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quarta-feira, 22 de julho de 2015

COMO LIVRAR-SE DOS TRAUMAS DO PASSADO

Há eventos negativos que ficam dentro da gente, e se os alimentamos, nos fazem sofrer.
São laços existenciais que precisam ser quebrados para prevenir depressão e para nos renovarmos.
Usualmente, chamamos esses eventos negativos de “traumas”.
São coisas que nos marcaram tão fortemente, que até hoje, depois de anos, continuam a poluir nossa vida.
Não estou falando só de lutos, mas também de separações, perdas de emprego, dificuldades financeiras, doenças, acidentes horriveis, sustos, falhas, erros, e assim vai.
São eventos que, ao invés de serem elaborados psicologicamente por aqueles que os viveram, e em seguida superados, ficaram fixados em sua dramaticidade e tranformados no “GRANDE TRAUMA”,
tipo de totem do sofrimento, do qual todos, seja quem viveu a experiência, seja quem sofreu indiretamente pelos seus efeitos, devem levar em consideração.
Há familias nas quais se continua vivendo um luto acontecido há 30 ou 40 anos, por exemplo, os filhos sentem a dor da mãe ou do pai que perdeu prematuramente um dos pais. Essa dor continua viva. Ou em casos de doença grave,que mesmo depois de superada, mantém todos os familiares em estado de alerta por muitos anos, sem qualquer motivo real.
Ou existe o “grande segredo”
, algo acontecido anos antes (traições, separações, problemas com a justiça), algo sobre o qual não se fala, mas do qual todos sentem a inquietante presença, e assim, a vida da familia permanece bloqueada pelo evento/trauma, ao qual todos se referem e que parece insuperavel. Cada membro da familia parece precisar pagar um preço pelo acontecido: por exemplo, um filho não consegue se dar aquilo que não foi permitido a seus pais, por temor de ser injusto com eles; outro não se sente livre para ser feliz, para não “trair”o sofrimento dos outros familiares; um dos pais se sente culpado por algo que talvez nem tenha cometido; um parente qualquer é tido como culpado por não ter respeito pelo “sagrado evento”.
Mas, é sobretudo a atmosfera geral
respirada na familia que tem um poder depressivo: a contínua re-evocação (explícita ou subliminar) do GRANDE TRAUMA, que impede o livre fluir, quer das existencias individuais, quer das relações, e joga um balde de sensações de tristeza e de fatalidade até mesmo sobre projetos sentidos como autênticos por cada um dos familiares.
O sair desse pântano de pessimismo e autocomiseração generalizada é indispensavel para prevenir depressões que não precisavam estar lá e ampliar os própios horizontes, e, a primeira coisa a fazer é CORTAR POUCO A POUCO AS RAIZES DA LEMBRANÇA.

Como?

1-PARA DE FALAR A RESPEITO.

Não envolva nessa atmosfera o mundo externo à familia, tipo novo companheiro/a, novos amigos, colegas de trabalho, quer fisicamente, quer por confidencias. Isso vai lhe permitir viver mais livremente, de se mostrar diferente a respeito do papel familiar e de não se sentir julgado por aqueles que, ou não podem entender ou entendem bem demais.

2-NÃO SEJA CÚMPLICE

A força de inércia da familia que vive na lembrança do TRAUMA, é enorme e tentar convencer os familiares envolvidos na mesma a mudar, é missão impossivel. A melhor coisa a fazer, é simplesmente não compactuar com as lembranças, com as referencias continuas, com os comportamentos que “nutrem”o totem do trauma, como por exemplo, não fazer o que nos dá prazer para respeitar a dor dos outros.

3-NUTRA SEU PRÓPRIO ENTUSIASMO

Não permita que sua energia vital imploda. A chantagem da culpa pode ser vencida com facilidade e consciência, fazendo, às vezes, as coisas que você sente que realmente quer fazer e observando como, a cada vez que encontrar resistência dos parentes, esta vai se enfraquecendo cada vez mais, às vezes até mesmo os mais resistentes serem infectados pelo seu entusiasmo. Fique atento porém, porque isso funciona exatamente como a lavagem de panela de assado: costuma ficar muito pior antes de melhorar.


COME LIBERARSI DEI TRAUMA DEL PASSATO

quinta-feira, 9 de julho de 2015

COMO TERAPEUTAS VIVENCIAM O LUTO - ROBIN WEISS

Recebi este artigo de grande amiga e excelente psicologa, cujo nome não citarei, pois não pedi licença, num momento importante da vida dela, que perdeu o pai há pouco tempo, e o marido há alguns anos. Fora nossa história de trabalho em conjunto, temos a história de 2 alienígenas caídas numa cidadela do interior texano, eu recém-chegada do Brasil, ela de Houston, ambas de cidades grandes tentando nos adaptar a um mundo estranhissimo. Nossa sorte é que trabalhavamos em Fort Worth, ela um dia por semana, eu todos os dias, o que nos salvou do ensandecimento (pelo menos era o que dizíamos uma à outra, os maridos concordando, pois, outra saída não tinham). Rapidinho, montamos uma rotina de café às quartas feiras, às 2 da tarde, chovesse, nevasse ou fizesse sol, andadas à noitinha com minha cachorra Lucky, 3 vezes por semana e as datas importantes: Reveillon, na minha casa, jantar e champagne. Cerimonia do Oscar no mesmo local, com pizza feita por mim, vinho trazido por ela, e enquanto o marido dela e o meu se estufavam com a citada, nós duas falávamos mais que a boca e continuo achando que nossos comentários eram mais interessantes que a cerimônia em si. Quatro de Julho no clube, todos se estufando de cachorro quente e hamburgers, com final de fogos. Todos os feriados judaicos na casa dela, assim como o Thanksgiving, no qual o marido dela, que era cirurgião plástico, tinha a honra de destroçar o peru, assistido e aplaudido pela platéia cheia de fome, constituida, além de uma italo/brasileira e de um galês, de todos os filhos e filhas dele com maridos e esposas, cada qual de um canto do mundo. E as graças dadas na lingua materna de cada qual, o que levava cerca de meia hora entre discurso e aplausos frenéticos da galera que já havia atacado os vinhos no momento do corte do peru. Natal em casa, com direito a árvore, músicas natalinas e uma mistura de comidas típicas de Natal de todos os continentes conhecidos. E assim sobrevivemos, vivemos e nos divertimos na cidade da “água louca”, que é uma outra história, que contarei de outra vez.
Assim, tenho que traduzir o artigo, não só pela beleza dele, mas como uma homenagem à minha amiga. חופשי על הבר Dr. GBB, PhD e a todos os psicólogos e psiquiatras esforçados que tive a sorte de conhecer vida a fora.

“Um dia, logo depois de sua biópsia cerebral, fui visitar Joseph no hospital, carregando dois sanduíches de corned beef (o nome em inglês é lindinho, mas é carne em lata) em pão de centeio. Achei de almoçarmos juntos, da melhor forma possível, agora que ele entra e sai da consciência.
Entro no quarto.Estou com sorte! Joseph está acordado. Ansiosamente ele desembrulha o sanduíche e coloca o picles amorosamente ao lado de uma das metades. Tira a parte de cima do sanduíche e inclina a cabeça para o lado para dar uma olhada.
“Sem gordura? ”A voz dele aumenta, com incredulidade. A auxiliar de enfermagem, sentada no canto, que nos havia ignorando até agora, baixa um canto do jornal que estava lendo, para compartilhar um olhar com Joseph, que também arqueou uma sobrancelha. Eles se unem em desprezo. Eu posso ser médica, mas meu QI para carne enlatada é baixo.
"Dr. Weiss ", diz Joseph, de um jeito quase parecido com sua tonitruante voz, "Da próxima vez que me trouxer corned beef ... por favor, não me traga magro."
Eu sorrio. Este é o Joseph que conheço tão bem. Mas vai ser a última frase coerente que vou ouvir dele. Dois meses mais tarde, estarei em seu funeral.
Abro meu arquivo e tiro vários prontuários: pacientes que morreram enquanto eu os estava tratando, ao longo dos últimos 20 anos em que estive trabalhando em consultório como psiquiatra. Estou juntando material para escrever sobre como os terapeutas sentem quando um paciente morre. Faço algumas observações.
Em primeiro lugar, vejo que os prontuários permanecem no meu "ativo" no arquivo, não os mudei para o arquivo "inativo" - seu verdadeiro lar.
Em segundo lugar, noto que tenho desenvolvido um ritual automático de recordação. Sempre que meus dedos tocam numa pasta de um paciente morto, paro e fecho meus olhos por um breve momento. Presto uma homenagem silenciosa ao falecido.
Aqui há munição para a fábrica interpretativa. Estou pedindo perdão por ter cometido erros? Por não ter feito o suficiente? Talvez esteja afastando meus próprios medos de ser trancada e esquecida algum dia.
Seja qual forem os outros significados contidos nestas pequenas cerimonias privadas, acredito que falam principalmente do isolamento do terapeuta quando os pacientes morrem, e nós humanos, precisamos criar rituais quando a morte ocorre. Os terapeutas normalmente não socializam com as pessoas na vida de seus pacientes. Não há ninguém para chamar e falar sobre Joseph – não há família ou amigos com quem partilhar memórias, rir ou chorar.
Não me entenda mal; não estou pedindo simpatia ou pena. Não há comparação entre a minha perda e a dos familiares e amigos de um paciente. No entanto, este é um aspecto da minha profissão que raramente é discutido: Assim como o que ocorre na terapia, ocorre a portas fechadas, assim também o faz o luto do terapeuta depois que um paciente morre.
Terapeutas choram e se lamentam sozinhos.
Antes de saber que um enxame de células cancerosas estava invadindo o cérebro de Joseph, pensei que ele e eu poderíamos estar chegando a algum lugar – contra todas as probabilidades. Joseph era um homem talentoso e peculiar, com inúmeros planos para o futuro. No entanto, uma cascata de emergências teve que ser abordada durante os primeiros anos de sua terapia. Seus negócios em mau estado, laços familiares tensos e amigos alienados tinham sido nosso foco, por pura necessidade. Mas nos últimos meses algumas peças mais fundamentais foram se encaixando.
Quando criança, ele nunca foi ouvido. Há mais do que isso, é claro, mas sua crença de que seus pais realmente não podiam ouvi-lo era profunda. Ele estava sendo ouvido em terapia. Talvez agora não precisasse mais gritar o tempo todo.
No que seria a nossa última sessão no meu consultório, Joseph chegou muito atrasado, como sempre. Ele sentou-se na poltrona, contorcendo-se com as dores da artrite, e soltou um gemido existencial: "Oy, gottenyu- ist mir vey." Querido Deus - ai de mim. Ele enxugou a testa com um lenço à moda antiga.
Suas tiradas, ditas em voz tão alta que se sobrepunha ao barulho suave da máquina de ruído branco e chegavam aos ouvidos curiosos de meu próximo paciente, na sala de espera, tinham dado lugar, em sessões como esta, para lágrimas de remorso. No entanto, ainda era difícil ver exatamente como ele iria mudar de vida. O destroço de tantas explosões emocionais com aqueles mais próximos a ele havia bloqueado as vias para o perdão, deixando-o isolado e solitário.
Joseph sabia que eu me divertia a ouvi-lo se referir a mim como "Weiss", e ele brincou, ao sair da sessão, "Eu vou dizer a Rosenbaum que Weiss e eu fizemos um bom trabalho hoje." (Seu amigo Rosenbaum o estava pressionando para "resultados já" com a terapia.)
Então veio uma crise médica súbita e um rápido declínio. Toda a terapia se baseia na esperança de um futuro melhor, e contamos com a possibilidade de ter tempo para isso. Mas o tempo de Joseph tinha acabado.
E aqui vai um segredo que os terapeutas raramente admitem: Nós, frequentemente, acabamos por amar nossos pacientes.
Não estou falando de contratransferência (que é quando o terapeuta desenvolve sentimentos descabidos em relação a um/uma paciente, os quais resultam de relacionamentos mal resolvidos ou vividos na própria vida do terapeuta).
Eu estou falando sobre o amor real, o que surge após anos de ser de alguém que o psicanalista D.W. Winnicott chamou de "mãe suficientemente boa", ou seja, a que fornece o ambiente adequado para o desenvolvimento normal de uma pessoa.
Um terapeuta pode gastar centenas de horas, talvez mais de mil, a ouvir sobre as aspirações mais exaltadas até as mais horrendas fantasias de ódio. Durante este tempo, o paciente vai passar por perdas excruciantes, vergonhas insuportáveis, amarga tristeza e grandes triunfos. Você pode acompanhar os pacientes desde uma adolescência problemática até uma idade adulta torturante. Ou você pode encontrá-los na meia idade e estar com eles à medida que envelhecem e acabam por morrer. Você colabora em um profundo processo de descoberta.
Poucos encontros são tão profundamente honestos, e, portanto, íntimos. O apego gera sentimentos profundos, um tipo particular de amor.
Eu tive amor de terapeuta por Joseph.
No funeral de Joseph, tomo meu lugar na última fila - local do terapeuta - Kleenex na mão. Eu não estou aqui para ser vista ou para o bem da família. Estou aqui pelo meu desejo de dizer adeus ao meu paciente.
Personagens familiares povoam a sinagoga. Lembro-me deles das histórias que ouvi ao longo dos anos em terapia com Joseph. Vejo seus amigos, inimigos e familiares em carne e osso. Sei mais sobre sua vida emocional do que qualquer um aqui. E também sei um pouco sobre essas pessoas - a partir da perspectiva de Joseph, é claro - mais do que eles gostariam de saber o que sei. Que é outra razão pela qual fico escondida na fila de trás: não quero causar desconforto.
O funeral termina. Todos congregam para consolar uns aos outros. Eu escorrego para fora do prédio escuro, para uma luz solar chocante. Em breve eles vão se reunir e comer o meu tipo favorito de comida - bagels, queijo cremoso, ovos cozidos e peixe defumado. Por um momento, eu gostaria de poder me juntar a eles. Eles vão rir até chorar em intermináveis histórias engraçadas do Joseph. Eles vão começar o processo normal de luto, solidificando as suas imagens internas do morto, memórias que vão nutrir e que serão embelezadas, suavizando as bordas abrasivas, assim como deve ser.
Deixo a sinagoga com seus segredos intactos. Suas esperanças e seus sonhos maravilhosos são meus para guardar, para homenageá-lo, até que eu perca a minha própria memória, ou que morra."

Detalhes foram alterados para proteger a privacidade do paciente.
Dra. Robin Weiss é psiquiatra em Baltimore, Maryland, afiliada University of Maryland Medical Center e trabalha na área há 37 anos.

sábado, 27 de junho de 2015

TRAUMA NA INFANCIA PODE DESTRUIR SUA SAÚDE DÉCADAS DEPOIS DE TER ACONTECIDO, E NÓS ESTAMOS IGNORANDO ISSO.

Este post é tradução direta de um TED talk, cujo link está no final. É uma coisa tão séria e tão absurda, que me pergunto como não se fala mais sobre isso, e quanto tempo levei antes de ter alguma informação a respeito. Mas, como não adianta chorar sobre leite derramado, o que posso fazer é espalhar a informação para quantos mais profissionais da área e leigos em geral, quanto puder. Ajudem e repassem. Temos que falar a respeito, berrar a respeito, fazer o que for possivel e mais um pouco, a respeito. Então, aqui vai:

“Em meados dos anos 90, o CDC (Center for Desease Control- Centro para Contrôle de Doenças) e Kaiser Permanente descobriram uma exposição a um único fator, aumentava drasticamente o risco de desenvolver 7 em cada 10 das principais causas de morte nos Estados Unidos. Em altas doses, ele afeta o desenvolvimento do cérebro, o sistema imunológico, o sistema hormonal, e até mesmo a maneira como nosso DNA é lido e transcrito. Pessoas que estão expostas a doses muito elevadas, têm o triplo de risco de vida de doenças cardíacas e câncer de pulmão e uma diferença de 20 anos na expectativa de vida. E, no entanto, os médicos não são treinados para realizar exames ou tratamentos de rotina. Agora, a exposição que estou falando não é um pesticida ou um produto químico numa embalagem. É o trauma de infância.

Ok. Que tipo de trauma estou falando? Não estou falando de falhar em um teste ou perder um jogo de basquete. Estou falando de ameaças que são tão graves ou generalizada que literalmente penetram na nossa pele e mudam nossa fisiologia: coisas como abuso ou negligência, ou crescer com um dos pais que luta com uma doença mental ou dependência de substâncias.
Por longo tempo, vi essas coisas da maneira que fui treinada para vê-las:ou como um problema social ou como um problema de saúde mental , e só tinha que fazer os encaminhamentos necessários. E então algo aconteceu para me fazer repensar toda minha abordagem. Quando terminei minha residência, queria ir para algum lugar onde me sentisse realmente necessária, algum lugar onde pudesse fazer a diferença. Então, vim trabalhar para o Centro Médico do Pacífico, na Califórnia , um dos melhores hospitais privados no norte da Califórnia, e juntos, abrimos uma clínica em Bayview-Hunters Point, um dos mais pobres e carentes bairros em San Francisco. Antes disso, havia apenas um pediatra em toda Bayview para servir mais de 10.000 crianças, e aí fomos capazes de prestar cuidados de qualidade superior, independentemente da capacidade de pagamento. Foi tão legal. Mudamos as disparidades típicas da saúde: o acesso aos cuidados, as taxas de imunização, as taxas de internação por asma, e superamos todas as expectativas. Nos sentimos muito orgulhosos de nós mesmos.

Mas aí comecei a notar uma tendência preocupante. Um monte de crianças estavam sendo encaminhadas para mim com TDAH ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, mas quando eu fazia uma história e exame físico completos,o que encontrava era que maioria dos pacientes não encaixava neste diagnóstico. A maioria das crianças que estava vendo, tinha experimentado trauma tão grave que parecia que alguma coisa diferente estava acontecendo. De alguma forma, eu estava perdendo algo importante.

Agora, antes de fazer residência, fiz um mestrado em saúde pública, onde me ensinaram que, se você é médico e vê 100 crianças bebendo do mesmo poço, e 98 delas desenvolvem diarréia, você pode ir em frente e escrever prescrições de antibióticos sem parar, ou pode dizer: "que diabos há neste poço?" Então comecei a ler tudo o que podia sobre como a exposição à adversidade afeta os cérebros e corpos de crianças em desenvolvimento.
E então um dia, meu colega entrou no escritório, e disse, "Dr. Burke, você viu isso?" Em sua mão, uma cópia de um estudo de pesquisa chamado Experiências Adversas da Infância. Esse dia mudou minha prática clínica e, finalmente, minha carreira.

O Estudo de Experiências Adversas na Infância é algo que todo mundo precisa conhecer. Foi feito pelos doutores Vince Felitti (Kaiser) e Bob Anda (CDC), no qual exploraram 17.500 adultos a respeito de sua história de exposição ao que eles chamaram de "experiências adversas na infância"(ACEs). As questões incluiram abuso físico, emocional e/ou sexual; negligência física ou emocional; doença (s) mental, dependência de substâncias, encarceramento, separação ou divórcio dos pais e violência doméstica. Para cada sim, há um ponto na escala ACE. Daí correlacionaram essas pontuações com os resultados de saúde. O que descobriram foi surpreendente: 1- ACEs são incrivelmente comuns. 67% da população tinha pelo menos um ACE, e 12,6% (1 em cada 8), tiveram quatro ou mais ACEs. 2- Havia uma relação dose-resposta entre ACEs e resultados de saúde: maior a pontuação ACE, pior os resultados de saúde. Para uma pessoa com uma pontuação ACE de quatro ou mais, o risco relativo de doença pulmonar obstrutiva crônica foi duas vezes e meia a mais do que alguém com uma pontuação ACE de zero. No caso da hepatite, também foi duas vezes e meia. Para a depressão, era quatro vezes e meia. Para suicídio, era 12 vezes. Uma pessoa com uma pontuação ACE de sete ou mais tinha o triplo de risco de vida de câncer de pulmão e três vezes e meia o risco de doença isquêmica do coração, o assassino número um nos Estados Unidos da América.

O pessoal começou a olhar esses dados e dizer: “Bem, é claro que isso vai arruinar a sua saúde. Isso não é ciência. Este é apenas mau comportamento”. Ou, "Vamos lá. Você teve uma infância difícil, claro que está mais propenso a beber e fumar e fazer todas essas coisas."

Acontece que é exatamente onde a ciência entra. Agora, entendemos melhor do que jamais pudemos antes, como a exposição à adversidade precoce afeta os cérebros e corpos de crianças em desenvolvimento. Ela afeta áreas como o núcleo accumbens, o centro de prazer e recompensa do cérebro que está envolvido na dependência de substâncias. Ela inibe o córtex pré-frontal, o qual é necessário para o controle de impulsos e para funções executivas como julgamento, e é tmbém uma área crítica para o aprendizado. E em exames de ressonância magnética, vemos diferenças mensuráveis na amígdala, centro de resposta de medo do cérebro. Portanto, há razões neurológicos reais do porque as pessoas expostas a altas doses de adversidade são mais propensas a se envolver em comportamentos de alto risco, e isso é importante saber.

Mas acontece que, mesmo se você não se envolver em qualquer comportamento de alto risco, continua mais propenso a desenvolver doenças cardíacas ou câncer. A razão para isto tem a ver com o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, o sistema de resposta ao estresse do corpo e cérebro e que rege nossa resposta de luta ou fuga. Como funciona? Bem, imagine que você está andando na floresta e você vê um urso. Imediatamente, o hipotálamo envia um sinal para a pituitária, que envia um sinal para a sua glândula adrenal que diz: "hormônios do estresse cortisol! Adrenalina! Avante! E seu coração começa a bater forte, suas pupilas dilatam, suas vias respiratórias se abrem, e você está pronto para lutar com o urso ou fugir dele. E isso é maravilhoso se você estiver em uma floresta na frente de um urso.

Mas o problema é quando o urso chega em casa todas as noites, e este sistema é ativado, uma e outra e outra vez, e ele deixa de ser adaptável, ou salva-vidas, e vira mal adaptado, ou prejudiciais à saúde. As crianças são especialmente sensíveis a essa ativação repetida do stress, porque seus cérebros e corpos estão apenas se desenvolvendo. Altas doses de adversidade não só afetam a estrutura e função do cérebro, que por sua vez, afeta o sistema imunológico em desenvolvimento, o que acaba complicando o desenvolvimento dos sistemas hormonais e até mesmo a maneira como o DNA é lido e transcrito.

Então, para mim, esta informação jogou meu treinamento pela janela, porque quando entendemos o mecanismo de uma doença, quando sabemos não só que vias são interrompidas, mas como, é nosso dever, como médicos, usar esta ciência para prevenção e tratamento. Isso é o que nós fazemos.

Assim, em San Francisco, criamos o Centro de Bem-Estar da Juventude para prevenir e curar os impactos das ACEs e estresse tóxico. Começamos simplesmente com rastreio de rotina de cada uma de nossas crianças em seus exames físicos regulares, porque agora sei que, se meu paciente tem uma pontuação ACE de 4, ele/ela tem duas vezes e meia mais chances de desenvolver hepatite ou DPOC, quatro vezes e meia de probabilidade aumentada de tornar-se deprimido, e 12 vezes mais probabilidade de tentar tirar sua própria vida, quando comparados com um paciente com zero ACEs. Para os nossos pacientes que testam positivo, temos uma equipe de tratamento multidisciplinar, que trabalha para reduzir a dose de adversidade e tratar os sintomas usando as melhores práticas, incluindo visitas e cuidados domiciliares, coordenação dos tratamentos dos vários membros da família, atenção à saúde mental, nutrição, intervenções holísticas, e sim, medicação quando necessário. Mas também é preciso educar os pais sobre os impactos das ACEs e estresse tóxico, da mesma forma que você faria para cobrir as tomadas elétricas, ou envenenamento por chumbo, e adequar o cuidado de nossos pacientes asmáticos e diabéticos de uma forma que entendam que eles podem precisar de um tratamento mais agressivo , tendo em conta as alterações de seus sitemas hormonal e imunológico.

Então, outra coisa que aconteceu quando compreendi esta ciência, é que queria gritar aos quatro ventos, porque este não era apenas um problema para as crianças em Bayview. Imaginei que, no minuto que todo mundo ouvisse falar nisso, se tornaria exame de rotina, com equipes de tratamento multi-disciplinares em todas as clinicas e haveria uma corrida para desenvolver o protocolos de tratamento clínico mais eficazes. Só que nada disso aconteceu, o que foi um enorme aprendizado para mim. O que eu tinha pensado simplesmente como melhor prática clínica agora entendo como um movimento. Nas palavras do Dr. Robert Block, ex-presidente da Academia Americana de Pediatria, "experiências adversas na infância são a maior ameaça à saúde pública para a qual não temos solução ou protocolo em nossa nação, hoje." E para muita gente, essa é uma perspectiva aterrorizante. O alcance ea escala do problema parecem tão grandes, que nos sentimos esmagados só de pensar como podemos abordá-lo.

Mas, para mim, isso é realmente onde a esperança mora, porque quando temos o enquadramento adequado, quando reconhecemos a coisa como uma crise de saúde pública, então podemos começar a utilizar o kit de ferramentas mais apropiado para chegar a soluções. Do tabaco à contaminação por chumbo, ao HIV / SIDA, os Estados Unidos realmente tem um forte histórico no endereçamento de problemas de saúde pública, mas replicar esses sucessos com ACEs e estresse tóxico vai necessitar de determinação e empenho, e quando olho para o que tem sido a resposta da nação até agora, me pergunto, por que não tomamos isso mais a sério?

No começo, pensei que marginalizavamos a questão porque não se aplicava a nós. Era um problema para as crianças de bairros pobres, negros e latinos. O que é estranho, porque os dados não suportam isso, pois o estudo ACEs original foi feito com uma população 70% branca e 70% com curso superior. Mas então, quanto mais falava com as pessoas, mais entendia que estava vendo o problema pelo avesso. Se perguntar quem, nesta sala, cresceu com um membro da família que sofria de doença mental, aposto que algumas mãos se levantariam. E se perguntarsse quantas pessoas tiveram um pai que talvez bebesse demais, ou que realmente acreditava que, se você poupar a vara, você estrague a criança, aposto que mais algumas mãos se levantariam. Mesmo nesta sala, esta é uma questão que toca muitos de nós, e eu estou começando a acreditar que nós marginalizamos a questão, porque se aplica a nós. Talvez seja mais fácil de ver as coisas em outros lugares, longe da gente. Não queremos encarar a coisa, preferimos ficar doentes.

Felizmente, os avanços científicos e, francamente, as realidades econômicas vão tornar essa opção cada dia menos viável. A ciência é clara: a adversidade precoce afeta drasticamente a saúde de toda uma vida. Hoje, estamos começando a entender como interromper a progressão da adversidade precoce, da doença e morte prematura, e em 30 anos a partir de agora, a criança que tem uma pontuação alta no ACE e cujos sintomas comportamentais passam despercebidos, cuja gestão da asma asma não está correlacionada com o resto dos problemas e que passa a desenvolver pressão alta e doenças cardíacas ou câncer precoce, vai ser tão anômala como uma mortalidade de seis meses a partir do diagnóstico de HIV / AIDS hoje. As pessoas vão olhar para essa situação e dizer: "O que diabos aconteceu lá?"

A única coisa mais importante que nós precisamos hoje é a coragem de olhar o problema na cara e dizer, isso é real e isso pode acontecer com todos nós. Eu acredito que nós somos o movimento.”

Nadine Burke Harris   clique aqui

THE ADVERSE CHILDHOOD EXPERIENCES STUDY clique aqui

CALCULADOR ACE EM ESPANHOL E PDF PODE BAIXAR clique aqui

sábado, 23 de maio de 2015

COMO A GENTE SE SENTE TENDO ANSIEDADE

Como usualmente é muito difícil verbalizar o que e como se sente, a fotografa Katie Crawford decidiu mostrar. Em uma deslumbrante série de auto-retratos intitulada "Meu coração ansioso" ,Crawford captura como se sente ao sofrer de transtorno de ansiedade generalizada e depressão - duas condições que tem desde criança.

“Criei o projeto como uma maneira de me expressar, como me sinto como em minha experiência. Eu sei que pode não ser específico para cada pessoa, mas  espero que  crie a oportunidade de abrir um diálogo entre aqueles que sofrem com isso e aqueles que nunca entenderam . Eu quero as fotografias e os seus escritos emparelhados para começar a expressar a constante e esmagadora  presença da ansiedade. Nem sempre é terrível, nem sempre é forte e nem sempre é tão intensa, mas está  sempre por perto”.

“Quero que as pessoas que sofrem de ansiedade possam ser capazes de usar estas imagens como  referência, se precisarem. Há um equívoco  no qual  a maioria acredita:  que as pessoas que sofrem de ansiedade são anti-sociais, impacientes ou  por demais dramáticas. Não são. O que acontece é que processam tudo à sua volta de forma tão intensa que  não conseguem  lidar com um monte de perguntas,  pessoas ou informações  de uma vez só. E eu acho que certas imagens expressam exatamente isso. Ansiedade é quando você sente tudo ao mesmo tempo".

"Eu quero ajudar a acabar com o estigma de que a doença mental não é a mesma coisa que a doença física. Assim como com a doença física, há dias que são mais leves. Há dias em que alguém com dor lombar crônica não está estremecendo a cada passo, mas há os dias em que a dor é quase paralisante."

“"Eu quero que as pessoas entendam que os medos são construídos em mentiras em que acreditamos. Você tem que entender qual é o problema para saber como lidar com ele. O medo não pode controlar sua vida. Há tantas pessoas que têm esta doença, e eu quero expo-la  por aquilo que ela é. Quero que as pessoas  saibam que não estão sozinhas e que este é um transtorno real. "

Foi o que disse Crawford ao “The Huffington Post”, que completa dizendo:

“Os retratos da artista são uma explicação benvinda em um mundo onde a doença mental é tão freqüentemente mal compreendida. Apenas 25% das pessoas com problemas de saúde mental sentem que os outros entendem sua condição, de acordo com o Centers for Disease Control. Crawford disse que espera que as imagens tragam à tona o que ela e tantos outros lidam diariamente.”

Além da beleza intrínseca das fotos, cá estou eu fazendo minha parte para terminar o estigma, traduzindo e postando a coisa toda. Todo mundo pode ajudar, espalhando.


1
Prisioneira de minha própria mente. Instigadora de meus próprios pensamentos. Quanto mais penso, pior fica. Quanto menos eu acho, pior fica. Respire. Apenas respire. Deixe ir. Vai aliviar em breve.

2
Um copo de água não é pesado. É quase estúpido quando você tem que escolher um. Mas e se você não poderia esvaziá-lo ou larga-lo? O que aconteceria se você tivesse que suportar o peso por dias ... meses ... anos? O peso não muda, mas a carga sim. Em um certo ponto, você não consegue se lembrar como a luz passava por ele. Às vezes, precisa-se de toda a força possível para fingir que o copo não está lá. E, às vezes, você apenas tem que deixá-lo cair.

3
Minha cabeça está cheia de hélio. O foco está desaparecendo. Só uma pequena decisão a tomar. Só uma pergunta fácil de responder. Minha mente não está me deixando. É como se um milhar de circuitos estivessem se cruzando, todos ao mesmo tempo.

4
Eu estava com medo de dormir e sentindo o mais cru dos pânicos, na mais completa escuridão. Na verdade, a completa escuridão não era assustadora. Foi um pouco de luz que lançou uma sombra.... Uma sombra aterrorizante.

5
Eles continuam me dizendo para respirar. Eu posso sentir meu peito se movendo para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Mas por que sinto que estou sufocando? Coloco minha mão debaixo do meu nariz para me certificar que há ar. Eu ainda não posso respirar.

6
Sensação de dormência. Quão contraditória. Quão apropriada. Você pode realmente sentir dormência? Ou é a incapacidade de sentir? Estou tão acostumada a estar dormente que a igualo a um sentimento real?

7
É estranho - na boca do estômago. É como quando você está nadando e quer colocar os pés para baixo, mas a água é mais profunda do que você pensou. Você não pode tocar o fundo e seu coração quase para de bater.

8
Corta tão fundo que é como se nunca pudesse curar. Dor tão real, é quase insuportável. Tornei-me isto ... este corte, essa ferida. Tudo que sei é isso mesmo dor; profundo suspiro, olhos vazios, com as mãos trêmulas. Se é tão doloroso, por que deixá-lo continuar? A menos que ... talvez seja tudo o que você saiba.

9
Tenho medo de viver e tenho medo de morrer. Que forma de existir!

1
Não importa o quanto resista, sempre estará aqui mesmo desesperada para me abraçar, me cobrir, me arrebentar. Cada dia eu luto contra isso: você não é boa para mim e nunca vai ser., mas lá está ela esperando por mim quando eu acordo e ansiosa para me segurar enquanto durmo. Ela tira o meu fôlego. Ela me deixa sem palavras.

1
Você foi criada por mim e para mim. Você foi criada para minha reclusão. Você foi criada por uma defesa venenosa. Você é feita de medos e de mentiras. Medo de promessas unilaterais e de perder a confiança tão raramente dada. Você foi formando toda a minha vida. Mais forte e mais forte.

1
 Depressão é quando você não consegue sentir nada. Ansiedade é quando você sente demais. Ter ambos é uma guerra constante dentro de sua própria mente. Ter ambos significa jamais vencer.

KATIE CRAWFORD

segunda-feira, 18 de maio de 2015

25 COISAS PARA AMAR NAS PESSOAS COM DISTÚRBIOS DA ATENÇÃO

E eis que retomo as séries "Neuropsiquiatria em quadrinhos". Desenvolvi em cima dos trabalhos do Dr. Edward Hallowell, ele mesmo portador do distúrbio da atenção e de dislexia, hoje a maior autoridade mundial no assunto.
Uma dica aos pais e professores: nunca defina a criança pelo distúrbio que apresenta. Ao invéz de dizer: "Ele é esquizofrenico, ela é diabética, nós somos ansiosos, vós sois bipolares, eles são hiperativos... diga: Ele tem esquizofrenia, ela tem diabetes, nós sofremos de ansiedade, vós tendes distúrbio bipolar, eles tem déficit de atenção.
Faz uma enorme diferença SER e TER. Se sou, o distúrbio me define, nada posso fazer a respeito.
Se tenho, é algo com o qual posso lidar.
Ninguém diz "Sou olhos azuis"ou "Sou cabelos castanhos". Dizemos "tenho". Por que? Porque se quiser, boto lente de contacto e passo a ter olhos negros como asa de graúna, ou pintar os cabelos e virar loira platinada.
Que tal aplicar o mesmo princípio aos nossos problemas?
E vamos aos quadrinhos.