer que há que se descartar qualquer uma delas. Humildade e autocontrole são forças de caráter muito valiosas e muito necessárias na nossa sociedade e no mundo. Mas não parecem ser muito bom preditor de bem-estar. Lembre-se, o bem-estar não é tudo o que há na vida. Há muitos outros bens humanos.

No entanto, se você procurar por bem-estar, suas melhores apostas são gratidão, bondade e amor pelo aprendizado.

Agora vá e floreça! ”

NOTAS:

Scott Barry Kaufman é o Diretor Cientifico do Instituto da Imaginação em Psicologia Positiva, no Centro de Psicologia da Universidade da Pensilvânia. Sua pesquisa é na medição e desenvolvimento da imaginação, criatividade e o brincar. É o professor do curso introdutório à Psicologia Positiva.

Martin Seligman e colegas, estudaram todas as maiores religiões e tradições filosóficas, e descobriram que certas virtudes eram as mesmas em todas as culturas, e isso durante 3 milênios. Como as virtudes são um pouquinho abstratas demais para serem estudadas cientificamente, os praticantes da psicologia positiva focaram sua atenção nas “forças de caráter “através das quais se alcançam as virtudes, e daí criaram ferramentas para medi-las.
Os principais instrumentos de avaliação utilizados para medir essas forças foram:
Entrevistas estruturadas- Questionários – Relatórios do Informante – experimentação Comportamental – Observação. Os principais critérios para forças do caráter são:
Deve ser uma característica que é estável ao longo do tempo e em diferentes situações.
É valorizada em seu próprio direito, mesmo na ausência de outros benefícios.
É reconhecida e valorizada em quase todas as culturas, é considerada não-controversa, e é irrelevante da política do momento.
As diferentes culturas fornecem modelos que possuem esses traços, para que outras pessoas possam reconhecer o seu valor.
Os pais têm como objetivo incutir esses traços ou valores em seus filhos.
Forças de caráter são diferentes de talentos e habilidades naturais porque talentos são inatos, menos voluntários, e são valorizados por aquilo que podemos criar a partir de nosso talento. Pontos fortes, por outro lado, são desenvolvidos, podem ser livremente escolhidos, e são valorizados em seu próprio direito. É importante lembrar que cada cultura valoriza as virtudes humanas, sendo diferente a forma escolhida para expressar ou agir com base nessa virtude, dependendo de valores e normas sociais.

Shared Virtues: The convergence of valued human strengths across culture and history (Virtudes compartilhadas: A convergência de forças humanas valorizadas através da história e das culturas) clique aqui



terça-feira, 4 de agosto de 2015

AS PIORES COISAS PARA SUA SAÚDE MENTAL: SÓ 12

Usualmente, problemas como depressão, nos acontecem devido a fatores totalmente fora de nosso controle, tipo a morte de um ente querido, perda de empregos, problemas financeiros, e por aí vai. Mas é impressionante como pequenas escolhas que fazemos todo santo dia, alteram nosso humor muito mais do que se imagina. Nossos hábitos na mídia social, nossa rotina de exercícios (ou falta dela), e até mesmo a maneira como andamos pode sugar a felicidade da nossa vida, sem que se saiba e sem que se perceba. Por sorte (digo isso por falta de palavra melhor, posto que sorte nada tem a ver com isso), tais comportamentos podem ser modificados, aliás como todo e qualquer comportamento possível.

Então, vamos à luta, veja como está sabotando seu bom humor e o que pode fazer para modificar a coisa.

VOCÊ ANDA TODO MOLENGÃO E LARGADO

Como nos sentimos pode afetar a maneira como caminhamos, mas o inverso também é verdadeiro (estudo publicado no Jornal de Terapia Comportamental e Psiquiatria Experimental). Os pesquisadores descobriram que quando os participantes andavam com os ombros caídos, curvados, e com movimentos mínimos dos braços, eles experimentaram estados de espírito piores do que aqueles que tinham mais vitalidade em seus passos. Além do mais, os participantes que caminharam no estilo largadão, iam lembrando mais coisas negativas do que positivas, durante a andada.
O QUE FAZER?
Aquilo que sua mãe e avós com toda certeza lhe ensinaram: empina o queixo, endireita os ombros, encolhe a barriga. Minha mãe, sempre à frente de seu tempo, ainda me treinava, 15 minutos por dia, a andar com um livrão enorme na cabeça, que no caso era o dicionário de latim dela.

VOCÊ FOTOGRAFA TUDO
Está na hora de reaprender a olhar e ver. Estudo publicado no Psychological Science, no qual os pesquisadores carregaram um bando de gente para um museu, com a tarefa específica de, observar alguns objetos e fotografar outros. Pois o interessante foi que as pessoas tiveram a maior dificuldade em lembrar os objetos fotografados, enquanto lembravam-se perfeitamente dos que tinham observado. Isso porque a lente da máquina, funciona feito um véu na frente de nossos olhos, véu esse que nem percebemos que está lá.
O QUE FAZER?
Concentre-se em seus objetos quando tirar fotos, ou, melhor ainda, divirta-se. Absorva a beleza, participe da ação. Estas são as coisas que o farão mais forte mentalmente, dizem os pesquisadores.

VOCÊ ESTÁ PERMITINDO QUE UM CHATO/BULLY/CRETINO/TIRANO/PROVOCADOR/IMPERTINENTE/SEM NOÇÃO/METIDO ..............(preencha os espaços) ATRAPALHE SUA VIDA.
Bullying não termina quando se sai da escola. Cerca de 54 milhões, ou 35% dos trabalhadores norte-americanos, foram ou são alvo de algum imbecil metido a valentão em algum momento de suas carreiras, de acordo com o Workplace Bullying Institute. Mais de 70% das pessoas já viram um desses no local de trabalho. O ser atacado maliciosamente mina nossa autoestima, e se o for de forma contínua, pode ter efeitos devastadores em nossa saúde mental.
O QUE FAZER?
O Workplace Bullying Institute (Instituto do Bullying na Empresa), recomenda que, em primeiro lugar, se vá a uma consulta com nosso médico para discutir nossa saúde física e mental. Então, depois de ter cuidadosamente documentado o maior número de interações possíveis, seguir o plano de ação de três etapas da organização. Coloquei o link no final.

VOCÊ é DO TIPO BATATÃO NA POLTRONA E ACHA QUE EXERCÍCIO É NOME FEIO
Considere o seguinte: Se você se tornar mais ativo, três vezes por semana, o risco de ficar deprimido diminui em 19%, de acordo com um estudo publicado no JAMA Psychiatry. Depois de seguir mais de 11.000 pessoas nascidas em 1958 até a idade de 50 anos, e registrar seus sintomas depressivos e níveis de atividade física em intervalos regulares, os pesquisadores do University College de Londres descobriram uma correlação entre atividade física e depressão. Pessoas que estavam deprimidas tinham menos probabilidade de ser ativas, enquanto que aquelas que eram ativas tinham menos propensão a ficarem deprimidas. Na verdade, para cada vez que eles estavam ativos, o risco de depressão diminuía em 6%.
O QUE FAZER?
Mexa-se, mexa-se, mexa-se, é gostoso prá chuchu, como cantava o baixinho narigudo, ou como disse Jesus Cristo a Lázaro, levanta-te e anda. Não precisa ser coisa exagerada, só ir a pé para a padaria ao invés de usar o carro, ir pelas escadas, ao invés do elevador, levantar da cadeira em frente ao computador a cada hora e sacudir o traseiro por um minuto, coisas simples assim ajudam a manter sua mente alerta.

VOCÊ PROCASTINA
Pense em uma tarefa que está adiando. Se a razão é porque é chata ou você simplesmente não se sentir bem fazendo, aí não tem jeito. Mas, se você está evitando a tarefa porque a mesma o torna ansioso ou porque você tem medo de falhar, então procrastinar só torna a tarefa muito mais estressante.
O QUE FAZER?
Antes de pegar o touro pelos chifres, faça algo que diminua o stress, tipo caminhar no parque, assistir uma comédia, ouvir uma boa música, de formas a inserir prazer no lugar do stress.

VOCÊ ESTÁ NUM RELACIONAMENTO TÓXICO
Há muita gente nesse mundo sofrendo com ansiedade e depressão, sem perceber que estas são causadas pela relação tóxica que estão metidos, coisa que destrói completamente a autoestima pois o parceiro tóxico é muito bom em fazer o outro acreditar que eles /ela são incompetentes, ou estúpidos, ou egoístas, qualquer coisa que os faça sentir muito mal. Infelizmente, na maior parte dos casos, as pessoas levam um tempo enorme para perceber o problema, isto é, se e quando o percebem.
O QUE FAZER?
Nesse caso, há necessidade de ajuda profissional, pois não há jeito de restruturar uma vida, lendo um livro, correndo no parque ou sendo otimista. Mas sempre se pode começar aprendendo sobre os sinais de relações tóxicas, não guardando segredo, mas contando a família e amigos, de formas a ter excelente apoio de base. Um dos primeiros atos do agente tóxico numa relação, é isolar o outro.

VOCÊ LEVA A VIDA POR DEMAIS A SÉRIO
Quando você tropeça na calçada, ao invés de primeiro xingar o prefeito de São Paulo por deixar Moema esburacada e logo em seguida rir de sua ligeira tendência de tropeçar na própria sombra, você se cobre de vergonha, então está na hora de achar maneiras de rir mais. Há toneladas de artigos demonstrando os benefícios do riso na saúde, incluindo a mental. Rir é a mais rápida das medicações para ansiedade e depressão.
O QUE FAZER?
Procura a graça em todos os dias. Troque os filmes de arte iranianos por comédias. Use seu tempo com amigos que o fazem rir, com crianças e com cachorros. É impressionante como esses dois últimos iluminam o dia.

VOCÊ NÃO DORME O SUFICIENTE
O sono afeta tudo, incluindo nossas capacidades mentais e emocionais, além de ser a maneira pela qual nosso corpo se regenera. Sem ele, o sistema todo encrenca.
O QUE FAZER?
Tenta descobrir porque você não está dormindo, faça de seu quarto um ambiente de descanso, pare de tomar café pelo menos 6 horas antes de ir dormir, evite bebidas alcoólicas à noite. Se nada disso funcionar, há necessidade de procurar um profissional da área.

VOCÊ NUNCA ESTÁ SÓ
Entre filhos, trabalho, casamento e outras atividades, você não consegue encontrar um momento para ficar sozinho (se trancar no banheiro não conta). É importantíssimo encontrar tempo para si mesmo, seja lá 10 minutos, uma hora, ou um dia. Sem tempo para fazer coisas para nós mesmos, abrimos caminho para que a depressão e ansiedade se instalem.
O QUE FAZER?
Agende uma consulta com você mesmo/a.Compareça.

NA REALIDADE, VOCÊ NÃO CONVERSA COM NINGUÉM
Se seu meio de comunicação com seus amigos é o texting, Facebook, ou qualquer outra mídia social, então você não está tendo contatos que mereçam este nome. O Facebook é interessante, mas não dá para ter uma conversa “real”, daquelas que você entende o outro, vê, cheira, sente. Na realidade todos esses meios eletrônicos diminuem nossas experiências e emoções, além de atrapalharem nossa atenção, na exigência da gratificação imediata, na expectativa de que, apertando um botão, teremos uma conexão já. Também acabamos por desaprender a ter conexões cara a cara, apenas virtuais, o que altera tanto nossa capacidade quanto interesse em estar no mesmo lugar com alguém e com este alguém conversar olho no olho. Não me entendam mal, sou grande usuária do Face e do Skype, tendo família e amigos espalhados mundo afora, mas nada, nada chega nem perto do expresso tomado junto, do descobrir um lugar novo porque sua amiga carregou você para lá, do sentar na praia do Forte, bebendo água de coco e falando besteira, do ter dor de barriga de tanto rir de sua sobrinha que fez todos os alarmes do aeroporto soarem devido às suas sandálias terroristas, ou de ter um ombro, de verdade, para chorar em cima. E, recentemente, do prazer de trocar histórias de como e onde perdemos o celular naquela semana, com nova amiga. Prazeres da vida.
O QUE FAZER?
A fim e a cabo, não vai ter importância nenhuma quantos seguidores se tem, mas amigos sim, então se assegure de ter um encontro com familiares, amigos, vizinhos, companheiros, pelo menos uma vez por semana.

VOCÊ NÃO VIVE SEM O CELULAR
Quando foi a última vez que esteve totalmente sem qualquer coisinha eletrônica? Não lembra? Mau sinal. Todos esses aparelhinhos tendem a nos hiperestimular e, se estamos todo o tempo conectados, nunca estamos realmente descansando e assim não regeneramos nossos corpos e mentes, o que, eventualmente pode se manifestar como depressão ou ansiedade.
O QUE FAZER?
Crie um “domingo “eletrônico, no qual vai ficar longe de tudo que é eletrônico, nem que seja só por meio dia, uma vez por semana.

VOCÊ FAZ VÁRIAS COISAS AO MESMO TEMPO, O FAMOSO MULTITASK
Somos todos culpados de multitasquear: engolimos o almoço na mesa de trabalho, olhamos o Facebook enquanto assistimos TV, e textamos praticamente constantemente. A pesquisa mostra que, embora muitas pessoas acreditem que estão sendo mais produtivas multitaskeando, isso não é realmente o caso. Fazer várias coisas ao mesmo tempo apenas nos deixa estressados, alheios ao meio, e incapazes de nos comunicarmos de forma eficaz. (OK, dei uma de Shakespeare avacalhado e inventei pelo menos 2 palavras novas, mas não acho que multitarefar exista na língua portuguesa, como também desconheço a tradução correta de “texting’. Perdão Camões).
O QUE FAZER?
Simples: larga o celular, desliga a TV e presta atenção no que está fazendo e o que acontece a seu redor. O permitir que seu cérebro processe tudo o que está lhe acontecendo em tempo real (e não retransmitir a seus seguidores na mídia social), pode ser a melhor coisa a fazer por sua saúde mental.

Este artigo apareceu em inúmeras variações. Abaixo, algumas que li.

Sonky Fitness http://www.sonkifitness.com/articles/12-worst-habits-for-your-mental-health/

The Happiness Institute http://www.thehappinessinstitute.com/blog/article.aspx?c=3&a=4016

TIME http://time.com/3554741/bad-habits-mental-health/

USHEALTH http://urshealth.com/health-problems/12-worst-habits-for-your-mental-health/

Livro que merece ser lido: Terrorismo emocional: Quebrando as correntes de um relacionamento tóxico (Emotional Terrorism: Breaking the Chains of a Toxic Relationship) de Erin K. Leonard, PhD. (Tradução minha pois não achei a tradução em português).

Workplace Bullying Institute-Plano de Ação http://www.workplacebullying.org/individuals/solutions/wbi-action-plan/


terça-feira, 28 de julho de 2015

PROCURANDO PELA AUTO ESTIMA? PARE DE SE SACRIFICAR


Ultimamente, tenho me divertido muito com a medicina/psicologia psicossomática italiana. Provavelmente, é por achar que lá no fundinho, nós italianos sejamos um pouco hipocondríacos (e qualquer um que tenha sido criado em família italiana lembra bem da “maglietta”, camisetinha a ser colocada em contato direto com a pele, debaixo da roupa, à primeira menção de vento, para que o citado não lhe pegasse no peito e lhe causasse mortal pneumonia, sabe bem do que estou falando, isso sem esquecer do óleo de fígado de bacalhau, de horrenda memória gustativa, para lubrificar os interiores e fortalecer os ossos, diariamente, seguindo às sextas de manhã, de uma colherada de óleo de rícino, para evitar constipação). Também porque esse grupo da Riza é muito bom, e costuma me despertar uma saudade boa e enorme da época em que praticava na área, incluindo as aulas que tinham o pomposo título de “Neurofisiologia das Emoções”. E por me lembrar de meu avô com quem discuti muito os conceitos de “humildade” e “sacrifício”, palavras chaves em colégio de freiras, cujo significado essa ex-criança tonta (ex criança, porque tonta, volta e meia me retorno), não conseguia entender de jeito algum. Mas, devo dizer que, este artigo me surpreendeu, daí a tradução.

Por definição, autoestima é auto respeito, ou seja, a confiança em si mesmo e nas próprias capacidades. Mas, definições em psicologia, tem seu sentido alterado em dependendo da cultura e momento histórico, e neste, autoestima virou algo assim como o pombo estufando o peito, arrulhando e soltando seu dejetinho na cabeça de quem passa embaixo. Assim, para quem aprendeu autoestima via a poesia “If”, do Kipling, que colocarei no fim, esse artigo é o máximo, principalmente se lembrarmos a exclamação de Cícero: “o tempora o mores! ”

“Vidas Invisíveis” poderia ser o título de um livro que contasse as histórias de quem se usa, de quem dá tudo de si, mas nunca consegue ser reconhecido pelos que estão a seu lado. Pode acontecer em qualquer e todas as áreas importantes em nossa vida: afetiva, profissional, social.Costumeiramente, quem passa por esse tipo de tratamento são aquelas pessoas que, durante o tempo e sem querer, se circundaram de pessoas que não enxergam ou que imediatamente esquecem os esforços e resultados produzidos por citada pessoa, e dos quais, os circundantes se beneficiam aos montes.
Os exemplos são infinitos: um parceiro que só vê aquilo que o outro não faz, mesmo quando faz muito; um chefe que acha que a enorme quantidade de trabalho que consegue ser feita mesmo sob péssimas condições organizacionais, nada mais é que dever do empregado; um pai ou mãe que acha que tudo o que o filho faz por eles é apenas o que o filho lhe deve, e assim vai.
Todas são situações que, com o tempo, podem causar profundas frustrações e minar a autoestima.

Mesmo que seja necessário sair da necessidade narcísica do aplauso a qualquer custo, e que seja muito importante sentir o valor das próprias ações sem necessariamente ter que recorrer a validação externa, também precisa ser lembrado que o ser reconhecido não é só uma coisa agradável de acontecer, mas também a confirmação de estar numa relação verdadeira, o que é uma necessidade fundamental de cada um de nós.

O fato do outro nos dizer um simples, mas sincero "obrigado", ou manter em mente nossos esforços não fazendo exigências excessivas, ou nos olha com gratidão e - por que não? - com admiração, nos faz sentir ligados à vida e alimenta não tanto o narcisismo, mas o desejo de fazer, de estar presente, de se apaixonar. Ou seja, nossa autoestima.
O não ser "visto" remove energia e motivação. Muitas vezes, porém, isso não depende apenas do egoísmo de quem está ao nosso redor, mas vem de um modo de ser nosso, nos "vendendo" a preços tão baixos que não são sequer considerados.

Se não damos valor às nossas ações, o outro se acostuma rapidinho, e tudo lhe parece devido.

Uma atitude de contínuo “sacrifício”, coloca o outro em dificuldade, fazendo-o sentir-se inadequado e devendo, de forma que, para sair da dívida, tem que redimensionar tudo o que se faz por ele/ela.

Dar tudo sem se perguntar se o outro tem a capacidade de apreciar seu ato ou se é realmente necessária tal quantidade de doação, nos expõe a desilusões.

Suportamos por demasiado tempo a degradação imposta.

Como se sai dessa? Larga mão da humildade. Abra espaço na sua vida e reconquiste sua autoestima.

PENSE MAIS EM VOCÊ MESMO
Se todos seus esforços são orientados para ações que servem a outros, talvez não queira se ocupar de si mesmo. Reencontre espaço para sua própria vida ou irá buscar compensação excessiva, em termos de reconhecimento, do outro (s). Em tampo, saiba que tal compensação nunca chegará.

VALORIZE SUAS AÇÕES
Não caia num falso e contraproducente modelo de humildade. Comece por dar mais peso e valor ao que faz pelos outros, e se perceber que eles banalizam seus feitos, suspenda tudo e, sem meias palavras, clarifique a situação.

EVITE SURTOS DE ONIPOTENCIA
Não se sinta indispensável. Em sua ausência, as coisas continuariam andando, de forma diferente, mas continuariam. Pelo contrário, dê valor ao modo como faz as coisas, não à quantidade delas. A unicidade é mais visível que a quantidade.

IDENTIFIQUE O QUE É NECESSÁRIO
Há algo em demasia naquilo que você dá e na forma que o faz. Entenda o que é realmente preciso cada vez: o “realmente necessário” será mais valorizado do que “tudo, já, sempre”, e será também mais eficaz.

Se - Rudyard Kipling

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

http://www.riza.it/psicologia/tu/2574/cerchi-l-autostima-basta-sacrifici.html

quarta-feira, 22 de julho de 2015

COMO LIVRAR-SE DOS TRAUMAS DO PASSADO

Há eventos negativos que ficam dentro da gente, e se os alimentamos, nos fazem sofrer.
São laços existenciais que precisam ser quebrados para prevenir depressão e para nos renovarmos.
Usualmente, chamamos esses eventos negativos de “traumas”.
São coisas que nos marcaram tão fortemente, que até hoje, depois de anos, continuam a poluir nossa vida.
Não estou falando só de lutos, mas também de separações, perdas de emprego, dificuldades financeiras, doenças, acidentes horriveis, sustos, falhas, erros, e assim vai.
São eventos que, ao invés de serem elaborados psicologicamente por aqueles que os viveram, e em seguida superados, ficaram fixados em sua dramaticidade e tranformados no “GRANDE TRAUMA”,
tipo de totem do sofrimento, do qual todos, seja quem viveu a experiência, seja quem sofreu indiretamente pelos seus efeitos, devem levar em consideração.
Há familias nas quais se continua vivendo um luto acontecido há 30 ou 40 anos, por exemplo, os filhos sentem a dor da mãe ou do pai que perdeu prematuramente um dos pais. Essa dor continua viva. Ou em casos de doença grave,que mesmo depois de superada, mantém todos os familiares em estado de alerta por muitos anos, sem qualquer motivo real.
Ou existe o “grande segredo”
, algo acontecido anos antes (traições, separações, problemas com a justiça), algo sobre o qual não se fala, mas do qual todos sentem a inquietante presença, e assim, a vida da familia permanece bloqueada pelo evento/trauma, ao qual todos se referem e que parece insuperavel. Cada membro da familia parece precisar pagar um preço pelo acontecido: por exemplo, um filho não consegue se dar aquilo que não foi permitido a seus pais, por temor de ser injusto com eles; outro não se sente livre para ser feliz, para não “trair”o sofrimento dos outros familiares; um dos pais se sente culpado por algo que talvez nem tenha cometido; um parente qualquer é tido como culpado por não ter respeito pelo “sagrado evento”.
Mas, é sobretudo a atmosfera geral
respirada na familia que tem um poder depressivo: a contínua re-evocação (explícita ou subliminar) do GRANDE TRAUMA, que impede o livre fluir, quer das existencias individuais, quer das relações, e joga um balde de sensações de tristeza e de fatalidade até mesmo sobre projetos sentidos como autênticos por cada um dos familiares.
O sair desse pântano de pessimismo e autocomiseração generalizada é indispensavel para prevenir depressões que não precisavam estar lá e ampliar os própios horizontes, e, a primeira coisa a fazer é CORTAR POUCO A POUCO AS RAIZES DA LEMBRANÇA.

Como?

1-PARA DE FALAR A RESPEITO.

Não envolva nessa atmosfera o mundo externo à familia, tipo novo companheiro/a, novos amigos, colegas de trabalho, quer fisicamente, quer por confidencias. Isso vai lhe permitir viver mais livremente, de se mostrar diferente a respeito do papel familiar e de não se sentir julgado por aqueles que, ou não podem entender ou entendem bem demais.

2-NÃO SEJA CÚMPLICE

A força de inércia da familia que vive na lembrança do TRAUMA, é enorme e tentar convencer os familiares envolvidos na mesma a mudar, é missão impossivel. A melhor coisa a fazer, é simplesmente não compactuar com as lembranças, com as referencias continuas, com os comportamentos que “nutrem”o totem do trauma, como por exemplo, não fazer o que nos dá prazer para respeitar a dor dos outros.

3-NUTRA SEU PRÓPRIO ENTUSIASMO

Não permita que sua energia vital imploda. A chantagem da culpa pode ser vencida com facilidade e consciência, fazendo, às vezes, as coisas que você sente que realmente quer fazer e observando como, a cada vez que encontrar resistência dos parentes, esta vai se enfraquecendo cada vez mais, às vezes até mesmo os mais resistentes serem infectados pelo seu entusiasmo. Fique atento porém, porque isso funciona exatamente como a lavagem de panela de assado: costuma ficar muito pior antes de melhorar.


COME LIBERARSI DEI TRAUMA DEL PASSATO

quinta-feira, 9 de julho de 2015

COMO TERAPEUTAS VIVENCIAM O LUTO - ROBIN WEISS

Recebi este artigo de grande amiga e excelente psicologa, cujo nome não citarei, pois não pedi licença, num momento importante da vida dela, que perdeu o pai há pouco tempo, e o marido há alguns anos. Fora nossa história de trabalho em conjunto, temos a história de 2 alienígenas caídas numa cidadela do interior texano, eu recém-chegada do Brasil, ela de Houston, ambas de cidades grandes tentando nos adaptar a um mundo estranhissimo. Nossa sorte é que trabalhavamos em Fort Worth, ela um dia por semana, eu todos os dias, o que nos salvou do ensandecimento (pelo menos era o que dizíamos uma à outra, os maridos concordando, pois, outra saída não tinham). Rapidinho, montamos uma rotina de café às quartas feiras, às 2 da tarde, chovesse, nevasse ou fizesse sol, andadas à noitinha com minha cachorra Lucky, 3 vezes por semana e as datas importantes: Reveillon, na minha casa, jantar e champagne. Cerimonia do Oscar no mesmo local, com pizza feita por mim, vinho trazido por ela, e enquanto o marido dela e o meu se estufavam com a citada, nós duas falávamos mais que a boca e continuo achando que nossos comentários eram mais interessantes que a cerimônia em si. Quatro de Julho no clube, todos se estufando de cachorro quente e hamburgers, com final de fogos. Todos os feriados judaicos na casa dela, assim como o Thanksgiving, no qual o marido dela, que era cirurgião plástico, tinha a honra de destroçar o peru, assistido e aplaudido pela platéia cheia de fome, constituida, além de uma italo/brasileira e de um galês, de todos os filhos e filhas dele com maridos e esposas, cada qual de um canto do mundo. E as graças dadas na lingua materna de cada qual, o que levava cerca de meia hora entre discurso e aplausos frenéticos da galera que já havia atacado os vinhos no momento do corte do peru. Natal em casa, com direito a árvore, músicas natalinas e uma mistura de comidas típicas de Natal de todos os continentes conhecidos. E assim sobrevivemos, vivemos e nos divertimos na cidade da “água louca”, que é uma outra história, que contarei de outra vez.
Assim, tenho que traduzir o artigo, não só pela beleza dele, mas como uma homenagem à minha amiga. חופשי על הבר Dr. GBB, PhD e a todos os psicólogos e psiquiatras esforçados que tive a sorte de conhecer vida a fora.

“Um dia, logo depois de sua biópsia cerebral, fui visitar Joseph no hospital, carregando dois sanduíches de corned beef (o nome em inglês é lindinho, mas é carne em lata) em pão de centeio. Achei de almoçarmos juntos, da melhor forma possível, agora que ele entra e sai da consciência.
Entro no quarto.Estou com sorte! Joseph está acordado. Ansiosamente ele desembrulha o sanduíche e coloca o picles amorosamente ao lado de uma das metades. Tira a parte de cima do sanduíche e inclina a cabeça para o lado para dar uma olhada.
“Sem gordura? ”A voz dele aumenta, com incredulidade. A auxiliar de enfermagem, sentada no canto, que nos havia ignorando até agora, baixa um canto do jornal que estava lendo, para compartilhar um olhar com Joseph, que também arqueou uma sobrancelha. Eles se unem em desprezo. Eu posso ser médica, mas meu QI para carne enlatada é baixo.
"Dr. Weiss ", diz Joseph, de um jeito quase parecido com sua tonitruante voz, "Da próxima vez que me trouxer corned beef ... por favor, não me traga magro."
Eu sorrio. Este é o Joseph que conheço tão bem. Mas vai ser a última frase coerente que vou ouvir dele. Dois meses mais tarde, estarei em seu funeral.
Abro meu arquivo e tiro vários prontuários: pacientes que morreram enquanto eu os estava tratando, ao longo dos últimos 20 anos em que estive trabalhando em consultório como psiquiatra. Estou juntando material para escrever sobre como os terapeutas sentem quando um paciente morre. Faço algumas observações.
Em primeiro lugar, vejo que os prontuários permanecem no meu "ativo" no arquivo, não os mudei para o arquivo "inativo" - seu verdadeiro lar.
Em segundo lugar, noto que tenho desenvolvido um ritual automático de recordação. Sempre que meus dedos tocam numa pasta de um paciente morto, paro e fecho meus olhos por um breve momento. Presto uma homenagem silenciosa ao falecido.
Aqui há munição para a fábrica interpretativa. Estou pedindo perdão por ter cometido erros? Por não ter feito o suficiente? Talvez esteja afastando meus próprios medos de ser trancada e esquecida algum dia.
Seja qual forem os outros significados contidos nestas pequenas cerimonias privadas, acredito que falam principalmente do isolamento do terapeuta quando os pacientes morrem, e nós humanos, precisamos criar rituais quando a morte ocorre. Os terapeutas normalmente não socializam com as pessoas na vida de seus pacientes. Não há ninguém para chamar e falar sobre Joseph – não há família ou amigos com quem partilhar memórias, rir ou chorar.
Não me entenda mal; não estou pedindo simpatia ou pena. Não há comparação entre a minha perda e a dos familiares e amigos de um paciente. No entanto, este é um aspecto da minha profissão que raramente é discutido: Assim como o que ocorre na terapia, ocorre a portas fechadas, assim também o faz o luto do terapeuta depois que um paciente morre.
Terapeutas choram e se lamentam sozinhos.
Antes de saber que um enxame de células cancerosas estava invadindo o cérebro de Joseph, pensei que ele e eu poderíamos estar chegando a algum lugar – contra todas as probabilidades. Joseph era um homem talentoso e peculiar, com inúmeros planos para o futuro. No entanto, uma cascata de emergências teve que ser abordada durante os primeiros anos de sua terapia. Seus negócios em mau estado, laços familiares tensos e amigos alienados tinham sido nosso foco, por pura necessidade. Mas nos últimos meses algumas peças mais fundamentais foram se encaixando.
Quando criança, ele nunca foi ouvido. Há mais do que isso, é claro, mas sua crença de que seus pais realmente não podiam ouvi-lo era profunda. Ele estava sendo ouvido em terapia. Talvez agora não precisasse mais gritar o tempo todo.
No que seria a nossa última sessão no meu consultório, Joseph chegou muito atrasado, como sempre. Ele sentou-se na poltrona, contorcendo-se com as dores da artrite, e soltou um gemido existencial: "Oy, gottenyu- ist mir vey." Querido Deus - ai de mim. Ele enxugou a testa com um lenço à moda antiga.
Suas tiradas, ditas em voz tão alta que se sobrepunha ao barulho suave da máquina de ruído branco e chegavam aos ouvidos curiosos de meu próximo paciente, na sala de espera, tinham dado lugar, em sessões como esta, para lágrimas de remorso. No entanto, ainda era difícil ver exatamente como ele iria mudar de vida. O destroço de tantas explosões emocionais com aqueles mais próximos a ele havia bloqueado as vias para o perdão, deixando-o isolado e solitário.
Joseph sabia que eu me divertia a ouvi-lo se referir a mim como "Weiss", e ele brincou, ao sair da sessão, "Eu vou dizer a Rosenbaum que Weiss e eu fizemos um bom trabalho hoje." (Seu amigo Rosenbaum o estava pressionando para "resultados já" com a terapia.)
Então veio uma crise médica súbita e um rápido declínio. Toda a terapia se baseia na esperança de um futuro melhor, e contamos com a possibilidade de ter tempo para isso. Mas o tempo de Joseph tinha acabado.
E aqui vai um segredo que os terapeutas raramente admitem: Nós, frequentemente, acabamos por amar nossos pacientes.
Não estou falando de contratransferência (que é quando o terapeuta desenvolve sentimentos descabidos em relação a um/uma paciente, os quais resultam de relacionamentos mal resolvidos ou vividos na própria vida do terapeuta).
Eu estou falando sobre o amor real, o que surge após anos de ser de alguém que o psicanalista D.W. Winnicott chamou de "mãe suficientemente boa", ou seja, a que fornece o ambiente adequado para o desenvolvimento normal de uma pessoa.
Um terapeuta pode gastar centenas de horas, talvez mais de mil, a ouvir sobre as aspirações mais exaltadas até as mais horrendas fantasias de ódio. Durante este tempo, o paciente vai passar por perdas excruciantes, vergonhas insuportáveis, amarga tristeza e grandes triunfos. Você pode acompanhar os pacientes desde uma adolescência problemática até uma idade adulta torturante. Ou você pode encontrá-los na meia idade e estar com eles à medida que envelhecem e acabam por morrer. Você colabora em um profundo processo de descoberta.
Poucos encontros são tão profundamente honestos, e, portanto, íntimos. O apego gera sentimentos profundos, um tipo particular de amor.
Eu tive amor de terapeuta por Joseph.
No funeral de Joseph, tomo meu lugar na última fila - local do terapeuta - Kleenex na mão. Eu não estou aqui para ser vista ou para o bem da família. Estou aqui pelo meu desejo de dizer adeus ao meu paciente.
Personagens familiares povoam a sinagoga. Lembro-me deles das histórias que ouvi ao longo dos anos em terapia com Joseph. Vejo seus amigos, inimigos e familiares em carne e osso. Sei mais sobre sua vida emocional do que qualquer um aqui. E também sei um pouco sobre essas pessoas - a partir da perspectiva de Joseph, é claro - mais do que eles gostariam de saber o que sei. Que é outra razão pela qual fico escondida na fila de trás: não quero causar desconforto.
O funeral termina. Todos congregam para consolar uns aos outros. Eu escorrego para fora do prédio escuro, para uma luz solar chocante. Em breve eles vão se reunir e comer o meu tipo favorito de comida - bagels, queijo cremoso, ovos cozidos e peixe defumado. Por um momento, eu gostaria de poder me juntar a eles. Eles vão rir até chorar em intermináveis histórias engraçadas do Joseph. Eles vão começar o processo normal de luto, solidificando as suas imagens internas do morto, memórias que vão nutrir e que serão embelezadas, suavizando as bordas abrasivas, assim como deve ser.
Deixo a sinagoga com seus segredos intactos. Suas esperanças e seus sonhos maravilhosos são meus para guardar, para homenageá-lo, até que eu perca a minha própria memória, ou que morra."

Detalhes foram alterados para proteger a privacidade do paciente.
Dra. Robin Weiss é psiquiatra em Baltimore, Maryland, afiliada University of Maryland Medical Center e trabalha na área há 37 anos.