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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COMO FOI QUE A “GUERRA ÀS DROGAS” COMEÇOU: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

Para que possamos entender o que estamos e porque estamos vivenciando hoje, é importante entender como foi que a coisa toda começou, assim, trago um resumo/tradução do livro “Chasing the scream: The first and last days of the war on drugs” Johann Hari, Bloomsbury, 2015 (Perseguindo o grito:Os primeiros e últimos dias da Guerra às Drogas – tradução minha, ao pé da letra, já que não sei o título em português)

“A promessa de travar uma "guerra implacável" contra as drogas foi feita pela primeira vez em 1930, por um homem esquecido hoje, mas que fez mais do que qualquer um para criar o mundo da droga em que vivemos agora. Seu nome: Harry Anslinger.
Em 1904, um menino de doze anos de idade, na Pensilvânia, visitando a fazenda de um vizinho, ouviu gritos lancinantes, uma mulher uivando como um animal. O marido da mesma, deu instruções apressadas ao menino: pegue meu cavalo e vá à cidade o mais depressa possível. Pegue um pacote na farmácia. Traga o pacote aqui. Já. O garoto, apavorado, fez o que lhe foi pedido, e tão logo entregou o pacote de drogas, os gritos da mulher pararam e ela se acalmou. Mas o garoto, nunca mais nem se acalmou nem esqueceu. Anos depois, escreveu que, naquele momento, convenceu-se que havia um grupo de pessoas que, embora à primeira vista parecessem normais, a qualquer momento poderiam tornar-se “emocionais, histéricas, degeneradas, mentalmente deficientes e depravadas”, caso entrassem em contato com o “grande agente transtornador”, as drogas. E assim foi que Harry Anslinger entrou na Guerra às Drogas.

Num outro dia, alguns anos antes, em Manhattan, um rico comerciante judeu ortodoxo, deu de cara com uma cena que não conseguia entender. Seu filho de três anos de idade, estava de pé, com uma faca, em cima de seu irmão mais velho, que dormia, pronto para esfaqueá-lo. "Por que, meu filho, por quê?", Perguntou o comerciante. O menino disse que odiava seu irmão. O menino ia crescer para odiar quase todo mundo. Viria a declarar: "a maioria da raça humana é idiota, lerda, sem juízo e sem cérebro." Ele esfaqueou, pessoalmente ou a mando, muitas pessoas. Normalmente, um homem com esse tipo de personalidade acabaria na prisão, mas este menino não. Ele foi entregue a uma indústria na qual, sua capacidade para violência não foi apenas recompensada, mas necessária: o novo mercado de drogas ilícitas na América do Norte. Quando finalmente foi baleado- vinte blocos, incontáveis assassinatos, e muitos milhões de dólares depois da tentativa em seu irmão, era um homem livre. Assim foi como Arnold Rothstein entrou na guerra contra as drogas, transformando o crime organizado num grande negócio, a partir do Proibicionismo. Provavelmente foi quem melhor definiu o capitalismo com o seguinte aforismo: "Dê as pessoas o que elas querem, e passará a dominá-las.”

Noutra tarde, em 1920, uma menina de seis anos, estava deitada no chão de um bordel em Baltimore ouvindo discos de jazz. A mãe dela acreditava que esta música era obra de Satanás e não deixava a menina ouvir em casa. Aí, a criança se ofereceu para realizar pequenas tarefas de limpeza para a madame do bordel local, com a condição de que, ao invés de ser paga um níquel como as outras crianças, ela poderia ficar horas ouvindo a música, que lhe dava um sentimento que não conseguia descrever. Ela estava determinada, um dia, a criar esse sentimento em outras pessoas. Mesmo depois que foi estuprada, usada, vendida, e depois que começou a injetar heroína para tirar a dor, esta música ainda estaria lá, esperando por ela. Assim foi como Billie Holiday entrou na guerra contra as drogas.

Quando Harry, Arnold e Billie nasceram, as drogas eram disponíveis no mundo todo. Em qualquer farmácia americana podia-se comprar produtos à base de heroína e cocaína. As misturas para tosse mais populares, continham opiáceos; um novo refrigerante chamado Coca-Cola continha cocaína. Na Grã-Bretanha, as mais elegantes lojas de departamento vendiam latas de heroína para as mulheres da sociedade.
Mas eles viveram numa época em que a cultura americana estava à procura de uma saída para a sua crescente onda de ansiedade: um objeto real, físico, que pudesse destruir, na esperança de que isso iria destruir seu medo de um mundo que estava mudando mais rapidamente do que os seus pais e avós jamais poderiam ter imaginado. Resolveram que seriam esses produtos químicos. Em 1914, há um século, resolveram destruí-los. Limpar o mundo de sua presença. Pronto, todos estariam livres. E assim, Harry e Arnold e Billie encontraram-se largados nesse primeiro campo de batalha, e pressionados ao combate.

Billie Holiday no palco, cabelo puxado para trás, rosto redondo e brilhante nas luzes, voz riscada com a dor, em 1939, começou a cantar uma canção que se tornaria emblemática:
Southern trees bear a strange fruit, Blood on the leaves and blood at the root.
As árvores do sul dão uma fruta estranha, com sangue nas folhas e sangue na raiz.
Billy Holliday: Strange fruit

Antes dela, pouquíssimas mulheres negras tinham estado em palcos, e quando estavam, eram meras caricaturas, despojadas de todo o sentimento. Mas agora, aqui estava ela, Lady Day, uma mulher negra expressando tristeza e fúria contra o assassinato em massa de seus irmãos com seus corpos pendurados em árvores. Sua afilhada, Lorraine Feather, comenta: “Foi extremamente bravo. Naquela época, cada canção era sobre o amor. Não havia músicas sobre matanças, muito menos as sórdidas que estavam ocorrendo com negros no Sul dos USA. E aí aparece uma negra, fazendo exatamente esse tipo de música, sobre linchamento, sobre como seu pai havia sido morto O público ouviu, em silencio. Muitos anos mais tarde, este momento seria chamado de "o início do movimento dos direitos civis." Lady Day foi ordenada pelas autoridades a parar de cantar esta canção. Ela se recusou. Sua perseguição por parte do Federal Bureau of Narcotics começou no dia seguinte. Em pouco tempo, ela estaria morta.

Desde seu primeiro dia no cargo, Harry Anslinger tinha um problema, e todos sabiam disso. Tinha acabado de ser nomeado chefe do Bureau Federal de Narcóticos, pequena agência enterrada nas entranhas do Departamento do Tesouro em Washington, DC, que e parecia estar à beira de ser abolida. A Agência havia sido o antigo Departamento da Lei Seca, mas como a proibição tinha sido abolida, seus homens precisavam de um novo papel, rápido. Quando ele olhou para seu novo pessoal, poucos anos antes de iniciar sua perseguição a Billie, viu um exército se afundando, exercito esse que havia passado 14 anos em guerra contra o álcool, só para ver a vitória estonteante do mesmo. Estes homens eram notoriamente corruptos, torturadores e cruéis, e foi com eles que o acima citado decidiu limpar as drogas dos Estados Unidos para sempre.
E isso foi apenas o primeiro obstáculo. Muitas drogas, incluindo maconha, ainda eram legais, e o Supremo Tribunal havia decidido que as pessoas viciadas em drogas mais pesadas deveriam ser tratadas por médicos, e não abusadas pelo braço pesado da lei. Daí, seu orçamento do foi cortado em US $ 700.000. Harry acreditava que a resposta a ser dada a uma mão fraca, no pôquer, devia ser elevar drasticamente as apostas. Assim, comprometeu-se a erradicar todas as drogas, em todos os lugares em 30 anos. Conseguiu transformar um departamento em ruínas, com homens desanimados, no quartel-general para uma guerra global que iria durar cem anos e contando. Pode fazê-lo, não só porque era um gênio burocrático, mas também porque havia uma tensão profunda na cultura americana que estava à espera de um homem como ele, com uma resposta certa e segura para suas dúvidas sobre produtos químicos. (Tenho tanto medo de quem tem respostas definitivas e inabaláveis. A história nos tem mostrado os horrores consequentes).

Desde aquele dia na fazenda de seu vizinho, Harry sabia que queria limpar as drogas da face da terra, mas ninguém imaginava que, a partir de onde começou, poderia fazê-lo. Seu pai era um barbeiro suíço que havia fugido para evitar o serviço militar obrigatório, indo parar na Pensilvânia, onde teve nove filhos, sem possibilidade de pagar seus estudos. Por isso Harry, o oitavo, aos 14 anos foi forçado a trabalhar na estrada de ferro.Era um garoto determinado e insistiu em trabalhar por dinheiro nas tardes e noites para que pudesse continuar indo para a escola todas as manhãs. E foi trabalhando nessa estrada, que teve sua segunda visão de coisas escondidas e escuras, o que se tornou sua segunda obsessão, supervisionando um bando de imigrantes sicilianos. Mais tarde, veio a escrever como ele os ouvia sussurrarem a respeito de algo chamado “Mão Negra”.
Um dia, encontrou um dos trabalhadores italianos, Giovanni, dentro de uma vala, ferido. No hospital, Giovanni, terrorizado, contou-lhe que todos os sicilianos tinham que pagar proteção a um grupo chamado “Máfia”, que tinha vindo da Sicília para os USA. Tal grupo, disse ele, engajava-se em todo tipo de crime, e os trabalhadores da estrada de ferro tinham que lhe pagar uma “taxa de terror”, ou ir parar no hospital ou morrer. Anslinger ficou obcecado com a Máfia, numa época na qual a maioria dos Americanos nem acreditava que ela existisse. Passaram a acreditar, depois dos anos 60, com Edgar Hoover e o FBI.
Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, Harry tentou ir, mas como era cego de um olho (consequência de uma pedrada de um dos irmãos), foi recusado, mas como falava alemão fluentemente, foi trabalhar como diplomata/espião na Holanda. Lá, conheceu vários marinheiros que tinham que voltar para casa pois tinham se tornado dependentes de heroína, o que piorou sua obsessão iniciada na fazenda do vizinho.
No finzinho da guerra, estava óbvio que a Alemanha tinha perdido, e o Kaiser estava planejando abdicar. Ao Henry, foi dada a missão, pelo presidente dos USA, de ir dizer ao Kaiser para não abdicar, pois os USA temiam o caos que poderia acontecer seguindo a abdicação. Henry chegou ao Kaiser tarde demais, ele já tinha abdicado, e, pelo resto de sua vida, nosso herói se culpou pelo fato que seu atraso tinha dado base à ascensão de Hitler, e por conseguinte, à segunda guerra mundial. Concluiu que, o futuro da civilização dependia de suas ações. (Narcisismo pouco é bobagem).

Em 1926, foi mandado para as Bahamas. Era o pico do proibicionismo contra o álcool. Problema era que, os americanos queriam beber, e os contrabandistas queriam vender, de formas que o álcool corria solto nas ilhas, o que o apavorou sobremaneira, pois achava que as bebidas estavam cheias de horrendas doenças que iriam destruir os inocentes americanos, e, naturalmente, tomou a si a tarefa de evitar tal Armagedon. Como? Convencendo seus superiores que, a única forma de acabar com a coisa era por uso de “extrema força”. Das Bahamas para Washington foi um pulinho, tendo sido assaz sortudo em casar com Martha Dennison, que pertencia a uma das famílias mais ricas dos USA, os Mellon, e assim, o secretário do tesouro americano, Andrew Mellon, virou parente.
Não bastassem suas obsessões de base, também chegou à conclusão que imigrantes mexicanos e negros eram chegados a usar muito mais drogas que os brancos, e conseguiu sua primeira vitória e aumento de verbas para seu grupo, depois de se apresentar ao Congresso com o seguinte discurso:
“Ouvi dizer que, na Universidade de Minnesota, estudantes de cor estão indo a festas com estudantes brancas e conseguindo sua simpatia através de histórias de perseguição racial. Resultado: Gravidez”.
Indo em frente, decidiu educar o público a respeito de maconha (coisa que, anteriormente achava que não tinha qualquer problema), com o seguinte primor:
“Quando você fuma esta erva daninha, primeiro, vai ter uma raiva delirante, depois sonhos de caráter erótico e vai perder o poder do pensamento e finalmente, chegará ao ponto final inevitável: Insanidade. Você pode ficar chapado e sair e matar uma pessoa, e tudo antes mesmo de perceber que saiu de seu quarto, porque a maconha transforma o homem em uma besta selvagem. De fato, se o horrível monstro Frankenstein ficasse cara a cara com o monstro maconha, cairia morto de medo."
Durante anos, médicos falaram e lhe mandaram evidências de que estava errado. Sua resposta? Não só ameaçou a classe com sérias represálias, como também escreveu para os policiais em todo o país, ordenando-lhes que achassem casos nos quais a maconha teria sido a causadora de crimes. E as histórias começaram a aparecer.

O caso que definiu Harry, e a América, foi o de Victor Licata, de 21anos, da Florida, conhecido como sensato e silencioso até o dia que fumou maconha, alucinou que havia homens querendo cortar seus braços, e para se defender, agarrou um machado e picou mãe, pai, dois irmãos e uma irmã.
A imprensa, alertada por Harry, fez Licata famoso. As pessoas começaram a acreditar que, se seu filho fuma maconha, ele, como Lacata, também pode lhe cortar em pedacinhos. Pela primeira vez, a imprensa americana, principalmente a de propriedade de William Randolph Hearst, tinha apoio de um departamento do governo dos USA, para espalhar boatos.
E a coisa funcionou lindamente. As pessoas começaram a clamar para que fosse dado mais dinheiro à Agencia de Harry, para que esta os salvasse dessa coisa terrível.
Muitos anos mais tarde, um professor de direito, John Kaplan, achou de dar uma olhada nos prontuários médicos do Victor Lacata e descobriu que o psiquiatra que o havia examinado, tinha registrado que o rapaz sofria de “insanidade “há muito tempo. Havia também o registro de vários familiares do rapaz com os mesmos problemas, 3 deles internados em asilos. Tal psiquiatra havia tentado, durante todo o ano anterior ao crime, internar o rapaz, mas a família havia insistido em cuidar dele em casa.
Se o Harry acobertou, negou, ou nem se preocupou em saber da opinião do psiquiatra, não se sabe, o fato é que a ideia que jovens se tornariam escravos dessa droga até se tornarem assassinos insanos, pegou. E ficou pior quando nosso herói descobriu que a Máfia poderia estar ganhando com o tráfico.

E lá foi ele incrementando sua campanha. O efeito mais assustador da maconha, avisou, acontecia com os negros, fazendo-os esquecer as barreiras raciais adequadas e desencadeando sua luxúria e desejo em cima das mulheres brancas. Claro, todo mundo falava sobre racismo de forma diferente na década de 1930, mas a intensidade de pontos de vista de Harry começou a chocar algumas pessoas, e quando foi revelado que ele se referiu a um suspeito, num memorando oficial como "nigger", o senador Joseph P. Guffey, da Pensilvânia exigiu sua demissão. Mais tarde, quando um de seus poucos agentes negros, William B. Davis, queixou-se de ser chamado de "nigger" por homens de Harry, Anslinger o demitiu.
Quando a Associação Médica Americana publicou um relatório desbancando algumas de suas reivindicações, anunciou que qualquer de seus agentes pego com uma cópia, seria imediatamente despedido. Quando descobriu que um professor chamado Alfred Lindesmith estava argumentando que os viciados precisavam ser tratados com compaixão e cuidado, instruiu seus homens a falsamente avisar universidade de Lindesmith que ele era associado com uma "organização criminosa", além de enviar uma equipe para dizer-lhe para se calar. Embora não conseguisse controlar o fluxo de drogas, estava descobrindo que podia controlar o fluxo de ideias.

Jazz era e é o oposto de tudo o que Harry Anslinger acreditava. É improvisado, descontraído, livre, segue seu próprio ritmo. O pior de tudo, é música mestiça composta por traços europeus e caribenhos, com ecos africanos, tudo acasalado em território americano. Para Anslinger, esta anarquia musical era evidência de uma recorrência dos impulsos primitivos que se escondem em negros, esperando para emergir. Ou, como ele mesmo escreveu em seus diários: "Parecia como as selvas na calada da noite, ritos indecentes incrivelmente antigos das Índias Orientais são ressuscitados na música desses negros. As vidas dos jazzmen tem cheiro de imundície."
Anslinger teve que lidar com uma cena musical composta por gente do calibre de Charlie Parker, Louis Armstrong, e Thelonious Monk, e queria vê-los todos atrás das grades. Tentou fazer uma grande apreensão nacional, num único dia. Seu conselho a seus agentes: “Atire primeiro ".

O único problema do Harry, em relação mundo do jazz, foi que, o povo que dele fazia parte era de uma solidariedade absoluta. Os homens de Anslinger raramente conseguiram encontrar um delator, e todas as vezes que um deles era preso, todos se cotizavam para pagar a fiança e soltá-lo.
No final, quando o Departamento do Tesouro disse a Anslinger ele estava perdendo tempo, tentando arrebentar uma comunidade que não podia ser fraturada, ele então reduziu seu foco, como um laser, na maior vocalista de jazz feminino existente.

Em 1939, o Comitê La Guardia, promovido pelo prefeito de NY, Fiorello La Guardia, fez o primeiro estudo amplo, profundo e sério a respeito dos efeitos de fumar maconha, estudo este que contradisse sistematicamente tudo que nosso Harry vinha dizendo. Conclusão do estudo: “O fumar maconha não causa dependência no sentido médico da palavra. “Publicado em 1944, citado estudo enfureceu Anslinger, que o condenou como “Não científico.”
La Guardia Comitê: Estudo da Maconha Estudo da Maconha

No final de sua carreira, foi acusado de insubordinação, pois tentou impedir a publicação de um relatório as AMA (Associação Médica Americana), a respeito de Dependência, relatório esse editado pelo já nosso conhecido, Professor Alfred R. Lindesmith.
Espantosamente, foi nomeado de novo pelo presidente John Kennedy. Resignou ao cargo ao fazer 70 anos, após o que trabalhou por mais dois anos como representante dos USA na Comissão de Narcóticos na ONU, aposentando-se já totalmente cego. Faleceu em 14 de Novembro de 1975, aos 83 anos.”

Todos esses anos passados, e a contabilidade é a seguinte:
Mais de 1 trilhão de dólares gastos. Os gastos atuais são de 15 bilhões por anos, ou seja, 500 dólares por segundo.
Temos a maior população carcerária do universo, com cerca de 2,3 milhões de pessoas atrás das grades, sendo que mais de meio milhão delas estão por alguma infração das leis de drogas.
Se o comércio global de drogas fosse uma nação, estaria entre as 20 maiores economias do mundo, com estimados 320 bilhões de dólares por ano.
Há cerca de 230 milhões de usuários de drogas ilegais no mundo, mesmo assim, 90% deles não são classificados como problemáticos.
Se os USA taxassem as drogas ilegais como taxa álcool e tabaco, receberia cerca de 46,7 bilhões de dólares ao ano.
A legalização das drogas pouparia à nação cerca de 41000 milhões de dólares por ano, gastos em perseguição e encarceramentos.
Em 1980, havia 40.000 pessoas na cadeia por crimes relacionados a drogas. Hoje temos 500.000, com penas longas e excessivas para coisas como porte da droga. Não só as cadeias se tornaram enormes depósitos de doentes mentais, como também, a face do preconceito. Todas as pesquisas apontam que negros ou latinos não usam nem traficam mais do que brancos, mas mesmo assim, são presos 5 vezes mais.
Isso tudo reduziu o consumo? Não.
Os USA são número 1, mundialmente falando, no uso de drogas ilegais.
Que tal que nem, como se diz em Taubaté, com o que aconteceu com o Proibicionismo. Banir o álcool não fez ninguém parar de beber, só fez com que as pessoas parassem de obedecer à lei.
Ou como tão bem escreveu H. L. Mencken, em 1925: “A Proibição não só falhou em suas promessas, mas, na verdade, criou problemas sociais adicionais, graves e preocupantes. Não há menos embriaguez, mas muito mais. Não há menos crime, mas muito mais. ... O custo do governo não é menor, mas muito maior. O respeito pela lei não aumentou, mas diminuiu. "
Quando ignoramos um problema, nos recusamos a debate-lo e esperamos que desapareça por milagre ou por imposição de força, não estamos só sendo ingênuos, mas estamos a caminho de um desastre. Ignore colesterol alto, e veja os resultados. Ignore uma dorzinha no peito, e reze para que seja só acidez. Continue a exercitar um pé inchado. Quais serão os resultados?
A guerra às drogas falhou. Feio. Está mais do que na hora de enfrentar o problema,
Próximo e final post da trilogia, será sobre iniciativas que fizeram exatamente isso e está funcionando.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

MINHA PRÓPRIA VIDA: OLIVER SACKS AO SABER QUE ESTÁ COM CÂNCER TERMINAL

Sei que prometi a segunda parte das dependências e estava justamente terminando,quando me chegou o e mail do New York Times, com o artigo do Sacks.E chegou num momento em que pensava em minha própria mortalidade. Ele está na minha lista de gente que quero conhecer pessoalmente antes de morrer. Pelo visto, não vou conseguir. Ele me fez rir e chorar com seus escritos, e no filme “Tempo de Despertar”, me mostrou que genialidade é muito mais do que descobrir um tratamento novo. É descobrir a vida, junto com o paciente. E então, tenho que traduzir o artigo, porque é mais uma lição de vida desse homem que é grande. Não vou dizer adeus porque mesmo quando ele morrer, vai continuar tão vivo dentro de mim, que vou poder continuar nossas conversas imaginarias a gosto. Esta tradução é meu agradecimento e celebração de uma vida que foi, e continua sendo bem vivida.

“Um mês atrás, senti que estava bem de saúde, até mesmo robusto. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas minha sorte acabou - algumas semanas atrás fiquei sabendo que tenho múltiplas metástases no fígado. Há nove anos, foi descoberto que eu tinha um tumor raro do olho, um melanoma ocular. Embora a radiação e lasering para remover o tumor, em última análise me deixou cego daquele olho, só em casos muito raros tais tumores formam metástases. Estou entre os 2% dos azarados.
Sinto-me grato por terem me sido concedidos nove anos de boa saúde e produtividade, desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado, e apesar de seu avanço poder ser retardado, não pode ser interrompido.
Cabe a mim agora, escolher como viver os meses que me restam . Tenho que viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que possa. Nisto me animam as palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava mortalmente doente aos 65 anos, escreveu uma pequena autobiografia em um único dia, em abril de 1776. Ele intitulou-a "Minha própria vida":"Agora estou considerando uma dissolução rápida", escreveu ele. "Sofri muito pouca dor com a minha desordem; e o que é mais estranho, não obstante o grande declínio da minha pessoa, nunca sofri um abatimento de ânimo dos meus espíritos. Possuo o mesmo ardor como sempre no estudo, e a mesma alegria na companhia. "
Tive sorte suficiente para passar dos 80, isto é, 15 anos a mais do que Hume, os quais foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei 5 livros e completei uma autobiografia ( com algumas páginas a mais do que a de Hume), a ser publicada na Primavera deste ano; Tenho vários outros livros quase concluídos.
E Hume continua: "Eu sou ... um homem de disposições leves, de temperamento controlado, de um humor aberto, social, e alegre, capaz de apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas as minhas paixões."
Aqui me aparto de Hume. Embora tenha apreciado e vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha reais inimizades, não posso dizer (nem o diria qualquer um que me conheça) que sou um homem de disposições leves. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, com entusiasmos violentos, e extrema falta de moderação em todas as minhas paixões.
E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume me parece especialmente verdadeira: "É difícil", escreveu ele, "estar mais desapegado da vida do que estou no presente momento."
Nos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida a partir de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com um profundo senso de conexão em todas suas partes. Isso não significa que eu esteja acabado com a vida. Pelo contrário, sinto-me viva intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me resta, continuar a aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar, se tiver força, e alcançar novos níveis de compreensão e percepção. Isso implicará em ter audácia, clareza e uso da palavra; tentar endireitar as minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para diversão (e até mesmo para algumas bobagens ).
Sinto-me focado e com perspectiva. Não há tempo para nada não essencial. Tenho de me concentrar em mim mesmo, no meu trabalho e meus amigos. Não vou assistir as noticias todas as noites, nem prestar qualquer atenção à política ou argumentos sobre o aquecimento global.
Isto não é indiferença, mas desapego - ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, o aquecimento global, a crescente desigualdade, mas estes não são mais o meu negócio; eles pertencem ao futuro. Alegro-me quando me encontro com os jovens sobredotados - mesmo aquele que fizeram minha biópsia e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.
Tenho estado cada vez mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, de mortes entre os meus contemporâneos. Minha geração está indo embora, e cada morte, senti como um descolamento, um rasgar de parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas também, não há ninguém como qualquer outra pessoa, nunca. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano, de ser um indivíduo único, para encontrar o seu próprio caminho, para viver sua própria vida, para morrer a sua própria morte.
Não posso fingir que estou sem medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado. Recebi muito, e dei algo em troca. Li, viajei, pensei, escrevi. Tive um intercurso com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.
Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta, o que,de per si, tem sido um enorme privilégio e uma aventura.”
http://www.nytimes.com/2015/02/19/opinion/oliver-sacks-on-learning-he-has-terminal-cancer.html
Oliver Sacks, professor de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, é o autor de muitos livros, incluindo "Tempo de Despertar" e "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu."

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O OPOSTO DE DROGADEPENDÊNCIA NÃO É SOBRIEDADE.

Este ano faz 100 anos desde que as drogas (algumas) foram oficialmente banidas e vimos o desenvolvimento de teorias e práticas de todos os tipos, para se lidar com o problema. Os USA instituiu a “guerra às drogas” e aprendemos ou ouvimos histórias sobre dependências e dependentes, a dependência como doença e os milhares de tratamentos e/ou intervenções que parecem crescer como fungos por toda a parte. Tendo passado a maior parte de minha vida profissional trabalhando exatamente na área, aprendi umas coisas e tive que desaprender outras tantas. Algumas das coisas que me incomodavam profundamente no discurso do “nós bonzinhos que lutamos contra as drogas”,foram:

1-Nunca me senti lutando ou quis lutar contra drogas, pelos seguintes motivos:
a)Como médica, uso “drogas”, que em medicina são chamadas de medicamentos, para aliviar sintomas e promover tratamentos. De que maneira vou querer um mundo sem drogas? Quero sentir a dor de ser cortada feito galinha assada quando e se necessitar de uma cirurgia, porque, dentre as coisas usadas em anestesia, estão os derivados da heroína? Nem morta, Joana! Além de que, e ainda como médica, trato de gente, não de substâncias, as quais aprendi a usar conforme necessário.
b)Drogas são substâncias que não tem vida própria. Ela não vem voando e se insere em nosso organismo. Há que ter um ato volitivo de, buscar a substância e dela fazer uso, o que se chama de comportamento, e, para que um comportamento ocorra, há que existir uma motivação para o mesmo. Substâncias são como ferramentas. Se uso um martelo para, ao invés de pregar um prego na parede, promover uma fratura na minha testa, é culpa do martelo?
c)Quanto mais trabalhava na área, mais evidente ficava que há muito mais coisas sobre as quais é quase que proibido falar sobre o assunto; que a discussão a respeito não é livre, leve e solta como deveria, mas organizada por estruturas político/sociais que comandam a mídia e por conseguinte, a opinião pública. Senão, vejamos a história desde o início, e vou falar da história das drogas aqui nos USA, que é onde consigo material e estatísticas, não disponíveis, por exemplo, no Brasil.

2-Pelo fato de trabalhar com Drogadependentes, e por acreditar que, ao escutar o paciente, de uma forma ou outra ele/ela vai lhe explicar direitinho qual é o problema e a melhor forma de enfrenta-lo, após o que, o que tinha que fazer era transformar a coisa para o medicalês, e, junto com o paciente, desenvolver um plano para enfrenta-lo, tenho um certo horror a modelos “prontos e arrumados”, tipo assim roupa tamanho único, pois embora a ideia seja de que serve para todo mundo, na realidade não cai bem em ninguém.

3-Sou daquelas médicas antigas, que curtiu muito o aprendizado na faculdade (e, parodiando agora esqueci quem, detesto estudar, mas adoro aprender), trago comigo algumas noções básicas que continuam orientando meu pensamento. Uma delas é o conceito do que é e porque acontece uma doença num organismo:
“Doença é um conjunto de sinais e sintomas específicos que afetam um ser vivo, alterando seu estado de equilíbrio. O vocábulo é de origem latina, em que “dolentia” significa “dor, padecimento”. Para que uma doença se desenvolva (sempre que causada por agente externo, como, teoricamente é o caso das drogas dependências), há que se levar em conta: a) Virulência do agente patogênico; b) Estado do hospedeiro; c) Ambiente. Isto significa que, só o agente patogênico (o causador da doença) é apenas 1/3 da equação, ou seja, se o hospedeiro estiver em bom estado e viver num ambiente saudável e propício ao desenvolvimento, os efeitos do agente não serão sentidos ou as consequências serão muito menos sérias. Que o digam os sobreviventes da gripe espanhola, que nem na Espanha começou, que matou 1/3 dos europeus. Sobraram 2/3, incluindo minha vó Linda, que a teve mas sobreviveu, e bem, vindo a falecer com a provecta idade de 104 anos. E que o digam os milhões de jovens que fazem ou fizeram uso de alguma droga e nunca se tornaram dependentes. Ou aqueles que sofreram alguma fratura ou problema de dor, usaram derivados da morfina ou heroína por tempos e, resolvido o problema ou saídos do hospital, nunca mais usaram a coisa.

Isto posto, vamos ao ponto.

Drogas são um tremendo problema e um tremendo bom negócio na vida cá das Américas. Não são sequer problema novo, pois fazem parte da história desde o primeiro dia em que Cristóvão Colombo botou os pés no Novo Mundo, e os índios Taino o presentearam com tabaco. E, em existindo uma droga, existe uma solução para algo e um problema associado e tentativas de resolver o problema. Colombo não fazia a mais remota ideia do que fazer com as folhas recebidas, e conta a lenda que as jogou no mar, mas os marinheiros aprenderam com os índios as delicias do fumar, carregando o hábito de volta para a Europa, e logo esta se tornou um continente de dependentes de nicotina (as más línguas dizem que continua até hoje). Cem anos depois, o tabaco resgatou a primeira colônia inglesa na América (Jamestown, na Virgínia, fundada em 1607), que estava à beira do colapso. Em 1612, John Rolfe (mais conhecido como marido da Pocahontas), plantou tabaco, que foi vendido em Londres com imenso lucro. Daí o povo lá de Jamestown só plantou tabaco, o que os salvou da ruina financeira. Não fosse ele, quem sabe o que teria sido dos USA, ou se teria havido tal país.
Caso isso não bastasse, em 1619, a população masculina de Jamestown recebeu com enorme entusiasmo a chegada ao porto de um navio Inglês carregado de jovens mocinhas, compradas a preço de 120 libras de tabaco cada (mais ou menos 54 Kg), para se tornarem esposas. No mesmo ano, os virginianos também introduziram a escravidão, através da compra de 20 negros de um navio mercante holandês. Pelos 240 anos seguintes, escravidão e tabaco dominariam a sociedade da Virginia. O trabalho escravo ajudou os virginianos expandir, e rapidinho, a produção de tabaco, a partir de £ 60.000, em 1622, a 500.000 libras em 1627, para 1,5 milhões de libras em 1.630. E se pensarmos um pouquinho, não é lá muito diferente do trabalho dos plantadores atuais da planta da coca.

E, falando no citado, aqui o tabaco é um dos chamados 3 GRANDES. Os outros dois são o álcool e a nicotina. Chocado? Provavelmente porque essas 3 drogas são tão largamente usadas em nossa sociedade, que nem os usuários, nem ninguém mais definiria como “dependente”, dentro das fantasias que temos sobre os tais, pessoas que como eu vão feito um zumbi fazer o primeiro café da manhã, no minuto seguinte a rolar fora da cama. O fato é que as diferenças entre as 3 GRANDES, drogas que são legais, e suas primas ilegais é muito mais uma questão histórico cultural do que as qualidades intrínsecas das drogas. Cafeína é mais aditiva do que maconha. Álcool é mais intoxicante que cocaína. Tabaco estraga a saúde do usuário muito mais do que ecstasy. Tal qual qualquer outra droga, álcool, cafeína e tabaco são usados de forma recreacional, sem propósitos médicos, pelo simples fato que fazem os usuários se sentirem melhor (ou para os “oficialmente “dependentes, para não ter os sintomas de abstinência, que os fazem se sentir muito mal).

E a definição de dependência é exatamente essa: a necessidade compulsiva de uso de uma substância.

Com isso não quero dizer ou sequer insinuar que drogas são uma coisa boa ou inerentemente má, porque na realidade, como qualquer coisa, não são nem uma coisa, nem outra, tudo dependendo do uso que fazemos delas. Legais ou ilegais. Heroína, quando usada em anestesia, é um santo achado. Quando usada como droga de rua, é tremenda desgraça.O que quero dizer é que as usamos, quando não por imposição médica, simplesmente porque gostamos, desde a primeira criatura que, mastigando seu cogumelinho ou pedaço de cactos, descobriu que alterava a consciência. Pela sua ação, as drogas alteram a química cerebral e podem, temporariamente, fazer com que gente triste fique alegre e saltitante, doentes se sentirem melhor, cansados reencontrarem energia, tímidos se tornarem bravos, insones acharem seu sono, fracos se sentirem fortes, ansiosos relaxarem e gente muito feia se sentir sexy. Na realidade, as drogas não resolvem nenhum desses problemas, mas os mascaram bem pelo tempo que durar sua ação. E isso é suficiente para fazer com que se continue usando.

Isso, e o fato que são um tremendo negócio, pois os dependentes pagam qualquer coisa para conseguir seu objeto de desejo. O café é hoje o segundo produto mais valioso do mercado, perdendo só para o petróleo, e como essa estatística é anterior à despencada de preço do assim chamado “ouro negro”, vai que de repente virou o primeiro. Uma única companhia, a Starbucks, vende mais de 8 bilhões de dólares, sim, bilhões com bi, de cafezinhos por ano. Os americanos gastam mais de 50 bilhões por ano com cigarros e 100 bilhões com álcool. Comparativamente, o mercado das ilegais é muito menor, mas, exatamente por serem mais difíceis, são muito mais “preciosas”. Cocaína é mais valiosa que ouro, pois 1 grama é vendida a 100 dólares, enquanto que uma grama de ouro está a 25. A maconha é o produto agrícola mais valioso dos USA, produzindo 36 bilhões de dólares por ano, enquanto o milho, segundo colocado, só 26.

Hoje quero falar do tremendo enrosco no qual nos encontramos, porque simplesmente não queremos passar pela dificuldade que é encarar de frente o problema. Como fazemos para reinserir no convívio, milhares, melhor dizendo, milhões de jovens perdidos? Queremos que retornem e tenham vidas plenas ou queremos simplesmente impor nossas crenças? Porque é que eu posso, e uso com gosto, minha droga de escolha, a cafeína, que é mais aditiva que maconha, mas critico seriamente o hippie saudoso que dá sua tragadinha no conforto de seu lar? Pior, também tomo meu bom vinho. É álcool. Intoxica. Cada um de nós tem uma ideia preconcebida do que vem a ser o droga dependente e de como trata-lo ou tratar a situação.

Fomos ensinados a pensar que, o que causa a dependência é a droga. Essa teoria foi concebida em cima de experimentação com ratos, na década de 60, e espalhada por uma organização chamada Partnership for a Drug-free América. Todo o mundo e seu primo, sabe do experimento e/ou viu as fotos. Simples. Bota-se o ratinho numa caixa, sozinho, com duas tijelinhas. Uma é água pura e a outra é água com heroína ou cocaína, e o ratinho fica obcecado com a água drogada. Pronto. Provado que drogas tem o efeito de fazer até o ratinho abrir mão de coisa tão necessária quanto água, para ficar só se drogando.

Acontece que um professor de psicologia, em Vancouver, lá no início dos anos 70, Bruce Alexander, achou a coisa muito esquisita, pensando o seguinte: “Bom, o rato está na gaiola sozinho, sem nada para fazer, deixa ver o que acontece se fizer o experimento um pouco diferente”. E fez o famoso experimento do “Rat Park”, que, resumidamente é o seguinte:
1-A teoria do Alexander era que, as drogas, de per si, não causam dependência, a qual ele atribuía às condições de vida. Numa palestra ao senado canadense, em 2001, disse: “As experiências anteriores, nas quais ratos de laboratório foram mantidos isolados em gaiolas de metal apertadas, amarrados a um aparelho de auto injeção, mostram apenas que " animais severamente afligidos, assim como pessoas com graves dificuldades, vão aliviar sua angústia farmacologicamente, se puderem."
2-O “Rat Park “era uma colônia de casinhas de 8,8m2 (200 vezes o tamanho de uma gaiola padrão de laboratório), na qual foram colocados entre 16 e 20 ratos de ambos os sexos, com abundância de alimentos, rodas e bolas para brincar, e espaço suficiente para acasalamento. Ratos que haviam sido forçados a consumir morfina por 57 dias consecutivos, foram trazidos para a colônia e lhes era dada a escolha entre tomar água pura e água com morfina. A maior parte deles, escolheu a água pura, tão logo tiveram a oportunidade de se misturar com os outros ratinhos.

Apesar disso, é interessante notar que as principais revistas cientificas (Science e Nature), recusaram-se a publicar o experimento que só saiu na revista Psychopharmacology em 1978. A publicação não obteve qualquer resposta e a Universidade (Simon Fraser) retirou os fundos de financiamento.

Um bom paralelo à teoria de Alexandre, foi a guerra do Vietnã, durante a qual, 20% dos soldados americanos se tornou dependente de heroína, causando um pavor generalizado na assim chamada “puritana América”, do que fazer com tantas “falhas morais “quando os pobres coitados retornassem à pátria mãe gentil. O que aconteceu foi que 95% dos soldados dependentes (segundo estudo publicado no Archives of General Psychiatry), simplesmente parou de usar. Muito poucos foram a clínicas de recuperação. Saíram da “gaiola “horrenda e voltaram para a colônia. Não precisavam mais da droga.

Outro, seria a dependência ao jogo, e podem acreditar, é tão destrutiva como qualquer droga, e no caso, ninguém se injetou um maço de cartas de baralho ou chips de roleta. Uma de minhas memórias do que chamo de “visões do inferno”, é a da primeira (e única vez) que fui a Las Vegas e vi, em todo lugar, aquele mundo de velhos em frente às maquininhas de jogo, com um balde de moedas ao lado. Horas jogando, sem conversarem ou trocarem uma palavra com quem estava ao lado. Repetição mecânica de movimentos e rituais.

Todos concordam que tabagismo é uma das coisas mais viciantes que existem, sendo que o “gancho químico “do vício é causado por uma droga chamada nicotina. Vai daí que quando os adesivos de nicotina foram desenvolvidos na década de 1990, houve uma explosão de otimismo, pois o dependente poderia receber todos os “ganchos químicos”, sem os efeitos colaterais, fedidos e mortais, do tabagismo. Eles seriam libertados de seus grilhões! E ai veio o balde de água fria do Gabinete do Cirurgião geral, informando que, apenas 17,7% dos fumantes, eram capazes de abandonar o vício com uso de tais adesivos. Muito, mas muito pouco mesmo, o que, mais uma vez demonstra que, apesar da história dos “ganchos químicos “ser real, é apenas pequena parte de muito maior problema.

Vamos ver algumas estatísticas a respeito da “Guerra às drogas”:

3 em 4 americanos acham que a “guerra às drogas “é uma tremenda falha. (Zogby/Inter-American Dialogue Survey: Public Views Clash with U.S. Policy on Cuba, Immigration, and Drugs. http://www.zogby.com/news/ReadNews.cfm?ID=1568))

Pesquisa com a Associação Nacional dos Chefes de Polícia, mostrou que, 82% deles acha que tal guerra foi e é uma falha (18th Annual National Survey Results of Police Chiefs & Sheriffs.http://www.aphf.org/surveyresults.pdf)

Gastos com Controle de Drogas através de estratégias duras de fiscalização aumentaram em 69,7% nos últimos 9 anos, enquanto gastos com Tratamentos e Prevenção cresceram só 13,9%. Recursos federais para redução de oferta (encarceramento, punição e erradicação) são o dobro dos programas redutivos (prevenção e tratamento). (U.S. Office of National Drug Control Policy. (February 2010). National Drug Control Strategy: FY 2011 Budget Summary. p. 17, Table 3. http://www.whitehousedrugpolicy.gov/publications/policy/11budget/fy11budget.pdf)

Apesar dos USA serem o local de nascimento da “Guerra às Drogas” e de terem algumas das mais duras penalidades a respeito das mesmas, também tem as maiores taxas de consumo de maconha e cocaína do mundo (Degenhardt L, Chiu W-T, Sampson N, Kessler RC, Anthony JC, et al. (July 2008). Toward a Global View of Alcohol, Tobacco, Cannabis, and Cocaine Use: Findings from the WHO World Mental Health Surveys. PLoS Medicine. http://www.plosmedicine.org/article/info:doi/10.1371/journal.pmed.0050141

Nos últimos 40 anos, a Guerra às drogas custou mais de 1 trilhão de dólares, o número de gente encarcerada aumentou 705%, e embora pretos e brancos usem drogas em proporções mais ou menos iguais, tem 10 vezes mais negros presos do que brancos. (http://www.thehouseilivein.org/get-involved/drug-war-today/)

O governo federal dos USA gastou, em 2010, 15 bilhões de dólares na “Guerra às drogas”, ou seja, cerca de 500 dólares por segundo (Jeffrey A. Miron & Kathrine Waldock: "The Budgetary Impact of Drug Prohibition," 2010.)

Embora moradores de bairros desfavorecidos, de bairros com altas concentrações de minorias e de bairros com altas densidades populacionais relataram níveis mais elevados de vendas de drogas, também relataram níveis apenas ligeiramente mais altos de consumo das mesmas, juntamente com níveis mais elevados de dependência. Este resultado indica que misturando a venda de drogas com o uso, de modo que as áreas pobres e de minorias sejam vistas como foco do problema, é completamente errado. A descoberta é baseada em dados coletados em 41 locais, incluindo a cidade e áreas suburbanas (mas não rurais) em todas as regiões dos USA. (http://www.drugsense.org/cms/wodclock)

Ao longo das últimas quatro décadas, os governos (federal e estadual) dos USA, despejaram US $ 1 trilhão em gastos na guerra às drogas, conta paga pelos contribuintes. Infelizmente, esses dólares de impostos foram para o lixo. Em 1980, os Estados Unidos tinham 50.000 pessoas atrás das grades por violações das leis de drogas - agora temos mais de meio milhão. Os EUA são hoje o maior carcereiro do mundo, as drogas continuam a ser amplamente disponíveis e os recursos para prevenção e tratamento são escassos. Não só milhares de milhões de dólares de impostos foram desperdiçados, como também os gastos da guerra às drogas resultaram numa ampla retirada do dinheiro de outros serviços importantes. Dinheiro canalizados para a repressão às drogas significou menos financiamento para crimes mais graves, e que deixou a educação fundamental, saúde, serviços sociais e programas de segurança pública a lutar para operar com financiamentos insuficientes. Estamos trabalhando para mudar as mesmas políticas fracassadas de sempre e investir em programas de tratamento e educação eficazes. Estamos liderando o movimento para acabar com este dreno de nossa economia e para proteger os seus dólares de impostos do desperdício da guerra às drogas. (http://www.drugpolicy.org/wasted-tax-dollars)

Com sua teoria (a qual esposo), Bruce Alexander conseguiu se fazer odiar pelos dois lados da política: pela direita, que acha que dependência é uma falha moral, devido à falta de chinelada, falta de disciplina, puro hedonismo, excesso de festas, e coisas do gênero (se não me creem, procurem se informar de um grupo chamado Tough Love – Amor Exigente, sobre o que, no momento, me recuso a falar, e por isso coloquei um artigo do Washington Post a respeito, no final), e pela esquerda liberal que gosta de achar que a dependência é algo que acontece num cérebro sequestrado pela droga, a qual faz tudo sozinha, independentemente de qualquer outra condição. É perfeitamente contrária à teoria sobre a qual se baseia a tal “Guerra às drogas”, que funciona (apesar de todas as evidências em contrário) em cima do pressuposto que há que se erradicar uma montanha de substâncias químicas porque elas sequestram o cérebro das pessoas e causam dependência.

O problema é que as drogas, de per si, não são o que causa a dependência. Se fossem, não existiria dependência a jogo. Não existiriam dependências emocionais a relacionamentos que fazem tão mal a algumas pessoas. A única coisa que a tal da “guerra às drogas “conseguiu, com exceção de queimar dinheiro e recursos, foi aumentar todos os outros fatores que causam dependências, incluindo, e principalmente, a desconexão de indivíduos a seu grupo e seu ambiente. E quando falo em “desconexão”, falo por exemplo do isolamento sentido, e muitas vezes vivido pelos que sofrem de alguma doença mental (não é à toa que o maior consumo de drogas de toda espécie, de cigarro a heroína, está entre doentes mentais), onde a única maneira que encontram para alívio de seu sofrer, é a auto medicação com seja lá o que acharem. Falo do crescer em extrema pobreza, sem esperanças e sem recursos. Falo da falta de educação para a vida. Falo do não se sentir pertencendo ou fazendo parte. Falo do ser maltratado e desprezado. Falo de crianças que sofreram privações tão severas, que o cérebro “encolheu”.

Cuidar de um dependente (de qualquer coisa) ou alguém com algum distúrbio mental é muito mas muito difícil. É mais simples seguir os conselhos de “amores exigentes” ou de shows televisivos tipo “intervenção” e dizer ao dependente que ou ele/ela tome tento ou cai fora. E isso só piora a dependência. Aliás isso só piora qualquer coisa.

Nós humanos, necessitamos de ligações. Precisamos nos sentir conectados, fazendo parte, tendo turma, trocando toques, ideias, emoções e sonhos. Em gaiolas, solitários e abandonados, não importando se a situação seja real ou imaginária, vamos fazer besteira. E quanto maiores forem os castigos, as ameaças e os abandonos, pior a besteira.

Então, temos que mudar muita coisa, começando com nossas próprias cabeças e corações. O oposto de dependência não é sobriedade, mas sim, conexão.

Na próxima semana vou contar de esperanças que se tornaram belas realidades e como estão funcionando.

LAW ENFORCEMENT AGAINST DRUG PROHIBITION: http://www.leap.cc/

O EXPERIMENTO “RAT PARK” EM QUADRINHOS http://www.stuartmcmillen.com/comics_en/rat-park/#page-1

THE CULT OF PHARMACHOLOGY: HOW AMERICA BECAME THE WORLD’S MOST TROUBLE DRUG CULTURE, Richard DeGranpre, Duke University Press, 2008

THE TROUBLE WITH TOUGH LOVE http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/01/28/AR2006012800062.html

THE WAR WE ARE LOSING, Milton Friedman http://druglibrary.org/special/friedman/war_we_are_losing.htm



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

EM DEFESA DA LERDEZA

Estava aqui tendo um ataque de saudades de Carminha, minha secretária por tanto tempo que não precisa ser contado, e do mundo que costumava conhecer.
O ataque deveu-se a um momento no qual me dei conta que estava perfeitamente enlouquecida, pois, domingo de manhã, teóricamente dia universal, pelo menos para mim, de folga de qualquer ligação trabalho/foco/organização, me vi, com um pé, fazendo cosquinhas em minha cachorrinha, o outro fazendo força numa especie de pedal, que faz parte da fisioterapia, uma mão segurando o celular e a outra digitando, mandando e mail, textando, organizando artigos, selecionando rotas alternativas na estrada, fazendo lista de supermercado.
E só me dei conta da insanidade, porque súbitamente a cachorra ganiu, o celular saiu voando de minha mão, e dei um chute no pedal.
Que qui é isso, companheira?

Sentada no chão, acalmando a ganinte enfurecida canina, comecei a pensar sobre o que, sub repticiamente, estava me acontecendo. Primeiro, que detesto celular. Perdi inúmeros, passei com o carro em cima de um, outro foi assassinado por um pick up ao saltar do bolso de minha camisa, esqueço a coisa dentro de bolsas e gavetas, volta e meia tenho que pedir a alguém que me chame para descobrir onde foi parar. Pensava que a coisa existia com duas grandes finalidades: chamar assistência em caso de acidente de carro e tirar fotos, coisa na qual tenho melhorado bem. Aguento com bom humor as piadinhas de colegas mais versados tecnologicamente a respeito do meu citado, que já está sendo chamado de “antiguidade”, posto que é um I4, e já estamos no 6, escuto, com meio ouvido, os discursos sobre quantas possibilidades estou perdendo, e vou indo muito feliz com os computadores e Ipads da vida, onde, não só enxergo o que estou fazendo, como também consigo digitar sem ter que apagar 3 em 4 letras quando estou mandando msgs. Ou pelo menos pensava eu.

De repente, lembrei-me com a emoção de amante abandonada, como nunca me preocupei em aprender a mandar um fax, pois Carminha sabia, assim como sabia todos os telefones e aniversários de familiares, amigos e pacientes, bastando-me assinar os cartões. Nem com datas de contas a pagar, pois todas as segundas feiras, antes de começar os atendimentos, lá estava ela com a lista semanal de todas as necessidades. Para escrever artigos ou livros? Simples: pesquisa- organiza-escreve-passa para a Carminha-que passa para a Lucy da APM, e acabou meu problema. Só precisava me lembrar de, em caso de atraso no hospital, pedir para a secretária do hospital onde estivesse, para ligar para meu consultório para avisá-la e ela se encarregava de reorganizar todos, pois sempre detestei a coisa de paciente ter que ficar esperando na sala de espera. Se tem hora marcada, é meu dever honrar citada marcação.

Destarte, em tendo terminado o dia de trabalho, livre, leve e solta estava para fazer o que bem me desse na telha, e descubro que, embora na época tivesse muito mais longas horas de trabalho do que tenho agora, tinha muito mais tempo disponível. Aqui, tive que aprender desde a mandar fax, aprendizado totalmente inútil, que, tão logo aprendi, desapareceu, como a tirar xerox com máquinas muito mais espertas do que eu, a editar e corrigir meus escritos, a organizar no Google todos os aniversários e acontecimentos, o que, tendo família e amigos espalhados nos 4 cantos do mundo, não é fácil, e ser informada, depois que comecei este blog em português, que estava com atraso de 2 revisões ortográficas, fato evidenciado com minha ideia insana, mas que me divertiu às pencas, de auto publicar, pela Amazon, meu primeiro livro totalmente fora de minha área, corrigido por santa Teresa e seu filho Henrique, que me informaram que não mais poderiam ver uma couve-flor na frente, de tantas que tiveram que hifenar.

E me lembrei do espanto, quando aprendi, numa visita à NASA, que a porcaria do celular que tinha na bolsa, era milhares de vezes mais potente que o computador que colocou o homem na lua ou o mais avançado dos computadores da IBM há 30 anos atrás. Fora a vergonha de pensar que a única coisa que estava fazendo com tal maravilha, era tirar fotos de flores e cogumelos esquisitos aqui do Texas. E da minha desconfiança a respeito dos assim chamados “multitaskers”, esses seres incríveis que fazem mil coisas diferentes ao mesmo tempo, e como, de repente, essa era a coisa certa a ser.

Artigos aos milhares foram escritos, o pessoal de RH subiu aos céus pela falta de foco, pois nos diziam que o Curriculum (e aqui se usa uma coisa esquisita, chamada de Resume), devia ser escrito de formas a chamar a atenção do profissional da área em menos de 15 segundos, que era o tempo que a criatura tinha para gastar com cada um. Acho que minha desconfiança também tinha um pouco a ver com inveja, posto que não sei multitaskear, preciso focar, e muito, no que estou fazendo, correndo o risco de, ao cantar e cortar tomates, provocar sérias lesões digitais. Então, o que foi que me aconteceu?

Aconteceu que “engoli” a ideia, muito americana, de “quanto mais, melhor.” Pensem comigo: todos os dias e todas as horas, somos assaltados com fatos, pseudo fatos, besteiras crassas, barulho, tudo passando como se fosse “informação”, e tentar separar o joio do trigo, isto é, o que precisamos saber do que há que se ignorar, é exaustivo. Há uns 30 anos, quando queria ir a um Congresso, informava Carminha, que ligava para o agente de viagens, que arrumava tudo. Ou quando entrava numa loja, informava o atendente do que queria, e ele/ela achavam o item no ato. Agora, fazemos as reservas, rodamos as lojas a procurar o que precisamos e as secretárias estão ocupadas com as coisas do departamento, e não com as necessidades dos humanos que compõem o citado. Isso sem contar as coisas fora do trabalho, casa, marido, filhos, pais, amigos, passatempos, cachorro, periquito e papagaio.

Assim, o celular tornou-se uma espécie de canivete suíço, Bombril com mil e uma utilidade, que incluem, mas não estão limitadas a browser da net, calculadora, agenda, e-mail, joguinhos, calendário, gravador, homem do tempo, GPS, Tweeter, Face book e lanterna para achar as baterias das lanternas quando há apagões. E usamos a coisinha o tempo todo, como parte da mania do século 21, de enfiar tudo o que fazemos em todo em qualquer momento em que estamos, teoricamente, sem fazer nada. É na fila do supermercado (Não, isso não faço mesmo, adoro conversar com o povo e/ou checar todas as revistas de fofocas de celebridades que lá estão, em toda sua glória), jantando em restaurantes (outra coisa que me irrita, o celular, não o jantar), na sala de espera do médico/dentista ou qualquer outra espera (faço com gosto), nos 3 minutos que leva para baixar um arquivo grande (lá vou eu checar Face book, com a desculpa esfarrapada de que, em lá tendo uma página, tenho que estar atualizada...em que, não sei bem), enfim, deu para ter uma ideia. Tornou-se um perigo a ida a um supermercado, que a criatura, manejando um carrinho mais do que cheio, está também digitando textos no seu I qualquer coisa.

E é ai que mora o perigo, pois, apesar de que pensamos que estamos realmente fazendo um montão de coisas ao mesmo tempo, isto não é nada além de ilusão diabólica.

Earl Miller, neurocientista do MIT e um dos maiores especialistas mundiais em atenção dividida explica: “Nosso cérebro não está aparelhado para executar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Quando pensamos que o estamos fazendo, na realidade estamos saltando de uma tarefa a outra, muito rapidamente, e, cada vez que o fazemos, há um custo cognitivo a pagar. Portanto, não estamos realmente mantendo um monte de bolas no ar como um malabarista, mas sim atuando como crianças confusas, mudando constantemente de direção, sem saber como chegar e ignorando o que está bem na nossa frente, preocupados com tudo o que não conseguimos ver. Assim, mesmo achando que estamos fazendo um montão de coisas, se estamos multi tarefando também estamos nos tornando muito menos eficientes.” (A tradução é minha. A fala dele é bem mais elegante).

O multitarefar aumenta a produção do hormônio do stress (cortisol) e do hormônio da resposta de luta ou fuga (adrenalina), o que hiperestimula nosso cérebro e causa um embaralhamento no processo de pensamento (os japoneses chamam de “nevoeiro mental"e acho a frase perfeita), o que, por sua vez cria uma espécie de dependência dopaminérgica no nosso sistema de recompensa, fazendo com que necessitemos mais e mais de estímulos externos, exatamente como ocorre na dependência de qualquer droga. Para piorar tudo, porque o cérebro quando dá de avacalhar, o faz em tamanho gigantesco, o córtex pré-frontal adora novidades, o que significa que a atenção pode ser facilmente sequestrada por algo novo - os proverbiais objetos brilhantes/piscantes que usamos para atrair crianças e cachorros. A ironia, para aqueles que estão tentando se concentrar em meio a atividades que competem com a atenção, é clara: a região do cérebro na qual mais precisamos confiar para permanecer na tarefa é facilmente distraivel. Atender o telefone, procurar algo na internet, verificar o nosso e-mail, enviar um SMS, etc., etc., e etc., cada uma dessas coisa é uma possibilidade de novidade, e os centros de recompensa cerebrais ganham uma inundação de opióides endógenos (e é por isso mesmo que nos sentimos tão bem e continuamos a repetir o comportamento, como qualquer droga dependente o faz), em detrimento do permanecer na tarefa inicial. É mais ou menos como se sente alguém, depois de uma semana em dieta muito restritiva, de repente entrar na Cristallo...e, ao invés de colher a grande recompensa que vem do esforço sustentado e concentrado, de dieta e exercícios, colhe a recompensa imediata, e cheia de açúcar dos docinhos piscantes. (Caso alguém prefira qualquer outra loja de doces, sintam-se à vontade para alterar. É que sou fã inconteste da Cristallo, desde criancinha, e conheço bem o “rush” opiáceo que tenho, sempre que entro em qualquer uma das lojas.)

Ainda me espanto quando, em reuniões de equipe (e aqui, para ser honesta, devo informar que detesto essas reuniões, pois acho que um bando de gente, usualmente inteligente, vira criança ranheta, cada um puxando sardinha para seu lado, raramente resultando algo que preste), as pessoas respondem ao celular dizendo “desculpa, não posso falar agora, estou em reunião’. Para que responder? Deixa o chamante deixar recado! Mas entendo que as expectativas mudaram muito, desde os tempos que os telefones ficavam na mesa do escritório ou em algum lugar da casa, e o povo entendia que, às vezes, a pessoa que era chamada podia não estar perto do telefone, ou ter saído, ou estar ocupada com outras coisas, e então, respeitosamente deixava-se recado para que nos chamassem de volta à melhor conveniência daquele que havia sido chamado. Como agora o celular passou a ser apêndice de orelha, e tem gente que vai até ao banheiro com ele, a expectativa é que todos estejam, todo o tempo, disponíveis para nossas necessidades.

Glenn Wilson, professor de Psicologia no Gresham College, em Londres diz que, só a oportunidade de poder desempenhar múltiplas tarefas, já é prejudicial ao desempenho cognitivo, e chama a isso de “infomania”. Sua pesquisa demonstrou que o estar numa situação na qual se está tentando concentrar em uma tarefa, e se é avisado que há um e-mail novo na caixa, pode reduzir em 10 pontos nosso quociente de eficácia. Compara a coisa ao uso de maconha, onde, embora alguns atribuam muitos benefícios à droga, incluindo uma maior criatividade, redução da dor e do estresse, é bem documentado que o seu ingrediente principal, o canabinol, interfere profundamente com a memória e com a capacidade de concentração. Wilson mostrou que as perdas cognitivas de multitarefa são maiores do que as perdas cognitivas do fumar maconha.

Russ Poldrack, neurocientista de Stanford, descobriu que, quando desempenhamos múltiplas tarefas, a informação ligada ao aprendizado, vai parar na parte errada do cérebro. Se alguém está estudando e assistindo TV, por exemplo, a informação da matéria estudada vai parar no corpo estriado, região especializada no armazenamento de novas habilidades e procedimentos, e não de fatos e ideias. Sem a distração da TV, a informação vai para o hipocampo, onde é organizada e categorizada, de formas a facilitar sua recuperação quando necessário.

E o já citado Miller, completa: “Não podemos desempenhar bem várias tarefas ao mesmo tempo. Quando dizemos que podemos, estamos nos iludindo, e acontece que o cérebro é bom demais nesse negócio de ilusão.”

Daniel J. Levitin, em seu livro “The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload” (A mente organizada: pensando direito na era da sobrecarga de informação – tradução minha, ao pé da letra, pois não conheço o título em português), fala dos custos metabólicos dessa sobrecarga, dizendo: “Pedir ao cérebro que mude de uma atividade a outra, faz com que o córtex pré frontal e o corpo estriado queimem glicose oxigenada, o mesmo combustível que é necessário para permanecer em uma tarefa. E a mudança rápida e contínua que fazemos ao “multitarefar”, faz com que queimemos o combustível tão rapidamente que nos sentimos exaustos e desorientados, mesmo depois de curto período de tempo. Literalmente, esgotamos os nutrientes de nosso cérebro, o que compromete nosso desempenho cognitivo e físico. Entre outras coisas, a alternância de tarefas repetidas leva à ansiedade, o que aumenta os níveis de cortisol, (hormônio do estresse) no cérebro, que por sua vez pode levar a um comportamento agressivo e impulsivo. Por outro lado, o permanecer na tarefa é controlado pelos corpos cingulado anterior e estriado, que ativam o córtex pré frontal (ou modo executivo central), o qual faz com que permaneçamos numa só tarefa até termina-la, reduzindo assim a necessidade do uso de glucose pelo cérebro. Para piorar a situação, multitarefar requer tomada de decisão: Respondo esta mensagem ou ignoro? Como respondo isso? Como posso apresentar este e-mail? Continuo o que estou fazendo ou dou um tempo? Acontece que tomada de decisão também gasta recursos neurais e pequenas decisões gastam tanta energia quanto as grandes. Uma das primeiras coisas que perdemos é controle de impulsos. Esta espiral rapidamente leva a um estado de exaustão no qual, depois tomar muitas decisões insignificantes, podemos acabar por tomar decisões realmente ruins a respeito de algo importante. Por que alguém iria querer adicionar mais peso ao já enorme peso diário de processamento de informações, tentando multitarefar?”

E é por essas e outras que, depois de ter ficado espalhada no tapete, com minha cachorrinha em cima do peito a me fazer discurso sobre a diferença entre o pedal e a barriga dela, me encher de saudade de Carminha e ter superado minha inveja dos multitarefadores, sou tomada por felicidade grande por ainda me dar o luxo de mandar cartões de natal e aniversários, daqueles que se escreve o endereço à mão e se coloca selo, ou então de usar meu tempo para, pelo menos, mandar um cartão eletrônico. Ou de fazer filminhos para os acontecimentos importantes na vida dos que chamo de “minhas crianças”. Ou de comer melancia pelo puro gosto de cuspir os caroços e observar as trajetórias. Sou uma antiguidade sortuda.

E se o preço a pagar são umas gozações cá e lá...tá barato!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

EM DEFESA DO ESCULACHO

“Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”. Erasmo de Rotterdam

E lá se foi uma semana da tragédia em Paris. Saldo: 22 mortos (12 do Charles, 3 policiais, 4 pobres coitados que, pecado dos pecados, faziam compras num mercado, os 2 atiradores da revista e um assecla.). Concomitantemente, em Baga, na Nigéria, o Boko Haram, grupo islâmico extremista, fuzilou cerca de 2000 pessoas, em sua maioria velhos, mulheres e crianças, que “não conseguiram correr a tempo” (http://jezebel.com/boko-haram-massacre-kills-up-to-2-000-mostly-women-ch-1678541680 ), e uma menina de 10 anos, embrulhada em explosivos, foi explodida num mercado em Maiduguri, também na Nigéria, matando uns 20 e ferindo cerca de 50. E, cerejinha no bolo, a fantástica demonstração de “Je suis Charlie”, nas ruas de Paris, em nome da liberdade de expressão, tendo à frente os seguintes campeões da anteriormente citada: Presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, onde aconteceu o maior número de jornalistas presos, nos anos de 2012 e 13, Presidente Ali Bongo do Gabão, pais onde as críticas ao governo são francamente desencorajadas, via leis anti libelo e ataques físicos aos jornalistas, ministros do Egito, Algéria e Emirados Árabes, que como se sabe, são um primor na liberdade de expressão. O embaixador da Arábia Saudita, onde um blogger foi sentenciado a 1000 chibatadas por blasfêmia, os cabeças do conflito Palestina/Israel e o Putin, na terra do qual, acabou de passar uma lei, proibindo que pessoas transexuais tirem carta de motorista. E nem comento da fúria ressurgente da extrema direita na França, com Le Pen, nem das manifestações anti islâmicas na Alemanha, após comentário da Merkel, há cerca de um ano que “a experiência multicultural obviamente não funcionou”.

E o verdadeiro grande herói dessa história toda, Lassana Bathily, 24 anos, negro, muçulmano, imigrante, carregador de mercadorias num mercado kosher, salvou um bando de gente, enfiando-os no freezer. Cadê as honras?

E os artigos. Ah! Os artigos, os comentários em todas as mídias, preciosidades desde liberdade absoluta, incluindo irresponsabilidade pessoal, de poder mijar em porta de prédios, a comparar bullying e insultos pessoais a sátira, aos “somos contra assassinar mas... (ai vem a variedade: não se insulta fé, religião, religiosos, etc., etc., etc.,) a os totalmente delirantes feito o twitter do Rupert Murdoch (dono da Fox News entre outros meios midiáticos) “Talvez muitos Muçulmanos sejam pacíficos, mas enquanto eles não reconhecerem e destruírem seu próprio câncer jihadista, eles precisam ser responsabilizados”, twitter que foi mais do que brilhantemente esculachado por J.K. Rowling, que mandou: “Eu nasci cristã. Se isso faz com que Rupert Murdoch seja minha responsabilidade, eu me auto excomungarei.”; e Aziz Ansari, que escreveu: “Rups, será que podemos ter um guia passo a passo? Como poderiam meus pais, de 60 anos, morando em NC, ajudar a destruir grupos terroristas? Por favor ensine.” E continuou em outro twitter: ‘Você está se responsabilizando por toda a diabólica shit que os cristãos fizeram ou só por aquela que você mesmo faz?”

E é esse o poder, a beleza e a força do humor, da sátira, que foi o que modificou o mundo, desde seus primórdios, gostássemos ou não (como é meu caso), dos do Charlie. Porque a gargalhada escrachada, o sorrisinho torto, a língua solta, o pensamento desenfreado, além de nos meterem em problemas, também nos libertam de grilhões.

Freud explicou o humor, como a coisa que acontece quando o consciente permite a expressão de pensamentos que a sociedade, no geral, suprime ou nega.Um superego benevolente permite um tipo de humor leve e reconfortante, enquanto um superego duro cria o humor sarcástico e amargo. Já um superego duríssimo, suprime totalmente qualquer possibilidade de humor. Alguém já viu alguma foto de Hitler, Stalin, Mao, Pinochet, Mugabe, Kim-Jong, Idi Amin Dada, Lenin, Sadam Hussein, Yahya Khan, Garrastazu Médici, o famoso triunvirato argentino da guerra das Malvinas, só para falar dos que me lembro, assim de cabeça, rindo às gargalhadas de si mesmos?

Aliás a guerra ao riso e à liberdade de pensamento, não é fenômeno moderno. A mitologia grega nos traz “Prometeu acorrentado”, que é o relato do castigo infligido por Zeus a Prometeu, cujo grande pecado foi roubar o “fogo do conhecimento” do Olimpo, e dá-lo aos homens. No Cristianismo, temos Eva sendo punida por ter comido o fruto da árvore do conhecimento (e cá na minha modesta opinião, Adão inventando a desculpa besta: “Senhor, foi a mulher quem me tentou!”).

Na Igreja Católica, temos o Index Librorum Prohibitorum, oficialmente nascido em 1559, para elencar os livros cuja leitura é aos católicos proibida, e que, embora oficialmente abolido em 1966 pelo papa Paulo VI, sobreviveu ao Concilio Vaticano II, sob forma de “guia bibliográfico”, aos cuidados do Opus Dei. Mas, muito antes disso, o primeiro Concilio de Niceia, em 325, proibiu a difusão das ideias de Ario, cujas obras foram queimadas, dando início a longa tradição, que até hoje perdura. A coisa mais irônica nessa história, é que Ario e os Arianos seus seguidores, acabaram sendo conhecidos pela insanidade nazista, como os loiros de olhos azuis, a raça perfeita em nome da qual se mataram, das formas mais perversas, 6 milhões de criaturas, em sua maioria judeus, mas também ciganos, qualquer um com deficiências físicas e/ou mentais, e, é claro, gays. Na realidade, Ario era um teólogo egípcio (consequentemente mais pro moreno do que loiro), que foi excomungado como herético, porque acreditava na não divindade de Jesus. Acreditava ele que o Cristo havia sido “adotado” por Deus Pai, e desta forma, dotado de poderes divinos para salvar a humanidade. A primeira lista de livros “heréticos”, se deve ao papa Gelásio I (o mesmo que eliminou a festa romana do amor pagão -14 de Fevereiro-e a substituiu por um santo, santificado naquele momento: são Valentim, e até hoje, na Europa e aqui nos USA, é o dia dos namorados), em 494.E a coisa foi ficando tão feia, que até a Bíblia foi proibida, quer as escritas em “línguas vulgares”, quer para aqueles que não fossem eclesiásticos. Para atarraxar mais ainda, que provavelmente o até aqui não bastava, eis que vem Alexandre VI (ele mesmo, Rodrigo Borgia, um dos mais senão o mais corrupto dos papas, com uma multidão de filhos ilegítimos, obcecado por sexo e vinganças, e que vendeu centenas de títulos cardinalícios porque simplesmente gostava de dinheiro. Depois dele foi instituída a castidade para padres) e institui o Imprimatur, isto é a autorização oficial a qualquer material escrito (Nihil obstat quominus imprimatur), que nada mais era do que censura preventiva.

Só para dar um gostinho, dentre os autores no Índex estão:
Alexandre Dumas (os dois, pai e filho), Anatol France, Curzio Malaparte, Dante Alighieri, Darwin,Descartes,Erasmo de Rotterdam,Francis Bacon,Freud,Galileo Galilei, La Fontaine ,Madame de Staël, Montesquieu, Nicolau Copérnico, Nicoló Machiavelli, Pascal, Pierre Larousse (esse mesmo, o do dicionário),Simone de Beauvoir, Stendhal,Voltaire,Victor Hugo (e, por uma questão de espaço, só coloquei aqui meus preferidos, tem bem mais do que isso).

E, já que estamos a falar de censura, que tal lembrar da Inquisição? A ideia da coisa foi para combater heresias. Começou no séc.12, na França, onde se acabou com os Cátaros, Valdenses, Hussitas, Beguines e Franciscanos Espirituais. No início, os Inquisidores eram escolhidos da Ordem dos Dominicanos, depois que se espalhou pela Europa toda, ficaram mais democratas, incluindo outras ordens. De Portugal e Espanha, espalhou-se pela América centra e latina, Ásia e África. Piorou muito no fim da Idade Média, como resposta à reforma Protestante, e com exceção dos estados papalinos, foi abolida no início do século 19, depois das guerras napoleônicas na Europa. Subsistiu como parte da cúria romana até 1904, quando ganhou o nome de Suprema Congregação Sagrada do Santo Ofício, e em 1965 tornou-se Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo agora papa emérito Benedito XVI, quando ainda se chamava cardeal Joseph Aloisius Ratzinger.

Pergunto eu, o que tem a ver a fé pessoal com a Instituição Religiosa, qualquer que seja essa? Jamais me ocorreria, melhor dizendo, pode até me ocorrer, mas não cometeria o ato de insultar a fé de qualquer pessoa, embora me reserve o direito de aplaudir em pé Dante Alighieri, quando coloca os papas Nicolas III e Bonifácio VIII no nono círculo do Inferno, sob o pecado de simonia, que é o abuso de privilégios, principalmente os clericais. Segundo bom Dante, isso equivale a prostituição espiritual, fornicação e estupro ((Inf. 19.1-4; 55-7; 106-11), pois é a perversão do sagrado matrimônio entre Cristo e sua Igreja. Ou como Erasmo de Rotterdan crítica, com muito humor, os excessos, tanto da Igreja Católica à qual sempre pertenceu, quanto os da reforma Luterana, apesar de ser amigo e admirador de Martin Lutero.

“A sátira é um gênero de literatura, artes gráficas e espetáculo, em que vícios, loucuras, abusos, e deficiências são tornadas ridículas com a intenção de humilhar corporações, governo ou a própria sociedade, em busca de melhoras. Embora seja geralmente concebida para ser bem-humorada, seu propósito maior é a crítica social, utilizando inteligência como arma e como ferramenta para chamar a atenção para problemas específicos e mais amplos de uma sociedade” (Elliot, Robert C.: "The nature of satire", Enciclopédia Britânica, 2004).

Historicamente, a sátira satisfez a necessidade popular de desmascarar e ridicularizar as principais figuras da política, economia, religião e outros reinos proeminentes de poder, pois confronta o discurso público, desafiando líderes e autoridades, expondo problemas e contradições. Por sua natureza e função social, tem desfrutado em muitas sociedades uma licença especial para zombar de indivíduos e instituições de destaque (na Alemanha e na Itália, há leis específicas para isso). O impulso satírico e suas expressões ritualizadas, tem a função de resolver tensões sociais, representando uma válvula de escape, que restabelece o equilíbrio e a saúde no imaginário coletivo, os quais são postos em perigo pelos aspectos repressivos da sociedade.

“Na história de nossa cultura, a sátira realizou o sonho popular de ridiculariza e profanar os gigantes político/econômicos/culturais, cuja reações punitivas certamente não foram condicionadas pela crítica estética, mas sim pela tolerância ou intolerância caracterizadas, naquele momento histórico, pela sociedade e seus governantes.”( Bevere, Antonio e Cerri, Augusto (2006) Il Diritto di informazione e i diritti della persona ).

E, devido a todo o acima citado, os que satirizam sempre tiveram problemas ao se contenderem com a falta de humor dos satirizados, que poder não acha graça ao se olhar no espelho.

E já que estamos falando de cultura islâmica, vamos recordar que, no século 9, Al-Jahiz introduziu a sátira (hija) na literatura árabe, iniciando com a ironização da preferência humana por grandes pênis, escrevendo: “Se o tamanho do pênis fosse um sinal de honra, a mula faria parte da honorável tribo de Quaraysh”. No século 14, Ubayd Zakani introduziu a sátira na literatura persa. Ele foi famoso por seus versos obscenos, relacionados a práticas homossexuais.

Então, enquanto a Europa estava mergulhada nas trevas da Idade Média, o que chamamos de Islam desenvolvia-se culturalmente, com invenções como a matemática, medicina e sátira a rodo, e seu declínio iniciou-se exatamente quando foi posto um mulá, em cada sala de aula, para se certificarem de que o que fosse ensinado estaria exatamente de acordo com os escritos do profeta.

Infelizmente, pelo que tenho visto aqui nos USA, parece que queremos seguir pelo mesmo caminho do eterno retorno, expurgando autores como Mark Twain, porque fala sobre escravidão, expurgando livros de história quando os fatos históricos não se conformam com a visão do extremismo religioso, dando espaço enorme a esse mesmo extremismo na arena política, em detrimento do livre pensar.

Então, sim, Je suis Charlie e os milhares de muçulmanos mortos pelos próprios extremistas (aliás, a grande maioria dos assassinados) e todos aqueles que sofreram qualquer ataque por ter idéias diferentes do momento histórico/cultural no qual viviam, incluindo a estatística horrenda que aprendi recentemente, a respeito do Brasil, isto é, 87 jovens são assassinados por dia, e 77% são negros).

“Sempre pedi a Deus uma única coisa: Senhor, faça com que meus inimigos sejam ridículos. E Ele me atendeu.” Voltaire

“Charlie Hebdo não é uma revista “islamofaba, pela simples razão de que é ridículo acusar quem faz sátira, de fazê-lo por uma “persistente e irracional medo do islam”, ou quem faz uma piada sobre o Papa, de fazê-lo porque é “cristãofóbico”. Charlie hebdo é parte de uma grande tradição: a libertária, desbocada e anticlerical ironia que sempre esteve a tapas com os dogmas e conservadorismo endêmicos nas religiões. Todo leigo deve defender o direito de rir, comentar e criticar ideologias e sistemas de pensamento de todos os tipos sejam eles seculares ou religiosos. Arreliar idéias é o que fazemos todos os dias, com aqueles que votaram num partido diferente do nosso ou professam doutrinas que não compartilhamos. É a própria raiz da sátira. E é completamente diferente de uma pessoa insultando ou ironizando uma característica inata de outra, como a cor da pele ou etnia: na verdade, é o oposto do racismo.” (Giovanni Fontana –Piccolo Dizionario al contrario sulla strage di Parigi – Limes- revista italiana di geopolítica- http://temi.repubblica.it/limes/piccolo-dizionario-al-contrario-sulla-strage-di-parigi/67594?printpage=undefined)

Abaixo, livros que podem ser baixados gratuitamente. Farei isso, sempre que possível, com os pertinentes ao assunto em questão.

CÂNDIDO http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/candido.html

O ELOGIO DA LOUCURA http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/erasmo.html