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quarta-feira, 6 de julho de 2016

SOBRE SER LOUCO, SER INTERNADO E VOLTAR A SER GENTE

Este é um ensaio de Karla Cristina Fernandez Philipovsky Koerich, que gentilmente cedeu para publicação neste blog.Embora discorde de alguns pontos, é fantástico como pontos discordantes estimulam o pensamento e a curiosidade. Excelente leitura.

RESUMO
Neste pequeno ensaio, busco verificar, por intermédio de pesquisa bibliográfica, de que modo a psiquiatria, como um ramo especializado da higiene pública, se apropriou da loucura, transformando-a em uma doença com nuances de periculosidade que precisavam ser contidas; como se davam os processos de internação para o seu tratamento até pouco tempo atrás; como o saber médico era o protagonista dessa relação entre médico e paciente e, o que a Reforma Psiquiátrica no Brasil trouxe de mudanças para essa dinâmica tortuosa por que passavam as pessoas em sofrimento psíquico nos dias de hoje.
Palavras-chave: Loucura; Tratamento; Reforma Psiquiátrica.

ABSTRACT
In this short essay, I seek to verify, through bibliographical research, how psychiatry as a specialized field of public hygiene, appropriated the madness, transforming it into an illness with Hazard nuances that needed to be contained; how to give the hospitalization process for treatment until recently; how the medical knowledge was the main character of the relationship between doctor and patient, and what the psychiatric reform in Brazil brought changes to this tortuous dynamics by passing people in psychological distress.
Keywords: Madness; Treatment; Psychiatric Reform.


A questão das alas, alas de agitados, alas de dementes... basta ser colocado – qualquer um de nós – em uma ala de agitados que nos tornamos agitados, numa ala de dementes então eu não ouso dizer o que nos tornaríamos, pois é muito tentador, um gozo muito particular, até o fim dos tempos!
(OURY, 2010)


Como o louco virou doente e, a hospedaria, um hospital
Antes de a loucura ser considerada um transtorno mental, uma doença passível de tratamento, os loucos não tinham destino diferente de qualquer outra pessoa desviante: eram recolhidos por hospícios – hospitais gerais e Santas Casas – que, Segundo Amarante (1998), durante a época clássica, funcionavam como “hospedarias” para marginais. Qualquer pessoa que fosse tomada pela desrazão ou que representasse uma afronta à ordem social estaria sujeita a ser recolhida por essas instituições; prostitutas, leprosos, ladrões, vagabundos e loucos. Daí, depreendemos que os hospitais/hospícios não possuíam caráter de tratamento ou cura de doentes, apenas mantinham fora de circulação aqueles que não seguiam as normas.
Em Os Anormais, Foucault (2002) lembrou que a psiquiatria, em sua constituição, no final do século XVIII e início do século XIX, principalmente, não se configurava como um ramo específico da medicina geral, mas sim, como uma especialidade da higiene pública, institucionalizando-se como “domínio particular da proteção social, contra todos os perigos que o fato da doença, ou de tudo o que se possa assimilar direta ou indiretamente à doença, pode acarretar à sociedade” (FOUCAULT, 2002, p. 148). Assim, ele nos mostrou que, enquanto a psiquiatria se institucionalizava como um ramo da higiene pública, ela precisou patologizar os distúrbios da loucura, tornando-a uma doença, fazendo prognósticos, analisando fichas clínicas, fazendo observações e, ao mesmo tempo, buscando demonstrar por meio dessas investigações que a loucura apresentava um grau de ameaça que só poderia ser administrado e combatido pela própria psiquiatria, que a estudava e era capaz de contê-la (por meio de tratamento e cura, em teoria), dada a sua linha higienista.
A partir do instante em que a loucura foi tornada uma doença que necessitava de tratamento,
[...] a psiquiatria fez funcionar toda uma parte da higiene pública como medicina e, [...] fez o saber, a prevenção e a eventual cura da doença mental funcionarem como precaução social, absolutamente necessária para se evitar um certo número de perigos fundamentais decorrentes da existência mesma da loucura. (FOUCAULT, 2002, p. 149)


Com isso, temos o cenário adequado para a criação dos hospitais psiquiátricos como instituições exclusivas para o tratamento da loucura e do médico psiquiatra, como responsável pelos pacientes que estão tutelados a ele.

Louco não tem querer
O poder de intervenção na vida dos pacientes/doentes/internados – e gostaria de ratificar que essa autoridade garantia prerrogativas sobre essas vidas alheias que iam desde o diagnóstico até a alta ou não, da instituição – deu à psiquiatria e, consequentemente, ao médico psiquiatra a permissão para dispor e despojar seus pacientes de seus direitos mais básicos com o pretexto de os estarem tratando, fazendo mesmo experimentos no percurso da criação de seus saberes médicos, quando, conforme Foucault (2000, p. 340), “a relação constante e recíproca entre teoria e prática se vê desdobrada num confronto imediato entre médico e paciente. Sofrimento e saber se ajustarão um ao outro na unidade de uma experiência concreta.”
Nesse ponto, gostaria de saltar da Idade Clássica para o século XX, quando o poder médico se expandia em algumas direções secundárias, chegamos ao hospício, tão bem descrito por Goffman (1974) como um lugar em que qualquer pessoa que não fosse o internado, teria alguma espécie de poder sobre ele.
Entre os anos de 1955 e 1956, Goffman (1974) fez um trabalho de campo no Hospital St. Elizabeths, em Washington, nos Estados Unidos. Essa instituição federal contava com pouco mais de 700 internados e foi durante sua estada por esse meio que fez importantes observações a respeito das figuras que compunham a dinâmica desse tipo de entidade: de um lado, os internados e, de outro, todo o corpo dirigente (que abrangia desde os guardas, faxineiros, enfermeiros, médicos, até os diretores do lugar). Ele agrupou as instituições totais em cinco tipos primordialmente, sendo um deles o hospital psiquiátrico, considerado como local “para cuidar de pessoas consideradas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça à comunidade, embora de maneira não intencional” (GOFFMANN, 1974).
Quando essa pessoa considerada incapaz, citada anteriormente, dava entrada na instituição, iniciava-se o processo por meio do qual ela era destituída de vários aspectos de sua vida cotidiana, para não dizer de quase todos. O primeiro e mais premente era a perda da liberdade, que acontecia em todas as suas instâncias. Não se tinha liberdade de ir e vir, já que se estava restrito a um único estabelecimento e mesmo dentro desse recinto “todas as atividades diárias são rigorosamente estabelecidas em horários, pois uma atividade leva, em tempo predeterminado, à seguinte, e toda a sequência de atividades é imposta de cima, por um sistema de regras formais explícitas e um grupo de funcionários” (GOFFMAN, 1974, p. 18).
Sem liberdade de ação, de ir e vir ou de escolha, restava ao internado obedecer aos dirigentes e comportar-se bem, pois qualquer desvio da conduta considerada adequada era passível de castigos, para além de demonstrar, de acordo com os termos médicos, que o comportamento fora da norma apenas reforçava o diagnóstico de loucura e as suas nuances (agressividade, raiva etc.).

[...] a obediência tende a estar associada a uma atitude manifesta que não está sujeita ao mesmo grau de pressão para obediência. Embora essa resposta expressiva de autodefesa a exigências humilhantes ocorra nas instituições totais, a equipe diretora pode castigar diretamente os internados [...] e citar o mau humor e a insolência como bases para outros castigos. (GOFFMAN, 1974, p. 40)

Para além da falta de liberdade, os internados eram privados de direitos elementares como o de individualidade, escolha, privacidade ou de autonomia. Atividades de cunho secundário no mundo exterior como barbear-se, ir ao banheiro ou dar um telefonema tornavam-se obrigatórias de pedidos de permissão. Como crianças, os internados precisavam pedir autorização para executar essas e quaisquer outras ações, sendo que nem mesmo a humilhação em ter que pedir garantia que suas solicitações fossem atendidas de pronto; eles poderiam ser caçoados, terem seus pedidos negados, serem longamente inqueridos sobre a razão de quererem seus pedidos atendidos ou simplesmente poderiam ser ignorados e esquecidos pelos membros da equipe dirigente (GOFFMAN, 1974).

Como era aqui
Se o tratamento descrito por Goffman nos Estados Unidos, nos anos de 1950, já parecia extremamente desumano, causa ainda mais espanto que no Brasil, vinte anos depois, na década de 1970, haja relatos de casos ainda mais bárbaros, como os que ocorriam com os internados do Hospital Colônia Sant’Ana, localizado no município de São José, em Santa Catarina. Borges (2013, p. 1541), em artigo publicado, tem como fontes de entrevistas profissionais de saúde que trabalharam na instituição à época e que reportam como “Triste, doloroso, insuportável, feio, agonizante, terrível, escuro, tétrico, horrível, são palavras que cortam os diferentes depoimentos e que, para os entrevistados, descrevem o cotidiano da colônia na década de 1970.”
Borges (2013) escreve que, com o passar dos anos, o Hospital tornou-se um “depósito de gente”, um lugar negligenciado a despeito de como deveria desempenhar seu papel quando da sua inauguração, em 1941: “A existência do HCS é fruto de uma demanda ligada ao sofrimento, a fim de retirar do convívio social aqueles tidos como loucos, para amenizar seu sofrimento e proteger o meio social” (BORGES, 2013, p. 1532). Superlotado, como era a maior parte das instituições psiquiátricas do país em diversas épocas, o hospital já fora inaugurado com número de pacientes superior a sua capacidade sendo que, ao fim da década de 1960, o excesso de internados chegou ao seu ápice quando foi “colocado na lista de hospitais psiquiátricos que utilizam os chamados leitos-chão, camas improvisadas feitas no chão para internação de pacientes” (SERRANO, 1998 apud BORGES, 2013, p. 1533).
A autora ainda menciona que a instituição empregava procedimentos médicos que não atendiam às determinações de normas específicas e colocavam em risco a vida dos internados, como era o caso do eletrochoque:

Era também feito muito eletrochoque. Havia dois funcionários que eram os encarregados de fazer o choque. Era uma seção [sic] horrível. Colocavam o colchão no chão, e, aí, quatro pacientes seguravam um outro para que eles aplicassem o choque, e depois seriam os outros que segurariam que iriam sofrer a mesma prática. Isso era terrível. (PAULA, 2009 apud BORGES, 2013, p. 1541)


Se saíssemos da Colônia Sant’Ana, que fica em nosso estado, e fôssemos para Minas Gerais, em Barbacena, teríamos um quadro ainda mais degradante – por mais que possamos custar a crer que isso fosse possível –, tal era a condição da Colônia de Barbacena, hospital que se manteve em funcionamento até os anos de 1980, e que se tornou o caso mais emblemático da falta de estrutura e de humanidade dispensada aos seus pacientes no Brasil, ficando conhecida como o “Holocausto Brasileiro ”, e sendo exposta por Arbex (2013, p. 24) em livro de mesmo nome: “Sessenta mil pessoas perderam a vida na Colônia. As cinco décadas mais dramáticas do país fazem parte do período em que a loucura dos chamados normais dizimou, pelo menos, duas gerações de inocentes em 18.250 dias de horror.”
Em 1979, o cineasta Helvécio Ratton lançou o documentário Em nome da razão, em que denunciava a barbárie e negligência vividas na Colônia de Barbacena. Seu filme trouxe luz e mobilização quanto à questão daquela instituição em particular, mas também gerou debate acerca das instituições em sua totalidade no país. Franco Basaglia, psiquiatra italiano e pioneiro na luta pelo fim dos manicômios, assistiu ao documentário e manifestou ao seu diretor como a película tinha um poder de revelação, que de fato se mostrou verdadeiro. Basaglia também visitara a Colônia, e chocado com o que viu, foi mais um a denunciar e deixar em evidência o método – e por que não dizer a falta de –, nocivo e perverso com que os pacientes eram tratados (ARBEX, 2013).
Essa postura corroborava com o pensamento que se estabelecia no Brasil, no momento em que passava por um processo de redemocratização e que, associado a outros fatores, como a criação do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), que tinha reivindicações que iam para além da pauta corporativa – como direitos trabalhistas, aumento salarial, cursos de formação etc. –, reivindicava também mudanças no aspecto das “estruturas administrativas hierarquizadas e verticalizadas”, e criticava severamente as péssimas condições de trabalho devido ao número insuficiente de profissionais para atender aos pacientes, o que lhes causava sobrecarga e acarretava um atendimento sem qualidade; afora os terríveis problemas estruturais com os quais os internados conviviam, dentre tantas outras demandas. Esse conjunto de acontecimentos e ações propiciou que o movimento antimanicomial despontasse no Brasil (AMARANTE, 1998).
Enquanto a psiquiatria no país ainda vivia dias de barbárie e negligência mesmo em anos mais recentes (décadas de 1970/80), como já visto, podemos retroceder novamente no tempo e nos deslocar até a Europa do pós II Guerra, na década de 1950, e observar o movimento de reforma psiquiátrica que começava a ser articular e notar que o momento histórico/político, tanto lá quanto aqui, influenciou grandemente no despertar da sociedade para a melhoria da condição humana, como veremos adiante. Depois de fases de tanta violência, dor, mortes e sofrimento, não se podia mais admitir que as pessoas não tivessem tratamento adequado e digno.

Começando a transformação por onde começaram os problemas
Amarante (1998) lembra que depois da Segunda Guerra, a já intitulada comunidade terapêutica , tomada por suas experiências institucionais e por todo o horror causado pelos campos de concentração, buscou chamar a atenção do corpo social para a situação calamitosa em que se encontravam as pessoas que viviam nas instituições psiquiátricas daquela época e lembrou que o espírito democrático que tomava conta da Europa naquele instante não permitiria mais que tratamentos abusivos e desrespeitosos aos direitos humanos fossem aceitos.
Temos, então, campo fértil para as tão necessárias mudanças e reformas no âmbito dos hospitais psiquiátricos, uma vez que população europeia, havia pouquíssimo tempo, vira-se diante de uma guerra que deixara sequelas em seus soldados, em seu povo e, depois dela, era necessário que o continente se restabelecesse, mas, para isso, precisava contar com uma massa produtiva e saudável. Seus trabalhadores precisavam estar curados dos traumas do conflito vivido. E essa cura não poderia advir das instituições asilares da maneira que estavam, como nos advertiram Birman e Costa (1992), pois os hospitais, que já não tratavam ou curavam, estavam sendo apontados não só como responsáveis pela deterioração da saúde física de seus pacientes, mas também pela piora de seus quadros mentais e por tornar suas enfermidades crônicas.
Birman e Costa (1992) ressaltam que, a partir dessas constatações, até a obra de Hermann Simon – criador da Terapia Ocupacional , que estava abandonada em virtude de críticas sofridas por parte da psiquiatra europeia quase vinte anos antes – foi retomada pela comunidade terapêutica sendo, a princípio, colocada como a primeira manifestação de uma nova prática psiquiátrica, sendo também mencionada como o fundamento para a criação do que viria a ser o movimento francês de Psicoterapia Institucional.
Mais adiante, também é retomada a Psicoterapia Interpessoal , através dos postulados do psiquiatra Harry Stack Sullivan que, depois de constatar a melhora de seus pacientes por intermédio da integração médico/paciente, passou do tratamento individual para o de grupo, em que havia interação entre os próprios pacientes. Junte-se a isso o psiquiatra Karl Menninger, que desde antes da Segunda Guerra já usava em sua clínica o método de grupo com os internados, visando sua ressocialização (AMARANTE, 1998).O psiquiatra e psicanalista francês Jean Oury, em entrevista à revista brasileira Percurso, publicada no ano de 2010, ratificou a necessidade de mudanças na infraestrutura das instituições asilares no período do pós-guerra, sendo ele mesmo um dos responsáveis , desde o seu surgimento até os dias de hoje, pela clínica La Borde, localizada no interior da França, e que se tornou um reconhecido caso de sucesso na busca por tratamentos alternativos ao sofrimento psíquico, mudando paradigmas e transfigurando as intervenções de tratamento. Oury (2010) aplicou na La Borde seus conceitos de Coletivo e de Psicoterapia Institucional.
Com o primeiro termo, ele se referia a uma dupla articulação entre o Estabelecimento, que caracteriza como as relações com o Estado – incluindo contratos, hierarquia, necessidade de diplomas e estrutura –, e o tecido institucional que, segundo ele, “propicia essa raridade chamada vida cotidiana”. Para o psicanalista, era necessário “um operador coletivo para responsabilizar as pessoas, dar-lhes inciativas, promover a relação com suas famílias, não é um simples teatro, é simplesmente uma vida de todo dia, do dia a dia, a vida” (OURY, 2010). O psiquiatra diz que se um hospital não se preocupa em oferecer essa dupla articulação, oferecendo apenas o Estabelecimento, não se trata então de um hospital, com o intuito de tratar/curar, mas apenas uma clausura:

Se não existe mais uma vida cotidiana, chegamos às celas, à contenção e às câmeras. Em contrapartida, nos lugares onde houve um pouco de Psicoterapia Institucional não existem celas, contenções, câmeras e é possível ver que na vida cotidiana existe certa liberdade de circulação, ou seja, a condição para que possam existir encontros, ao acaso, do contrário não é verdadeiro [...]. (OURY, 2010)

Quando falava em Psicoterapia Institucional, Oury (2010) levantava a problemática da burocratização que havia tanto na hierarquia quanto na estrutura do Estabelecimento e o quanto isso inviabilizava o processo terapêutico, uma vez que essa psicoterapia tinha como objetivo não apenas tratar as pessoas que estavam internadas no asilo, mas tratar a instituição como um todo, incluindo médicos e todo o corpo clínico, além de todos os envolvidos diretamente com o funcionamento desse estabelecimento. Não era possível haver uma transformação na estrutura se essa estrutura não se abrisse e não oportunizasse a mudança requerida.
Tosquelles (s.d. apud OURY, 2009) diz que sem a abertura devida, temos o “enclausuramento hierárquico. Cada um fechado dentro do seu consultório e se acusando mutuamente de idiota, é uma situação que gera conflitos.”
As abordagens terapêuticas mencionadas aqui não representam integralmente o movimento que se iniciou na Europa e Estados Unidos na época do pós-guerra e mesmo antes e durante a II Guerra, mas, seguramente, foi mostrado o ponto central do que esse movimento propunha para as instituições asilares. Era premente a necessidade de implantar um método que considerasse o paciente como uma pessoa em sua totalidade – com direitos, necessidades, identidade, quereres –; que a responsabilidade exclusiva por sua melhora não estivesse apenas nas mãos dos médicos como seres oniscientes, nem por detrás dos muros dos hospitais, que isolavam e serviam como um espaço para sofrer e ser esquecido. Era preciso não uma reforma, era preciso demolir para construir de novo.

Como as mudanças aconteceram aqui: a Reforma
Ante a profusão de movimentos que versavam a temática da saúde mental e a emergência de sua reforma, em 1989 surgiu o projeto de Lei nº 3.657, do sociólogo e então deputado federal, Paulo Delgado (PT/MG), no qual ele propunha que os manicômios fossem progressivamente extintos, dando lugar a outros tipos de assistência; a proposta também desejava a regulamentação das internações psiquiátricas compulsórias. O projeto só foi sancionado em 6 de abril de 2001, tornando-se a Lei nº 10.216 e, apesar de todas as modificações sofridas – a parte do texto que visava à extinção dos manicômios, por exemplo, não foi inserida no projeto final –, considera-se que houve grande avanço na questão. (WADI, 2009)
Com essa lei, o Brasil passou a trabalhar com uma Política de Saúde Mental que buscará o tipo de tratamento que a comunidade terapêutica, muitos anos antes, já almejava. Conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, ela vai possibilitar que as pessoas portadoras de sofrimento psíquico não sejam mais impelidas exclusivamente a uma internação, que as isolaria do seu convívio social e familiar. Percebe-se e passa-se a trabalhar por um tratamento que se adeque ao máximo ao cotidiano desses pacientes, que passarão a se chamar usuários .
De forma bastante sucinta, a Lei 10.216 busca reduzir o número de leitos psiquiátricos de longa duração, dando preferência para que os atendimentos sejam realizados em hospitais gerais e que, no caso de a internação se fazer estritamente necessária, ela seja por período curto. Também propõe que seja criada uma rede de apoio assistencial que possibilite ao usuário ser atendido dentro de um perímetro máximo aceitável, para que ele não precise deixar seu espaço de convivência cotidiana – que é tão importante considerando a melhora de seu quadro –, para se tratar. Em relação aos pacientes ditos de longa permanência, buscar-se-á a sua desinstitucionalização e reabilitação social, introduzindo-o em um universo produtivo, que envolva trabalho, lazer e cultura. (BRASIL, 2015)
Quando esmiuçado o parágrafo único da Lei, vê-se todos os direitos básicos que foram solapados destes, agora usuários, durante séculos e séculos de duras intervenções psiquiátricas:

Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental:
I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades;
II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade;
III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração;
IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas;
V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária;
VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis;
VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento;
VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis;
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental.

Imprescindível notar a enorme importância dessa formalização de direitos, visto que até então, no simples decurso deste ensaio, se evidencia que nenhum deles era obedecido ou, sequer, levado em conta. Tínhamos a instituição asilar como uma cadeia que punia, não como um hospital que tratava; tínhamos um hospício que isolava, desrespeitava, humilhava, abusava e explorava seus pacientes. Tínhamos um estabelecimento que não considerava as pessoas internadas de acordo com suas limitações mas que, simplesmente, incapacitava a todas elas, não lhes dando qualquer explicação ou motivação para um tratamento em detrimento de outro; tínhamos, enfim, uma instituição que não buscava a ressocialização desses usuários.
Os nove itens desse parágrafo único protocolaram um novo recomeço para as pessoas portadoras de sofrimento psíquico:

Com este novo protagonismo, o do próprio louco, ou usuário, delineia-se, efetivamente, um novo momento no cenário da saúde mental brasileira. O louco/doente mental deixa de ser simples objeto da intervenção psiquiátrica, para tornar-se, de fato, agente de transformação da realidade, construtor de outras possibilidades até então imprevistas no teclado psiquiátrico [...]. (AMARANTE, 1998, p. 121)


O protagonismo mencionado por Amarante se deu na medida em que os pacientes saíram de dentro do estabelecimento psiquiátrico, quando tiveram a chance de serem desinstitucionalizados, o que incluía não estar mais sob a égide médica; não que não fossem mais tratados por médicos, pois continuariam a ser, mas porque seu tratamento não emergia mais apenas dos saberes médicos.
O ato de, paulatinamente, “sair da instituição” só foi possível por intermédio dos CAPs (Centros de Atenção Psicossocial) ou NAPs (Núcleos de Atenção Psicossocial), centros de atenção social que começaram a surgir no Brasil ainda em 1986 , graças aos movimentos sociais e da categoria dos trabalhadores de saúde mental, de quem já tratamos anteriormente, que lutavam pela melhoria das condições de assistência e entregavam as condições péssimas em que se encontravam as instituições psiquiátricas que eram, até então, a única expressão de tratamento disponível para as pessoas que precisavam desse tipo de auxílio. (BRASIL, 2004)
Os CAPs se estabelecem como estruturas territoriais e descentralizadoras de tratamento; integrante do Sistema Único de Saúde (SUS), caracterizam-se como serviços de saúde abertos e comunitários. O manual intitulado Saúde Mental no SUS: os centros de atenção psicossocial (2004, p. 13) afirma que os CAPs são lugares

de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais quadros, cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivos de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida.

E que têm como objetivo

oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos.



Na teoria, o CAPs é um espaço de tratamento e acolhimento que respeita o ambiente em que o usuário vive e que não o retira de seu meio, nem o despe de suas particularidades como ser humano com a justificativa de tratá-lo. No CAPs, as portas estão abertas para quem quiser ir e vir e o saber médico passa a ser um saber terapêutico, que não se restringe unicamente à psiquiatria, mas que tem nela apenas uma de suas vertentes, posto que cada um desses estabelecimentos conta com uma equipe técnica mínima de um médico com formação em saúde mental, um enfermeiro, três profissionais de nível superior dentre as categorias: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional ou pedagogo; e quatro profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão (BRASIL, 2004).
Além disso, os CAPs oferecem oficinas, psicoterapia em grupo, atendimento aos familiares dos usuários, visitas domiciliares e reinserção social/familiar. Olhando as leis, os projetos instituídos e a parte do “papel”, parece mesmo que as amarras da camisa-de-força manicomial foram desfeitas e que todas as dificuldades foram ultrapassadas mas, infelizmente, a realidade brasileira ainda deve manejar e tentar solucionar questões como a da falta de estrutura, que persiste. Sai o hospício, entra o CAPs, e a demanda dos usuários continua sendo bem maior do que a oferta de espaços terapêuticos e, mesmo que o manual aponte uma equipe mínima para garantir o funcionamento desses lugares, a falta de recursos humanos e de qualificação adequada para atender a essa clientela ainda é escassa.
Ainda deve ser lembrada a questão da medicalização que, se durante séculos foi usada como uma maneira de controlar os ânimos da população internada, segue até agora, ao menos para a população que tem acesso a esses medicamentos de forma gratuita, com princípios ativos ultrapassados que apenas embotam esses usuários, não permitindo que tenham progressos mais expressivos no percurso de seus tratamentos.

Algumas considerações

Este pequeníssimo ensaio não tem qualquer pretensão de encerrar as temáticas loucura-tratamento-reforma ou de abarcá-los em sua totalidade, pois seriam necessários muitos anos de estudo, leitura e pesquisa. Meu intuito foi o de mostrar o desenrolar histórico – mesmo que muito resumido – da triste ascensão da loucura e de como ela foi apropriada pelo saber médico e pela instituição psiquiátrica durante tanto tempo.
O epílogo mais lastimável ao qual poderia chegar é o de perceber que os hospitais, os asilos, os manicômios, as colônias eram lotados não porque havia um número indecente de pessoas loucas na sociedade mas, sim, porque durante muito tempo os critérios de diagnóstico eram pífios e segregadores e longe de buscarem a melhora do “doente”, procuravam apenas deixá-lo mais e mais em estado de estupor, menos dono de si, menos senhor de suas vontades, menos independente, menos gente.
Criou-se a loucura como doença, criou-se o hospital psiquiátrico para tratar exclusivamente a loucura e, então, colocou-se lá dentro todas as pessoas que possuíssem a patologia. A questão é que os braços da loucura se alongaram tanto que envolveram qualquer comportamento que não estivesse dentro dos padrões da normalidade deste ou daquele contexto histórico. Extinguem-se doenças, criam-se novas patologias e quem não enquadra no sistema, enquadra-se na doença; seguimos, então, a mesma dinâmica instaurada desde as origens do hospital psiquiátrico.
A despeito disso, sim, hoje, o horizonte parece bem mais promissor do que pareceu em séculos. A humanização do tratamento, a desinstitucionalização dos usuários, o tratamento medicamentoso adequado, o apoio da família, as psicoterapias, a quebra gradual de estigmas, o fato de a loucura estar em voga e toda a sorte de transtornos que podem ser associados a ela (pânico, depressão, ansiedade, neurose...) fazem dela um assunto de trato mais digerível, diferentemente de outros tempos.
Depois de tantas amarras, parece que o “louco manso”, aquele que nos habita a todos, tem finalmente a liberdade de pular o muro alto e, numa profusão de oportunidades, tem a liberdade de ser.

REFERÊNCIAS

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ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
BIRMAN, Joel; COSTA, Jurandir Freire. Organização de instituições para uma psiquiatria comunitária. In: AMARANTE, Paulo (Org.) Psiquiatria Social e Reforma Psiquiátrica, Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p.41-72.
BORGES, Viviane Trindade. Um “depósito de gente”: as marcas do sofrimento e as transformações no antigo Hospital Colônia Sant’Ana e na assistência psiquiátrica em Santa Catarina, 1970-1996. In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 20, n. 4, p.00-00, out./dez. 2013.
BRASIL. Centro Cultural da Saúde. A reforma psiquiátrica brasileira e a política de saúde mental. Disponível em: . Acesso em: 16 nov. 2015.
BRASIL. Lei 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Disponível em: . Acesso em: 16 nov. 2015.
BRASIL. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção À Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Saúde mental no SUS: os centros de atenção psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
BRUM, Eliane. (Prefácio) Os loucos somos nós. In: ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro, p. 16, 1. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2013.
DE CARLO, Marysia M. R. do Prado; BARTALOTTI, Celina Camargo. Caminhos da Terapia Ocupacional. In: DE CARLO, Marysia M. R. do Prado; BARTALOTTI, Celina Camargo (Org.) Terapia ocupacional no Brasil: fundamentos e perspectivas, São Paulo: Ed. Plexus, 2001. p.19-40.
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Editoria Perspectiva, 2000.
FOUCAULT, Michel. Os anormais. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
GOFFMAN, Erwin. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974.
OURY, Jean. Entrevista com Jean Oury. Revista Percurso. São Paulo, v.00, n.00, p.00-00, Jun. 2010. Entrevistadores: ALMEIDA, Andréa C. M. de; BREYTON, Danielle M.; CARDOSO, Deborah J.; HOTIMSKY, Silvio; MARKUSSZOWER, Suzan. Traduzida por: Andréa C. M. de Almeida e Danielle M. Breyton.
REIS, José Roberto Franco. O coração do Brasil bate nas ruas: a luta pela redemocratização do Brasil. In: PONTE, Carlos Fidelis; FALLEIROS, Ialê (Org.). Na corda bamba de sombrinha: a saúde no fio da história. 1. ed. Rio de Janeiro: FIOCRUZ-COC-EPSJV, 2010. p. 221-236.
WADI, Yonissa Marmitt. Uma história da loucura no tempo presente: os caminhos da assistência e da reforma psiquiátrica no Estado do Paraná. Revista Tempo e Argumento, vol. 1, n. 1, p.68-98, jan./jun. 2009.

BIO
Karla é formada em Letras, pela Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, e escreveu este artigo para a conclusão da disciplina "Memória, História e Instituições de Isolamento", do mestrado em História do Tempo Presente, da Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, que cursou como aluna especial. Tem 32 anos, é florianopolitana, formada em letras, casada, tem uma filha, é de esquerda, ateia e, ainda assim, leonina. Gosta de assuntos ligados à morte e à dita "loucura", mas é uma boa pessoa.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A PSICOLOGIA DOS ERROS ESTONTEANTEMENTE ESTÚPIDOS

Estou a sofrer as dores de parto encruado de trigêmeos, seguindo o processo eleitoral aqui nos USA e seja lá que nome tenha o enrosco do impeachment/delações premiadas/lava jato/roubos de merenda escolar e fechamento de escolas aí no Brasil.

Aqui, Donald Trump é o escolhido do partido republicano (GOP- Great Old Party – Grande Velho Partido). Aí, sequer sei resumir. Entendi que a presidente foi afastada, Temer assumiu interinamente e a festa de escandalos continua sem trégua à vista. É ministério que desaparece e volta à tona, delações que aparecem e de repente também somem, juízes viram salvadores da Pátria e daí aumentam os próprios rendimentos sem pejo ou pudor. Nem lembro a porcentagem de Congressistas respondendo a algum processo, menos o dono do helicoptero com 500 Kg de cocaina.

Nem o Oliver Stone teria conseguido. E aí recebo o artigo que abaixo traduzo. Se vai mudar algo? Duvido. Mas que vai ter gente à beça metendo a mão na testa, isso vai. Tomara que não seja tarde demais.
PSYCHOLOGY OF BREACKTAKING STUPID MISTAKES

“Todos nós cometemos erros estúpidos de vez em quando. A história está repleta de exemplos. Diz a lenda que os troianos aceitaram o "presente" dos gregos, um enorme cavalo de madeira, que acabou por ser oco e preenchido com um time de comandos. A torre de Pisa começou a inclinar-se, mesmo antes da construção ser concluída e não é sequer a mais inclinada do mundo . A NASA, inadvertidamente, gravou em cima das gravações originais do pouso na Lua, e agentes do comitê de reeleição de Richard Nixon foram pegos invadindo um escritório de Watergate, pondo em movimento o maior escândalo político da história dos EUA. Mais recentemente, o governo francês gastou US $ 15 bilhões com uma frota de novos trens, apenas para descobrir que eles eram muito grandes para caber em cerca de 1.300 estações.

Prontamente reconhecemos estes incidentes como erros estúpidos, erros-épicos. Num nível mais pessoal, investimos em esquemas de ficar rico-rapidinho, dirigimos acima do limite permitido e postamos coisas em mídias sociais as quais nos causarão sério arrependimento mais tarde.

Mas o que, exatamente, impulsiona a nossa percepção dessas ações como erros estúpidos, ao contrário de má sorte? Sua aparente falta de pensar a respeito? A gravidade das consequências? A responsabilidade das pessoas envolvidas? A ciência pode nos ajudar a responder a estas perguntas.

Em um estudo recém-publicado na revista Intelligence, usando termos de pesquisa como "coisa estúpida de se fazer", Balazs Aczel e seus colegas compilaram uma coleção de histórias que descrevem erros estúpidos de fontes como The Huffington Post e TMZ. Uma história descreveu um ladrão que invadiu uma casa e roubou uma televisão e mais tarde retornou para buscar o controle remoto; outro descreveu os assaltantes que pretendiam roubar telefones celulares, mas acabaram roubando dispositivos de rastreamento (GPS) que, quando ligados deram à polícia sua localização exata. Os pesquisadores então pediram a um gupo de estudantes universitários, para avaliar cada história a a respeiro da responsabilidade das pessoas envolvidas, a influência da situação, a gravidade das consequências, e outros fatores.

As análises de avaliações dos sujeitos revelou três variedades de erros estúpidos:

A primeira é quando a confiança de uma pessoa ultrapassa a sua habilidade, como quando um homem, em Pittsburgh, roubou dois bancos em plena luz do dia sem usar disfarce, acreditando que o suco de limão que tinha esfregado no rosto o faria invisível para as câmeras de segurança. Ou, no que é amplamente considerado como um dos maiores fracassos de mascote da história, quando o Wild Wing dos Anaheim Ducks tascou fogo em si mesmo, tentando saltar sobre uma parede em chamas (os líderes de torcida o arrancaram das chamas e ele voltou à ação no final do jogo, ileso).

A desconexão entre a confiança nas própias habilidades e ausência das mesmas foi apelidada de efeito Dunning-Kruger, depois de um estudo realizado pelos psicólogos sociais David Dunning e Justin Kruger com estudantes da Cornell sobre testes de humor, lógica e gramática e, em seguida, avaliar quão bem eles pensam que foram, em comparação com outros sujeitos do estudo. Os sujeitos com pior desempenho, cujas pontuações os colocaram no percentil 12, estimaram que tinham alcançado o percentil 62, o mais alto. Resumindo os resultados, Dunning observou: "Desempenho ruim, e todos nós temos algum desempenho péssimo em alguma área, não consegue visualizar as falhas de pensamento ou respostas falhas. Quando pensamos que estamos fazendo nosso melhor desempenho, é quando, usualmente, cometemos as maiores besteiras”.

Como qualquer dos inúmeros escândalos políticos bem ilustra, o segundo tipo de erro estúpido envolve atos impulsivos, quando nosso comportamento parece fora de controle. No escândalo que ficou conhecido como Weinergate, ex-politico, Anthony Weiner, enviou textos e fotos de si mesmo e suas partes pudendas, para mulheres que havia conhecido no Facebook. Depois de renunciar ao cargo, Weiner continuou suas ciber-imbecilidades sob o cognome de Carlos Perigo, e ai caiu presa do efeito Dunning-Kruger quando superestimou o apoio apoio que receberia na primaria para prefeito de NY em 2013. Mais recentemente, em Michigan, um representante do estado Todd Courser (conservador de direita, pertencente aoTea Party,que é extrema direita), admitiu ao envio de um e- mail anônimo para agentes Partido republicano e membros da mídia alegando (falsamente) que ele havia sido pego fazendo sexo com uma prostituta do sexo masculino, com o objectivo de, em fazendo tal revelação, pudesse fazer parecer que seu caso com a colega representante Cindy Gamrat parecesse como parte de uma campanha de difamação. Em um audio gravado de uma conversa secreta com um membro da equipe, Courser descreveu sua estratégia como uma "queima controlada de mim mesmo" projetada para "inocular o rebanho" contra as alegações que ainda não haviam sido feitas.

A variedade final de erro estúpido envolve lapsos de atenção tipo Homer, da série “Os Simpsons”. Um dos melhores exemplos da história do esporte americano é a de Roy Riegels, estrela do esporte da Universidade da California, o qual, em 1929 durante o Rose Bowl, correu 65 jardas para o lado errado do campo, erro que deu a vitória ao time do Georgia Tech. Já em 1964, Jim Marshall, do Minnesota Vikings, que foi por 2 vezes considerado o melhor dos jogadores, além de ser capitão da equipe, repetiou o feito, não por uma mas 2 vezes no mesmo jogo.

No estudo de Aczel, as análises revelaram que as pessoas vêem esta categoria como o menor dos erros estúpidos.

Naturalmente é irrealista pensar que poderíamos eliminar o erro humano. Errar é humano, e vai ser sempre. No entanto, esta pesquisa nos dá uma melhor descrição das nossas falhas e fraquezas, e um lugar para começar a pensar em intervenções e prescrições para nos ajudar a errar menos. Esta pesquisa também nos lembra de nossas fragilidades humanas compartilhadas. Somos todos propensos a superestimar nossas habilidades, tomar decisões impulsivas, e termos lapsos de atenção. Esta constatação simples faz com que erros estúpidos pareçam, talvez, um pouco menos estúpidos - e um pouco mais humanos.”

Pois concordo com tudo, só que, quando a soma das 3 categorias se espalha numa população, aí criamos histeria coletiva, que tal qual um desastre natural, deixa sequelas às vezes irremediaveis.

Mas esse é o assunto da próxima postagem: “Os demonios nossos de cada dia ou histeria de massa.”

quinta-feira, 14 de abril de 2016

TIROS QUE SAEM PELA CULATRA OU PORQUÊ FATOS NÃO VENCEM ARGUMENTOS

Vamos dizer que você está tendo uma discussão com um amigo sobre o aquecimento global ou quem foi o melhor goleiro na história das copas. Você apresenta a seu amigo um conjunto de fatos que você acha que vencem a discussão. E, no entanto, espantadissimo, pois acha que os fatos que apresentou claramente contradizem a posição do seu amigo, descobre que tais fatos falharam totalmente em corrigir a crença, falsa ou infundada, do citado amigo. Na verdade,ele está ainda mais agarrado à sua crença após ser exposto à informação corretiva.

Um grupo de investigadores da Universidade de Dartmouth estudou o problema do assim chamado "tiro pela culatra", que é definido como o efeito no qual "as correcções realmente aumentam os equívocos entre o grupo em questão."

O problema aqui pode ser a maneira como seu amigo está recebendo estas informações. Pode ser que seu amigo conhece a você e suas opiniões muito bem , e não acha que você seja exatamente uma fonte onisciente das mesmas, caso na qual pode haver acordo. A outra situação é um pouco mais complicada.

Quando se trata de receber informações de correção sobre uma questão, principalmente sobre politica, religião ou saúde, os autores do estudo destacam que “as pessoas normalmente recebem informações corretiva nos relatórios "objetivos" de notícias, opondo dois lados de um argumento contra o outro, o que é significativamente mais ambíguo do que receber uma resposta correta de uma fonte onisciente. Nesses casos, os cidadãos são susceptíveis de resistir ou rejeitar os argumentos e evidências que contradizem suas opiniões, uma visão que é consistente com um vasto leque de investigação”.

Assim, quando vemos uma notícia que apresenta ambos os lados de uma questão, nós simplesmente escolhemos o lado que concorda com nossa crença prévia, reforçando assim nosso ponto de vista. Mas, o que acontece com aqueles indivíduos que simplesmente não suportam desafios para seus pontos de vista, e seja lá o que acontece, só reforça mais e mais seu parecer original?

Os autores descrevem o efeito “tiro pela culatra" como um possível resultado do processo pelo qual as pessoas contra argumentam informações, de preferência incongruentes, de formas a reforçar seus pontos de vista preexistentes. Se as pessoas contra argumentam informações indesejáveis vigorosamente o suficiente, podem acabar com informações mais atitudinalmente congruentes em mente do que antes do debate, o que, por sua vez, leva a comunicar opiniões que são mais extremas do que teriam sido se tais opiniões não tivessem sido desafiadas. E aí, a vaca vai para o brejo.

Então, o que se pode fazer?

Julia Galef ( Presidente do Instituto para Racionalidade aplicada) diz que é preciso fazer uma mudança mental importante, ou seja, ao invés de pensar sobre o argumento como uma batalha a ser ganha, reformular a coisa como uma parceria, uma colaboração em que as pessoas, juntas, estão tentando descobrir a resposta certa.
Isso torna muito mais fácil a avaliação dos argumentos, quais são bons e quais são ruins porque todos estariam motivados para obter a resposta certa juntos, ao invés de ter que defender o argumento com o qual se entrou na discussão, como o correto.

Gosto imensamente dessa proposta. Infelizmente, também conheço o Raciocínio Motivado, que por definição é o “Tipo de estratégia de justificação inferida, utilizada para minimizar a dissonância cognitiva.”
Acontece quando nos agarramos a falsas crenças apesar de esmagadora evidência em contrário. Em outras palavras, ao invez de pesquisar de forma racional, a informação que confirma ou desconfirma uma crença particular, o que realmente procuramos é por informação que confirme o que já acreditamos. É uma forma implícita de regulação da emoção, na qual os circuitos cerebrais convergem em "juízos que minimizem os efeitos negativos e maximizem os afetos positivos associados com uma ameaça ou à realização de motivos ".

Exemplos de uma obviedade ululante, como diria o Nelson Rodrigues, não faltam, tipo o movimento anti-vacinação, que conseguiu trazer de volta doenças quase que totalmente erradicadas, o lobby pró-armas aqui nos USA, as dietas para perder peso, que cada mês tem uma nova, jurando que o cidadão vai perder 10 Kg por semana comendo o que quiser, enfim, a lista é infindável.

No excelente artigo “Motivated reasoning & its cognates” (Raciocínio Motivado e seus cognatos, tradução livre minha), no Projeto de Cognição Cultural da Faculdade de Direito de Yale (http://www.culturalcognition.net/blog/2013/5/15/motivated-reasoning-its-cognates.html) os gênios discutem que, na realidade, todo e qualquer raciocínio é motivado, porque seria totalmente sem sentido qualquer raiocínio que não o fosse.

Dizem eles: “O prospecto de que os seus próprios argumentos empíricos possam ser demonstrados falsos, cria o risco de “ameaça à identidade”, individual ou grupal, pois a pessoa ou todo o grupo ao qual esta pertence, terão que aceitar suas idéias como falsas. Além disso, a certeza com que os argumentos empíricos são transmitidos, tipo "é simplesmente um fato que. . . "; "Como eles podem negar a evidência científica sobre. . .? ", desperta suspeitas de má fé ou partidarismo cego por parte dos grupos . No entanto, quando os membros de grupos oponentes tentam rebater esses argumentos, são propensos a responder com a mesma certeza, e com a mesma falta de consciência de que estão sendo impelidos a creditar argumentos empíricos para proteger suas identidades. Esta forma de troca, que é a assinatura do realismo ingênuo, gera, previsivelmente, ciclos de recriminação e ressentimento.”

O problema então, surge sempre e quando pensamos que estamos sendo absolutamente racionais, que a idéia que defendemos nada tem a ver com nossas paixões pessoais, e uso o termo “paixão” no sentido neurofisiologico do termo, ou seja, uma emoção forte, sendo emoção “um estado psicologico complexo que envolve 3 componentes distintos: uma experiência subjetiva, uma resposta fisiologica e uma resposta comportamental ou expressiva (Hockenbury & Hockenbury, 2007))

Ou seja, não há qualquer possibilidade de sermos totalmente racionais ou, como dizem aqui, “nada pessoal”, o que me causa frouxos de riso. Pensa o seguinte: você é chefe de um escritorio, ou qualquer coisa, e a empresa tem que despedir uma pessoa, só porque está diminuindo suas atividades. Pois bem, você tem dois empregados, igualmente bons no que fazem, igualmente trabalhadores, mesma faixa etária, mesmas condições sociais. Um deles, vc acha super divertido, sempre pronto com a piadinha do dia. O outro é quetão, fica na dele, não é a mais expansiva das criaturas. Qual você despede? Seja honesto.

Nem filhos conseguimos amar igual, por mais que repitamos essa falácia socialmente. Não os amamos mais ou menos. Os amamos diferente, porque cada um tem uma personalidade, cada um tem um jeito, cada um é um universo.

Então tudo o que fazemos ou pensamos é absolutamente pessoal, tem a ver com quem somos, quem queremos ser, a que grupo queremos pertencer, e todo nosso comportamento externo é fruto desse “Eu” aprendido, esculpido, moldado, social e historico, com uma pitada de genética enfiada no meio.

Queremos mesmo mudar uma situação politico/social? Não vai ser chamando este ou aquele politico de todo e qualquer epíteto derrogatorio encontrado na lingua em questão. Não vai ser insultando os que discordam de nosso ponto de vista.

Vai ser dando uma boa olhada em nós mesmos e nos perguntando, por que, exatamente, defendemos este ou aquele ponto, ou como bem disse Sun Tzu, em “A arte da Guerra” há 2500 anos:

“Se você conhece seu inimigo e conhece a si mesmo, não temerá o resultado de 100 batalhas”.


Ou como brilhantemente sumarizou o agente Aloysius Xingu L Pendergast, no livro “Labirinto Azul”, de Preston e Child, ao ser questionado sobre o porque ter se livrado de apenas parte de sua fortuna, provinda de um ancestral muito sacana:

“Porque prefiro ser um pouco hipocrita a ser pobre”.

E la nave vá…

THE BACKFIRE EFFECT

WHEN CORRECTION FAILS


domingo, 14 de fevereiro de 2016

BRASIL: A OPORTUNIDADE INESPERADA QUE A ZIKA APRESENTA

Traduzido ao pé da letra da revista médica Lancet. VEJA LINK AQUI

O Brasil está (compreensivelmente) chateado. Na reunião do Conselho Executivo da OMS, no mês passado, um oficial de Genebra me disse que a delegação do país estava se recusando a apoiar resoluções que poderiam ter suportado porque o Ministério das Relações Exteriores brasileiro se opõe aos rankings do país pelo Banco Mundial.

O Brasil é classificado pelo Banco Mundial como um país de renda média superior, juntamente com os seus vizinhos próximos (Colômbia, Equador, Paraguai e Peru). Infelizmente para o Banco (e para a OMS), o Brasil não se vê como uma nação de renda média. Ele tem aspirações mais elevadas. Para piorar o insulto, em 2015 o Banco promoveu rivais do Brasil, (Argentina e Venezuela), para o status de alta renda. Um país de alta renda é definido por um rendimento nacional bruto por pessoa igual ou superior a US $ 12 736. Brasil está um pouco abaixo, em $ 11 530 (2014).

O Brasil tem sido sensível ao julgamento dos outros. Quando a OMS publicou o seu Relatório Mundial de Saúde em 2000, o governo e as lideranças de saúde do país se sentiram feridas e indignadas. A OMS classificou o Brasil em 125 lugar dos 191 países (Venezuela foi colocada em 54 e Argentina 75).

O Brasil pode,certamente, orgulhar-se de seu progresso para uma saúde melhor.

Mas, em sua história de doenças infecciosas, a coisa é complicada. Em seu livro “Epidemias Laid Low” (2006), Patrice Bourdelais argumenta que um país de alta renda é aquele que conseguiu conquistar as epidemias,razão pela qual a historia do Brasil nessa área, não é apenas uma tragédia nacional, mas também uma humilhação internacional.

A presidente Dilma Rousseff emitiu declarações de resistência e desafiao. Mas a Zika chega em um momento perigoso para o Brasil. A economia do país está encolhendo, enquanto o desemprego e a inflação estão subindo. Essas pressões têm ameaçado um sistema de saúde já frágil.

Escrevendo na revista The Lancet em 2011, Mauricio Barreto e seus colegas identificaram dengue como um dos principais "fracassos" na saúde pública brasileira. O principal vetor da dengue, Aedes aegypti, é também o vetor para Zika. Os esforços para controlar a dengue falharam no Brasil, o que significa que a probabilidade de controlar Zika rapidamente, é baixa.

Mas, com uma liderança atuante, o Brasil pode transformar esta epidemia em uma força. Em momentos de epidemia,de perigo, centra-se naturalmente sobre a ação das nações para controlar o surto. Quais são consequências de uma epidemia em uma nação? Epidemias alteram governos. Os líderes políticos não poderiam ter nenhum sinal mais claro de que é sua responsabilidade o proteger a saúde das suas populações (governos, não médicos, são quem derrotam as epidemias). Esses líderes entendem que a estabilidade política, econômica e social do seu país depende da saúde.

Esta realização tem consequências.Leis são promulgadas para proteger a saúde. Novos investimentos são feitos em ciência médica (progresso político depende do progresso científico). Novas instituições são criadas para canalizar os melhores pareceres científicos para os decisores. Saúde universal gratuita e de alta qualidade torna-se uma prioridade pública. E os líderes entendem que proteger e manter a confiança do público é essencial para a ordem pública.

Epidemias alteram a relação entre médicos e estado. O número, renda, status e poder dos médicos (e suas instituições) são reforçados. Médicos aumentam e melhoram suas demandas e procuram (e geralmente conseguem), maiores contribuições para as políticas de saúde.

Epidemias mudam a concepção pública da doença, a qual não é mais vista como apenas patologia do corpo. Elas também tornam-se patologias do ambiente. Saúde não é mais uma qualidade dentro do controle puramente individual. É algo que depende da organização da sociedade. Epidemias remodelam o conhecimento. Dados confiáveis assumem importância política suprema. Os políticos exigem o acesso imediato a esses dados. A pesquisa torna-se uma ferramenta vital para melhorar o juízo político. Novas áreas de conhecimento são criadas. A comunicação rápida e transparente das novas descobertas se torna uma necessidade.

Epidemias mudam o público. As expectativas do público aumentam. Pessoas passam a apreciar as ações de um governo forte, mas tornam-se cautelosas se percebem poder coercitivo do Estado. O público é menos tolerante com aqueles que abrigam a doença (ou o risco de doença). O estigma floresce. A Saúde torna-se uma obsessão pública. Pessoas e governos começam a levar a saúde mais a sério. Curandeiros e charlatães prosperam.

Epidemias mudam sociedades. A doença epidemica precipita uma crise política. Sociedade são reestruturadas e reformadas. A ideia de progresso é redefinida (reversões são possíveis). Um consenso se constrói em torno do direito à saúde.

Em suma, as epidemias podem acelerar, bem como destruir o desenvolvimento humano.

A Zika será apenas um momento na longa luta para avançar a saúde dessas nações atualmente afetadas. Mas esse momento é uma oportunidade que não deve ser perdida.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AGNOTOLOGIA: O LADO NEGRO DAS NEUROCIÊNCIAS OU O ESTUDO PARA ESPALHAR IGNORÂNCIA

"A ignorância não é apenas o ainda-não-conhecido, também é uma manobra política, uma criação deliberada por agentes poderosos que querem que não se saiba" Robert Proctor

Faz tempo que tenho um caso de paixão/ódio com a agnotologia. Por um lado, me fascina a mecânica da coisa, por outro, tenho um pavor horroroso das consequências, com pleonasmo e tudo.

Por definição, agnotologia é o estudo da ignorância ou dúvida culturalmente induzida, em especial a publicação de dados científicos falsos ou enganosos.
A palavra foi cunhada por Robert N. Proctor, professor de historia da ciência e tecnologia em Stanford, juntando as palavras gregas “agnosis-não conhecer” e “logia-estudo de”.
Vem a ser o exato oposto de epistemologia, que é a teoria do conhecimento. É o estudo de atos voluntários para espalhar confusão e/ou engano, geralmente para vender um produto ou ganhar um favor.

O primeirissimo uso americano bem conhecido da agnotologia como deliberada produção de ignorância, segundo Proctor, foi a conspiração da indústria do tabaco a respeito dos riscos de seu uso. Usando o jargão científico, as companhias de cigarros produziram pesquisas a respeito de tudo, menos os problemas sérios de saúde consequentes ao uso, como forma de explorar e aumentar a confusão do público.
Em 1979, um memorando secreto da indústria do tabaco foi revelado ao público. Chamado de “Fumar, uma Proposta de Saúde”, e escrito uma década antes pela empresa de tabaco Brown & Williamson, revelou muitas das táticas empregadas pelas indústrias do tabaco para combater as "forças anti-tabaco".
Uma das partes mais reveladoras do memorando, é a do foco em como comercializar cigarros para o público : "A dúvida é o nosso produto, uma vez que é o melhor meio de competir com os fatos que existem na mente do público em geral . É também o melhor meio de criar polêmica. "

Isso chamou muito a atenção do Robert Proctor, que começou a estudar como é que essas companhias estavam negando, atrapalhando e /ou escondendo a relação do fumar com câncer, descobrindo não só os bilhões gastos por citadas companhias, como também cunhando o novo têrmo.

A Agnotologia também se concentra em como e por quais formas o conhecimento não acontece, ou é ignorado ou adiado. Por exemplo, o conhecimento sobre as placas tectônicas foi censurado e adiado por pelo menos uma década, porque algumas evidências foram classificadas como informação militar, relacionadas à Guerra Submarina.

Algumas das causas de ignorância culturalmente induzida são a negligência da mídia, o sigilo e supressão corporativa ou governamental, a destruição de documentos e uma miríade de formas de seletividade culturopolítica, além de nossa própria desatenção, memória curta e o raio do pensamento motivado, como tão bem explicou Dan Kahan, da Faculdade de Direito de Yale, no artigo “Motivated Numeracy and Enlightened Self-Government”(Motivação dos Números e Autonomia Iluminada - tradução livre minha, citado no post “A mais deprimente descoberta sobre o cérebro, no Blog Curare Dolorem Opus divinum Est CLIQUE AQUI).

Uma das consequências é simplesmente o retorno de doenças sérias e que estavam quase que erradicadas, devido ao movimento anti-vacinação. Vejamos:
Em 1998, o pesquisador Andrew Wakefield publicou um estudo na prestigiosa revista médica Lancet, clamando que havia uma conexão entre a vacina tríplice e autismo. Sua teoria era que a vacina contém vírus vivo, o qual, em crianças susceptiveis, causaria um sarampo crônico, o que por sua vez causaria disturbios gastrointestinais, inclusive o que êle chamou de “síndrome do intestino solto”, o que permitiria que certas toxinas e substâncias químicas, como por exemplo as encontradas no pão e laticínios, e que são digeridas no intestino, entrassem na corrente sanguínea, de onde iriam ao cérebro, lesando-o. A mídia desceu com tudo, espalhando o artigo, e como consequência, o índice de vacinação no reino Unido caiu, resultando num enorme aumento de doenças passiveis de prevenção.
E de nada adiantaram todos os artigos subsequentes demonstrando não haver qualquer relação entre vacina e autismo, nem o fato que o autismo continuou aparecendo no Japão, mesmo depois que eles retiraram a vacina, nem o fato da Lancet retirar seu aval do estudo, nem a demonstração, pelo jornalista investigativo Brian Deer, de que Wakefield havia colocado aplicações para uma vacina de sua invenção, nem o quanto estava ganhando de uma indústria farmaceutica para fazer testes infames nas crianças, além de estar sendo pago também por advogados para testemunhar contra as indústrias produtoras das vacinas numa ação de classe de pais de crianças autistas. E também ninguém ligou que o Conselho Médico Britânico lhe retirou a licença para praticar medicina.
Muito antes pelo contrário, os crentes do movimento anti vacina, transformaram o homem numa espécie de mártir, simplesmente negando qualquer evidência de sua ganância e conduta anti ética, e acreditando numa conspiração contra ele, projetada para esconder a verdadeira causa do autismo do público.
Caso esteja interessado na história toda, LEIA AQUI


Em 2004, Londa Schiebinger explicou que a epistemologia se pergunta como sabemos, e por que não sabemos, enquanto a agnotologia se pergunta como fazer para que não se saiba. Diz ela: “... a ignorância é muitas vezes não meramente a ausência de conhecimento, mas um resultado da luta cultural e política"

Seu uso como uma descrição crítica da economia política, foi expandido por Michael Betancourt em um artigo de 2010 intitulado " Immaterial Value and Scarcity in Digital Capitalism - Valor Imaterial e escassez no capitalismo digital." Sua análise focou-se na bolha imobiliária, de 1980 a 2008, aqui nos USA, e nós todos sabemos e vivemos as consequências da explosão de citada bolha. Betancourt argumenta que esta economia política deve ser chamada de capitalismo agnotologico porque “a produção sistêmica e manutenção da ignorância é um grande recurso que permite que a economia funcione, uma vez que permite a criação de uma "economia de bolha".
E continua, explicando “A criação de incógnitas sistêmicas onde qualquer "fato" potencial está sempre contrariado por uma alternativa de aparentemente igual peso e valor torna o envolvimento com as condições da realidade uma fonte de confusão, refletida pela incapacidade dos participantes das bolhas de se tornarem cientes do colapso iminente, e só enxergá-lo depois de ter acontecido.”

Agnotologia é tão importante hoje como quando Proctor estudou a ofuscação de fatos sobre câncer e tabagismo, pela indústria do tabaco. Por exemplo, a dúvida politicamente motivada sobre a nacionalidade do presidente dos EUA, Barack Obama, foi semeada durante muitos meses por adversários, até que ele revelou a sua certidão de nascimento em 2011, o que de nada adiantou porque quem acreditava que ele era mussulmano e nascido no Quênia, acreditando continuou. Em outro caso, alguns comentaristas políticos na Austrália, tentaram atiçar o pânico, comparando a classificação de crédito do país com a Grécia, apesar de todas as informações públicas disponíveis das agências de classificação, que mostram que as duas economias são muito diferentes. No Brasil, a direita insiste em mostrar quão maravilhosa foi a ditadura para a economia, embora seja conhecimento comum, e caso não seja, um minuto no Google mostraria dados e fatos do desastre. No mesmo paragrafo, a insistência da esquerda na negação dos rombos econômicos causados por simples ganância. E está aí o vale do ex-Rio Doce, que não me deixa mentir. Idem uso do Google.

Proctor explica que a ignorância muitas vezes pode ser propagada sob o pretexto de debate equilibrado. Por exemplo, a idéia comum de que haverá sempre duas visões opostas nem sempre resulta em uma conclusão racional, como bem mostrou a história das empresas de tabaco, usando a ciência para tornar seus produtos inofensivos. Hoje, vem sendo usada por negadores da mudança climática para argumentar contra a evidência científica. Pior, quem na realidade vemos argumentando é em geral um cientista, contra meia dúzia de “celebridades” de diversos matizes, com o cientista levando a pior, posto que o/a coitado tem as restrições causadas pelo conhecimento, enquanto os célebres não tem qualquer restrição no uso de sua ignorância, além de serem muito, mas muito mais estridentes.

Esta “rotina de equilíbrio" permitiu que os homens do cigarro e os negadores do clima de hoje, alegarem de que há sempre dois lados para cada história, que "os especialistas discordam” criando uma falsa imagem da verdade, portanto, a ignorância.
Notem que as frases são sempre vagas, sem dizer quem são os especialistas que discordam, como, em que e porque discordam.

Um exemplo disso que tenho claro na memória, foi, no século passado, a disputa política entre Lula e
Fernando Collor de Melo, na qual o último foi apresentado como “o caçador de marajás”, sem que, em nenhum momento fosse dito o nome de um só marajazinho caçado. O resto da história todo mundo conhece, incluindo a atual amizade entre os dois citados inimigos figadais.

Já Proctor,dá outro exemplo: muitos dos estudos que ligaram agentes cancerígenos ao uso de tabaco, foram realizados inicialmente em ratinhos, e a indústria do tabaco respondeu dizendo que os estudos em ratos não significavam que as pessoas estivessem em risco, apesar dos resultados adversos óbvios na saúde de muitos fumantes.
Hoje, escuto como explicação para a negação da evolução é que nunca ninguém viu um macaco virar gente, isso é claro que sem a menor preocupação de dar uma lidinha no que é, exatamente, a teoria da evolução, que nunca, jamais em tempo algum disse que macaco virava gente.

"Vivemos em um mundo de ignorância radical,e embora o conhecimento seja facilmente acessível, não significa que ele seja acessado. E pior, para as grandes questões de importância política e filosófica, o conhecimento das pessoas vem, muitas das vezes, de sua fé ou tradição, ou propaganda, mais do que qualquer outra coisa”, diz Proctor.

Ele também descobriu que a ignorância se espalha quando:1) muitas pessoas não entendem um conceito ou fato e 2) quando grupos de interesses especiais - como uma empresa ou grupo político trabalham duro para criar confusão sobre um problema.

Uma sociedade cientificamente analfabeta, provavelmente vai ser mais suscetível às táticas usadas por aqueles que desejam confundir e obscurecer a verdade.

E Proctor continua: "A luta não é apenas sobre a existência de alterações climáticas, é sobre se Deus criou a Terra para que nós a explorassemos, se o governo tem o direito de regular a indústria, se os ambientalistas deveriam ser habilitados, e assim por diante. Não é apenas sobre os fatos, é sobre o que é imaginado a partir de e para tais fatos ".

Outro estudante da ignorância é David Dunning, da Universidade de Cornell, o qual adverte que a internet está ajudando a propagar a ignorância, pois é um lugar onde todo mundo tem a chance de ser seu próprio perito, o que torna as pessoas presas fáceis de interesses poderosos que desejam espalhar deliberadamente a ignorância.

"Enquanto algumas pessoas inteligentes vão lucrar com todas as informações, agora apenas a um clique de distância, muitos serão enganados por uma falsa sensação de especialização. Minha preocupação não é que estamos perdendo a capacidade de fazer as nossas próprias mentes, mas que está se tornando muito fácil de fazê-lo. Nós devemos nos consultar uns com os outros muito mais do que imaginamos. Outras pessoas podem ser imperfeitas, tal como nós, mas muitas vezes as suas opiniões cobrem um longo caminho para corrigir nossas próprias imperfeições, como a nossa própria experiência imperfeita ajuda a corrigir os seus erros ", diz Dunning.

E concordar mais não poderia. Vamos dar uma olhadinha na nossa página do Facebook. Quantos posts você recebe por dia a respeito de curas milagrosas, superalimentos, notícias totalmente infundadas, mas colocadas tipo “olha agora porque isso é tão importante que logo será apagado” e coisas do gênero? Pois bem, agora me diga quantos post você recebe, e lê, de cabo a rabo, de sites com certa idoniedade, tipo BBC e Reuters? E quando recebe um post desse de “lê ou vai ficar sem saber para todo o sempre”, quanto tempo usa para checar a veracidade do mesmo, antes de passar para a frente?

Dunning e Proctor também alertam que a disseminação intencional da ignorância é galopante ao longo das primárias presidenciais dos EUA em ambos os lados do espectro político.
Só cá? Pergunto eu.

"Donald Trump é o exemplo óbvio, sugerindo soluções fáceis que ou são ou impraticáveis ou inconstitucionais", diz Dunning.

Assim, enquanto agnotologia pode ter tido suas origens no auge da indústria do tabaco, agora a necessidade conhecê-la é mais importante do que nunca.

Uma novissima disciplina, que tem conexão com a Agnotologia, é a Cognitronica, que tem como objetivos: 1) explicar as distorções na percepção do mundo causadas pela sociedade da informação e globalização e 2) lidar com essas distorções em diferentes campos.
A Cognitronica está estudando e procurando maneiras de melhorar os mecanismos cognitivos de processamento de informações e por conseguinte melhorar a esfera emocional da personalidade, desenvolvendo a capacidade de simbolizar, os mecanismos linguisticos, as capacidades de associação e raciocínio crítico, para ampliar as perspectivas mentais, que é pré condição importante para todas as esferas de atividade profissional na sociedade de informação.

A idéia é contrabalançar uma situação chamada “Dissonância Cognitiva”, que é o stress mental ou desconforto que sentimos quando temos que lidar com duas ou mais crenças, valores ou idéias contraditorias, ou quando somos confrontados por informação nova que entra em conflito com nossas crenças, idéias ou valores.

A Teoria da Dissonância Cognitiva (Leon Festinger), se baseia no pressuposto de que os indivíduos buscam a coerência entre suas expectativas e sua realidade. Devido a isso, as pessoas se envolvem em um processo chamado de redução de dissonância para trazer suas cognições e ações em sintonia, o que leva à diminuição da tensão psicológica e da angústia.

Velho Freud já havia explicitado que “só mudamos quando a dor do viver ultrapassa a dor do mudar”, e isso porque nosso cérebro funciona no mecanismo de buscar prazer e evitar a dor.

Vejamos um exemplo: Nós todos queremos uma real mudança no estado de política no Brasil, queremos mesmo, não importando se de direita, esquerda, meio ou pontas. Quantos de nós usamos o voto como real arma? Quantos de nós vamos a todos os meios, realmente simples, à distância de meia duzia de cliques, e pesquisamos a vida e feitos de nossos politicos, para daí decidir nosso voto? Provavelmente bem poucos, porque pode acontecer que de repente, encontramos um político de uma tendência diferente da nossa, mas com excelente ficha corrida, enquanto do nosso lado, os que se apresentam são terríveis.

Então usamos os seguintes mecanismos, para diminuir nosso desconforto:
1-Mudamos nosso comportamento ou cognição: “Onde encontro pesquisa séria?”
2-Justificamos o comportamento ou cognição, mudando a cognição conflitiva: “Alguém acredita em pesquisa séria neste país?”
3-Justificamos comportamento ou cognição adicionando novas cognições (reais ou imaginárias) “O blog do Fulano, Beltrano, Sicrano já informou que essas pesquisas são furadas”.
4-Ignoramos ou Negamos qualquer informação que entre em conflito com crenças pré existentes: “Bobagem pura”

E aí, a não ser que se use a numero 1, caso no qual ampliamos nosso conhecimento e podemos usar o pensamento crítico, somos presa fácil da Agnotologia, que simplesmente joga com nossa fraqueza muito humana de querermos estar certos, a qualquer custo e qualquer preço.

E que venha a Cognitronica!